Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Armários sagrados?

por Lourenço Proença de Moura, em 02.04.21

Pedra_Evaristo_furo_saida_detalhe.jpg

Tenho já um percurso de vida algo longo, mas felizmente continuo a ser surpreendido pelo que posso denominar de “descobertas  inesperadas”. O que vou relatar sucedeu há relativamente poucos anos, na minha terra natal, Caria, no concelho de Belmonte. Mostraram-me uma pedra de formato estranho cuja finalidade desconhecia. Nunca tinha vista algo semelhante. E pouco tempo depois soube que afinal haveria mais na minha terra. E bastantes mais, um pouco por todo o país, sobretudo em terras do interior. Mas qual a sua finalidade? Há quem as considere pertencerem a armários sagrados. Fiz algumas pesquisas e…

Se tiver curiosidade em saber o que fui escutando, lido e refletido, venha comigo nesta viagem… No final, poderá mesmo procurar e encontrar alguns exemplares, a partir das indicações que lhe vou dar.

---ooOoo---

O episódio inicial que me levou a estas notas, ocorreu como referi, na minha terra, Caria. Estávamos em 2014. Numa ida em férias, o meu amigo Mário Ribeiro, ao fazer-me o ponto de situação do que de mais relevante teria ocorrido desde a minha última visita, conhecendo bem a minha curiosidade por temas que possamos associar à história, disse-me que eu deveria ver uma pedra com forma misteriosa que estava em casa de um outro amigo, o Evaristo (Professor António Manuel Evaristo Duarte).

Como decerto ele já antecipava, poucos minutos depois já lá nos encontrávamos, após um breve passeio pedestre, facilidade permitida nestas pequenas localidades em que quase tudo está por perto.

A pedra estava no jardim. Infelizmente partira-se ao ser retirada do local em que se encontrava, numa casa que ele entretanto vendera.

A imagem com que iniciei esta publicação e esta seguinte foram tiradas nessa altura.

Pedra_Evaristo.jpg

Nunca tinha visto pedras semelhantes. O que me surpreendia, era que claramente estava escavada no meio, tendo um bordo saliente, com o objetivo de não deixar derramar e facilitar a recolha de um líquido. Tal em si mesmo nada tem de estranho. Porém a sua saída não era um mero orifício, tendo um trabalho singelo mas interessante, representando o que me pareceu ser a cabeça de um carneiro.

A associação imediata que me veio à ideia, era de que, com esta representação na saída, seria para fazer um qualquer tipo de sacrifício ritual. Mas não consegui imaginar qual e muito menos “o porquê”, numa terra como Caria.

Mais tarde, na sequência de conversas diversas com outros amigos, fiquei a saber bastante mais sobre este tipo de pedras, que eu então desconhecia. Tal aprendizagem foi sobretudo feita com a minha conterrânea Graça Correia Ribeiro, que tem estudado o tema. Na verdade esta pedra corresponde a uma tipologia conhecida, que ocorre um pouco por todo o país, mas sobretudo nas zonas do interior. Em algumas publicações disponíveis na internéte (ver por exemplo [3]) refere-se que estará associada a práticas religiosas dos cripto-judeus, ou seja, judeus que na sequência das perseguições feitas em Portugal desde o final do século 15, tinham mantido a sua religião e ritos de forma secreta, mantendo na aparência práticas cristãs.

Este tipo de pedra correspondia a uma prateleira, tipicamente a inferior, de uma estrutura normalmente embutida na parede, constituindo um armário quase sempre em pedra, que na configuração mais comum tinha duas prateleiras. Uma delas, mais trabalhada e com o referido formato de recolha de líquido, ficava por baixo. A outra, mais simples, por cima. Segundo as referidas propostas, nestes armários seriam colocados os objetos litúrgicos, tais como uma candeia, uma menorá, ou mesmo a Tora. Mas sobre a exata função da prateleira inferior não encontrei nenhuma certeza. A única explicação até agora encontrada [3] sugere que seria para funcionar como cantareira de água.

Esta possibilidade não me pareceu razoável. Uma cantareira em pedra é pouco lógica – basta um toque inadvertido numa esquina e o cântaro parte-se. Procurei então fazer alguma pesquisa. Consultei descrições dos ritos judaicos, contactei pessoas judias e estudiosos. Não consegui identificar nenhum rito em que fosse utilizado um líquido em que houvesse a necessidade de o mesmo ser recolhido.

Pensei então que poderia não ter a ver com ritos atuais, mas sim antigos. Tal seria plausível. Por exemplo na publicação feita por Samuel Schwarz [1] em 1925, centrada na comunidade judaica de Belmonte, o autor mostra que, fruto de todo o secretismo que era assumido e da passagem essencialmente oral entre gerações, várias das orações recitadas tinham há séculos deixado de ser usadas. Esta comunidade “cristalizou” o que eram práticas muito antigas.

Curiosamente, procurar descrições de práticas antigas foi para mim relativamente fácil, pois na sequência de outras pesquisas já conhecia um livro publicado em Amsterdão em 1645 por um judeu português. Trata-se da obra Thesouro dos Dinim (Tesouro de ritos) [2], escrito por Menasseh Ben Israel, nascido Manuel Dias Soeiro, na ilha da Madeira em 1604. Na internet encontra-se disponível a 2ª edição, do ano judaico de 5470, ou seja de 1710. Trata-se de um tratado das leis judaicas, escrito em português, relativo às práticas a cumprir. Destinou-se naturalmente à comunidade sefardita portuguesa. Inclui por exemplo (referências abreviadas) Tratado de madrugar pela manhã,  Forma de observância de todos os preceitos morais da divina Lei, Das sestas e jejuns de todo o ano, Das Comidas lícitas e ilícitas, com as bençãos e circunstâncias tocantes a esta materia.

Porém, na leitura que fiz, também não consegui identificar a utilização de líquidos que justificasse a necessidade da sua recolha, nem algo que pudesse explicar o formato destas prateleiras.

Uma outra base de estudo foram as obras de David Augusto Canelo, Os últimos cripto-judeus em Portugal [4] e  O resgate dos marranos portugueses [5], que se centra na comunidade judaica de Belmonte, se bem que ofereça uma perspetiva alargada. Não é feita nenhuma referência a estes armários. Contactei entretanto o autor que me confirmou não ter até ao momento conhecimento de nenhuma evidência que sustente a perspetiva de que esses armários poderiam ser de origem judaica ou usados para o culto.

Uma outra ideia de pesquisa que me ocorreu foi a seguinte: Se este tipo de armário era tão divulgado e fosse usado para algum rito, seria decerto citado em algum dos muitos processos de julgamento do Santo Ofício. Fiz nessa sequência alguma pesquisa na internet e encontrei algumas publicações sobre esses processos. Porém e mais uma vez, nelas não encontrei nenhuma referência a este tipo de armário.

Depois de mais este insucesso suspendi as pesquisas, aguardando pela publicação de estudos nesta área.

Sucedeu que, no final de 2020, ao fazer obras de remodelação na minha casa em Caria, acompanhadas à distância por causa da pandemia, fui surpreendido com a informação de que, ao se desmontar um armário – vitrine, se encontrava por trás uma destas estruturas. Fiquei naturalmente agradavelmente supreendido e pedi à minha amiga Angélica Mujeiro que me enviasse imagens.

Mostro de seguida qual era o aspeto anterior e o que ficou à vista.

IMG_6178.JPG

Armário – vitrine como o conhecia

IMG-20210214-WA0006.jpg

Armário tal como ficou agora à vista

O armário tem as seguintes dimensões em centímetros: 140 de altura, 120 de largura, 40 de profundidade.

Por razões óbvias este armário permite-me fazer algumas interpretações pessoais.

Percebe-se que a parte superior rachou num passado distante. Pode ter sido essa a razão para ter sido “forrado de novo”.

Numa parede próxima, ficou à vista uma data, não muito nítida, mas aparentemente 1687.

1687.JPG

Vendo a forma como as paredes estão justapostas, percebe-se que a parede do armário é de construção posterior, possivelmente pouco posterior.

Não possuímos documentação sobre a origem da casa ou a sua aquisição. Sempre assumi que era da família há bastante tempo sem outras preocupações. Sei que com o apelido Proença, o primeiro antepassado a nascer em Caria, foi meu bisavô Agostinho em 1840. O pai dele nascera perto, mas na Quinta da Castanheira. Terá vindo depois viver para Caria e nessa altura comprado a casa que já há muito existia. Também não conheço documentos ou relatos de família que pudessem remeter para a religião judaica.

A localização deste armário levou-me a reforçar a convicção de que não terá nada a ver com funções de cantareira. Encontra-se na sala mais interna da casa. Uma cantareira está tipicamente no ponto de maior atividade, na maioria das vezes na cozinha ou sala anexa à cozinha. Temos aliás uma nessa mesma casa, na saleta junto à “cozinha velha” onde fazíamos as refeições. Era aí, nesse ponto de passagem (e de refeição) que a cantareira prestava o seu inestimável serviço.

Não havendo porém nenhum dado concreto que sustente que possa realmente ter origem judaica, assumi que poderia ser simplesmente um armário utilitário, com a prateleira inferior para um qualquer uso que talvez futuros estudos esclareçam.

Porém, numa conversa informal com a minha esposa, sobre este “mistério”, ela sugeriu uma possível resposta…

Havia e há um ato essencial para os judeus cumprirem os seus preceitos, relacionados com a alimentação. Para lá de haver restrições a se comerem certos animais, mesmo os que se podeam comer têm de ser mortos cumprindo um conjunto de regras bem definidas em que o animal é obrigatoriamente sangrado. No já citado livro Thesouro dos Dinim, tal é bem descrito e mais abaixo apresento a respetiva transcrição.

O sangue não pode ser digerido. Em condições normais, o sangue devia / deve ser simplesmente derramado no chão, em areia. Mas em comunidades perseguidas essa abordagem não podia ser feita. Tal deixava evidências que podiam ser constatadas facilmente por qualquer vizinho ou visitante.

A opção por uma base de pedra, onde o pequeno animal era imolado, com o seu sangue a ser de imediato recolhido, sendo a pedra lavada para não deixar vestígios, seria possivelmente uma boa abordagem para estas comunidades.

Claro que isto é apenas uma hipótese. Talvez um dia se possam, quem sabe, fazer análises que permitam validá-la, caso existam técnicas que consigam identificar resíduos mínimos antigos de sangue em algumas destas estruturas.

Saliente-se que esta hipótese parece entrar em oposição com a ideia desta estrutura ser também o local de colocar objetos liturgicos na prateleira superior. O sangue era considerado impuro. Mas naquelas épocas de perseguição não se podiam dar a luxos de cumprir todos os preceitos de forma perfeita. Por isso, quem sabe, até poderia servir para ambos. Após a morte do animal poderia haver um ato de purificação. Mas isto são meras especulações.

Em jeito de resumo...

Em resumo, na sequência da minha análise, considero como possível que estes armários fossem construídos por iniciativa de cripto-judeus para realizar atos de sangramento em pequenos animais para fins alimentares. A hipótese de o armário ser usado como cantareira não é coerente, mas decerto que poderiam neles colocar cântaros para disfarçar o seu real uso. Na pedra que referi no início, em que o orifício de saída tem a forma de uma cabeça de carneiro, terá mesmo havido a ousadia de o denunciar…

Com uma associação simples fonética a denominação de “armários sagrados”, poderia nesta interpretação ser adaptada para “armários de sangrado”...

Por curiosidade, no Anexo 2, apresento a descrição deste ritual, tal como é descrito no referido livro Thesouro dos Dinim.

---oOo---

Se gosta de desafios e jogos de descoberta, aqui lhe deixo um…

A Bemposta é uma simpática aldeia da Beira Baixa, perto de Monsanto, a leste do Fundão.

A minha conterrânea Graça Correia Ribeiro explicou-me que nesta localidade podem ser facilmente vistas pedras como as que descrevo neste artigo, tendo-me disponibilizado fotos das mesmas. Várias destas pedras trabalhadas, correspondentes à prateleira inferior dos armários, foram adaptadas pela população ao uso como bancos, colocados nos exteriores das casas.

Lembrei-me então de lançar o seguinte jogo-desafio, muito simples: procurar os bancos de pedras trabalhadas. Sugerimos que quando tiver oportunidade visite a localidade e a região, mas mesmo à distância, sem lá se deslocar fisicamente, poderá fazê-lo. A opção do Google Street View, permite fazer um passeio virtual pela aldeia.

O mapa apresentado a seguir mostra a estrutura das ruas. Pode por exemplo começar por aqui, na Rua de São Sebastião, ao lado da capela do mesmo padroeiro, mesmo junto a uma dessas pedras, correspondendo no mapa à estrela verde na zona superior.

Depois, percorra as ruas da aldeia, aprecie o ambiente e tente encontrar outras pedras que tiveram, em tempos idos, idênticas funções. Na minha pesquisa encontrei outras duas.

E não tendo a ver com esta pesquisa, recomendo que passe na Rua dos Balcões. É mesmo muito interessante e fica também muito próxima do ponto de partida! Basta seguir pelo lado direito e logo à saída do largo, seguir pela rua do meio!

Bemposta_Mapa.JPG

 

---ooOoo---

Referências

[1] Os cristãos-novos em Portugal no século XX – Samuel Schwarz, 1925

Biografia de Samuel Schwarz: https://pt.wikipedia.org/wiki/Samuel_Schwarz

[2] Thesouro dos Dinim, que o povo de Israel eh obrigado saber, e observar – Menasseh Ben Israel, ano 5470 (1710); Trata-se da 2ª edição – a 1ª edição data de 1645-1647.

Cópia disponível na internet 

Biografia de Mesnasseh Ben Israel: https://pt.wikipedia.org/wiki/Menasseh_ben_Israel

A versão inglesa é bastante mais completa: https://en.wikipedia.org/wiki/Menasseh_Ben_Israel

[3] Os Hekhalot: Vestígios arqueológicos de um criptojudaísmo singular, Pedro Mendes, 2018

http://193.137.34.194/index.php/Port/article/download/5198/4869

[4] Os últimos criptojudeus em Portugal - David Augusto Canelo, Câmara Municipal de Belmonte - 2001

[5] O resgate dos marranos portugueses - David Augusto Canelo, Câmara Municipal de Belmonte, 2004

[6] Jornal Ha-Lapid (O facho) – publicado entre 1927 e 1958 – divulgador de iniciativas da fé judaica http://www.rebordelo.net/cripto-judaismo/halapid/

 

--- o0o ---

Anexo 1 – Hábitos que suportavam a denúncia de práticas judaicas [5] (página 26)

Note-se a referência ao ato de degolar, descrito no anexo 2.

Descrição proveniente de O Monitório de 1536

Guardar os sábados, não trabalhando e vestindo-se de festa; fazer comida às sextas-feiras para o sábado, acendendo e mandando acender então candeeiros limpos com mechas novas mais cedo que os outros dias e deixando-os acesos toda a noite até se apagarem; degolar aves, atravessando-lhes a garganta, depois de experimentado o cutelo na unha do dedo da mão, e cobrir o sangue com terra; não comer toucinho, nem lebre, nem coelho, nem aves afogadas, nem enguia, polvo, congro, arraia, pescado que não tivesse escama; jejuar o jejum maior, que cai em Setembro, não comendo em todo o dia até à noite ao nascer das estrelas, e estando no dia de jejum maior descalços, comendo carne e tigeladas e pedindo perdão uns aos outros; jejuar o jejum da rainha Ester, assim como às segundas e quintas-feiras; solenizar a páscoa comendo pão âzimo em bacias e escudelas novas, rezando os salmos sem Gloria Patri, fazendo oração contra a parede, sabbadeando, abaixando a cabeça e levantando-a e usando então dos ataphaliis, isto é de correias atadas nos braços ou postas sobre a cabeça; comer, quando alguém morria, em mesas baixas e só pescado, ovos e azeitonas; estar então detrás da porta; banhar os defuntos; lançar-lhes calções de lenço, amortalhando-os com camisa comprida e pondo-lhes em cima a mortalha dobrada como se fosse capa; enterrá-los em covas fundas e em terra virgem e pondo-lhes na boca um grão de aljôfar ou dinheiro de ouro ou prata, dizendo que é para pagar a primeira pousada; cortar-lhes as unhas e guardá-las; derramar ou mandar derramar a água dos cântaros e potes, dizendo que as almas dos defuntos se vêm banhar ou que o anjo percuciente lavou a espada na água; deitar, nas noites de S. João e Natal, ferros, pão ou vinho, na água dos cântaros e potes, dizendo que naquelas noites a água se torna em sangue; deitar bênção aos filhos, pondo-lhes as mãos sobre a cabeça e abaixando a mão pelo rosto abaixo sem fazer o sinal da cruz; circundar os filhos; depois de os baptizar, rapar-lhes os óleos que lhes puseram. 

 

Anexo 2 – O ritual “de degolar” segundo o livro Thesouro dos Dinim

Folio 119 (página digital 249)

Degoladura_Dinim_Inicio.JPG

...

Transcrição segundo o jornal Jornal Ha-Lapid [6]

Dinim de Degolar

CAPITULO IV

A degoladura para ser válida, consiste em três coisas, a saber: no instrumento, no lugar da degoladura, e sítio em que se faz.

No instrumento convém observar duas coisas, a saber:

Primeira, que seja a faca tão aguda e perfeita, que não tenha no corte alguma mossa; por que se acaso alguém degolar com faca que tenha alguma mossa por pequena que seja a tal degoladura será invalida, e a carne degolada trefá (impura – ver nota no final do texto). E assim para evitar isto, é obrigação olhar curiosamente (atentamente) a faca passando muito devagar a unha, e a carne do dedo pelo corte e lado dela até ao número de 12 vezes.

A segunda circunstância do instrumento é, que tenha a faca de comprimento pelo menos a quantidade de dois pescoços da ave, ou animal que se degola. E para tirar de duvidas, costuma-se trazer para degolar aves, de um dedo de largo, e quatro ou seis de longo, e sem ponta, a fim de não cair em escondedura, de que logo trataremos.

O lugar da degoladura, é justamente no meio do pescoço, cortando todo o cano da respiração e o gasnate (atualmente dizemos gasganete) da comida, e não degolando pontualmente no meio, deve-se advertir, que no cano da respiração para ser válida a degoladura, há-de ser desde o anel grande que está conjunto à cabeça até ao papo. E no gasnate, desde aquela parte que quando a cortam se encolhe, que é um dedo abaixo da cabeça até o mesmo papo. E sendo que se fez acaso a degoladura fora destes lugares, a carne é proibida. E ainda que dizemos, que convém cortar os dois canos por inteiro, se acaso degolando alçou algum a mão e achou haver degolado só a maior parte de algum deles, é valida a degoladura na ave, o que não será, se acaso achar degolado a metade de cada um deles.

Há também umas veias junto a estes dois canos, as quais ou no mesmo tempo em que se degola, ou imediatamente depois, se devem cortar, a fim de que saia todo o sangue; e se acaso algum o não fez, não se pode cozinhar em panela aquela ave inteira, com cabeça e tudo; o que depois de haver degolado, se deve olhar com curiosidade.

O sítio em que se deve degolar, é sobre pó solto, como dizer, areia muito miúda, cinza, terra de onde se pode semear, ou pó de serradores; excetuando areia grossa, farelos, terra molhada, chão feito de tábua ou pedras. Também se pode degolar num vaso que tenha pó. E navegando pelo deserto ou mar, faltando estas coisas, se recolherá o sangue num pano, e chegando à parte donde o pode lavar, recolherá o dito sangue, e o cobrirá sem dizer bênção.

As coisas que fazem inválido o mesmo acto de degoladura, são cinco, a daber: Dilação, Apertadura, Escondedura, Resvaladura e Arrancadura.

Dilação é, quando começando a degolar, levantou a mão, ou sem a levantar parou, antes de haver degolado a quantidade competente a qual degoladura é inválida, e a carne proibida, posto que a dilação fosse dum brevíssimo espaço de tempo.

Apertadura, é apertar o pescoço com a faca, ou cortá-lo de um golpe; porque a degoladura para ser boa, há-de ser, levando e trazendo a faca.

Escondedura, é não fazer a degoladura descoberta, mas oculta, metendo a faca entre os dois canos e cortando; ou entre a pele, aos canos; ou ainda entre a pena, o couro, ou debaixo de alguns pano. E por esta causa se tira primeiro a pena, fazendo-se lugar para a faca; e então descoberto o pescoço se degola.

Resvaladura, é degolar fora do lugar competente, o qual é o que arriba temos declarado.

Arrancadura, é haver-se achado depois de degolar algum dos dois canos de todo arrancado, e fora do lugar donde estão pegados às queixadas.

Sucedendo pois qualquer destas cinco coisas, é a degoladura inválida, e proibida a carne.

 

Da forma e estilo que se observa no degolar

CAPITULO V

Primeiramente olha-se com curiosidade a faca, passando pela unha e carne 12 vezes.

Achando-se sem mossa se prepara o pó e degolando, se diz a bênção seguinte:

 

Bendito tu A.N.D.R. del mundo (Adonai, nosso Deus Rei do Universo) que nos santificou em suas encomendanças (mandamentos), e nos encomendou (ordenou) sobre a degoladura. E adverte-se, que uma bênção, degolando muitas aves serve para todas, com tanto que não fale entre ave a ave, em coisa que não seja do sujeito (assunto) da degoladura. Dita a bênção, se degola no lugar, e quantidade competente.

Depois de degolar, se vê se se observou na degoladura as circunstâncias referidas, ou pecou nalguma delas.

Feita esta diligência, se torna a olhar a faca; e sendo que se acha com alguma mossa, é trefá a carne que se tem degolado. E assim, quem degola muitas aves, é necessário, que entre ave e ave reveja a faca, porque se acaso não fez isto, e olhando-a ultimamente a achar com mossa, todas as aves que houver degolado são trefás.

Finalmente, com a mão, ou cabo da faca, ou qualquer outra coisa, se cobre o sangue e diz a bendição (bênção) seguinte:

Bendito tu A. N. D. R. del mundo, que nos santificou em suas encomendanças, e nos encomendou sobre cobertura do sangue.

E degolando muitas aves, uma vez só se há-de cobrir o sangue com uma só bênção.

Estes são os Dinim suficientes, para poder degolar licitamente; buscando-se primeiro algum Hacham (rabino), a quem se mostre a faca, e o examine, dando-lhe a aprovação, para o poder fazer.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Fonte (que não é fonte) da Fonte Nova (que já não é fonte nem era nova)

As desventuras e (a)venturas de uma estátua…

por Lourenço Proença de Moura, em 05.02.21

Quando no já distante ano de 1981, terminei a minha formação académica em Coimbra e comecei o meu percurso profissional em Aveiro, a cidade era muitíssimo diferente de hoje, tanto a nível do espaço físico, como social. A vida universitária, por exemplo, estava ainda numa fase muito inicial. O campus tinha apenas um edifício… E recordo a sensação estranha, quando ao passear nos finais de dia se percebia uma quase desertificação das ruas e mesmo da avenida Lourenço Peixinho à hora da telenovela.

Quem visite hoje esta cidade tão cosmopolita, pode encontrar na parte central da zona mais antiga, a Praça Marquês de Pombal, com uma forma retangular alongada. É atualmente um espaço de lazer, sem trânsito, com alguns serviços, cafés e esplanadas. Naquela época o ambiente era completamente distinto. Havia circulação automóvel criando frequentes situações de congestionamento pois a generalidade das ruas que aí confluíam eram / são estreitas e de sentido único e toda essa zona tinha muitos comércios e serviços. Num dos extremos da praça existia uma estrutura redonda, tendo uns seis metros de diâmetro, com uns repuxos a toda a volta, normalmente desligados, apontando para o centro, onde estavam umas esculturas com forma semelhante a grandes folhas em bronze, na vertical. Na imagem deste postal antigo [1], podemos ver o seu aspeto. Lembro-me que na altura apenas achava que esta fonte esteticamente era pouco feliz.

Praca_Marques_Pombal_Fonte_1.jpg

Também por essa altura em que procurava conhecer a cidade, constatei que no Parque Municipal, num recanto bastante escondido e sombrio pelo efeito das árvores e arbustos, sobre um pequeno repuxo, estava uma estátua com uma dimensão grande demais para espaço tão exíguo.

Esta outra imagem permite perceber como ela se encontrava [2].

Fonte_2.jpg

Alguns anos mais tarde soube que havia uma ligação entre estas duas situações e pesquisei um pouco mais sobre o que sucedera.

Entretanto, como resultado da renovação urbana recente, esta estátua foi reposicionada, estando atualmente num espaço totalmente diferente, de horizontes amplos, sobre as águas do “lago” do Cais da Fonte Nova, junto à antiga Fábrica Cerâmica Jerónimo Pereira Campos. A imagem seguinte mostra essa localização.

Fonte_3.jpg

Sucede que, pelo que eu tinha estudado, a colocação neste local, que julgo casual, tinha em si algumas coincidências curiosas.

Quer acompanhar-me nesta viagem?

-----<>-----

Recuemos então até ao início da década de 1960. Amândio de Sousa (no Anexo 2 apresentam-se umas breves notas biográficas), jovem estudante da Escola de Belas Artes do Porto, estagiava na fábrica de cerâmica Jerónimo Pereira Campos Filhos, única que na altura trabalhava em grés, material com que estava a produzir alguns trabalhos.

Dos contactos feitos com o arquiteto José Semide, urbanista da Câmara Municipal de Aveiro, resultou a encomenda de uma escultura... uma escultura para uma fonte que iria ficar numa das praças centrais de Aveiro.

O jovem Amândio deslocava-se nessa altura com grande frequência a esta terra de espaços amplos e abertos, com horizontes luminosos de Ria, mar, sol e sal. Estava longe da sua tão diferente terra natal, o Funchal, de declives acentuados, em que o mar é em simultâneo muralha e caminho.

Concebe então uma figura feminina, inclinada, de braços cruzados em frente ao peito, a cabeça erguida. Foi esta figura que apresentou como projeto de final de curso, obtendo a avaliação máxima. Uma figura de mulher, pairando sobre as águas. Banha-se e recatada esconde o peito, contemplando o céu.

O seu lugar, será bem no meio de um “mar de humanas gentes”, numa fonte de água, luminosa, no centro desta cidade, no centro dos olhares.

Estamos em 1964, num tempo em que os conceitos de estética e de liberdade de opinião estão confinados às malhas de uma ditadura. As ideias são cinzentas, a cor com que vemos o mundo quando temos apenas direito a dar valor às verdades oficiais.

Ela é apenas uma forma estilizada, lufada de ar fresco, liberta das linhas habituais deste tipo de arte. Mas o comum cidadão imerso na cultura do tempo, poucos exemplos reconhece de mulher símbolo. A Mãe de Jesus, a mulher mãe de família, dona de casa, doméstica e cuidadora dos seus filhos, ou quando muito uma estrela de cinema ou “misse” de beleza estereotipada. Ela não representa nem vagamente nenhuma dessas representações.

Surgem vozes de escárnio em tom cada vez mais alto. Era feia, disforme, indigna de por todos ser olhada em espaço tão nobre.

Mamarracho, desancada, cochuda!

Foi alcunhada então de “Maria da Fonte”, por uma simples associação ao nome que em mulher é o mais comum e ao título com reminiscências históricas que o comum cidadão reconhecia e à fonte em que ela se banhava.

Sob uma chuva de críticas, os responsáveis municipais cederam e em 1971 foi levada para longe desses olhares, para um outro espaço, como prisioneira degredada. Ficou então como já referi, junto a uma fonte bem mais simples, por entre arbustos e vegetação que a resguardavam. Note-se que foi ali colocada com respeito, nesse espaço, belo apesar de tudo.

Entretanto a cidade cresceu. No que se tornou o final do canal da ribeira das Azenhas aberto em 1874 segundo informação do Doutor Francisco Messias Trindade, foi criada uma nova lagoa tendo à sua volta um parque, aberto, luminoso, que nos convida a saborear a sensação de liberdade.

Passados trinta e três anos de exílio, em 2004, alguém nela pensou. Colocaram-na então nesse novo e renovado espaço, sobre as águas, junto à margem dessa lagoa.

A frontaria do edifício da antiga fábrica de cerâmica ergue-se bem ali, à sua frente.

Naquele mesmo espaço, naquela fábrica, em que o seu criador o escultor Amândio de Sousa, possivelmente a terá começado a idealizar…

Banha-se agora sem receio. Olha o céu amplo lá no alto. Flutua e desafia as nuvens.

As águas do tempo lavaram os antigos preconceitos...

 

Chegados ao fim deste relato, poderá o leitor comentar:

“Não estou bem a entender o título desta publicação!

A Fonte (que não é fonte) da Fonte Nova (que já não é fonte nem era nova)”

Pois passo a explicar…

O nome que Amândio de Sousa deu a esta escultura, foi tão só “Fonte”. É assim que consta do seu processo individual de aluno, informação que me foi prestada pelos serviços da universidade.

Fonte Nova, por seu lado é o atual nome daquele espaço em Aveiro. Decorre do nome de uma fonte, atualmente inexistente, mas que se situava perto, junto a uma esquina da antiga muralha. Foi-lhe dado esse nome… há mais de 200 anos! No anexo 1 explico melhor, para quem tenha curiosidade, onde era a sua localização.

E já agora, para terminar, vejamos qual era o aspeto original desta fonte.

Praca_Marques_Pombal_Fonte_4.jpg

Imagem retirada de: https://retratosdeportugal.blogspot.com/

Referências

[1] – Imagem recolhida de http://ww3.aeje.pt/avcultur/avcultur/Postais/Aveipostais15.htm

[2] - Imagem recolhida de http://ww3.aeje.pt/avcultur/hjco/Texturas/Pg000004.htm

[3] – Islenha (revista) – Direção Regional dos Assuntos Culturais - número 49 – Julho / Dezembro de 2011

[4] – As artes plásticas na Madeira (1910 – 1990) –Tese de Mestrado -  António Carlos Jardim Valente https://digituma.uma.pt/bitstream/10400.13/251/1/MestradoCarlosValente.pdf

[5] – Evolução urbana de Aveiro – Maria José Curado - Sana editora - 2019

[6] – Breve vídeo com um resumo biográfico de Amândio de Sousa - https://www.youtube.com/watch?v=v7gsBF4AmfA&ab_channel=600anosMadeiraePortoSanto

[7] Página Facebook - Uma escultura na cidade, dinamizada por Danilo Matos
https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

------oOo-----

Anexo 1 – Localização da “Fonte Nova”

Como Maria José Curado explica na sua obra [5], sabe-se que já em 1571 existia no lugar indicado, na zona central da imagem seguinte, uma fonte denominada “Fonte da Macieira”. Por volta de 1680 passou a denominar-se Fonte Nova.

Temos pois uma “Fonte Nova” com cerca de 240 anos, e que já teria mais de um século quando lhe atribuíram esse nome…

Fontes_antigas_e_estatua_Amandio_de_Sousa.JPG

Imagem retirada do livro Evolução Urbana de Aveiro [5] mostrando entre outros aspetos as fontes antigas de Aveiro.

Acrescentei a localização do espelho de água / Cais da Fonte Nova / Centro de congressos e da estátua que é objeto desta publicação, para ajudar a situar o leitor.

 

Anexo 2 – Breves notas biográficas do escultor Amândio de Sousa e alguns exemplos dos seus trabalhos [3] [4] 

Amandio_de_Sousa_1.jpg

Imagem recolhida de um vídeo publicado no Youtube, o qual apresenta um resumo biográfico [6]

Amândio Manuel Abreu de Sousa nasceu a 22 de Setembro de 1934, no Funchal, sendo o segundo de três filhos de Joaquim Carlos João de Sousa e Henriqueta Ivone de França Abreu.

A sua sensibilidade leva-o de forma natural em busca de desenvolver os seus conhecimentos e competências artísticas.

Em meados da década de 50, na sua ilha da Madeira, sente-se o sopro de algumas brisas de mudança que ali como no continente levam a refletir sobre a forma de abordar a arte e a cultura. Conscientes desta necessidade, em 1956, alguns responsáveis dinamizam as primeiras estruturas que virão a dispor de condições para a promoção de produção artística naquele espaço insular.

Criaram-se nesse ano, na Academia de Música da Madeira, cursos de pintura e escultura, à semelhança dos cursos já disponíveis nas escolas continentais. Passou então a escola a denominar-se Academia de Música e Belas Artes da Madeira. Teve como primeiro diretor o pintor Vasco de Lucena, sucedendo-lhe nestes primeiros anos o pintor Louro de Almeida e o escultor Anjos Teixeira.

No primeiro ano letivo matricularam-se vinte e dois alunos nos cursos de Pintura e Escultura. Alguns dos primeiros alunos vieram a ser percursores, nas décadas seguintes, de movimentos dinamizadores da arte a nível regional e nacional, destacando-se os escultores Franco Fernandes e Amândio de Sousa, a pintora Patrícia Morris e o pintor Danilo Gouveia.

Desejoso de potenciar mais os seus conhecimentos, sobretudo a partir do contacto com outros mestres e experiências culturais, Amândio de Sousa em 1959 inscreve-se na Escola Superior de Belas Artes da Universidade do Porto onde foi aluno de Barata Feyo e Lagoa Henriques, concluindo o curso com a nota máxima.

Conviveu nesse período com os elementos do grupo “os quatro vintes” (o nome era uma paródia a uma marca de tabaco da época – os três vintes), constituído por Ângelo de Sousa, Armando Alves, Jorge Pinheiro, José Rodrigues, assim conhecidos por terem terminado com essa nota de curso. Naturalmente participou na dinâmica própria dessa geração e da “Escola do Porto”.

Ainda como aluno participou em 1960 e 1961 em exposições magnas da Escola, bem como em diversas exposições extra-curriculares da iniciativa dos alunos. Estagiou na fábrica de cerâmica Jerónimo Pereira Campos Filhos, única que na altura trabalhava em grés. Aí teve oportunidade de fazer os relevos colocados na Clínica de Santa Catarina no Funchal.

Dos contactos feitos com o arquiteto José Semide, urbanista da Câmara Municipal de Aveiro, resultou a encomenda de uma escultura para uma fonte que iria ficar numa das praças centrais de Aveiro. Concebeu então uma figura feminina, longilínea, pairando, a que deu o nome “Fonte” e que apresentou como projeto de final de curso obtendo a avaliação máxima.

De regresso ao Funchal, em 1964 abriu com o arquiteto Rui Goes Ferreira a Galeria de Artes Decorativas “Tempo”, sendo uma iniciativa pioneira para a época. O ambiente cultural então incipiente do Funchal, foi surpreendido. A exposição inaugural, denominada Sete Pintores Portugueses, apresentou trabalhos de Manuel Mouga, Jorge Pinheiro, Espiga Pinto, Manuel Pinto, José Rodrigues, Ângelo Sousa e Júlio Resende.

A década de 60 decorreu com enormes transformações a nível mundial, incluindo a nível social e artístico. Apesar do caráter ditatorial e fechado, era impossível evitar que muitas dessas influências se produzissem ocorrendo mesmo alguma abertura a novas tendências a nível oficial. Surgiram então obras escultóricas de características contemporâneas, inclusivamente na Região da Madeira. Amândio de Sousa acompanhou sempre estes projetos de cariz inovador na arquitetura e escultura.

Produziu nessa época diversos trabalhos tais como um friso para a entrada oeste do Edifício da Caixa de Previdência do Funchal, painéis de cimento com relevos vegetalistas estilizados a duas cores, funcionando como esculturas de parede para o átrio da Clínica Santa Catarina e uma outra escultura parietal, uma “maternidade” (mostram-se imagens adiante). Em 1969 concebeu uma escultura em bronze, a primeira obra abstrata ao ar livre, fora do Funchal, com planos e curvas representados de forma simétrica tendo motivado críticas, pela completa abstração do tema. Tal reação era já familiar ao autor, de certa forma semelhante às críticas que a escultura “Fonte” teve em Aveiro.

Amândio de Sousa assumiu-se sempre como alguém preocupado pelo trabalho de fundo, estruturante, rejeitando projetos de ostentação. Segundo ele, a arte deve estar ao serviço do cidadão comum e com ele deve dialogar. Porém tal não significa que a sua abordagem seja básica. A arte deve questionar o observador, para que por adesão ou oposição ocorra um desenvolvimento como ser humano.

«Será sempre de maior dificuldade usarem-se termos de cultura quando se pressupõem ainda no seu estado verdejante, problemas de infraestrutura um dos quais, gravíssimo — o do analfabetismo»
Amândio de Sousa, 3/9/1967

Amândio de Sousa ao longo da sua vida complementou a sua atividade de escultor com a de professor. Foi professor de desenho no Liceu Nacional do Funchal, onde abordou a arte de forma criativa, bem diferente da tradicional.

Foi professor de desenho e marcenaria na Escola Salesiana de Artes e Ofícios. Colaborou no Design de móveis para lojas de mobiliário e decoração.

Foi assessor para os assuntos culturais entre 1976 e 1978 colaborando na elaboração do Guia Básico da Educação Cultural.

Foi diretor do Museu da Quinta das Cruzes de 1977 a 2001. Entre outras evoluções introduzidas, deu-lhe uma consistência orgânica, em que interiores e exteriores se conjugavam, nos espaços da casa, jardins e capela, incluindo um núcleo bibliográfico sobre artes decorativas.

A sua arte tem abordagens bastante diversas, por vezes figurativa, outras vezes totalmente abstrata. Ora seguiu padrões de realização relativamente clássicos, ora “experimentais” através de novas técnicas e materiais.

Mostram-se a seguir algumas imagens ilustrativas das suas obras.

Tem sido também um cidadão permanentemente empenhado na intervenção cívica, tendo feito parte de vários movimentos e petições, tendo sempre em vista a valorização da cultura, património e o seu usufruto por todos, sem discriminação.

É casado com a também escultora Luíza Helena Claude.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Luiza_Clode

Amandio_de_Sousa_2.jpg

Amândio de Sousa

Foto retirada de https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

-----oOo-----

Exemplos de obras de Amândio de Sousa

Maternidade.jpg

Maternidade

Local: Clínica de Santa Catarina, Funchal

Data: 1963

Material: Gesso

Foto de Danilo Matos retirada de [7] https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/ 

 

Paineis_Clinica_Santa_Catarina.jpg

Paineis_Clinica_Santa_Catarina_2.jpg

Painéis do átrio da clínica de Santa Catarina

Local: Clínica de Santa Catarina, Funchal

Data: 1963

Material: Cimento e Grés

Fotos de Danilo Matos retiradas de [7] https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

 

 

Senhora_dos_Caminhos_1.jpg

Senhora_dos_Caminhos_2.jpg

Senhora dos Bons Caminhos

Local: Casais d`Além, freguesia da Camacha

Data: 1965

Material: Cantaria e betão

Fotos de Amândio de Sousa, retiradas de [7] https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

 

 

Comemoracao_1o_jogo_Futebol.jpg

Foto que consta do Inventário de José de Sainz-Trueva e Nelson Veríssimo, DRAC 1996, obtida de [7]: https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

Segundo Danilo Matos o autor desta página do Facebook, “Inicialmente a escultura assentava no solo, depois é que a colocaram dentro daquele "pocinho". Agora, depois do roubo em 2016, foi colocada numa base de cantaria cinzenta.”

Escultura comemorativa do 1º jogo de futebol na Madeira em 1875;
(Nota pessoal: Na minha interpretação, a parede por trás será a metáfora do campo de jogo. A bola movimenta-se com o sol, como “esfera de luz”)

Local: Largo da Achada, Camacha

Data: 1969

Material: Latão

 

 

Manuel_Alvares.jpg

Padre jesuíta Manuel Álvares

Local: Ribeira Brava

Data: 1972

Material: Bronze

Foto de Danilo Matos retirada de [7] https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

 

 

Virgem_com_o_menino.jpg

Virgem com o menino

Local: Igreja do Carmo, Câmara de Lobos

Data: 1985

Material: Folha de prata sobre bronze

Foto de Amândio de Sousa, retirada de [7] https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

 

 

Trilogia_dos_poderes.jpg

Trilogia dos poderes – Legislativo, Executivo, Judicial

Local: Pátio da Assembleia Regional da Madeira, Funchal

Data: 1990

Material: Bronze

Foto retirada de http://estatuasmadeirenses.blogspot.com/

 

 

Justica.jpg

Justiça

Local: Tribunal da comarca da Ponta do Sol

Data: 1994

Material: Bronze

Foto retirada de http://estatuasmadeirenses.blogspot.com/

 

 

500_anos_Ponta_do_Sol.jpg

Monumento comemorativo dos 500 anos do concelho da Ponta do Sol

(nota pessoal: Cada século está representado por um nível da cascata)

Local: Ponta do Sol

Data: 2001

Material: Betão

Foto de Danilo Matos retirada de [7] https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

 

 

Homenagem_diaspora.jpg

Homenagem à diáspora madeirense

Local: Parque Temático, Santana.

Data: 2004

Material: Muro de cantaria com intervenção em cobre

Foto retirada de: https://nim.pt/parque-tematico-da-madeira-onde-a-nossa-essencia-se-une/

 

 

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Escarigo_Largo_Dom_Dinis_GoogleMaps.JPG

Escarigo - Largo Dom Dinis
Imagem recolhida através de Google Maps / Street View

Na publicação anterior mostrei que na região onde vivo, Esgueira / Aveiro, existem vários topónimos que podem ter origem fenícia. Tal sucede mesmo para “Esgueira” que pode ser uma evolução do termo fenício “iskaru”, que significa "tarefa / material de trabalho", pelo que a sua atribuição corresponderia a denominá-la como “terra de trabalho”, neste caso possivelmente relacionada com uma intensa atividade de chegada e partida de bens através do seu porto.

Terminei referindo que “iskaru” provavelmente deu origem a outros topónimos no nosso território, um deles muito perto da minha terra natal, Caria, no concelho de Belmonte. Quem da minha região tenha lido o que escrevi, terá porventura identificado a terra a que me referia: Escarigo. Na verdade a correspondência fonética com "iskaru" é quase direta.

Escarigo fica no concelho do Fundão e é uma localidade bastante próxima de Caria, a cerca de 8Km na direção sudeste. Para quem não conheça a região, esclareço que faz parte dos denominados “Três Povos”, três localidades muito próximas (Escarigo, Quintãs e Salgueiro) com quem naturalmente partilha afinidades.

Como vos irei mostrar, também aqui identificamos boas razões para assumir que a origem do nome poderá ser a que proponho. Note-se no mapa da imagem seguinte [1] que Vale da Senhora da Póvoa (antigo “Vale de Lobo”) referido em publicação anterior sobre este mesmo tema, fica muito próximo.

Caria_Escarigo.JPG

Figura 2 - A localização de Escarigo, concelho do Fundão

Salgueiro_Quintans_Escarigo.JPG

Figura 3 - Os Três Povos

Se ampliarmos este espaço dos Três Povos, podemos observar no caso das Quintãs o que se visualiza na Figura 4.

Quintans.JPG

Figura 4 - Quintãs

Nas Quintãs, a Rua das Cortes. Cortes, pode derivar do fenício “krt” (corte) [2], com o significado de cortar, mas que era também associado a estabelecimento de acordos / alianças. É um termo que equivale a “perazu”, que referi em publicações anteriores como originando topónimos atuais “paraíso” ou “prazo”. Situaria locais em que os povos se encontravam para renovar os acordos entre si, provavelmente em refeições comunitárias e com eventos religiosos que teriam um formato semelhante às nossas atuais romarias.

Se continuarmos pela estrada para sudoeste, encontramos “Salgueiro”.

Salgueiro.JPG

Figura 5 - Salgueiro

Aqui surge-nos o já conhecido binómio Baal-Mout (deus da vida - deus da morte), na forma “Vale” e “Moita”. Temos uma “Rua da Fonte da Moita”, mas encontramos mesmo uma Rua Vale da Moita! Neste caso a proximidade dos espaços é ainda maior do que no Vale da Senhora da Póvoa (Vale de Lobo).

Mas a pesquisa reservou-nos uma descoberta ainda mais interessante.

Se continuarmos pela mesma estrada, mesmo à saída do Salgueiro, encontramos a “Quinta da Caneca”.

Quinta_da_Caneca.JPG

Figura 6 - Quinta da Caneca

O que tem este topónimo de particular?

De acordo com o dicionário de Fenício Português [2], "kanekany" significa sepultura. Sucede que… na Quinta da Caneca, trabalhos arqueológicos identificaram precisamente vestígios de um mausoléu da época romana, após um achado casual feito por um agricultor em 1973 [3].

Tal explica bastante bem o topónimo, mas também algo que o Dr. Moisés Espírito Santo defende: Os romanos dominavam e falavam latim, mas o mesmo não acontecia com o povo. O povo utilizaria termos fenícios como “língua franca”, a par com os dialetos tribais.

Ou seja, neste caso...

... os romanos fizeram um “sepulcrum”, que parecia mesmo um “canecani”…

:-)

 

Outros topónimos que podem ter a mesma origem

De forma semelhante ao que foi apresentado numa publicação anterior, do levantamento de topónimos que podem ter derivado de “Baal Ilib” como por exemplo “Vale de Lobo”, irei mostrar agora os resultados da pesquisa para este caso – topónimos que podem ter derivado de “iskaru”.

No anexo a esta publicação exponho os detalhes desta pesquisa para quem tenha curiosidade.

O resumo do resultado pode ser visto na tabela seguinte.

Tabela_1.JPG

Tabela 1 - Localidades com possível origem na palavra "iskaru"

Podemos ver a dispersão geográfica no mapa seguinte.

Posicoes toponimos com possivel origem Iskaru.jpg

Figura 7 - Dispersão geográfica das localidades

A dispersão geográfica é curiosa. Tem algumas semelhanças com a dispersão do topónimo “Godinho” / “Godim” que abordei na publicação “O famoso Godinho”, ao centrar-se na zona norte do território. Mas por outro lado a penetração na beira interior, tem semelhanças ao que se constatou na análise aos topónimos “Vale de Lobo” (Baal Ilib).

Para lá dos topónimos Esgueira (Aveiro) e Escarigo (Fundão) que mostraram uma envolvente bastante rica de outros locais com boa possibilidade de origem fenícia, encontramos um outro – na verdade dois – São Mamede e São Martinho de Escariz, com um enquadramento semelhante.

Por outro lado, Escariz de Arouca, Escariz de São Pedro de Agostem ficam com uma classificação intermédia. Têm ambas um razoável indício de relacionamento.

Escariz de Adoufe e Pescaria de Famalicão têm poucas evidências de topónimos próximos neste âmbito. Em Escarigo de Figueira Castelo Rodrigo não se identificou nenhum. Sublinhe-se contudo que nestes locais a informação disponibilizada pelo Google Maps é muito escassa o que naturalmente pode “esconder” informação com interesse.

Em conclusão, diria que o conjunto revela um padrão que dificilmente pode ser fruto do acaso.

O topónimo “Quinta da Caneca” é particularmente relevante nesta vertente.

Forme o leitor a sua própria avaliação.

-----<<<<<o>>>>>-----

 

Anexo – Outras localidades em Portugal cujo nome poderá ter a mesma origem

Com base na informação disponibilizada pelos CTT [4] foi feita uma pesquisa de topónimos com uma estrutura fonética que pudesse da forma mais direta possível derivar de “iskaru”, assumindo que “Esgueira” e “Escarigo” sejam situações deste tipo.

Pesquisaram-se topónimos que pudessem ser ainda mais diretos iniciados por “i”.

Iniciar por “Isg” ou “Iscar”. Não se identificou nenhum topónimo.

Iniciar por “Esgue”, “Esga” ou “Escar”. Surgiram outros “Escarigo” e ainda “Escariz”.

Procurando no meio das palavras “escar” e “iscar” surgiu “Pescaria”.

Resultaram assim as localidades da tabela seguinte.

Tabela_A1.JPG

Tabela A-1 - Localidades que se consideraram poder ter como origem do nome "iskaru"

* - Por serem muito próximas, foram analisadas em conjunto

Nota: Para simplificar e não maçar com repetições o leitor que tem acompanhado as publicações neste tema, não farei a explicação de todos os topónimos relacionados.

Aveiro / Arouca / Escariz / Escariz

Escariz_Arouca_1.jpg

Figura - A-1 Escariz de Arouca

Rua / travessa Vale de Quartas

Escariz_Arouca_2.jpg

Figura - A-2 Escariz de Arouca

Cantinho do Outeiro na marca assinalada.

Braga / Vila Verde / São Mamede e São Martinho de Escariz

Escariz_VilaVerde_1.jpg

Figura A-3 - São Mamede e São Martinho de Escariz

Muitas referências… Vales…

Escariz_VilaVerde_2.jpg

Figura A-4 - São Mamede e São Martinho de Escariz

Carcavelos e Paredes estão próximos.

Escariz_VilaVerde_3.jpg

Figura A-5 - São Mamede e São Martinho de Escariz

Rua da Mata (Mout) na sequência de Rua do Vale (Baal).

 

Guarda / Figueira de Castelo Rodrigo / Escarigo

Escarigo_Figueira_de_Castelo_Rodrigo.jpg

Figura A-6 - Escarigo de Figueira de Castelo Rodrigo

Escarigo_Figueira_de_Castelo_Rodrigo_2.jpg

Figura A-7 - Escarigo de Figueira de Castelo Rodrigo

Na fronteira com Espanha. Não se identificou mais nenhum topónimo relevante. Há muito poucas referências de topónimos nesta região.

Leiria / Nazaré / Famalicão / Pescaria e Serra da Pescaria

Pescaria_Serra_da_Pescaria.jpg

Figura A-8 - Pescaria e Serra da Pescaria

O nome da freguesia, Famalicão localidade próxima, é um topónimo que segundo Moisés Espírito Santo [5] (página 207) se refere a um local onde se procederia à tomada de decisões em casos de disputas. “Kan” em fenício significa “regra assumida / regra fixada”. “Gamali” significa por outro lado “exercer / manter”. Ou seja, “Gamali kan” significaria exercer o direito / ajuizar.

Note-se por curiosidade que a evolução de “Iskaru” para “Pescaria” é melhor compreendida numa terra que não está no litoral, se soubermos que naquela época e até porventura ao século XVI [6] (páginas 11 a 18) o mar entraria pela foz do rio Alcobaça, sendo essa entrada navegável, formando aqui a Lagoa da Pederneira.

Lagoa_da_Pederneira_Camara_Municipal_Nazare.jpg

Figura A-9 - Lagoa da Pederneira

Imagem retirada do sítio da internéte da Câmara Municipal da Nazaré [7]

Vila Real / Chaves / São Pedro de Agostem / Escariz

Escariz_Sao_Pedro_de_Agostem_1.jpg

Figura A-10 - Escariz de São Pedro de Agostem

Escariz_Sao_Pedro_de_Agostem_2.jpg

Figura A-11 - Escariz de São Pedro de Agostem

Rua Vale em Escariz… (idem em Ventozelos…).

Quase não tem ruas… pequena aldeia. 

 

Vila Real / Adoufe / Escariz

Escariz_Adoufe_2.jpg

Figura A-12 - Escariz de Adoufe

Próximo de Paredes.

-----<<<<<o>>>>>-----

Referências

[1] Google Maps - https://www.google.pt/maps/

(todos os mapas foram obtidos com esta aplicação à exceção do mapa da Lagoa da Pederneira e o mapa da dispersão geográfica dos topónimos)

[2] Espírito Santo, Moisés – Dicionário Fenício – Português – Universidade Nova de Lisboa – 2ª edição (sem data)

[3] CARVALHO, Pedro C. e ENCARNAÇÃO, José d’ (2006): “O monumento romano da Quinta da Caneca (Salgueiro, Fundão)”, Eburobriga, 4, p. 91-98.

Nota: Neste artigo o autor refere uma pedra da época romana existente na minha terra natal, Caria que considera poder também fazer parte de um mausoléu.

[4] www.ctt.pt - opção “Ferramentas” / “Encontrar códigos postais”

Opção “Download de ficheiros” https://www.ctt.pt/feapl_2/app/restricted/postalCodeSearch/postalCodeDownloadFiles.jspx

Permite recolher a lista completa que pode ser consultada em Excel

[5] Espírito Santo, Moisés - Fontes remotas da cultura portuguesa, Assírio e Alvim, 1989

[6] Soares, José – Os mitos da Lagoa – Câmara Municipal da Nazaré, 2002

[7] Câmara Municipal da Nazaré – Lagoa da Pederneira

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

1900_Balcoes_de_Esgueira.jpgBalcões de Esgueira (já demolidos)
~1900 – Aveiro Antigo – Câmara Municipal de Aveiro - 1985

Como mostrei em anteriores publicações, com base na análise de conjuntos de topónimos geograficamente próximos e da associação a ritos religiosos que ainda hoje têm grande expressão, há fortes indícios de naqueles casos ter havido influência fenícia quer dos nomes quer da origem desses ritos.

Mostrei também como essas influências eram particularmente significativas na zona Aveiro / Coimbra e se terão propagado pela Beira, para o seu interior. Vale de Ílhavo, junto a Aveiro / Ílhavo e Vale da Senhora da Póvoa, na Beira Baixa, foram os espaços principais de análise.

Vou agora fazer um outro exercício que na minha opinião reforça o anterior. Mais uma vez, por algo que denominaria “acasos do destino”, constatei uma curiosa coincidência entre a possível origem do nome da localidade em que habito, Esgueira, atual freguesia de Aveiro, com outra localidade bem próxima de Caria, próxima também do já referido Vale da Senhora da Póvoa. Guardarei porém esta última explicação para uma publicação futura.

Nas publicações anteriores expliquei como esta situação à primeira vista estranha pode ter ocorrido, pelo que não vou maçar o leitor, mas não deixa de ser impressionante assumir que as influências culturais terão sido tão intensas para tal suceder. Um povo de origem tão distante, essencialmente comerciante e navegador, que não terá ocupado o território, pode ter influenciado topónimos no interior do espaço que hoje é Portugal. 

Recordo apenas um aspeto muito relevante aí referido, de que no período em que as influências terão ocorrido o mar entrava mais pelo interior do que atualmente, possivelmente até Eirol e o rio Vouga era mais navegável. A laguna da atual Pateira de Fermentelos estava ligada ao mar.

A imagem seguinte ilustra de forma aproximada qual seria o perfil da costa e do encontro de rios desta região (A forma como este mapa foi elaborado é explicada na publicação anterior a que pode aceder aqui). Sublinhe-se que os nomes das localidades que se representam são sobretudo para o leitor situar a atual geografia do que era a linha de costa antiga. Não significa que já tivessem ocupação humana residente nessa época.

Mapa_Regiao_Aveiro_Esgueira_ha_dois_mil_anos.JPG

Antes de abordar a situação específica de Esgueira, irei referir outros topónimos próximos que podem reforçar a minha “tese”. Alguns são o resultado da minha pesquisa pessoal, tendo por base o dicionário Fenício – Português do Dr. Moisés Espírito Santo [3]. Outros são exemplos de muitas outras propostas deste estudioso na sua obra Origens orientais da religião popular portuguesa [1] na página 300 e seguintes. Estes últimos marco-os com um asterisco (*).

Seguirei em linhas gerais a direção Eirol => Esgueira. Corresponde a uma distância menor que 10 quilómetros.

Os mapas apresentado são obtidos via Google Maps [9].

Sublinho que, como referi nas publicações anteriores, este tipo de reflexões não permite assumir certezas, a menos que sejam corroboradas por outros estudos, por exemplo arqueológicos. Porém, em alguns casos os indícios da toponímia são tão específicos que nos levam a ter uma grande convicção nestas hipóteses.

Mapa_Regiao_Aveiro_Google_Eixo_Carcavelos_Requeixo

- Carcavelos (*) - Lugar, junto a Eirol; Seria a conjunção de duas palavras fenícias "Carca" e "Belus". A primeira significa "chão", ou "domínio". A segunda significa "senhor". Teria o significado de "proprietário". A junção das duas denominaria pois o espaço onde viveria o senhor que teria a jurisdição deste domínio. Possivelmente o encarregado do entreposto comercial. No livro citado, o autor identifica este topónimo em quarenta (!) localizações em Portugal, a maioria perto da costa. Mostra também como em seu redor surgem outros nomes de locais com um padrão muito semelhante e que indiciam a origem fenícia. Como curiosidade, para contextualizar o leitor e se bem que neste “nosso caso” tal não se verifique, o topónimo “Parede” ou “Paredes” ou “Parada” que derivariam de “Pardess”, significando “palácio”, surge próximo na maioria das vezes. Seria outro nome, equivalente a “Carca Belus”.

- Sardinha (*) (Cilha da Sardinha) significa "carreiro"

Taipa.jpg

- Taipa (*); Significa "subir" / inclinação, o que está de acordo com o terreno.

- Rua do Paraíso (na Taipa / Requeixo) – "Paraíso", poderá derivar de "perazu" (que terá dado muitos outros lugares em Portugal denominados ”Paraíso”, mas também "Prazo"), o qual significa "lugar da convocação dos acordos". Seriam locais onde os povos que habitavam esta região se reuniam e renovavam os acordos entre si mas e com os comerciantes fenícios. Tipicamente seriam próximos de locais de culto.

- Ponte da Rata (*); Segundo Moisés Espírito Santo “rata” pode derivar de "Hat"(ate), em fenício, significando "forja". Ao longo do tempo sucederia a evolução "Ate" - Ata - Rata. Uma forja, local em que os metais eram fundidos, era um dos recursos importantes junto a este tipo de entrepostos. Eu coloco uma outra hipótese. Segundo o referido dicionário, a palavra “rataq” significa “ligar”. Este mesmo local poderia já nessa época ser um ponto de passagem, por barcas, ou mesmo uma ponte primitiva. Em qualquer caso será muito pouco provável que um simples bicho (rata) desse o nome a um local.

Eixo.jpg

- Eixo; Pode derivar de “Erêsu” (pronuncia-se Erêchu); significa semear, agricultura, ou seja local de terras aráveis. Segundo Manuel Carvalho [5] as referências mais antigas conhecidas para esta localidade denominam-na Exso (1050), Exu (1081), Exo (1095). Pela minha proposta a evolução seria quase direta, correspondendo à síncope do “r” intervocálico, fenómeno comum de simplificação na evolução das línguas.

- Balsa (Parque da Balsa); Pode ter a mesma origem do que a conhecida cidade do mesmo nome, da época fenícia e romana, localizada junto a Tavira. O nome Balsa decorreria de ser dedicada a Baal. Baal tem dois epítetos que podem fazer esta correspondência: Baal Safon (Baal da montanha sagrada) ou Baal Xamã (Baal Sol, que terá dado nome a outras terras como Balsemão) [4].

- Outeiro; A Rua do Outeiro é essencialmente plana e quase nada inclinada. Não seria a meu ver muito lógico este nome. No seu final do lado do Vouga tem algum declive, mas bastante curto. Por outro lado, a palavra fenícia “Oter” corresponde a lugar de oração. Esta hipótese ganha significado por estar junto ao topónimo “Balsa”.

Neste ponto da sequência de nomes, será de interesse fazer uma breve incursão na direção sudoeste. Muito próximo, a cerca de três quilómetros, com ligação praticamente direta, temos Oliveirinha. Podemos aqui observar topónimos relevantes.

Moita.jpg

Mais uma vez surge o binómio de deuses que já se identificaram em Vale de Ílhavo e Vale da Senhora da Póvoa: O local “Moita”, que decorrerá de Mout, o deus fenício da morte. E “Vale”, de “Baal”, deus fenício da energia e da vida, surgindo em diversos nomes à volta, entre Ruas e Travessas. Por curiosidade, “Vale Diogo” pode decorrer de “Baal Dagon”, em que Dagon era o deus fenício da agricultura. Tal seria coerente com a interpretação do significado dado a Eixo. Seria este o “santuário” associado a Carcavelos.

Chegamos então a Esgueira. Numa publicação anterior, denominada “O famoso Godinho”, mostrei que a Rua do Godinho, situada no centro da antiga localidade, poderá ter o mesmo tipo de origem. Sugeria a sua leitura. Mas neste momento vou focar a argumentação no próprio nome da localidade.

Segundo averiguei, a mais antiga referência atualmente conhecida encontra-se representada no seu antigo selo, onde surge como Isgarie.

Selo_Esgueira.jpg

No dicionário, podemos identificar uma palavra foneticamente próxima: "iskaru", o qual tem como possível tradução "tarefa / material de trabalho". Como referi, este local encontrava-se na linha de costa e assim continuou, embora com assoreamento até por volta do século XV [6] Era possível a embarcações de grande calado ancorarem em Esgueira. Uma grande embarcação figura no brasão da vila.

Antes de Aveiro se desenvolver nos últimos séculos, mas muito provavelmente desde esses tempos mais remotos Esgueira seria um importante ponto de atividade económica, próximo da foz do Vouga, bem como porto de acesso por terra "de" e "para" o interior, de todo o tipo de bens, pescado, exploração de sal, bens agrícolas, etc.

"Terra do trabalho" seria pois um nome perfeitamente adequado.

Curiosamente, depois de ver esta possibilidade, encontrei duas outras referências interessantes.

- Num artigo sobre a vila de Esgueira [7] Monsenhor João Gaspar refere que tem memória de que o termo “esgueira” se utilizava com o significado de jorna / dia de trabalho.

- Se consultarmos por exemplo o dicionário da Infopedia / Porto Editora, este inclui o termo “esgueira” com o mesmo significado: pagamento do dia de trabalho ao jornaleiro.

Coincidências?

 

Na próxima publicação vou procurar mostrar como este mesmo termo fenício "iskaru" terá dado lugar a outros topónimos no nosso território, estando um deles, curiosamente muito perto da minha terra natal, Caria, no concelho de Belmonte.

 

----- <<o>> -----

Referências

Nota: Todas as obras do Dr. Moisés Espírito Santo foram colocadas pelo autor no domínio público e podem ser descarregadas do seguinte endereço:

https://sites.google.com/site/obrasmoisesespiritosanto/

 

[1] Espírito Santo, Moisés - Fontes remotas da cultura portuguesa, Assírio e Alvim, 1989

[2] Espírito Santo, Moisés -Origens orientais da religião popular portuguesa, seguido de Ensaio sobre toponímia antiga - Assírio e Alvim, 1988

[3] Espírito Santo, Moisés – Dicionário Fenício – Português – Universidade Nova de Lisboa – 2ª edição (sem data)

[4] Balsa / Wikipedia https://pt.wikipedia.org/wiki/Balsa_(Lusit%C3%A2nia).

[5] Carvalho, Manuel José Gonçalves de - Povoamento e vida material no concelho de Aveiro: apontamentos para um estudo histórico-toponímico

http://ww3.aeje.pt/avcultur/Avcultur/ManJGCarv/PDFs/MJGC_Mestrado.pdf

[6] Girão, Amorim - Geografia de Portugal (1941)

[7] Gaspar, Monsenhor João – A vila de Esgueira - Notas proferidas num serão informal; Publicado no nº 25/26 do Boletim Municipal de Aveiro.

[8] Infopedia – Porto Editora

https://www.infopedia.pt/

[9] Google Maps

https://www.google.pt/maps/

Autoria e outros dados (tags, etc)

Colecionar molas de roupa...

por Lourenço Proença de Moura, em 13.11.20

As_nossas_molas_de_casa_1997_Esgueira.jpg

Foi no já distante ano de 1997 que tirei a fotografia com que inicio esta publicação. O pequeno mas aconchegado cesto, as cores variadas refletidas pelo sol que inundava a marquise do nosso apartamento, captaram-me a atenção.

Esta imagem teve algum efeito de ressonância na minha mente e pus a mim mesmo perguntas para as quais procurei a resposta. Como seriam as molas de roupa noutros países? Que outros tipos de mecanismo e forma haveriam? Qual seria a “história” deste objeto tão comum?

Fui então aos poucos fazendo alguma pesquisa e criando uma pequena coleção.

Vou procurar de forma breve contextualizar o que fui descobrindo e mostrar alguns exemplos do que consegui colecionar.

 

Como terá surgido a ideia para este objeto?

Como tem sucedido na maioria das vezes na história do ser humano, a necessidade aguça-nos o engenho. Quando o Homem começou a lavar as suas roupas, por razões de higiene ou para as manter melhor conservadas, terá procurado formas de as secar ao sol. 

Decerto que as roupas de pele, lã, linho, ou outros materiais seriam postas a secar sobre pedras, ou diretamente em ramos de árvore ou arbustos. Mas logo que começaram a fazer cordas feitas de fibras, vegetais ou animais, a ideia de as pendurar nesse suporte terá ocorrido naturalmente e daí a pensarem numa forma de evitar que tombassem com o vento.

Roupa_a_secar_arbusto.jpg

Muito provavelmente terão logo nessa altura concebido mecanismos simples, ainda hoje utilizados. A forma mais básica passaria por abrir uma ranhura num pedaço estreito de madeira que tivesse alguma resistência.

Mola_basica_antiga.JPG

Uma outra forma utilizaria um troço de ramo estreito de uma madeira flexível, como por exemplo o salgueiro. Nele é aberta uma fenda numa das extremidades e na outra é feito um laço de uma fibra, impedindo que se quebre.

Com a evolução das tecnologias, por exemplo quando os metais passaram a entrar nos usos quotidianos, durante o século 18 na europa, a sua maior durabilidade foi substituindo as fibras, permitindo que os modelos iniciais beneficiassem desta evolução. Surgiram assim molas como as da imagem seguinte, que ainda eram muito comuns no início do século 20.

Mola_basica_com_anel_metalico_antiga.JPG

Naturalmente com as progressivas evoluções tecnológicas, tornando comum a aplicação do aço, mas sobretudo dos plásticos, as formas e mecanismos foram evoluindo em muitas e diversas formas, tendo quase apenas a imaginação como limite…

 

A industrialização, modelos e patentes de molas de roupa

Com a industrialização, as sociedades mais desenvolvidas passaram a valorizar as novas ideias, pois uma boa ideia devidamente aplicada podia gerar imenso valor financeiro. Surgiram assim os conceitos de propriedade intelectual e patentes, para proteger os criadores dessas ideias de serem copiados de forma não autorizada. Os Estados Unidos da América (EUA) foram percursores neste campo.

A primeira patente conhecida para uma mola foi emitida precisamente nos EUA a 22 de março de 1832. Descrevia uma tira dobrada de madeira de nogueira, de seis polegadas, apertada com um parafuso de madeira. Mas quando foi fabricada, viu-se que não funcionava bem. A chuva e a humidade faziam o parafuso inchar e deixava de prender. Porém ficou para a história como primeira patente deste tipo de objeto. Note-se que na sequência de um incêndio no departamento de registos em 1836, perdeu-se esse documento, pelo que dele não existem cópias e não se conhece a sua imagem exata.

Passaram mais 21 anos para aparecer, em 1853, uma grande melhoria. O criador da patente chamou-lhe “spring-clamp for clotheslines”, que podemos traduzir por "grampo de mola para cordas de roupa". Chamava-se David M. Smith. Era natural de Springfield, no estado de Vermont, nos Estados Unidos da América. Tinha duas “pernas” em madeira, articuladas entre si por uma mola de metal.

Foi o antepassado moderno a partir do qual se criaram a maioria das molas que hoje temos. A imagem seguinte foi retirada do registo de patente e mostra qual o seu aspeto. Na minha coleção tenho uma mola muito semelhante que se poderá ver mais adiante.

A invenção de Smith foi revista e modificada vezes sem fim. Só até meados do século XIX houve mais 146 novas patentes nos Estados Unidos da América [1].

Spring_Clamp_1853.jpg

Uma evolução significativa a nível de materiais deveu-se ao italo-americano Mario Maccaferri, que desenvolveu o primeiro modelo de mola de plástico durante a Segunda Guerra Mundial, supostamente depois de se constatar a escassez de prendedores de madeira. Industrializou-a e a sua fábrica produziu mais de um milhão de unidades por dia para atender à procura em tempo de guerra [2] [3].

Molas_Mario_MaccaFerri.JPG

Esta imagem de molas em plástico, foram produzidas pela indústria criada por Mario Maccaferri. A que surge mais acima é o modelo inicial, ou seja, a primeira mola feita em plástico. Mostrarei adiante uma idêntica na minha coleção.

Naturalmente as variações de modelos, formas e mecanismos têm surgido sem cessar em ritmo cada vez maior.

Como último exemplo, relativamente recente, numa espécie de regresso às origens, veja-se o desenho das brasileiras Taciana Silva e Marcela Albuquerque, patenteado em 2006, que pode também ser visto adiante nas imagens da coleção.

2006_Taciana_Silva_Marcela_Albuquerque.jpg

Colecionar molas de roupa…

Porquê colecionar molas de roupa?

Resposta nº 1: Porque não? 

Resposta nº 2: É fácil começar uma coleção. Todos nós temos exemplares para começar e possivelmente os nossos pais têm alguns, mais antigos, bem curiosos…

Resposta nº 3: É um objeto muito simples, sem pretensões, prático e condensa muitas ideias e aperfeiçoamentos do engenho humano.

Resposta nº 4: Considero que existe muita beleza nas rotinas simples da nossa vida diária. E fazendo minhas as palavras (adaptadas) de Lahey [2]… Considero bela uma corda de roupa a secar. É estimulante e conforta a alma, ver uma fileira de tecidos de cores e padrões variados erguendo-se com rajadas de vento, mantidos no lugar por minúsculos soldados de costas direitas, oscilando de um lado para o outro, firmes na sua missão, sobre as suas minúsculas dobradiças…

Devo dizer que por vezes me arrisco a passar por ladrão, ou quem sabe algo ainda mais censurável, quando, por exemplo ao passear numa qualquer rua, caminhando descontraído, a minha atenção é de forma instintiva atraída por um estendal, ficando o meu olhar automaticamente focado nas molas de roupa, procurando por modelos que ainda não tenha. E tanto faz que estejam a prender peúgas, calças, “lingerie” ou ceroulas…

Possivelmente há outros colecionadores em Portugal, mas até ao momento não identifiquei nenhum…

Consegui contactar alguns colecionadores estrangeiros, não muitos, mas foram todos muito simpáticos e temos trocado exemplares pelo correio. Todos tiveram comigo (e eu tentei retribuir) uma "atitude de mãos largas”. Doamos o que temos duplicado, se o outro colecionador não tem.

Penso que o maior colecionador de molas do mundo será Mike Bradley, engenheiro australiano reformado. Podem consultar o seu blog: https://peglomania.blogspot.com/

Faz poucas publicações, mas numa ele indica os links de acesso a fotografias da sua vastíssima coleção. Reproduzo os ponteiros no anexo desta minha publicação.

 

Alguns exemplares da minha coleção

Modelo de gancho simples – exemplares antigos e réplica recente em madeira

IMG_3672.JPG

Img_3673.jpg

Modelo de gancho simples – exemplares antigos em arame / lâmina metálica

IMG_3674.JPG

 

Modelo de gancho simples – em plástico ou metal

IMG_3677.JPG

IMG_3678.JPG

IMG_3671.JPGO modelo da direita mantém o desenho de Mario Maccaferri referido antes

 

Modelo de gancho simples - clipe
IMG_3675.JPG

Modelo de gancho simples em espelho
O que surge à esquerda, corresponde ao desenho de Taciana Silva e Marcela Albuquerque referido antes

Img_3676.jpg

Modelo de gancho complexo – ação manual

IMG_3679.JPG

IMG_3681.JPG

 

Tensor triangular – tensão de contração em fio de aço

IMG_3682.JPG

IMG_3686.JPG

Tensor circular – tensão de contração em fio de aço

IMG_3692.JPG

IMG_3684.JPG

IMG_3690.JPG

 

Tensor em fita – tensão de contração em aço

IMG_3687.JPG

IMG_3688.JPG

 

Tensor em fita – tensão de contração em plástico

IMG_3689.JPG

 

Tensor em fita – tensão de expanção em metal / plástico

IMG_3683.JPG

 

Tensor em hélice com asas – tensão de expansão

IMG_3693.JPG

IMG_3694.JPG

 

Tensor em hélice com asas – tensão de contração

IMG_3700.JPG

IMG_3701.JPG

IMG_3695.JPG

IMG_3696.JPG

IMG_3702.JPG

IMG_3703.JPG

IMG_3704.JPG

 

Tensor em hélice simples – tensão de expansão
O modelo da esquerda é semelhante ao que referi atrás, panteado em 1853 por David M. Smith

IMG_3697.JPG

IMG_3698.JPG

IMG_20201113_200101_resized_20201113_080147562.jpg

 

 

Tensor em hélice simples – tensão de contração

IMG_3699.JPG

 

Tensor em anel / fita de borracha  – tensão de contração

IMG_20201113_195948_resized_20201113_080148562.jpg

 

Brincando com as formas…

IMG_3706.JPG

IMG_3707.JPG

IMG_3708.JPG

 

E quando as crianças brincam…

IMG_3705.JPG

-----<<<<<>>>>>-----

Familia_Mola.jpg

-----<<<<<>>>>>-----

 

Referências

[1] The Better clothespin (A melhor mola de roupa) https://www.inventionandtech.com/content/better-clothespin-0

[2] Lahey, Anita - Clothespin Encounters https://maisonneuve.org/article/2010/03/8/clothespin-encounters/

[3] Mario Maccaferri - un liutaio fra Cento, Parigi e New York  - http://www.bagnoli1920.it/Sito_Tipo/Libri_files/cat_maccaferri-E.pdf

 

Anexo

Endereços de acesso à coleção de Mike Bradley

Butterfly Spring Pegs:
Compression Coil Sprung Clothes Pegs:
Conventional Design Pegs
Leaf Sprung Clothes Pegs:
Magnetic clip:
Ring Sprung Clothes Pegs:
Rubber Band Spring:
Self Sprung Plastic Clothes Pegs:
Self Sprung Wooden Pegs:
Tension Coil Sprung Clothes Pegs:
Wide Clip Sprung Clothes Pegs:
Wire over 6cm:
Wire under 6cm:
Wooden Conventional Pegs:

Autoria e outros dados (tags, etc)

Possíveis origens fenícias de topónimos do nosso território

Terceira parte – Outras possíveis invocações de Baal e Ilib

por Lourenço Proença de Moura, em 11.10.20

Nossa_Senhora_da_Povoa_data_desconhecida.jpg
Nossa Senhora da Póvoa - Celebração religiosa - Data desconhecida
Fotografia retirada do sítio Capeia Arraiana (onde o leitor poderá ver outras fotos muito interessantes)

---<<>>---

Introdução

Nas duas últimas publicações procurei mostrar que existem fortes indícios de que, o nosso território, antes da influência romana, terá passado por um período razoavelmente longo de fortes influências fenícias, as quais terão sobrevivido em alguns nomes de terras / topónimos e cultos religiosos.
Mostrei como Vale de Ílhavo, junto a Aveiro se enquadra nessa hipótese.
Nesta publicação explico como o mesmo tipo de influências e culto parece ter-se espalhado um pouco por todo o país, mas sobretudo na faixa Beira Litoral - Beira Alta - Beira Baixa.
 
---<<>>---

Se bem que neste tipo de análises nunca se possa estar cem por cento seguro, os resultados do estudo exposto na publicação anterior sobre a possível origem do nome Vale de Ílhavo deixou-me bastante confiante sobre a correção dessa hipótese. Porém uma dúvida surgia:

- Se estes dois deuses Baal e Ilib tinham assim tantas devoções, não seria lógico que devêssemos encontrar outras terras com nomes deles derivados? “Vale de Ílhavo" em Portugal há apenas um e numa primeira fase não encontrei nomes que lhe fossem próximos.

Curiosamente não passaram muitos dias até que, das minhas memórias de beirão, nado e criado na Cova da Beira, me ocorreu uma associação relativamente simples e que aos poucos me convenceu de que seria a possível resposta à questão anterior.

Uma das maiores romarias da minha região é a do Vale da Senhora da Póvoa. Mas eu lembrava-me que esta localidade tinha um outro nome mais antigo, “Vale de Lobo”. Na verdade, numa época não muito distante, em 1957, adotou o nome atual. Será que o topónimo antigo “Lobo” poderia ser um outro derivado de “Ilib”? Se virmos a evolução proposta para o caso de Ílhavo, constatamos que é uma variante bastante direta.

Algo como: Ilib => Ilibo => libo => lobo

Em Ílhavo, terra do litoral, ligada ao mar, terá evoluído para uma palavra com sonoridade próxima de algo conhecido, neste caso “ilha”. Já no interior, a evolução seguiu um outro significado, igualmente reconhecido pela população, neste outro caso “lobo”.

Temos portanto mais uma vez esta denominação associada a um local de romaria. No caso, uma romaria muito relevante mesmo atualmente. É na verdade um sinal bastante relevante para reforçar a hipótese que aqui defendo, mas mais uma vez poder-se-ia argumentar tratar-se de coincidência. Para lhe dar mais força era necessário encontrar outros “sinais” que a reforçassem.

A pesquisa que fiz foi baseada em três tipos de fonte:

- o que é possível observar através da aplicação Google Maps;

- em leituras encontradas na internet;

- na monografia de António Cabanas sobre o Vale da Senhora da Póvoa [5].

Seria muito importante fazer uma pesquisa no local, em busca de outros nomes que pudessem interessar, por exemplo nomes antigos de caminhos, fontes, rios, que pudessem derivar das mesmas origens antigas. Mas até ao momento tal não me foi possível.

Da pesquisa no Google Maps resultou desde logo uma constatação muito significativa. Junto ao Vale da Senhora da Póvoa, um pouco a norte, temos a localidade da Moita. Trata-se de uma associação idêntica à que encontramos em Vale de Ílhavo. Como expliquei nesse caso, esta associação não deve surpreender. Também aqui teríamos devoções ao deus da vida Baal e a Mot, o deus da morte. Considero curiosa uma referência que António Cabanas faz na sua monografia. Segundo ele, na Moita ainda se diz que a Senhora da Póvoa lhe pertencia outrora. À luz do que aqui proponho, haverá um fundo de verdade, mas algo distinto. Da mesma forma que o povo se deslocava a Vale de Lobo para prestar culto ao deus da vida, o mesmo povo iria à Moita, prestar culto ao deus da morte. Não sabemos que formas tinham estas devoções, mas como comentei, provavelmente seriam semelhantes às atuais romarias. Não seria de estranhar que houvesse símbolos de ambos os deuses nas duas romarias, pelo que poderia até suceder que esses símbolos passassem nesses momentos de comemoração de uma terra para a outra. O mito da luta entre ambos poderia ser teatralizado, no verão comemorando-se a vitória da vida e das colheitas e no inverno a vitória da morte, quando a vida parece ter sido interrompida [3].

Localizacao_Vale_da_Senhora_da_Povoa.JPGFigura 2 - Localização da aldeia e santuário do Vale da Senhora da Póvoa - antigo Vale de Lobo - e Moita (Google Maps)

Salientaria ainda por último um aspeto particularmente curioso. À luz da proposta que aqui defendo, é possível entender o sentido de uma quadra de significado misterioso do cancioneiro da Senhora da Póvoa (existe uma quadra semelhante na Senhora do Almortão). De acordo com a transcrição da monografia de António Cabanas, reza assim:

Nossa Senhora da Póvoa,
- Olhai o que diz o mundo!-
Que detrás do Vosso altar
Está um poço “de sem” fundo.

Qual a razão para se mencionar um “poço sem fundo”? Tanto quanto li nunca se conseguiu encontrar uma explicação satisfatória, quer na vertente religiosa como a nível de tradições locais.

Porém, no contexto que estou a propor, surge uma resposta bastante direta. O deus Mot é o senhor do mundo subterrâneo. De acordo com os relatos fenícios conhecidos, o seu trono é precisamente um poço profundo / sem fundo [3, página 81]. Não conheço o lugar da Moita, mas a ser esta hipótese correta, deveria haver um poço, ou uma mina, junto ao local de culto, que seria o lugar simbólico onde esse deus habitava e onde muito provavelmente lhe eram feitas ofertas. Note-se que à semelhança do Vale da Senhora da Póvoa, o local de culto poderia situar-se fora da localidade, por exemplo no Terreiro das Bruxas.

Como nota de curiosidade, acrescentaria que a quadra equivalente na Senhora do Almortão, em que se refere uma fonte, em vez de um poço, deverá ter sido uma adaptação desta, pois constata-se que os cancioneiros replicam os cantares uns dos outros, adaptando-os ao seu contexto.

 

Outros topónimos em Portugal denominados Vale de Lobo

A denominação Vale de Lobo, ao contrário de Vale de Ílhavo, leva-nos a supor, mesmo para quem não conheça bem o país, que poderá haver mais locais com este nome. Um dos que facilmente vem à ideia de um cidadão português é o do empreendimento turístico com esse mesmo nome no Algarve.

Mas quantos poderemos encontrar realmente?

Numa pesquisa feita mais uma vez nos registos de códigos postais dos CTT, encontram-se doze referências “Vale de Lobo” ou equivalentes (Lobos/Lobas), a que estão associados códigos postais, ou seja, são habitados. Poderá haver bastantes mais em locais inabitados.

Aproveitaria este ponto para apresentar mais uma breve reflexão. Na verdade, denominar uma terra de Vale de Lobo não é muito lógico. O ser humano ancestralmente tinha medo deste animal que respeitava. Mas esse medo era acentuado pelo fato de os lobos caçarem quase sempre em alcateia. Lobos solitários são raros. Se uma região fosse conhecida por nela haver lobos, teria decerto essa denominação no plural “Vale de Lobos”. Seria pois de esperar que houvesse mais terras com este nome no plural do que no singular. Porém não é isso que sucede. Na referida pesquisa encontram-se sete “Vale de Lobo” e quatro “Vale de Lobos/Lobas”. Mais uma vez, parte da explicação para esta situação estranha pode ter a ver com as razões expostas nesta análise.

A tabela 2 apresenta as doze referências “Vale de Lobo” identificadas a que se acrescenta Vale da Senhora da Póvoa que também teve esse nome e Vale de Ílhavo.

A figura 3 mostra as suas posições geográficas.

Localizacao_Vale_de_Lobo.jpg

Figura 3 - Posições das localidades Vale de Lobo correspondentes às referidas na Tabela 2

Tabela 2.jpg

Tabela 2 - Referências “Vale de Lobo” a que se acrescenta Vale da Senhora da Póvoa que também teve esse nome e Vale de Ílhavo.

Analisando a dispersão deste topónimo “Vale de Lobo” salientaria dois aspetos:

- O seu maior número em zonas relativamente perto do litoral ao longo de quase toda a costa; Este aspeto é relevante, pois um topónimo associado a “lobos” deveria ser mais relevante no interior, até porque antigamente haveria uma maior homogeneidade da distribuição das tribos pelo território não tão concentrada no litoral como nos tempos atuais;

- Uma maior concentração na zona de Aveiro, a qual de certa forma se parece ter expandido para o interior; Este aspeto é também interessante. Parece indicar que por alguma razão houve nesta região uma maior permeabilidade a estas influências e cultos. Poderia estar associado a uma ou mais tribos que ocupariam este espaço fazendo entre si trocas comerciais e partilhando influências culturais.

Mas importa neste ponto sobretudo aferir, se estes outros 12 topónimos ainda não comentados, poderão também mostrar formas de influência semelhantes a Vale de Ílhavo e Vale da Senhora da Póvoa / Vale de Lobo. A abordagem foi a mesma já atrás referida, tendo cada local sido classificado num fator que denominei “Probabilidade de origem fenícia”.

Atribui-lhe uma classificação de 1 a 5, com base num conjunto de critérios que explico no Anexo 1.

Em síntese o resultado encontra-se na tabela seguinte.

Tabela 3_Simplificada.JPG
Tabela 3 - Referências Vale de Lobo / Vale de Ílhavo com e de probabilidade da origem fenícia do topónimo

 

O que podemos constatar desta breve análise?

Dos catorze topónimos analisados, sete têm a classificação mínima, ou seja não se identificaram associações relacionadas com este âmbito de pesquisa. A maioria destes está em locais bastante isolados, onde poderá ter sido efetiva a associação a lobos. Mas poderão igualmente ser antigos locais de culto que foram posteriormente abandonados. Esta forma de análise suportada essencialmente por pesquisas na internet é pouco eficaz sobretudo em locais deste tipo, em que até podem existir referências interessantes apenas conhecidas dos habitantes, mas que não estão traduzidas em informação digitalizada.

Já no caso mais conhecido, associado ao empreendimento turístico junto a Almancil, o que temos é uma urbanização intensa que pode ter eliminado anteriores denominações.

Dos sete restantes, dois são os já abordados Vale de Ílhavo e Vale de Lobo / Vale da Senhora da Póvoa.

Temos portanto outros cinco locais em que se identificam relações que considero relevantes:

1            Vale do Lobo     São Pedro de Castelões - Aveiro

2            Vale do Lobo     Aguada de Cima - Aveiro

9            Vale das Lobas Pombal - Leiria

10          Vale de Lobos   Un. Freg. Almargem do Bispo, Pêro Pinheiro e Montelavar - Lisboa

12          Vale do Lobo     Un. Freg. São João do Monte e Mosteirinho - Viseu

 

Em síntese, dos 14 locais, encontramos mais cinco com boas probabilidades de estarem associados a evocações de Baal Ilib, ou seja, um total de sete.

Trata-se de uma correlação bastante forte, que muito dificilmente será fruto do acaso.

 

Conclusões

Em jeito de conclusão, a minha tese é pois a seguinte:

- Ao longo de vários séculos antes da era cristã, presumivelmente iniciando-se no século oitavo antes de cristo, os mercadores fenícios navegaram nas nossas costas, criaram em alguns casos entrepostos comerciais, estabeleceram acordos com os povos que habitavam o litoral da península ibérica, tendo chegado à latitude de Aveiro;

- A sua influência foi tão forte que esses povos absorveram a sua cultura, a sua língua e a sua religião, efeito esse que se projetou gradualmente para o interior do país, na adoção de nomes de terras e de ritos religiosos;

- Por razões que desconhecemos, mas porventura relacionadas com a estrutura de tribos da época, as influências relativas ao culto religioso em torno dos deuses Baal e Ilib foram particularmente significativas na região de Aveiro / Coimbra tendo-se prolongado pela beira interior;

- A influência da língua terá sido bastante ampla, sendo utilizada possivelmente como língua franca em algumas das tribos que habitavam o território. A esse propósito veja-se uma breve referência no Anexo 2.

- As devoções em particular aos deuses Baal, Mot e Ilib, levaram à criação de fenómenos religiosos de devoção, através de celebrações partilhadas entre os diversos povos, na forma de romarias, celebrações essas tão enraizadas nas tradições que ao longo dos séculos sobreviveram nos gestos essenciais, adaptando-se ao longo dos tempos às influências das diversas “religiões oficiais” que as envolveram.

- Esta análise focou-se em Baal Ilib – topónimos “Vale de Lobo” e suas variantes. Em Portugal há uma muito grande quantidade de outros topónimos que simplesmente se denominavam “Vale”, ou que estão associados a outras referências mas que não são explicados pela orografia do terreno, como mostrei na estatística geral. Poderá haver aqui outras hipóteses de estudo neste mesmo âmbito de influências fenícias.

---<<>>---

Anexo 1 – Critérios e forma de classificação da probabilidade de origem fenícia do topónimo

Tiveram-se em conta os seguintes critérios:

- Caso junto a esse local existam um ou mais topónimos que poderão também ter essa origem:

- Um ponto adicional se for identificado um;

- Dois pontos adicionais se for identificado mais do que um;

- Caso junto a esse local exista um espaço de culto tradicional relevante:

- Um ponto adicional se for uma festa anual tradicional simples;

- Dois pontos adicionais se for uma romaria com muito significado regional.

O resultado desta análise é apresentado na tabela seguinte.

Tabela 3.jpg

Tabela A.1 - Referências Vale de Lobo / Vale de Ílhavo com análise de probabilidade da origem fenícia do topónimo

 

 

1 - Vale do Lobo - São Pedro de Castelões, Vale

1 - Vale do Lobo - São Pedro de Castelões - Vale de Cambra      Aveiro

 

2 - Vale de Lobo - Aguada de Cima.jpg

2 - Vale do Lobo - Aguada de Cima         - Águeda - Aveiro

 

3 - Vale do Lobo - Préstimo - Águeda.jpg

3 - Vale do Lobo - União das freguesias do Préstimo e Macieira de Alcoba – Águeda - Aveiro

 

4 - Vale de Lobos - Castelo de Paiva Aveiro.jpg

4 - Vale de Lobos – Real - Castelo de Paiva - Aveiro

 

5 - Vale de Lobo - Cedaes - Mirandela - Braganca.j

5 - Vale de Lobo - Cedães – Mirandela - Bragança

 

6 - Vale de Lobo - Poiares - Coimbra.jpg

6 - Vale do Lobo - Poiares (Santo André) - Vila Nova de Poiares - Coimbra

 

7 - Vale de Lobo - Marmelete - Monchique - Faro.jp

7 - Vale de Lobo             - Marmelete – Monchique - Faro

 

8 - Vale de Lobo - Almancil - Loule.jpg

8 - Vale de Lobo             - Almancil – Loulé - Faro

 

9 - Vale das Lobas - Pombal.jpg

9 – Vale (Olival) das Lobas – Pombal – Pombal - Leiria

 

10 - Vale de Lobo - Almargem do Bispo - mais ampli

10 - Vale de Lobo - Almargem do Bispo.jpg

10 - Vale de Lobos - União das freguesias de Almargem do Bispo, Pêro Pinheiro e Montelavar – Sintra - Lisboa

 

11 - Vale de Lobos - Sabacheira - Tomar V2.JPG

11 - Vale de Lobos – Sabacheira – Tomar - Santarém

 

12 - Vale de Lobo - Sao Joao do Monte - Tondela V2

12 - Vale do Lobo - União das freguesias de São João do Monte e Mosteirinho – Tondela - Viseu

 

Localizacao_Vale_da_Senhora_da_Povoa.JPG

13 - Vale de Lobo (Senhora da Póvoa) - Vale da Senhora da Póvoa – Penamacor - Castelo Branco

 

Posicionamento geografico Vale de Ilhavo.JPG

14 - Vale de Ílhavo - Vale de Ílhavo – Ílhavo - Aveiro

 

---<<>>---

Anexo 2 - Breves referências ao uso da língua fenícia no período romano

Em [1], página 148 por exemplo, Moisés Espírito Santo mostra como algumas aras votivas do tempo dos romanos, gravadas em caracteres latinos, transcreviam palavras que não eram latim, mas sim o fenício. Considero particularmente interessante a explicação para os diversos deuses “Banda” - por exemplo “BANDI ISIBRAIE”, “BANDOGA”, “BANDI OLIENAICO”, que segundo este autor, não são mais do que variantes de dedicatória em que o termo “BAND” corresponde a algo como “Para o” (dedicado a). Ou seja, os autóctones podiam obedecer aos romanos, mas não falavam latim.

Esta situação em que uma língua passa a ser foneticamente transcrita nos carateres originários de outra língua não é caso único. Por exemplo na península ibérica, nos séculos XIV e XV, surgiu o aljamiado, uma forma literária em que a língua era a castelhana, mas escrita em caracteres árabes – veja-se por exemplo [7], página 302.

---<<>>---

Referências e bibliografia

[1] Espírito Santo, Moisés - Fontes remotas da cultura portuguesa, Assírio e Alvim, 1989

[2] Espírito Santo, Moisés - Origens orientais da religião popular portuguesa, Assírio e Alvim, 1988

[3] Cassuto, U. (1962). "Baal and Mot in the Ugaritic Texts". Israel Exploration Journal. 12 (2): 81-83) (acessível via Jstor)

[4] Toorn, Karel van der, Becking, Bob, Horst, Pieter Willem van der - Dictionary of Deities and Demons in the Bible

[5] Cabanas, António - Vale da Senhora da Póvoa e a sua romaria – Edição do autor, 2016

[6] Carvalho, António Maria Romeiro – Toponímia do Concelho de Idanha a Nova – Edição do autor – 2017

[7] Rucquoi, Adeline - História medieval da península ibérica, Editorial Estampa, 1995

Autoria e outros dados (tags, etc)

Possíveis origens fenícias de topónimos do nosso território

Segunda parte – Ílhavo / Vale de Ílhavo

por Lourenço Proença de Moura, em 02.10.20

IMG_3645.JPGCapela da Ermida - Vale de Ílhavo - LMCPM 2020

Introdução

Na publicação anterior expliquei que, de acordo com estudos feitos por alguns investigadores como Moisés Espírito Santo, se constata que neste nosso território terá havido significativas influências de culturas do próximo oriente, muito possivelmente trazidas por comerciantes fenícios. Mostrei em particular como a dispersão no nosso país do topónimo “Vale” parece desafiar a lógica da orografia, pelo que terá havido outras razões para o mesmo ser adotado.

Agora vou apresentar uma análise que fiz de um caso geograficamente próximo de Aveiro, local onde moro. Nesta análise tento mostrar como o topónimo Ílhavo, ou mais especificamente Vale de Ílhavo pode ter origens fenícias.

--- <<<>>>---

Vale de Ílhavo é uma localidade próxima de Ílhavo, junto a Aveiro, cidade onde resido. Esta reflexão começou um pouco por acaso, ao fazer um passeio de fim-de-semana, pois havia lá uma festa em celebração das tradicionais “Padeiras de Vale de Ílhavo”.

Sucede que esta simpática terra não está propriamente num vale e essa característica ficava bem à vista ao fazer o percurso. Toda esta região tem colinas suaves e nada mais. Não seria muito natural nomear por Vale uma terra assim.

Veio-me nessa altura à memória a hipótese de Moisés Espírito Santo, de o nome poder estar associado a um lugar de culto antigo ao deus fenício Baal.

Fiz nessa sequência uma pesquisa sobre as várias invocações de outros deuses do panteão fenício cuja sonoridade vocal fosse próxima de Ílhavo, tendo como base a grafia mais antiga conhecida, que será do ano 1047 da nossa era, em que surge como "Iliavo" [1] [5].

Identifiquei então o que seria um dos deuses com invocações mais relevantes e que poderá responder à nossa questão. Ilib, deus dos antepassados (Veja-se o anexo 1 em que se faz uma muito breve descrição de alguns dos mais relevantes deuses fenícios). Há documentos da época que mostram ser dos que recebiam mais oferendas dos fiéis [8]. Segundo informação recebida do Dr. Moisés Espírito Santo, podemos entendê-lo como deus da ordem, da boa vizinhança, da família, da fecundidade.

A proximidade fonética com “Ilib” e a sua evolução parecem diretas. Nesta última transição terá ocorrido por aproximação à palavra “Ilha”, tão familiar a estas gentes que do mar tiram o seu sustento.

Algo como: Ilib => Ilibo /Ilivo => Iliavo /Ílhavo

Mas naturalmente pode tratar-se de um curioso acaso. Teria pois que procurar algo mais para consolidar a hipótese.

Note-se que “Baal” e “Ilib” eram deuses distintos. O panteão fenício tinha muitos deuses, não sendo de espantar que os cultos fossem com frequência feitos em conjunto, como hoje também sucede. Apenas como exemplo, a conhecida romaria da Senhora do Almortão, na Beira Baixa, tem um dia dedicado à Senhora Virgem Maria e um outro dedicado a São Romão.

Em qualquer caso, esta hipótese tem implícito um ou mais lugares de culto.

Sucede que os fenícios faziam o seu culto sobretudo em lugares elevados, ou então junto a nascentes de rios, junto a rios ou junto ao mar [2]. Em Vale de Ílhavo propriamente dito não é visível nenhum local desse tipo. Mas bastante perto, num ponto relativamente elevado, temos a Capela da Ermida, junto a uma propriedade murada com casario antigo, conhecido por Paço da Ermida.

IMG_3648.JPGFigura 2 - Capela da Ermida e Paço da Ermida - LMCPM 2020

A Ermida, é referida nas informações paroquiais de 1721 e 1758. Estes e outros detalhes podem ser vistos no excelente blogue Património Religioso de Ílhavo, da autoria de Hugo Cálão [4]. Saliento duas referências:

 - Nas informações de 1721 a Capela da Ermida é referida como sendo do povo, ou seja não pertencia a nenhum senhorio nobre ou clerical;

- Nas informações de 1758 é referido que junto à Ermida ficam “as nobres casas do Senhorio do Prazo”. Ou seja, Senhorio do Prazo, ou Quinta do Prazo, é outra denominação antiga do Paço.

Sucede que este termo "Prazo" é muito relevante quando se procuram topónimos fenícios. Deriva de uma forma praticamente direta de "perazu" (que terá dado nome a muitos outros lugares em Portugal denominados por exemplo ”Paraíso” e "Prazo") [2]. Significa "lugar da convocação dos acordos". De acordo com esta interpretação, os povos que habitavam esta região renovavam os acordos entre si e com os comerciantes da longínqua fenícia e neste caso fariam rituais religiosos a “Baal Ilib” (ou a “Baal” e a “Ilib”), numa forma possivelmente próxima ao que atualmente denominamos romarias. No blogue referido podem-se observar fotografias muito interessantes dessa capela e de romeiros da década de 1950. Não consegui encontrar referências sobre a antiguidade desta romaria. A ser correta a minha interpretação, seria muitíssimo antiga.

Ao longo dos séculos as tradições e os cultos enraízam-se nas comunidades. Evoluem e adaptam-se às “religiões oficiais” mas em muitos casos mantêm a sua essência numa interpretação popular de religiosidade e hábitos que passam de geração em geração. A Ermida manteve-se do povo, fazendo parte da sua identidade, com ritos que de acordo com esta hipótese remontariam há mais de dois mil e quinhentos anos atrás.

Mas identifiquei mais alguns topónimos de grande interesse neste contexto,.

Bastante perto, ligeiramente a poente de vale de Ílhavo, encontramos “Moitas”.

Esta denominação e outras semelhantes, tais como Moita e Mota, podem derivar de Mot (“mout”), deus da morte, rival de Baal.

Saliento a relevância da sua proximidade ao espaço que estaria dedicado a Baal. Não sendo conhecidos detalhes dos ritos a estes deuses, conhecem-se contudo bastante bem os poderes que lhes eram atribuídos e os mitos. Entre Baal e Mot ocorria uma luta eterna. Ambos eram importantes e complementares. Dos seus ciclos de luta anuais dependia a vida no mundo. A associação ao ciclo das estações e daí às colheitas, surge de forma intuitiva, se bem que nos textos conhecidos tal associação não esteja explícita [10].

Nos locais a que estava associado Mot, havia também rituais de enterramento, ou seja cemitérios [2].

Por último realçaria mais um topónimo extremamente interessante pela sua sonoridade peculiar:

- Boco (Rio Boco); Este termo tem como um dos seus significados “oferenda”[9]. Poderia simplesmente ter ganho o nome por estar junto ao espaço de culto onde haveria oferendas aos deuses. Ou poderia mesmo haver algum ritual de oferendas na margem, ou na foz. Note-se que o Rio Boco, naquela época desaguava diretamente no mar como mais adiante explicarei.

Posicionamento geografico Vale de Ilhavo.JPGFigura 3 - Alguns topónimos na zona de Vale de Ílhavo (Google Maps)

Penso ser de interesse ter em conta que esta região passou por grandes mudanças em particular no último milénio decorrente da deposição de areias e assoreamento. No período a que reporta esta análise, não havia praticamente nenhum cordão dunar. O rio Boco desaguava diretamente no mar. A Figura seguinte mostra essa evolução. Note-se que a identificação de localidades atuais não significa que já houvesse ocupação humana na altura, mas apenas pretende ajudar a situar os contornos da costa. No anexo 2 explica-se como se elaborou este mapa.

Localizacao_Vale_Ilhavo_ha_2500_anos.JPGFigura 4 – Como seria o litoral deste espaço geográfico na época analisada

Em jeito de conclusão

Em síntese, a opção que aqui coloco remete a origem do nome Ílhavo, ou mais precisamente Vale de Ílhavo, para uma invocação de dois deuses fenícios, Baal e Ilib, que seriam objeto de adoração no Prazo, local onde em romaria os povos desta região se encontravam, manifestavam a sua fé e estabeleciam acordos entre si e com os fenícios.

Como Senos da Fonseca refere [5], na época em que situo o início deste culto, quase não haveria população residente fixa nestes locais. Na minha perspetiva, eram sobretudo pontos de encontro para as celebrações. Mas à medida que as gentes se foram fixando, nessa altura adotaram esses nomes, Vale de Ílhavo e Ílhavo.

Esta hipótese tem algumas “consequências” curiosas:

- Seria de certa forma Vale de Ílhavo que daria o nome a Ílhavo e não o inverso;

- Poderia a tradição das padeiras ter origens tão remotas como as aqui referidas, em que nessa época de culto preparariam o bodo que constituiria a renovação ritual dos acordos estabelecidos.

 

Por último…

Por último, deixaria aqui uma pergunta que fiz a mim mesmo quando cheguei a este ponto da pesquisa:

Mas se estes deuses eram tão relevantes e se o impacto dos fenícios foi significativo nos povos deste espaço que hoje é Portugal, por que razão não temos mais “Vales de Ílhavo” ou topónimos de sonoridade semelhante?

Pensei um pouco e… penso que encontrei uma resposta, curiosamente perto da minha terra natal, Caria. E depois outras respostas…

É o que irei explicar na próxima publicação.

--- <<<>>>---

Anexo 1 – Algumas referências sobre o panteão de deuses fenícios

Os fenícios não constituíam uma nação no sentido atual do termo. Nem sequer há evidências de que a si mesmos assim se denominassem. Organizavam-se em cidades com gestão autónoma e cada cidade possuía o seu referencial religioso. Naturalmente havia similaridades entre elas, mas não havia um panteão de deuses único. O que se apresenta é a descrição de acordo com os textos de Ugarit  [3] [10]. Desconhecia-se a localização desta cidade até que em 1928 um camponês descobriu uma tumba por acaso. Seguiram-se trabalhos arqueológicos, que encontraram várias bibliotecas de “tábuas de argila”, escritas em diversas línguas e formas de escrita (ex: cuneiforme, hieróglifos). Estes achados foram extraordinariamente relevantes e permitiram termos atualmente uma perspetiva bastante razoável de muitos aspetos da vida dos povos que habitavam e comerciavam nesta região e época (cerca de 1200 AC), tais como os mitos, atos sociais e religião [6] [7].

 

Ilib – o deus dos antepassados; surge em primeiro lugar em listas de deuses, presumindo-se a sua importância. São conhecidas descrições de oferendas a deuses em que as melhores são atribuídas a este deus

EL.jpgEl  - Oriental Institute Museum, University of Chicago, Chicago, Illinois, USA - (Wikipedia)

El – O progenitor dos outros deuses à exceção de Baal; denominado “o criador das criaturas”; se bem que venerado, não surge como ator nos mitos; tem Échira (Ashirah) como esposa

Echira.jpgÉchira – Detalhe de caixa de marfim encontrada em Ugarit – Museu do Louvre - (Britannica)

Échira (em inglês Ashirah) – progenitora com El dos restantes deuses (cerca de 70); deusa da fertilidade; representada como uma árvore (ou figura feminina que simboliza a árvore)

Dagan (ou Dagon) – Deus das boas colheitas dos cereais. Inventor do arado.

Baal.jpgBaal representado com chifres e segurando um raio - Estela encontrada em Ugarit - Wikipedia

Baal – Deus das tempestades; “O que cavalga as nuvens”; Senhor da terra, é o que assegura a sua fertilidade; de acordo com um dos mitos torna-se rei dos deuses depois de derrotar Yam; de acordo com outro mito é derrotado por Mout, deus da morte, mas após ter a ajuda de Anat, sua consorte, renasce e vence Mout; Baal assume-se como o deus mais popular e devocionado

Anat – Esposa de Baal; deusa do amor e da guerra; denominada de “virgem”

Mout – Deus da morte e da seca; Vive nas profundezas da terra; Vence e mata Baal, mas este retorna à vida e consegue derrotá-lo

Yam – Deus do caos e do mar; desafia Baal para se tornar rei dos deuses, mas perde o combate depois de numa primeira fase estar a vencer;

--- <<<>>>---

Anexo 2 – Como se elaborou o mapa da Figura 4

Teve-se como base a representação da esquerda, da figura seguinte, publicada na obra Geografia de Portugal, de Amorim Girão (1941)

Localizacao_geografica_ha_2500_anos.jpgFigura A2.1 – Evolução da costa na zona de Aveiro

Detalhou-se de seguida a península em que se situa esta análise tendo como base a representação usada na obra Ílhavo – Ensaio monográfico – século X ao século XX, de Senos da Fonseca, mostrada na figura seguinte.

Recorte da costa Ilhavo antes da laguna.pngFigura A2.2 – Recorte da costa na zona de Ílhavo antes da formação da laguna

Por último, sobrepôs-se um esquema de posicionamento relativo das localidades referidas, tendo como base o Google Maps.

--- <<<>>>---

Referências

[1] Ferreira, Delfim Bismark - As Terras de Vouga nos Séculos IX a XIV - Território e Nobreza

[2] Espírito Santo, Moisés - Origens orientais da religião popular portuguesa, Assírio e Alvim, 1988

[3] Cassuto, U. (1962). "Baal and Mot in the Ugaritic Texts". Israel Exploration Journal. 12 (2): 81-83 (acessível via Jstor)

[4] Cálão, Hugo - Património Religioso de Ílhavo

[5] Fonseca, Senos da – Ílhavo - Ensaio monográfico – século X ao século XX

[6] Ugarit – Wikipedia

 

[7] Enciclopédia Britanicca / internet

[8] Toorn, Karel van der, Becking, Bob, Horst, Pieter Willem van der - Dictionary of Deities and Demons in the Bible

[9] Espírito Santo, Moisés – Dicionário Fenício – Português – Universidade Nova de Lisboa – 2ª edição

[10] Tsumura, David Toshio - Canaan, Canaanites in Bill T. Arnold & Hugh G. M. Williamson (eds), Dictionary of the Old Testament: The Historical Books. Leicester: InterVarsity Press, 2005.

[11] Girão, Amorim - Geografia de Portugal (1941)

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Possíveis origens fenícias de topónimos do nosso território

Primeira parte – Por montes e vales, ou talvez não…

por Lourenço Proença de Moura, em 02.10.20

Vista_panoramica_Torre_igreja_Caria_1991.jpg

Panorâmica tirada da torre da igreja de Caria – justaposição de fotografias
Na linha do horizonte, sobre a esquerda, a Serra da Estrela, antigos Montes Hermínios. Sobre a direita, a Serra de Nossa Senhora da Esperança, antigos Montes Crestados [3], vislumbrando-se por trás, sobre o lado direito a vila de Belmonte
LMCPM - 1991

Introdução

Passaram já bastantes anos, desde que numa feira do livro comprei pela primeira vez um livro do Dr. Moisés Espírito Santo. No caso denominava-se Origens orientais da religião popular portuguesa seguido de Ensaio sobre toponímia antiga. O autor descreve de forma bastante detalhada, como muitas tradições populares de cariz religioso, ainda hoje praticadas e enquadradas em cerimoniais da religião católica, apesar de conterem características a ela estranhas, seguem padrões comuns e têm fortes semelhanças com ritos ancestrais vindos do próximo oriente. De forma complementar, explica como muitos topónimos do nosso território surgem de forma agregada, tendo possíveis significados que ganham lógica entendidos também à luz dessa hipotética origem.

Como esses efeitos tão fortes e de origem tão distante aqui chegaram, parece bastante anormal à primeira vista, mas se percebermos o processo histórico, vemos que houve um período de tempo em que tudo se conjugou para que os comerciantes fenícios tenham aqui estabelecido pontos de contacto e conseguido influenciar de forma significativa os povos que aqui habitavam.

Para entender melhor a minha argumentação sobre a forte influência que a cultura fenícia terá tido neste nosso território, sugeria a leitura do Anexo - 1 desta publicação que faz um breve enquadramento histórico-geográfico.

Já há muitos anos que deixei de ser criança, mas desde que "me lembro de ser gente", guardo na memória alguns momentos marcantes em que por razões diversas senti que se “fez luz” de algo que considerei relevante a nível da “compreensão das coisas”. A leitura do livro que referi foi para mim um momento desse tipo, abrindo-me novas janelas para ajudar a compreender este nosso espaço e povo.

Após esse livro adquiri outros do mesmo autor e com base nestas leituras tenho feito análises diversas, por mera curiosidade.

Sucede que, no início de 2019, num passeio casual de fim-de-semana nas imediações de Aveiro (adiante explicarei onde), de forma algo inconsciente surgiu-me uma interrogação, no contexto das referidas leituras, sobre o nome da localidade que estava a visitar. Poderia ter origem fenícia?

Analisei a situação com algum cuidado e fiquei entusiasmado com o resultado. Publiquei mesmo algumas das principais “descobertas” em Maio, no Diário de Aveiro. 

Porém, passado algum tempo mais, surgiu-me uma nova dúvida, que poderei resumir da seguinte forma:

Se na verdade a minha interpretação estava correta e as influências fenícias fossem tão grandes, por que razão em Portugal apenas temos uma terra com o nome em causa?

A dúvida curiosamente demorou poucos dias a encontrar uma resposta. Por uma daquelas coincidências do destino, uma primeira resposta relacionava-se com uma localidade bem perto da minha terra natal, Caria. E a seguir a esta, outras com nomes semelhantes, um pouco por todo o país.

Estas constatações são certamente controversas, pois tanto quanto sei, até ao momento não há provas seguras, sobretudo arqueológicas, de que tenham feito comércio a norte do Tejo. Porém, a confirmarem-se as suposições que aqui coloco, tal realmente aconteceu.

Ficou com curiosidade em conferir estas constatações e suposições?

Venha então comigo nesta viagem…

A localidade junto a Aveiro onde identifiquei topónimos e características que indiciam uma ancestralidade fenícia, denomina-se Vale de Ílhavo.

IMG_3656.JPG

Na próxima publicação relatarei o que encontrei.

Até lá, sugeria a leitura da secção seguinte, que justifica a razão do título desta publicação.

 

Análise à dispersão dos topónimos Vale no atual território de Portugal

O estudo feito tem como ponto de partida uma das dúvidas básicas que o Dr. Moisés Espírito Santo exprime, relativa a topónimos iniciados por “Vale”. Segundo ele, alguns destes poderão ter derivado do teónimo “Baal”, um dos deuses mais venerados do panteão fenício.

A transposição fonética de Baal para Vale é direta.

Esta análise foi feita de uma forma bastante simples, mas que me pareceu esclarecedora. Teve como base a aplicação informática que os CTT disponibilizam na internéte (www.ctt.pt), no caso a pesquisa de códigos postais, acessível ao público.

Fazendo uma pesquisa por distrito, encontramos a seguinte quantidade de topónimos que contêm a dita palavra “Vale” (ex: “Vale”, “Vales”, Quinta do Vale", “Vale de Cambra”).

O leitor pode fazer a pesquisa básica, bastando selecionar o distrito e escrever “*Vale*” (acrescentar um asterisco no início e outro no fim da palavra “Vale”). Saliento que os valores que irá obter serão em princípio ligeiramente diferentes pois terão por exemplo de retirar localidades que correspondem a coincidências de escrita. Exemplo: Macedo de Cavaleiros. A análise que fiz apenas manteve as localidades em que a tónica estivesse na sílaba “Va”.

Quantidade de localidades “Vale” por distrito, por ordem decrescente:

Santarém - 161
Leiria - 141
Coimbra - 132
Castelo Branco - 125
Faro - 115
Beja - 64
Aveiro - 60
Viseu - 54
Setúbal - 52
Lisboa - 45
Portalegre - 30
Bragança - 29
Vila Real - 26
Guarda - 25
Évora - 18
Braga - 9
Viana do Castelo - 6
Porto - 1

Penso que o leitor já constatou algumas curiosidades nestes números, tais como:

Alguns distritos com muitos "Vale" não são claramente dos mais montanhosos. Exemplos: Beja e Santarém, sendo este mesmo o que maior quantidade apresenta.

Pelo contrário, alguns distritos com muito poucos "Vale" terão decerto muitos vales. Exemplos: Bragança, Vila Real, Guarda, Braga e Viana do Castelo.

Penso ser suficiente esta análise para concluir que para lá da orografia, outros fatores terão tido muita relevância na adoção deste topónimo.

 

Anexo 1 – Breve enquadramento histórico-geográfico

O mar mediterrâneo, pelas suas características originais de mar fechado, numa zona temperada, rodeando terras de três continentes tornou-se desde os primeiros tempos um ponto de atração das tribos humanas. Dele retiravam alimento, mas também cedo terão descoberto formas de utilizar esse mar como passagem entre as diversas terras. O engenho humano potenciado pela riqueza resultante da troca de experiências dos povos, resultou em sucessivos aperfeiçoamentos aos mais diversos níveis, técnicos, sociais, etc. O comércio terá ocorrido de forma natural, inicialmente com base em trocas, tudo isto tornando possível o nascimento e desenvolvimento precoces de grandes civilizações. Como sempre sucedeu ao longo da história da humanidade, as épocas de maior progresso ocorreram e tornaram-se mais impressionantes quando os vários povos partilharam ideias, conhecimentos, bens.

A civilização egípcia será a que tem uma história melhor conhecida, mas outras houve também bastante desenvolvidas como a Minóica que terá decorrido entre os séculos XX e XV AC [2].

Estas primeiras grandes civilizações contudo terão influenciado muito pouco os povos que habitavam no espaço em que hoje está Portugal, dada a nossa posição exterior a esse mar inter-terras. Tal situação porém mudou, por volta do que seria o século VIII AC. Na verdade, por essa altura, o povo fenício, que tinha criado no mediterrâneo uma rede comercial bastante dinâmica, sustentada em técnicas de navegação bem consolidadas, ousou ultrapassar aquelas águas relativamente seguras, passando pelas colunas de Hércules / estreito de Gibraltar aventurando-se no bem mais perigoso Atlântico.

Rotas_Fenicias_Map of Phoenicia and its trade rout

Rotas comerciais fenícias [4]

Estas trocas comerciais terão durado vários séculos [2]. Para lá dos bens comerciados muitas outras influências tiveram nesta região, como sejam religiosas e sociais. Neste espaço habitavam várias tribos, vivendo da pastorícia, de alguma agricultura e naturalmente da caça e pesca. O impacto terá sido muito grande, por razões fáceis de entender. A cultura dos povos autóctones era pouco evoluída, a nível de tecnologias, formas sociais, etc. Teriam de passar mais de seis séculos até surgir o império romano e com ele chegar uma nova e grande vaga de conhecimentos técnicos e organização social. Por essa razão é de supor que muitas marcas terão sido aqui deixadas, não apenas físicas, mas também a nível da oralidade, em vocábulos e topónimos, ou de tradições que poderão ter perdurado no tempo se bem que com inevitáveis adaptações.

Os fenícios atribuíam valor a alguns bens que podiam ser recolhidos no nosso território, como por exemplo prata, ouro e sal. Trocavam-nos por bens aqui muito valorizados como cerâmicas, armas, cereais. Criaram entrepostos comerciais. Tinham uma abordagem pacífica pois tal era essencial ao comércio e estabeleciam contratos sociais [1]. Traziam uma tremenda inovação, o uso da escrita, suportada num alfabeto. A sua língua terá passado a ser usada como “língua franca” unificadora do que seriam os vários dialetos tribais, como hoje por exemplo é usado o inglês. Os seus cultos religiosos seriam com toda a probabilidade adotados ou miscigenados com os deuses autóctones, pois vinham de um povo que claramente tinha uma capacidade superior. Barcos impressionantes, armas temíveis. Este povo era decerto tão poderoso pois poderosos seriam também os seus deuses!

Estas influências terão sido consolidadas nas tribos contactadas, que as transportaram nas suas zonas de influência, as quais, como veremos se terão estendido até bem dentro do nosso atual território.

Referências

[1] Espírito Santo, Moisés - Fontes remotas da cultura portuguesa, Assírio e Alvim, 1989

[2] Chaniotis, Angelos - Ancient Crete - Oxford Bibliographies - (https://www.oxfordbibliographies.com/view/document/obo-9780195389661/obo-9780195389661-0071.xml) consultado em 13/5/2020

[3] Concelho de Belmonte Memória e História – Manuel Marques – Edição da Câmara Municipal de Belmonte – 2001

[4] Khan Academy - https://www.khanacademy.org/humanities/whp-origins/era-3-cities-societies-and-empires-6000-bce-to-700-c-e/32-long-distance-trade-betaa/a/read-phoenicians-masters-of-the-sea-beta

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Manuel_Proenca_Rebelo_arar_terra_1984_possivelment

Foto: O senhor Manuel Proença Rebelo lavrando a sua terra
LMCPM - 1982

Até um tempo relativamente recente, a grande maioria das pessoas cumpria o seu ciclo de vida quase sem sair da sua terra natal. Em Caria, como em todas as localidades do interior de Portugal, o dia-a-dia seguia as rotinas do tratamento da terra e do cuidar do gado. Se Deus Nosso Senhor assim o determinasse, recolheriam os frutos do seu esforço e assim sustentavam a sua família. As palavras ajustavam-se às necessidades e a fonética era o resultado de uma combinação de um caldo de cultura que veio de tempos remotos, recombinando-se em cada geração com o que de novo a sociedade ia propondo.

“As novidades”, sempre ocorreram em todas as épocas, mas o ritmo era muitíssimo menor do que atualmente. Com o evoluir dos tempos, sobretudo desde o final do século 19, tudo se alterou de forma progressivamente mais acelerada. A chegada do comboio, a abertura de estradas, o telefone, a rádio, a televisão, a mobilidade das pessoas para centros urbanos ou como emigrantes para “outros mundos” e, claro, as profundas mudanças sociais decorrentes da revolução de 1974, trouxeram uma avalanche de novos hábitos, novas práticas, tornando obsoletas e desnecessárias muitas das palavras que antigamente eram comuns.

Quem como eu nasceu e viveu a juventude numa pequena localidade como Caria até ao início da década de 1980, guarda na memória um mosaico único de palavras que constituía uma espécie de “impressão digital” da terra. Algumas das palavras são conhecidas um pouco por todo o país. Outras são mais específicas. Não houve preocupação em distinguir quanto a esse aspeto, mas tão só registar os termos de uso comum da minha terra natal, até há cerca de 50 anos atrás.

Este levantamento teve como ponto de partida, para lá da memória pessoal, outros levantamentos disponíveis na internet, em particular dois que são identificados no final desta publicação.

 

Ti Maria

Numa gravação áudio de 1991, “Cantadeiras de Caria”, na altura vendida no suporte de fita das “velhinhas cassetes” hoje em desuso, Maria Alcina (ver breve nota biográfica no final desta publicação) assume a personagem “Ti Maria”, onde num delicioso monólogo com o ouvinte vai explicando como lhe está a correr dia. Usa como seria de esperar muitos dos termos deste glossário.

Pode escutá-la aqui.
Selecione "Download" na página que surge.

 

Sugestões

Todas as sugestões de revisão são bem-vindas. Agradeço que para tornar mais eficaz a comunicação, as sugestões sejam encaminhadas para o meu mail pessoal: lmcpm@sapo.pt

 

Glossário de termos regionais de Caria / Belmonte

 

A

Abalar - Partir, ir embora

Abano - Utensílio para atear a fogueira

Acagaçado – Com medo

Acartar – Carregar, transportar

Achanatar - Fazer à pressa

Acunapado - Mal remendado

Acusa-Cristos - Denunciante

Aforrar (as mangas) - Arregaçar

Alancar (com o saco às costas) – Aguentar o peso

Alacrário – Lacrau

Alapado – Agachado, à espera, parado

Albarda - Sela rústica para animal de carga

Aldraba – Argola que fica do lado de fora da porta e que rodando faz abrir o trinco interno

Aldravada - Aldrabice

Amainar – Acalmar (muito usado referindo-se ao vento)

Amanhar (a terra) – Preparar a terra para o cultivo

Amargoso – Amargo

Amigar-se – Ir viver com a amante

Amochar – Aguentar um peso com resignação (com frequência associado a cargas físicas)

Amodorrado – Encolhido (por vezes associado a doença febril)

Amolancar / amolancado – Amolgar / Amolgado

Arreado – Vestido (possivelmente por associação jocoso aos arreios dos animais)

Arrelampado – Confuso, zonzo

Arreganhar (os dentes) – Atemorizar mostrando os dentes

Arreganhar (de frio) – estar a tiritar de frio

Arreliar - Provocar outro com o sentido de o irritar

Arremedar – Gozar com o outro, repetindo o que ele diz

Arrenegar – Esconjurar; Amaldiçoar

Arrocho – Pau curvo onde se penduravam os animais para ser desmanchado depois de morto

Arteiro – Vivaço (ex: Veio todo arteiro…)

Artolas – Mariola, armado em esperto

Atão – Então

Atazanar – Espicaçar / Enervar

Atiradeira – Fisga

Atoleimado – Tolo

Aventar – Deitar abaixo, deitar fora

Avesar / avesada (com isto) – Habituar / habituada (com isto); Ex: Avezamo-nos – Habituamo-nos

Asado – Ajeitado; Ter jeito

 

B

Bácoro – Porco

Badagaio (dar-lhe o) – Desmaiar, ir-se abaixo…

Badameco – Zé ninguém

Bandulho – Barriga (estômago)

Baraço – Novelo de corda

Barbeiro (estar um) – Estar frio

Barda (em) – Em grande quantidade

Bardamerda – (Mandar à) Merda

Barguilha – Abertura das calças

Barroco = Rochedo de granito de grandes dimensões (referido normalmente na sua localização natural)

Bate-cu – Cair de rabo no chão

Bedum - Sabor e cheiro do sebo na carne de borrego ou carneiro

Bento / Benta – Curandeiro, alguém que tem poderes de curar os males do espírito

Bica - Pão comprido e espalmado que se come pelos Santos feito com farinha triga e azeite; Servia de presente dos padrinhos aos afilhados. Fonte com água a escorrer por um tubo, telha, ou uma qualquer conduta que a faz sair da parede, muro ou tanque de onde a água provém.

Bichas – Lombrigas; verme parasita que por vezes se aloja no estômago e intestinos

Bisca – Jogo de cartas; “Bisca lambida” era um termo que derivaria da forma popular em que os jogadores humedeciam os dedos (lambiam) com saliva para melhor manusear as cartas, que se tornavam sujas e pouco higiénicas. Mas antigamente a higiene era um luxo e preocupação de poucos…

Bispo (entrou o) – A comida esturrou

Boa-vai-ela (andar na…) – Divertir-se, vadiar, sem grandes preocupações.

Bocachinho – Poucochinho, Bocadinho

Bôcho – Nome genérico para chamar um cão

Bodega – Coisa imunda

Boer – Corrupção de beber

Bofatada - corrupção de "bofetada"

Bofes – Pulmões

Bolacha / (andar à bolachada) - Sopapo / (andar à bulha dando sopapos)

Bolandas (andar em) – Andar em voltas complicadas

Bolir – (Mexer, incomodar)

Bonda (bem bonda) – Basta, já bem basta

Borco (de) – De barriga para baixo

Bordoada – Pancada com um pau (bordão)

Bornal - Saco em que se levam pertences ou a merenda. Saco com ração que se enfia no pescoço dos burros

Borra-botas – Pessoa sem posses a quem se pretende retirar qualquer valor

Borracho / Borrachana / Borrachão – Bêbado

Borralho – Braseiro na lareira

Borrega – Bolha de água na mão ou no pé

Botar – Deitar algo em algum lugar ou recipiente

Botelha - Cabaça, tipo de abóbora

Botica - Farmácia

Botifarra – Bota grosseira e grande

Braguilha – Abertura da frente da calça dos homens; equivale a “portinhola”

Braveira / apanhar uma... - Estar irritado e barafustar

Bromelho – Corrupção de Vermelho

Brusco (tempo…) – Tempo nublado, escuro, desagradável

Bucha – Bocado de pão com conduto

Bucho - estômago do animal (o termo pode ser aplicado ao nosso estômago - ex: enchi o bucho)

Bufa – Peido

Bulha – Zaragata

Búzio (o tempo estar... os olhos estarem...) - cinzento / enevoado

 

C

Cabeça de alho chôcho – Pessoa com pouco juízo

Cabo dos trabalhos – Expressão que se refere a algo que foi ou será muito difícil de fazer

Cachaporra – Pancada muito forte

Cachimónia – Cabeça (com o sentido de cérebro – pensar)

Cachopa / cachopo - Rapariga / rapaz

Caco (menino do…) – Menino mimado

Cagaço – Medo, susto

Caga-lume - Pirilampo

Cagança – Gabarolice

Caganeira - Diarreia

Caganeirento – Vaidoso

Caganito – Pequena quantidade de algo

Caguinchas - Medroso

Cagulo (de) – Estar cheio ao máximo (comida tipicamente – não se aplica a líquidos)

Calhoada – Pedrada

Calmeirão – Homem corpulento

Caluda! – Expressão para exigir silêncio

Cambada – Corja; Gente de má índole (aplica-se a um conjunto de pessoas e não individualmente)

Canalha – Crianças pequenas

Cantareira - Armário ou estrutura montada numa parede para colocar os cântaros, sobretudo os cântaros de água (quando a água era recolhida de fontes públicas ou naturais), mas também pratos e copos.

Cantilena - Cantiga

Caracho – Expressão de admiração; Equivale a Carago

Carago - Expressão de admiração; Equivale a Catancho e a um termo ainda hoje em uso com as mesmas duas sílabas iniciais.

Caramelo – Camada de gelo; frio intenso

Cardina - Bebedeira

Carrapato (=Encarrapato) – Carraça de pele lisa; Também se refere a alguém nú

Carrapicha (ir à) – Ir aos ombros (sentado nos ombros) de outro; Normalmente uma criança às carrapichas de um adulto

Carrapito – Arranjo de cabelo das senhoras em que o cabelo fica apanhado por trás e por cima (zona da coroa / occipital) formando um pequeno novelo

Carraspana – Bebedeira

Carrego (Um…) – Carga que seguia um padrão. Podia referir-se a um homem “levar um carrego às costas”, ou um animal, como por exemplo um burro

Carumba - Corrupção de "caruma", agulhas de pinheiro secas depois de cairem ao chão

Cascar (cascar em) - Bater em alguém

Castada - Corrupção de cacetada (pancada)

Casulo (do milho) - Interior da maçaroca

Catano – Expressão de admiração; Equivale a Carago

Catancho – Expressão de admiração; Equivale a Carago

Catita – Bem arranjado; Bonito

Catraio – Garoto

Catrapiscar – Piscar o olho a alguém

Catrefa – Grande quantidade (tipicamente quantidade de gente)

Cavalitas (andar às) – Andar às costas de alguém; tipicamente crianças

Catrino (ai o) – Desabafo; equivale a “Mas que raio!”; Equivale a Catano e Catancho

Chanato - Sapato

Chão – Pequena horta

Chambaril - Pau ou ferro para pendurar o porco após ser morto, para se proceder ao ato de o "desmanchar"; Equivale a arrocho

Chiba – corcunda

Chicha – febra

Chincar – Espetar

Chinfrim - Barulheira /algazarra

Chita - Ficar a zero, por exemplo num jogo / ter um péssimo resultado; "Não ser chita" corresponde por exemplo a não ficar a zero, não ter o péssimo resultado

Côca – Entidade perigosa que se nomeava para assustar as crianças com medo, para não fazerem algo ou não ir a determinado sítio (pois podia vir a côca)

Corricho - Porco

Cravelha – Lingueta (trinco) da porta

Conduto – Pedaço de comida de origem animal (carne, chouriço…) para comer

Cunapa – Remendo

 

D

Danado (estar) - Estar furioso;

Derrancado – Extenuado; De rastos

Desandador – Chave de fendas

Desenculatrado – Escangalhado

Desenxabido – Sem gosto

Desobriga – Confissão anual pela Quaresma (para cumprir o preceito – pelo menos uma vez por ano…)

Destrocar (dinheiro) – Trocar tipicamente uma nota de valor elevado por notas ou moedas de menor valor.

Doidana (estar numa) - Estar a comporatar-se de forma irracional

Doidivanas – Pessoa de vida desregrada

 

E

Emborcar – Beber de forma sôfrega

Empancar – Bater em algo que não deixa avançar ou não deixa abrir da forma normal (por exemplo uma gaveta)

Empanturrado – Cheio de comida até ao limite

Empanzinado – semelhante a empanturrado, mas mais associado a pão

Empata (um…) – Alguém que não se desenvencilha no que devia fazer e atrasa os outros

Empenado – Torcido, torto; Diz-se também de uma mesa ou banco em que as pernas não estão à altura correta, e fica a abanar facilmente

Empinar (bebida) - Beber até à última gota; Termo possivelmente derivado do gesto que será comum fazer de colocar o recipiente na vertical para que tal se faça

Empranhar – Corrupção de emprenhar; Ficar prenhe, grávida

Encafuado – Escondido, oculto; Aplica-se também na simples situação de estar na cama todo coberto com o lençol ou manta (encafuado na cama)

Encalacrado – Estar numa situação comprometedora, difícil de sair

Encarrapato – Nú

Encarrapitar – Colocar / colocar-se por cima, tipicamente numa posição não muito estável. Exemplo:  O senhor encarrapitou a criança aos ombros.

Enfarruscar / enfuscar - Sujar com cinza ou pó de carvão

Engonhar - Perder tempo

Enjorcado (mal) - Mal enjorcado = mal arranjado, normalmente referente a "mal vestido"

Enjorcar – Engolir de forma sôfrega

Ensertado – Já aberto (um invólucro que esteve fechado com alguma coisa – tipicamente comida, mas que entretanto alguém já abriu e gastou parte)

Entornado - Bêbedo

Esborralhar – Desmanchar (em partes pequenas)

Esbugalhar os olhos – Abrir muito os olhos (como bugalhos?)

Escanchar – Abrir, alargar, rachar (frase comum “escanchar as pernas” – estar de pé com os pés / pernas afastados

Escarafunchar - Revolver; Esgravatar

Escarcéu – Ruído; tipicamente gritaria

Escarranchado; Estar sentado de pernas abertas (por exemplo montado num animal)

Escarrapachado – Equivalente a escarranchado; Mas também se aplica a um texto, por exemplo de um edital, que se queira dizer que está bem à vista (possivelmente por associação malandra de quando uma mulher de saias está assim deixará algo bem à vista…)

Escava-terra (uma… feminino) – Toupeira

Escápulas – Cápsulas de medicamentos

Escorropichar – Beber até à última gota, deixando o líquido escorrer

Esgalhar – Cortar os galhos (ramos mais pequenos); Também se aplica com o significado de andar de depressa (andar a esgalhar, andar na esgalha)

Esgana – Doença dos cães que lhes afeta a respiração (Nota: Este termo é o usado pelos veterinários)

Esganar – Matar por asfixia; Estrangular

Esgolaimada – Mulher com camisa aberta à frente de forma exagerada tendo em conta as convenções (nos anos 1960 podia ser algo extremamente discreto aos olhos de hoje…)

Esgróviado – Tolo

Esguedelhado – Cabelo desgrenhado

Esmifrar (alguém) – Explorar alguém de forma abusiva; Ex: conseguir obter muitos bens / dinheiro dessa pessoa

Esmoer – Fazer a digestão

Estortegar – Torcer e danificar um membro – Ex: “Estorteguei um tornozelo” equivalendo a “torci / desloquei um tornozelo”

Espichar – Esguichar; Líquido que sai sob pressão de um orifício pequeno

Espinhaço / espinhela – Coluna dorsal

Espojar-se – Rebolar-se no chão e encher-se de pó / areia

Esquecido – Tipo de bolo regional achatado e redondo, com massa parecida com o pão de ló, mas seco

Estafermo – Pessoa de má índole

 

F

Farrusco - Estar enfarruscado; aplica-se também ao tempo atmofésrico com o sentido de nublado (equivale a "estar búzio")

Fedelho – Criança / miúdo (pejorativo)

Fraldisqueiro – Mal vestido

Fumaceira – Fumarada / Muito fumo

Funda – Quantidade de azeite que se teve por uma quantidade de referência de azeitona (Ex: Um alqueire)

 

G

Gacho (de uvas) - Corrupção de "cacho"

Gadanha - Concha da sopa

Ganas – (dar nas ganas) Decidir-me a … (ter ganas) Ter vontade muito forte de…

Gasganete – Goela / garganta

Gola – Goela / Garganta

Gosma (estar com a) – Estar com catarro

 

J

Jaja – Fato / Roupa

Javardo – Porco

Jeira - Parcela de terra que se consegue lavrar num dia pelos bois

 

L

Ladroeira - Ato de roubar (pode não ser o roubo de objetos, mas o de se vender a preço excessivo)

Lanho – Golpe / ferida

Lamúria – Choramingueira

Laréu (estar no) – Conversar (estar a)

Lavarinto (andar num) – Andar em grandes trabalhos e pressas, de um lado para o outro

 

M

Madeiro - Um único grande tronco de árvore, ou vários troncos de menor dimensão mas constituindo um volume igualmente considerável de madeira, o qual é ritualmente colocado a arder na véspera de Natal, numa praça central da localidade, procurando-se que a chama continue acesa até ao ano novo. Constitui um ponto de encontro das gentes da terra, sobretudo no final do dia, reconfortando-as da habitualmente gélida temperatura ambiente.

Mal-amanhado – Feito à pressa

Mal – enjorcado – Mal vestido

Malha (Levar uma) – Levar uma sova

Malina – Doença mortal epidémica (nos animais); muito frequente nos coelhos

Malmandado – Indivíduo desobediente

Malmurcho – Doença que murcha as plantas

Marrafa – Franja de cabelo comprida sobre a testa

Marrano - Porco

Matacão – Alguém corpulento e sem modos / abrutalhado

Matação – Matança do porco

Marreco – Corcunda

Mecha – Pedaço de pano que se põe a arder (exemplo: a tira que está embebida no petróleo – candeeiro de petróleo)

Medrar – Crescer

Melindrosa – Sensível / que fica facilmente afetada (por exemplo com doenças)

Mijinhas (às) – Aos poucos

Miminho do caco – Pessoa mimada

Mocho – Banco baixo e pequeno

Monca – Ranho (a pingar do nariz, ficando dependurado)

Mono – Amuado

Mordiscar – Pequena mordidela; Comer um pequeno pedaço de algo, tipicamente pão, cortando apenas com os dentes incisivos

Mosca-morta – Pessoa com pouca iniciativa

 

N

Nagalho – Pedaço de cordel

Nalgas – Nádegas

 

O

Ódespois / Osdespois – Equivale a “e depois…”

 

P

Panada – Pancada ; Exemplo: andar à panada – andar à pancada

Pantanas (ir de) - Cair

Pantominas – Trapalhão

Papo-seco - Pequeno pão de trigo, com uma forma peculiar, em que o padeiro batia com a mão no meio, em jeito de cutelo e puxava os extremos originando o que se denominava as "maminhas"

Pecarricho / Pequerricho - Pequeno

Pedrisco - Granizo

Pelainudo – Alguém com mau aspeto, mal vestido, desleixado

Peneiras / Peneirento – Vaidade / Vaidoso

Penicada - Fezes humanas

Penico - Esterco, estrume (para lá do habitual significado de recipiente próprio para se urinar e defecar)

Pentem – Corrupção de Pente

Pertelinho – Pertinho

Pincho – Trinco

Pindericalho – Algo pendente de pouco valor; Por exemplo uma bugiganga a fazer de colar

Pingarelho (armar ao) – Basófia

Pinoco – Marcador / pino (por exemplo um marco da estrada, ou um pino de um jogo da malha)

Pirisca – Parte final do cigarro, quase todo já fumado (os pobres apanhavam as piriscas dos outros e fumavam-nas)

Pita – Galinha

Pitrol – Petróleo

Poldras – Pedras que se colocavam nas ribeiras, afastadas um pouco umas das outras, mas permitindo passar a pé sobre elas sem se molhar

Portelo – Entrada da quinta

Portinhola – O mesmo que braguilha

Prantar – Colocar algo num sítio de forma muito exposta / que incomoda; Exemplos: “Prantaram-me aqui isto à porta!”; “Estás aí prantado a olhar para mim?”

 

Q

Quêdo – Quieto; Sossegado

Quelha – Viela estreita

Queimoso – Sabor do queijo picante

Quilhado – Prejudicado

 

R

Rabicho – Cabelo a fazer… “rabo de cavalo”

Ralado – Preocupado

Raimoso – Picante (ex: queijo)

Rebatinha (deitar à) – Deitar tudo de uma vez para quem quiser apanhar (quando alguém tinha por exemplo cromos de jogadores a mais que já não lhe interessavam, gerava alguma “festa” para os outros deitando-os ao ar e os outros corriam a apanhar)

Recusa (fazer) - Acusação, denúncia

Respigo – Pequena parte de um cacho de uvas

Roçar (o chão da casa) - Esfregar o chão da casa

 

S

Salvação (dar a) – Cumprimentar (quando se cruza com alguém)

Salta-roscas - Osga

Sobrado – Sótão

Soltura – Diarreia (= Caganeira…)

Somítico – avarento

Sopapo / andar à sopapada - bofetada / andar à bofetada

Sorna (ser um) – Preguiçoso

Sortes (ir às) – Ir fazer exame militar

Sumiço – Desaparecimento

Sucapa (à) - De forma a tentar passar despercebido

Sustância – Comida de maior riqueza proteica (ex: carne, peixe, ovos)

 

T

Tapada – Terreno agrícola com muro à volta

Tartulho – Tipo de cogumelo

Tinhoso – Nojento

Tomata - Corrupção de tomate

Topadela – Pancada imprevista com os dedos dos pés, a andar, tipicamente bastante dolorosa

Trambalazana – Brutamontes

Trambelho – Juízo

Trampa – Fezes

Trombas (andar de…) – Andar com cara de desagrado

Trouxe-mouxe – Feito rápido sem cuidado

Tuta e meia – Barato

 

U

Unto – Banha de porco

Úrsula – Corrupção de úlcera

 

V

Venda (a) – Pequeno comércio / mercearia

Veneta – Fúria

Vianda – Preparo de comida para dar aos porcos, tipicamente uma “sopa” com bastante água, legumes cortados e restos diversos de comida humana;

Vivo (O…) – Animais que se tratam. “Ir dar de comer ao vivo”, significa ir dar de comer aos animais. Porcos, coelhos, galinhas…

Vraveira (estar numa) – Estar bravo, irado – corrupção de “braveira”

 

X

Xé-xé – maluco

----- <> -----

Foram incluídas sugestões de:

Graça Neiva Correia Ribeiro
Dulce Pinheiro
José Joaquim Pinto de Almeida
Adozinda Pereirinha

 

----- <> -----

Breves notas biográficas da D. Maria Alcina.

Maria Alcina Cameira Franco Patrício (Caria 1920 – Lisboa 2012), dedicou boa parte dos seus estudos à música e às artes (Conservatório Nacional de Música; Escola de Artes António Arroio). Exerceu diversas atividades sobretudo relacionadas com o ensino de arte e desporto. Escreveu poesia. Teve intervenção política.

Manteve sempre um grande dinamismo demonstrando uma enorme alegria de viver, dinamizando ações na sua terra natal.

Criou o grupo Cantadeiras de Caria, o qual participou em eventos e festivais nacionais e internacionais.

Recebeu da câmara municipal de Belmonte a medalha de mérito municipal.

1985_Cantadeiras_2.jpg

Foto: Cantadeiras de Caria, cantando as Janeiras, em 1985
Maria Alcina surge com as mãos juntas, sensívelmente ao centro mas um pouco sobre o lado esquerdo
LMCPM - 1985

 

Agradeço aos filhos Albertina e António a concordância na divulgação da gravação aqui disponibilizada.

 

----- <> -----

Este levantamento consultou as seguintes páginas da internet. Aos seus autores, manifesto o meu reconhecimento.

Paulo Jesus - pj1966@sapo.pthttp://cidadedacovilha.blogs.sapo.pt/1820.html

Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa» - leitaobatista@gmail.com - https://capeiaarraiana.wordpress.com/category/o-falar-de-riba-coa/

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Breves reflexões sobre a origem do nome do arquipélago dos Açores

por Lourenço Proença de Moura, em 15.08.20

Mapa_Ilhas_terceiras_Lazaro_Luis_1563_Academia_das

E se o nome deste nosso território se devesse à devoção de um frade e a um simples mal-entendido?

Se o leitor ficou curioso com esta possibilidade, convido-o a acompanhar-me nestas próximas linhas.

Este tema está decerto no grupo de assuntos relacionados com a nossa História, que mais apaixonadamente tem sido alvo de debate, por historiadores ou simples curiosos como eu. Quase tudo terá já sido dito. Poderei dar algum contributo por mais pequeno que seja?

 

Como seria de esperar, há muita documentação coeva sobre “os descobrimentos” boa parte da qual apenas se pode consultar em arquivos de acesso restrito a estudiosos. Mas felizmente há imensa informação disponível na internet, sejam documentos digitalizados ou artigos de estudo. A Wikipedia por exemplo tem páginas interessantes centradas na vertente histórica. Nas referências incluo duas páginas, em português [1] e inglês [2] e que no que respeita à origem do nome curiosamente apresentam perspetivas um pouco diferentes.

Mas no essencial, como se poderá supor e conferir nas páginas citadas:

- há muitas fontes documentais antigas que referem o conhecimento de ilhas – algumas delas com nomes coincidentes com os atuais, antes da sua “descoberta” pelos portugueses;

- estudos recentes a nível da arqueologia indiciam a existência de estruturas de construção anteriores, mas não há ainda consenso sobre esta matéria;

- estudos igualmente recentes, de ADN, realizados em ratos, demonstraram existir ligações a antepassados de países nórdicos, possivelmente chegados em barcos, sendo coerente com a hipótese de terem chegado em embarcações viquingues.

Tal não deve surpreender nem pôr em causa nada de essencial no “nosso” mérito na arte da navegação e neste caso, no de conseguir povoar e tornar habitáveis estas remotas ilhas.

As breves reflexões que vou fazer focam-se em dois aspetos:

- O primeiro, é um singelo contributo para a denominação “Ilhas terceiras” que antecedeu a denominação atual e que durante alguns séculos conviveu com a nova identidade;

- O segundo, é uma proposta que penso ser original na defesa de uma das opções justificativas para o nome atual do arquipélago.

 

A denominação “Ilhas terceiras”

Não existe qualquer dúvida sobre este facto e o significado desta antiga denominação. Nas referidas páginas da Wikipedia tal é bem explicado. Correspondia à ordem de afastamento da costa. As primeiras eram as Canárias, as segundas o arquipélago da Madeira e finalmente as terceiras, os atuais Açores.

O belo mapa do cartógrafo português Lázaro Luís, datado de 1563 [15], de que retirei um detalhe para iniciar este texto e que aqui apresento noutra vista, é um bom exemplo desse posicionamento e da denominação.

Mapa_Ilhas_terceiras_Lazaro_Luis_1563_Academia_das

Mas a questão curiosa que aqui pretendo trazer é sobre o nome das ilhas, em particular da ilha Terceira. A explicação que mais frequentemente tenho ouvido e lido (por exemplo [2]) refere ter sido a terceira ilha a ser descoberta. Não me parece que faça sentido. O grupo central é constituído por 5 ilhas bastante próximas que terão sido “descobertas” praticamente em simultâneo.

Sucede que numa leitura casual, de um livro de ensino que foi publicado em Portugal em diversas edições entre o final do século 18 e o início do 19 – “Atlas moderno para uso da mocidade” [4], fui surpreendido com a leitura da descrição do arquipélago dos Açores. A imagem seguinte mostra essa explicação.

As_ilhas_dos_Acores.jpg

Está escrito num estilo comum na época, na forma de perguntas e respostas. Para a pergunta sobre quantas ilhas são, surge a resposta que logo ao início nos surpreende:

Nove, cujos nomes são:

- As duas Terceiras

- A Graciosa… e por ali continua.

Torna-se fácil de perceber que o Faial ainda não tem nome próprio nesta lista. O Faial é ainda uma “ilha Terceira”.

Note-se que o nome “Faial” já surge referido em descrições e mapas muito anteriores, como o já referido de Lázaro Luís. Mas o que esta descrição parece mostrar é que na verdade as ilhas apenas foram ganhando identidades oficiais à medida das necessidades. O Faial terá sido a última a ganhar a sua “alforria identitária”. A Terceira não precisou de o fazer. Se todas as outras tinham nomes próprios distintos dela, ela já não precisava de mudar. Ficou com o “nome da família”!

 

Vejamos agora o segundo tema - a questão da razão de ser do atual nome do arquipélago.

Nos tempos mais recentes o debate tem sido feito sobre três hipóteses [1]:

  • Dever-se à presença de milhafres identificadas de forma errada pelos marinheiros portugueses como sendo açores. Esta justificação é algo estranha pois há muitas diferenças quer físicas quer na forma de voar e naquela época esse era um conhecimento das gentes do povo; Porém, de facto muitas fontes antigas referem essa justificação.
  • A devoção de Gonçalo Velho a Santa Maria dos Açores, padroeira da freguesia de Açores, em Celorico da Beira, no Distrito da Guarda;
  • Provir do nome Azzurro em italiano ou Azureus em latim, que significa Azul em português, como referência ao céu azul num dia brilhante e claro quando as ilhas se veem ao longe (em [1] consideram esta a possibilidade mais forte).

Pessoalmente, considero mais plausível a segunda opção e vou explicar as razões. O que a seguir refiro é conhecido dos estudiosos, mas será importante para contextualizar o leitor.

Na verdade, na época em que as ilhas foram descobertas, a devoção a Santa Maria dos Açores era muito forte, pelo menos na Beira interior. No final desta publicação, em “Informação anexa” faço uma breve referência aos milagres que terão sido mais famosos.

Penso não existir muita informação disponível sobre este tema, mas irei mostrar um exemplo bastante elucidativo e que está consultável na internet [6] – Trata-se das "Cronicas del Rey Dom João de gloriosa memoria" (Dom João I, fundador da Dinastia de Aviz), escritas por Duarte Nunes do Leão (n.1530 - f.1608).

Se selecionarem a ligação, acedem diretamente ao conteúdo que apresento na imagem seguinte, focado no ponto que quero realçar.

Partindo_se_logo_El_Rei_da_Guarda.jpg

Qual o contexto e o que diz este relato? O reino de Portugal está a atravessar a denominada crise de 1383 – 1385. D. Fernando falecera sem deixar descendência masculina. D. João de Castela, casado com D. Beatriz, filha de D. Fernando, seria quem deteria o direito de reinar. Porém em Portugal havia grande oposição a que tal sucedesse, em particular da parte da burguesia e do povo. Pelo contrário, a maior parte da nobreza defendia a posição do rei de Castela. Em 1384, D. João de Portugal foi aclamado como regente. Este, nomeou Nuno Álvares para fronteiro do Alentejo. Tendo conhecimento destas movimentações, o rei de Castela entrou em Portugal para tentar fazer valer os seus direitos. Não traz ainda o enorme exército que um ano mais tarde batalhará em Aljubarrota, pois nesta fase pretende sobretudo reunir quem lhe fosse favorável.

É neste ponto que se situa o texto da crónica. E o que nos diz ele? Que El Rei de Castela, depois de entrar em Portugal, dirigiu-se à Guarda, fazendo depois romaria a Santa Maria dos Açores seguindo depois para Celorico…

Ou seja, o próprio Rei de Castela conhecia a devoção e atribuía-lhe tanta relevância que mesmo num contexto de tensão e crise – ou até por isso - fez questão de passar naquele local.

Penso que este exemplo é claro da importância deste culto pelo menos nesta região, chegando mesmo ao reino vizinho.

Vejamos agora o que se sabe sobre a “descoberta” das ilhas, mas sobretudo sobre o início do seu povoamento.

Existe algum debate sobre quem “descobriu” os Açores. Há os que defendem que foi Diogo de Silves. Há também quem refira Gonçalo Velho. Mas para o que pretendo salientar esse aspeto não é relevante, mas sim o seu povoamento. E sobre isso não existem dúvidas.

Em 2 de Julho de 1439, por sua lealdade e por sua reconhecida experiência no mar, o Infante Dom Henrique designou-o (Gonçalo Velho) para "povoar e lançar ovelhas nas sete ilhas" do Arquipélago dos Açores. Levou famílias do Alentejo, Estremadura e do Algarve, e gado para as ilhas de Santa Maria, estabelecendo-se na Praia do Lobo. Em 1444 inicia a colonização da Ilha de São Miguel, onde funda a vila de Povoação [9].

Ou seja, a primeira ilha a ser povoada foi Santa Maria. Apenas cerca de 5 anos depois se iniciou o povoamento de São Miguel, ainda por Gonçalo Velho. As outras ilhas naturalmente seguiram-se em datas posteriores com outros donatários.

Sucede que os pais de Gonçalo Velho eram da beira interior. A mãe, Maria Álvares Cabral (Tia bisavó de Pedro Álvares Cabral) era de Belmonte, localidade bastante próxima de Açores.

Ascendencia_Goncalo_Velho.jpg

Árvore genealógica de Gonçalo Velho [10]
Nota: Podemos também situar Fernando Álvares Cabral que foi avô de Pedro Álvares Cabral

Na figura Gonçalo Velho surge aproximadamente no centro. Como se refere também na figura, o pai era alcaide de Veleda (Não consegui situar este castelo - ver nota sobre este tema no final – informação anexa) título dado por el-rei D. Fernando. Foi-lhe também atribuído o Souto da Mercê. Sobre este último território consegui encontrar referências. Ocupava uma área bastante extensa entre a Gardunha e o vale do Zêzere, desde Alcongosta até aos limites do Castelejo, passando pelo Souto da Casa, Aldeia Nova e Aldeia de Joanes, até às povoações de Donas e Alcaide [8]. Ou seja, um território um pouco a sul de Belmonte mas muito próximo.

Não se conhece o local de nascimento, mas terá sido provavelmente nesta região. Significa isto que Gonçalo Velho não podia deixar de conhecer e valorizar este culto. Até porque temos que ter em conta um outro fator… Gonçalo Velho seguiu a via religiosa. Ficou aliás conhecido por Frei Gonçalo Velho.

Estamos finalmente no ponto em que, penso eu, sugiro uma interpretação original sobre o que terá sucedido.

E o que terá sucedido?

Gonçalo Velho denominou a primeira ilha que povoou não simplesmente de “Santa Maria”, mas de “Santa Maria dos Açores”. E assim terá sido chamada nos primeiros anos. Porém esta devoção não era conhecida de todos, mesmo em Portugal, nestes tempos em que o poder e a posse da terra seguiam ainda um modelo feudal e com ele toda uma estrutura social tendencialmente fechada nos domínios dos senhorios. Por exemplo Diogo de Silves, se como se argumenta era algarvio, poderia não a conhecer, à semelhança dos seus companheiros naturais desta região de onde muitas armadas partiram. Por maioria de razão seria desconhecida de navegadores de outras nacionalidades.

Por outro lado, como se refere por exemplo no livro Memórias para a história de Portugal [11], a ilha de Santa Maria juntamente com a de São Miguel eram, naquele tempo de rotas ditadas pelo vento, tipicamente as primeiras a avistar.

Assim, ao se dirigirem para esta ilha recém-povoada, ou mesmo passando ao largo, ouvindo nomear “Santa Maria dos Açores”, terão associado o termo “dos” à comum ideia de pertença. Ou seja, o nome da ilha para esses primeiros visitantes seria simplesmente “Santa Maria” a qual pertencia aos “Açores” que neste contexto só poderia ser o nome do arquipélago.

O nome era simples e foi rapidamente partilhado. Serviu os propósitos da comunicação entre as gentes e foi quanto bastou. Usando uma expressão popular “pegou de estaca”.

Esta hipótese tem uma curiosidade…

Tendo ficado a ilha Terceira com o nome da “antiga família”, a ilha de Santa Maria seria a “ilha madrinha” das suas irmãs no que se refere a lhes ter dado o nome da “ nova família”…

 

Se me permitem terminar em jeito de romance, imaginem então o dedilhar de um alaúde e uma toada como na “Nau Catrineta”…

Era uma vez nove irmãs, filhas da Terra e do Mar.
Da família das “Terceiras”, esse nome partilhavam.
Gonçalo Velho chegou, para duas povoar,
E
 novos nomes lhes deu, melhor assim as chamavam.

Santa Maria dos Açores, chamou à ilha primeira,
Pela devoção que tinha, à sua Senhora da Beira
Os marinheiros de longe, tendo nela aportado
Pensaram “Açores” ser, o arquipélago chamado!

----- <> -----

 

 

Referências

[1] Wikipedia – História dos Açores

[2] Wikipedia – History of the Azores

[3] Wikipedia – A ilha Terceira

[4] Atlas moderno para uso da mocidade – Typographia Rollandiana – Lisboa 1812

[5] Wikipedia – Açores / Celorico / Guarda

[6] Cronicas del Rey Dom João de gloriosa memoria o I deste nome… – Duarte Nunes de Leão – Lisboa 1780

[7] Celorico da Beira através da História – Margarida Sobral Neto

[8] O culto a S. Brás e a Misericórdia do Fundão. Devoção, memória e patrimonialização – Pedro Miguel Salvado e Joana Bizarro – Revista online do Museu de Lanifícios da Beira Interior

[9] Sítio da internet – Genearc – Página sobre Fernão Velho

[10] Concelho de Belmonte Memória e História – Manuel Marques – Edição da Câmara Municipal de Belmonte - 2001

[11] Memórias para a história de Portugal que compreendem o governo del rei D. João o I – José Soares da Silva - 1730

[12] Portugal antigo e moderno – Volume segundo – partes 3 e 4 Padre João Batista de Castro – 1763 (página 238)

[13] Corografia portugueza e descripçam topografica do famoso reyno de Portugal – Tomo terceiro – Padre António Carvalho da Costa – 1708 (Páginas 365 e 366)

[14] - Quarta parte da monarquia lusitana – Frei António Brandão – 1632

(El rei D. Sancho primeiro) - Páginas – 6 (verso), 7 (frente e verso), 8 (frente)

[15] Mapa de Lázaro Luís – 1563 – Academia das Ciências

----- <> -----

INFORMAÇÃO ANEXA

Notas sobre o castelo de que Fernão Velho foi alcaide

Fernão Velho, pai de Gonçalo Velho, foi nomeado por D. Fernando alcaide de um castelo. Sucede que, não tendo eu acesso à fonte original, encontrei referências diferentes, como a seguir exponho.

Como se mostrou na árvore de família de Gonçalo Velho, Manuel Marques refere Veleda como o nome do castelo.

Numa outra página de genealogia (ver ligação)surge também como senhor de Veleda.

Encontrei porém uma outra página com outra denominação que me pareceu bem sustentada. Trata-se de um repositório académico, refere a data (1/5/1370) e o lugar (Pontevel) onde foi assinado e onde se encontra o original.

Doação do Castelo de Aveleda a Fernão Velho

Refere o castelo como sendo de Aveleda.

De acordo com os registos de códigos postais temos terras com este nome nos concelhos de Braga, Bragança, Chaves, Cinfães, Lousada, Paredes de Coura, Valpaços, Vila Verde e Vila do Conde.

Mas nenhuma com castelo.

Nesta outra página da Enciclopédia Açoriana referem que o castelo era da Valada…

Depois de alguma pesquisa, encontrei uma referência ao castelo de Santarém como tendo essa denominação (Valada).

Porém fiquei na dúvida, pois parecer-me-ia mais natural que no documento de nomeação fosse identificado pela cidade e não por uma denominação aparentemente local. Além de que no levantamento de alcaides de Santarém não surge Fernão Velho.

Alcaides de Santarém – Wikipedia

----- <> -----

Lendas em torno dos milagres de Santa Maria dos Açores [7] (páginas 105 e 106)

(transcrição do documento referido)

O brasão do concelho de Celorico ostenta como elementos simbólicos um castelo, uma águia com um peixe nas garras, cinco estrelas e uma figura representativa da lua.

Segundo informação dos priores das três freguesias urbanas de Celorico, apresentada nas Memórias. paroquiais de 1758, a figuração referida fazia parte da bandeira da câmara, sendo interpretada da seguinte forma: a águia e a truta reportavam-se a uma estratégia utilizada pelo Alcaide-mor de Celorico para induzir o conde de Bolonha a levantar o cerco ao castelo. Por sua vez, as estrelas e a lua evocariam o milagre ocorrido durante uma batalha (travada num campo próximo de Trancoso) contra um rei de Leão, segundo o qual a lua "parara” até ao desfecho vitorioso das tropas portuguesas. Este milagre foi atribuído a Nossa Senhora dos Açores. Em reconhecimento deste prodígio dos céus, as câmaras da cidade de Guarda e das vilas de Trancoso, Linhares, Algodres e Mesquitela deslocavam-se, todos os anos, em romagem à ermida da milagrosa senhora, em dias diferentes, entre a primeira oitava da Páscoa e o domingo da Santíssima Trindade (Rodrigues, 1992: 139). Esta tradição é referida em vários documentos da época moderna, nomeadamente no foral manuelino de Celorico, no capítulo em que se destina uma parte das receitas do montado aos cavaleiros que participassem no cortejo que anualmente se dirigia a Santa Maria dos Açores, acompanhando, a cavalo, a bandeira do concelho.

Santa Maria dos Açores era uma criatura divina a quem se atribuíam três grandes milagres. O primeiro remonta ao momento do encontro da imagem da Senhora, ocorrido após a mãe de Deus ter salvo do afogamento um pastor e uma vaca que tinham caído numa lagoa; o segundo, manifestou-se através da devolução da vida, e de um corpo são, a um filho de uma rainha, vinda de longe em busca de cura para as deformidades físicas e que entretanto falecera; finalmente, o terceiro realizara-se no mesmo contexto do segundo, no momento em que o rei se preparava para cortar a mão de um dos seus criados que, inadvertidamente, deixara fugir um Açor; por intercessão divina a ave interpusera-se entre a lâmina cortante e o vassalo salvando-lhe a vida.

Celorico da Beira e Linhares - Adriano Vasco Rodrigues - 1992

 

Nota pessoal

Este texto sintetiza as lendas e os milagres desta devoção. Mas se o leitor tem curiosidade em conhecer textos antigos em que o mesmo tema é descrito, sugiro que aceda às ligações das referências [11], [12], [13] e [14], em particular a esta última, mais antiga e mais longa.

Apresento aqui apenas o texto da referência [13] para ilustrar a forma antiga de relatar este tipo de veneração.

Corografia_Portuguesa_1708_1.jpg

Corografia_Portuguesa_1708_2.jpg

Corografia_Portuguesa_1708_3.jpg

 

----- <> -----

Breves referências à localidade dos Açores

Não era minha ideia inicial fazer referência específica a esta localidade, pois presumi que estivesse razoavelmente divulgada. Sendo uma terra muito antiga (uma lápide na igreja remete para a época visigótica) com uma devoção que foi relevante na nossa História, para não falar da possibilidade de ter sido a inspiradora do nome do arquipélago dos Açores, havia razões de sobra para que houvesse bastante informação e imagens na internet.

Pode ter sido minha falha, mas para lá de um breve artigo na Wikipedia, apenas encontrei algumas descrições das lendas. Imagens do interior da igreja não encontrei.

Julgo que esta localidade merece mais reconhecimento e visibilidade, em particular a igreja.

Apesar de se perceber que passou por inúmeras "obras" desde a sua construção original que terá sido gótica, ainda tem motivos de interesse. Por exemplo a imagem de Santa Maria dos Açores com um dessas aves aos pés, os quadros descrevendo os milagres e a epígrafe visigótica.

Não tendo encontrado imagens melhores, aqui mostro algumas fotos que tirei há cerca de seis anos, apesar da fraca qualidade pois foram tiradas sem "flash" por um telemóvel com baixa sensibilidade à luz.

Nota: A sua localização, mesmo sem utilizar GPS é bastante fácil. Se por exemplo estiver a percorrer a A25, no sentido Aveiro => Guarda, já relativamente perto da Guarda, mas ainda sem iniciar a subida da serra, passa por Celorico da Beira à sua esquerda. Fique então atento, pois cerca de 7 Kilómetros depois terá a saída para a aldeia dos Açores, a qual está logo ali muito perto. Boa viagem. Boa visita.

IMG_20131213_161829.jpg

 

IMG_20131213_161745.jpg

 

IMG_20131213_161814.jpg

 

 

IMG_20131213_161806.jpg

 

 

IMG_20131213_161942.jpg

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D