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Ecos de uma longínqua memória judaica?

por Lourenço Proença de Moura, em 05.08.22

Lintel_ao_natural.jpg

A minha terra natal Caria, no concelho de Belmonte, irrigada por duas ribeiras, com solo fértil e água em abundância, possui diversas marcas do seu passado, de terra há muito habitada.

Muitas iniciativas se têm feito para preservar e valorizar o nosso património, como por exemplo a Casa da Roda dos expostos e a Casa Etnográfica. Mas há diversos outros artefactos e espaços que merecerão atenção. Alguns já os referi neste blog como os “Armários sagrados”.

O que agora aqui partilho refere-se a uma gravação discreta mas que considero muitíssimo curiosa, num lintel em granito de uma porta e que surge no início desta publicação. Estava oculta pelo reboco até há cerca de 20 anos, tendo ficado à vista com obras de renovação.

Qual a sua interpretação?

Sugiro que o leitor analise a imagem por uns momentos.

À esquerda surge uma data, que na minha leitura é bastante clara, 1598. Apenas para contextualizar o leitor, segundo o livro “História de Portugal em datas” [1], neste ano estamos sob o domínio filipino que se iniciara em 1580, sucedendo precisamente em 1598 a transição de Filipe I de Portugal para Filipe II seu filho. Decorria uma grave crise agrícola e no ano anterior houve um surto de fome. Para piorar a situação começava uma nova pandemia de peste! Tempos difíceis para todos, mas sobretudo para o povo…

Assumindo que a data é clara, o mesmo não sucede com os símbolos do lado direito, bem mais difíceis de destrinçar. Parecem letras, mas não estão gravadas na habitual norma latina de caracteres maiúsculos. Dir-se-ia que a maioria das letras está em formato de letra minúscula.

A imagem seguinte mostra o que julgo serem as linhas dos sulcos principais.

Lintel_Josefo.jpg

As hipotéticas letras parecem representar Jos…f…

Como poderemos validar esta hipótese?

Felizmente temos uma boa e fácil forma de o fazer! Se analisarmos os livros paroquiais desta época, que se encontram digitalizados e acessíveis na internéte [2] podemos ver registos como o que mostro a seguir.

Registo_nascimento_Joao_filho_de_Baltasar_Gomes.jp

A transcrição pode ler-se como:

Ao derradeiro (último dia) de Agosto de 1601, bautizei João filho de Balthasar Guomes e de Maria Hyeronima (Jerónima) … foi padr. (padrinho) Brás Afonso deste luguar e madrinha Constança de Proença mulher de Francisco Rodrigues da vila da Covilhã. Por verdade…

A transcrição em concreto não é o que mais interessa nesta análise, mas permitir ajudar o leitor a conferir a grande proximidade de aspeto entre as letras “J” maiúsculo, “o”, “s” “f” da gravação.

Parece que quem fez esta gravação foi o pároco de Caria… 😊 com letra manuscrita e depois alguém abriu rasgos a cinzel…

Qual o significado destas letras?

A palavra / nome que de imediato me veio à ideia foi “Josefo”. A letra entre o “s” e o “f”, apesar de estar bastante desgastada pode ter sido de facto um “e”. Depois do “f” por sua vez surge ainda uma marca, mas a uma distância relativamente grande, pelo que presumo não corresponder à letra seguinte. Em qualquer caso “Josefo” será com grande probabilidade o nome representado.

Sucede que esta hipótese levanta uma grande questão…

Trata-se de um apelido judaico!

Ora nesta data tal não deveria suceder. Já tinha decorrido cerca de um século desde o decreto de expulsão dos judeus assinado por D. Manuel I. A alternativa era converterem-se ao cristianismo. Nesse caso adotavam novos nomes de batismo sucedendo o mesmo ao apelido, que seria por exemplo o do padrinho cristão-velho. De facto, se virmos os livros paroquiais desta mesma época, encontramos os muito comuns Álvares, Antunes, Geraldes, Fernandes, Gonçalves, Pires, Martins, etc, mas nunca apelidos que remetam como este para origens judaicas.

Para quem tenha curiosidade por história e em particular pela história judaica, este apelido poderá ser-lhe familiar. Flávio Josefo [3], foi um historiador romano de origem judaica, a quem devemos relatos detalhados sobre o povo judeu e das lutas contra Roma.

Por que razão tal apelido foi assim exposto de forma tão temerária? Naturalmente não sei responder.

Por último, uma possível interpretação para os sinais que surgem entre a data e o nome. Parecem ser duas pequenas marcas, que se fossem letras seriam um “o” por cima e um “J” por baixo. Teriam algum significado?

Bom… seguindo a hipótese de que estamos perante letras com estilo manuscrito, a possível resposta surge de imediato. Escrever a letra “J” maiúscula, com um “o” minúsculo por cima é uma forma simplificada de nesta época se escrever “João”.

Podemos por exemplo ver a imagem seguinte, de um outro registo de batismo que surge no mesmo livro, algumas folhas depois do registo que mostrei antes. Vemos aqui essa escrita abreviada do nome da criança que curiosamente também é "João" como o anterior. Podemos fazer a transcrição do registo para “Aos 25 dias do mês de fevereiro da dita era de 607 (1607) baptizei Jo (João) filho de Gaspar Esteves e Sabina Antunes. Foram padrinhos Manuel Antunes e Susana Domingues. E por verdade assinei aqui mês e era como acima…

Registo_nascimento_Joao.jpg

Em jeito de síntese

Estamos perante uma gravação que não segue um formato convencional com símbolos latinos em maiúsculas e usa uma forma de escrita caligráfica. Assumindo que a interpretação “Josefo” está correta, ela é coerente com a possibilidade de os símbolos do meio corresponderem à abreviatura de “João” pois “Josefo” é normalmente um apelido.

Teríamos assim que nesta casa terá habitado João Josefo, descendente de cristãos-novos, possivelmente cripto-judeu, que detinha a escassa competência de saber ler e escrever e com a sua própria caligrafia assinalou que nesta casa vivia.

Por alguma razão a sua família conseguiu manter o apelido judaico, se bem que o nome de batismo fosse neutro, pois “João” é nome adotado por cristãos e judeus.

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Notas complementares e um jogo de “Caça ao tesouro” que poderá fazer em família…

Tem curiosidade em ver esta epígrafe no seu local?

Se por acaso quiser saber onde este lintel se encontra, pode observá-lo no seu local, acedendo a este endereço do “Google Maps”. É bem no centro da vila na parte mais elevada, na Rua Direita, relativamente perto da igreja e da Casa da Torre.

Trata-se da travessa / lintel da 2ª porta verde.

Uma outra epígrafe muito curiosa a poucos metros desta

Já agora, se gosta de curiosidades do nosso passado, se fizer uma visita a este local, poderá ver muito perto, num outro lintel da porta principal da Casa da Torre, um interessante texto em latim, cuja imagem transcrição e tradução aqui mostro.

Lintel_Casa_da_Torre_epigrafe.jpg

De acordo com Manuel Marques [4] a transcrição é:

Mille Dolos victis domus est haeC Condita quando

X indiCat et major lItera quaeque tibI

 

Segundo o mesmo autor, uma possível tradução é:

Vencidas mil dificuldades esta casa foi construída

quando indica a incógnita X e também as letras maiúsculas

 

Ou seja, as maiúsculas e a incógnita X indicam a data de construção:

MDCCXCII – 1792

 

Já António Borges [5] mantendo o sentido do entendimento da data, propõe uma diferente tradução:

Vencidos mil ardis, foi esta casa fundada quando

X e cada uma das letras maiores te indicam

Esta interpretação também possível à luz dos vários significados das palavras latinas, corresponderia a terem sido ultrapassadas muitas dificuldades, mas que não eram decorrentes dos acasos e sim de oposições intencionais de alguém. António Borges coloca algumas hipóteses para explicar de onde poderiam vir estas oposições, mas esse é um tema já fora do âmbito desta simples publicação.

Note-se que esta é a data de uma reconstrução profunda. Este espaço foi habitado desde tempos bem mais distantes. Ao lado de uma outra porta de formato ogival, situada nas traseiras, podemos ver outra inscrição com a data de 1360.

 

Uma “Caça ao tesouro” que poderá fazer em família numa visita a Caria

Cruciforme.JPG

Um património relativamente pouco divulgado diz respeito a marcas antigas, existentes nas casas, sobretudo nas ombreiras das portas mas também na pedra superior – lintel ou mesmo nas fachadas. Na sua maioria apresentam simbologia cristã, com cruzes em muitas variantes.

Não há certezas quanto à sua origem e significado. São naturalmente invocações cristãs. Poderão ter sido usadas para apelar à proteção divina sem outra pretensão, mas há quem refira a possibilidade de ter sido uma forma de os cristãos-novos mostrarem a sua aceitação da nova fé. Na verdade, os locais de maior concentração destes grafismos correspondem com os espaços onde se presume se situar em maior número a comunidade judaica / cristãos-novos.

No livro Território de Caria - Marcas lutas e gentes, António Borges [5] faz algumas reflexões sobre este tema e mostra o resultado de uma recolha destas marcas, feita inicialmente pela Dra Elisabete Robalo dos serviços de arqueologia da Câmara Municipal de Belmonte, tendo depois a colaboração da Dra Graça Neiva Ribeiro.

Com base nesta informação editei um folheto que pode descarregar aqui.

Contém um mapa antigo de Caria (1957) onde se assinalam as ruas em que se identificaram estas marcas. E mostra os símbolos que cada rua tem, mas não indica onde.

O desafio é simples: Procurar encontrar (caçar) os vários símbolos. Quem mais encontrar ganha…

Note-se que boa parte deles têm uma marca colocada pela autarquia, o que facilita a procura, mas não deixa de ser um bom passatempo para fazer em família.

Se por alguma razão não encontrar algum, ou preferir aceder-lhes de forma mais rápida, neste outro documento tem indicado o endereço exato.

E claro que pode descobrir algum símbolo não catalogado. Seria muito interessante. Nesse caso não hesite em comunicar à Câmara de Belmonte, à Junta de Freguesia de Caria, ou a mim… lmcpm@spo.pt

 

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Agradecimentos

Ao Luís Proença Ribeiro que com a sua enorme disponibilidade e competência fotográfica me obteve uma “fotografia fresquinha” e de boa qualidade do lintel da Casa da Torre

Ao Professor António Borges por me facultar as imagens dos símbolos cruciformes para o folheto do “jogo”

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Referências

[1] História de Portugal em datas – Coordenação de António Simões Rodrigues, Círculo de Leitores 1994

[2] Ver www.tombo.pt – selecionando “Caria” e depois especificamente Caria / Belmonte

Surgem os livros disponíveis. As imagens apresentadas fazem parte do livro mais antigo – Livro misto 1594-1640

[3] Flávio Josefo - https://pt.wikipedia.org/wiki/Fl%C3%A1vio_Josefo

[4] Concelho de Belmonte – Memória e História – Manuel Marques – Edição da Câmara Municipal de Belmonte – 2001

[5] Território de Caria: Marcas lutas e gentes – António Borges – Edição do autor - 2020

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A Torre de Centum Cellas - qual a sua função?

Breves notas de leitura e de reflexão pessoal

por Lourenço Proença de Moura, em 29.01.22

CentumCelas_1_detalhe.jpg

Notas introdutórias – que temas procurei abordar

A Torre de Centum Cellas, também denominada Torre de São Cornélio, é decerto um dos monumentos mais icónicos e reconhecidos do nosso património. Situa-se no concelho de Belmonte, numa fértil planície percorrida pelo rio Zêzere. A Serra da Estrela é sua companheira próxima pelo lado poente, desaparecendo ao fundo no horizonte. Perto, pelo lado sul, a colina onde se situa a vila sede de concelho parece protegê-la.

CentumCelas_vendo_Belmonte.jpgVista de Belmonte a partir de Centum Cellas - LPM1987

É uma estrutura em granito com um carácter e imponência que ainda hoje induz respeito e admiração pelos muitos séculos que venceu. Sobre qual seria a sua finalidade, muitas lendas foram contadas, muitas hipóteses têm sido colocadas, muitos estudos têm sido feitos.

CentumCelas_1.jpg

Torre de Centum Cellas - LPM1987

Procurarei fazer uma síntese sobre o que até ao momento se conseguiu averiguar e referir um estudo que considero particularmente curioso, que para lá de abordar a torre em si, coloca uma hipótese muito interessante sobre o que pode ter sido uma povoação entretanto desaparecida. Por último, no que respeita a essa povoação, colocarei algumas hipóteses resultantes de observações e consultas pessoais.

 

Síntese do estado atual de averiguações arqueológicas

Têm sido colocadas ao longo do tempo várias hipóteses quanto à sua natureza, como por exemplo [1] ser um templo, uma prisão (pela associação ao termo “celas”), um acampamento romano, um mansio / estação de muda de animais de tiro (puxar veículos), um mutatio (albergaria para descanso dos viajantes), ou uma villa romana.

As escavações realizadas pelo IPPAR, entre 1993 e 1998, se bem que tenham coberto apenas uma pequena parte do que se veio a constatar ser um muito maior espaço de interesse arqueológico, mostraram que a Torre não se encontrava isolada, mas inserida num conjunto amplo e complexo. Seria a parte central e melhor conservada de uma villa.

O seu início de construção terá sido no 1º século da nossa era. Foi parcialmente incendiado e destruído em finais do 3º século. Nessa altura terá sofrido alterações. Bastante mais tarde, na denominada Alta Idade Média, ou seja, sensivelmente entre os anos 476 e 1000, terá incorporado uma capela dedicada a São Cornélio, a qual terá deixado de ser usada e “desapareceu” fisicamente no século XVIII mas permaneceu na memória das gentes.

 

Era uma vez… os Lancienses…

Para tentar saber mais informações sobre a possível origem desta estrutura, temos naturalmente que nos socorrer dos estudos feitos por especialistas no âmbito da arqueologia. Felizmente nos tempos que vivemos há muitas publicações disponíveis na internete, permitindo que alguém como eu, simples curioso, possa ter uma ideia razoável sobre alguns dos cenários que esses especialistas colocam.

Uma visão geral dos povos que habitavam na península pode ser facilmente encontrada, por exemplo na Wikipedia [2], de onde o seguinte mapa foi retirado.

Povos_pre_romanos.jpg

Povos Ibéricos pré-romanos / Wikipedia [2]

Nota: O mapa refere “...antes das conquistas fenícias”, mas será lapso. Deve ser “...antes das conquistas romanas”.

Há bastante debate sobre as localizações dos espaços de influência desses povos. Sobre a região em causa nesta publicação, na denominada Cova da Beira, há contudo razoável consenso de que os Lusitanos ocupariam esta região, integrando aliás os espaços atualmente nomeados como Beira-Alta e Beira-Baixa. Mas os Lusitanos, como a generalidade dos outros povos, subdividiam-se em tribos. Como seria de prever, existe ainda maior dificuldade em localizar o espaço geográfico de cada tribo. No mapa anterior, surge nesta localização a tribo dos Lancienses Transcudanos. Mas até que ponto esta localização gera consenso?

Foi por isso com muita satisfação que li o artigo de Amílcar Guerra, “Sobre o território e a sede dos Lancienses e outras questões conexas” [3], em que aborda precisamente esta questão dos espaços de ocupação de algumas tribos lusitanas nesta região.

Vou aqui fazer um brevíssimo resumo, mas o leitor poderá fazer a leitura completa no apontador que abaixo indico nas referências.

Amílcar Guerra começa por explicar que a primeira citação escrita dos Lancienses, surge na obra História Natural de Plínio [4], estudioso romano que viveu entre os anos 23 e 79 da nossa era. Sucede que essa citação tem dado azo a alguma polémica entre estudiosos, pois na verdade os Lancienses, ao contrário das outras tribos surge referida duas vezes, sendo que numa delas associada a “Ocelenses”. Explica de seguida as várias hipóteses que têm sido colocadas para que tal ocorresse, entre as quais o poder tratar-se de um lapso de transcrição. Mas assume que possa não ser o caso. Ou seja, Lancienses e Ocelenses Lancienses, poderiam indicado tribos distintas.

Esclarece depois que a descrição de Plínio parece divergir dos registos epigráficos conhecidos, ou seja registos em pedras, por exemplo em aras votivas dedicadas a deuses, ou assinalando eventos, como um conhecido texto gravado numa placa em pedra na ponte romana de Alcântara (Alcântara / Cáceres) em que se descrevem os povos que contribuíram para a sua construção.

A imagem seguinte mostra o desenho feito da placa original pelo português Francisco de Holanda (1517 – 1585) e que se encontra na sua obra Da fábrica que falece à cidade de Lisboa. No Anexo 3 apresenta-se a versão restaurada da placa e a sua transcrição.

Placa_ponte_Alcantara._Francisco_de_Holandajpg.JPGDesenho da placa original feito por Francisco de Holanda

Segundo o levantamento que Amílcar Guerra apresenta, à data deste seu estudo, eram conhecidas várias descrições epigráficas em que surge a denominação simples “Lancienses”, outras como “Lancienses Oppidani” e ainda “Lancienses Transcudani” (estes dois últimos surgem na já referida placa da ponte de Alcântara). Acrescenta ainda que na mesma região da Cova da Beira surgem textos epigráficos referindo “Ocelenses”, termo semelhante ao citado por Plínio.

Em síntese, Lancienses e Ocelenses Lancienses surgem citados por Plínio; Lancienses Oppidani, Lancienses Transcudani e Ocelenses, aparecem nos textos epigráficos.

Explica depois o autor, citando outros estudiosos, que há um aspeto muito relevante nesta questão. O termo latino “oppidum”, equivale ao termo proto celta “*okelo-“ (ocelum), significando colina, forte, ou similar [8]. Esta constatação permite assumir que os Ocelenses Lancienses referidos por Plínio possam corresponder aos Lancienses Oppidani das epigrafias.

Sobre a localização geográfica dos respetivos territórios, Amílcar Guerra refere hipóteses já antes colocadas e apresenta a sua perspetiva. São análises complexas, com base sobretudo em epigrafia e na rede viária romana conhecida. Mas para o efeito desta publicação salientaria apenas as duas propostas quanto às capitais dos dois territórios.

Argumenta o autor que na sua opinião a capital dos Lancienses Transcudani estaria situada no Mileu, junto à cidade da Guarda.

Quanto aos Lancienses Oppidani, que equivaleriam aos Ocelenses, considera que a sua capital estaria precisamente no local de Centum Cellas.

Mapa_artigo_Amilcar_Guerra.jpg

Mapa da região em análise, com os principais eixos viários. – Extraído do artigo [2] de Amílcar Guerra

A região ocupada por estes, corresponderia aproximadamente à Cova da Beira. Para justificar esta localização da capital, tem em conta as importantes descobertas feitas nas campanhas arqueológicas em Centum Cellas já referidas, em que se constata a relevância dos achados, compatíveis com um fórum romano. Tal implicaria estarmos numa localidade muito relevante na sua época de construção. Nessa sequência faz diversas referências a informações de outros autores quanto a achados ou notícias de que haveria estruturas diversas nas imediações que em vários casos terão desaparecido.

Por último chama a atenção para uma curiosidade que provavelmente não será fruto de um qualquer acaso e que o leitor possivelmente já intuiu. Trata-se da denominação comum da estrutura…

Centum Cellas ao longo das épocas surge referida em textos sob diversas formas. Por exemplo Centum Cellæ, Centum Celli, Centumcellas. O povo associou os fonemas à ideia do que seria Centocelas / Cento (de) celas. Mas é algo espantoso constatar que ao longo de 20 séculos se pode ter mantido o que, de acordo com Amílcar Guerra, terá sido a raiz da denominação base deste povo: ocellas!

 

Colmeal da Torre

O Colmeal é a localidade mais próxima da Torre de Centum Cellas.

De acordo com a Wikipedia, o nome Colmeal [5] pode derivar de ter ali havido uma área de colmeias ou ter ali existido colmo em abundância. São hipóteses óbvias, mas irei colocar uma outra.

Mas antes de abordar a questão do topónimo, vou abordar um outro aspeto curioso desta localidade que tem a ver com a topologia, em particular a sua rede de ruas. É fácil observá-la através do Google Maps. A imagem seguinte apresenta-a.

Ruas_Colmeal.jpg

Colmeal da Torre – rede de ruas - Fonte: Google Maps

O que podemos constatar?

Algo muito básico, mas pouco comum em localidades, antigas. A maioria das ruas é bastante reta, com cruzamentos na perpendicular.

O que seria de esperar era observar ruas organizadas na sua grande maioria de forma casual, “torta”, com curvas frequentes, adaptando-se às características do terreno e de acordo com a vontade das gentes que não se preocupavam em delinear ruas retilíneas. Os entroncamentos deviam ocorrer nos ângulos mais diversos. Também se percebe onde se localizaria o ponto inicial / os pontos inicias onde a localidade nasceu, de onde irradiam boa parte das ruas.

Podemos ver a seguir um exemplo de uma localidade próximas, Vale Formoso, onde essas características normais, “desorganizadas” estão patentes. No anexo 1 mostram-se outras localidades igualmente próximas e com características idênticas nos aspetos que salientei.

Ruas_Vale_Formoso.jpg

Vale Formoso – rede de ruas - Fonte: Google Maps

O que estou a sugerir, é que, como refere aliás Amílcar Guerra no seu artigo, muito possivelmente todo o espaço entre a Torre de Centum Cellas e o Colmeal da Torre, incluindo esta localidade, estão implantados sobre as ruínas de uma antiga e importante cidade, a qual se organizou pelo menos em parte de acordo com princípios urbanísticos romanos.

 

Mas irei ainda colocar outra hipótese. A de o Colmeal da Torre, estar implantado no espaço de uma antiga Villa.

O termo Colmeal pode derivar das justificações descritas atrás. Mas pode ter outra origem. Um lugar de casas de colmo não se distinguiria especialmente. Casas de colmo seriam comuns. Porquê denominar assim? A opção de ser um espaço de colmeias, para justificar ter ganho nome próprio por esse motivo, deveria ter algum realce de dimensão ou impacto económico e estar associada a qualquer referência histórica em que essa atividade fosse referida. Mas nada encontrei que tal mencionasse.

 

Faço aqui uma passagem para outra “descoberta” que ocorreu por mero acaso. Não sendo de todo demonstrativa dessa hipótese, não deixa de ser curiosa.

Tenho feito algumas leituras nos registos paroquiais da minha terra natal Caria. Casualmente, constatei situações estranhas com este topónimo. Em duas épocas distintas, nos registos de batismo, a referência a pessoas naturais do Colmeal, pais e avós da criança batizada, foi escrita de forma peculiar, não exatamente a que esperaríamos.

Encontrei duas redações diferentes, sendo que em dois dos registos (total de cinco) surge de ambas as formas:

  • Colomial (três)
  • Colomeal (quatro)

A forma de escrita é clara. Não será erro, pois ocorrem cinco vezes. As duas grafias podemos considerá-las foneticamente equivalentes sobretudo na linguagem comum. Pode não parecer muito, mas registos paroquiais de Caria, com pessoas naturais do Colmeal, são muito escassos. A minha hipótese para o aparecimento daquele “o” estranho aos nossos dias, é de que as gentes assim o pronunciariam e os padres dessa forma o registavam.

Estes registos situam-se entre 1793 e 1858. Foram feitos por dois padres diferentes. Será relevante referir que Caria era uma localidade com grande influência e intervenção por partes dos bispos da Guarda. Aí tinham residência e decerto tomariam as necessárias providências para que os párocos tivessem boa formação. A qualidade da caligrafia também indicia isso. Na imagem seguinte mostro um desses registos (no Anexo 2 apresentam-se todos). Neste caso, é o registo de batismo de Maria, nascida a 26 de Janeiro de 1846, filha legítima de Manoel Esteves Mouxo natural da Quinta do Colomeal.

Registo_Maria.jpg

Início do registo de batismo de Maria - Fonte: Registos paroquiais de Caria [9]

Não é plausível que os padres desconhecessem a existência de uma terra tão próxima e da forma como seria correto escrevê-la. Ora não sendo fruto do acaso ou de erro de escrita, tal poderá significar que aquela forma de pronunciar era comum. Poderia derivar de uma denominação mais antiga, mais próxima do original. Mas que denominação original teríamos que pudesse justificar aquela forma de ser pronunciada?

Se temos próximo um edifício romano e foram encontradas estruturas e objetos romanos nas proximidades, talvez um nome romano, porque não? Na minha mente fizeram-se vários tipos de associações fonéticas. Cheguei a uma hipótese que considero particularmente interessante. Existiu uma família romana na península ibérica de apelido “Columela”. Um elemento dessa família, de nome Lucius Junius Moderatus[6] assumia com orgulho esse outro apelido de família: Columela. Tornou-se conhecido pelos seus escritos sobre técnicas agrícolas. As suas obras são das mais relevantes para se conhecerem as técnicas agrícolas do seu tempo.

No livro A Companion to the Neronian Age [7] refere-se que este autor considerava o seu tio Marcus Columela como uma autoridade em trabalhos agrícolas. O tema da agricultura era pois do interesse de ambos.

Claro que esta hipótese de origem do topónimo “Colmeal” é especulativa, mas penso que é interessante e com alguma probabilidade de ser correta. O nome de família ter-se-á mantido associado ao lugar, evoluindo esse nome de Columela para Colomeal e agora Colmeal.

 

 

Referências

[1] – Informação sobre o monumento “Torre de Centum-Cellas” publicada no sítio da Direção Geral do Património Cultural

http://www.patrimoniocultural.gov.pt/pt/patrimonio/patrimonio-imovel/pesquisa-do-patrimonio/classificado-ou-em-vias-de-classificacao/geral/view/70345/

[2]

https://pt.wikipedia.org/wiki/Povos_ib%C3%A9ricos_pr%C3%A9-romanos

[3] – Guerra, Amílcar - Sobre o território e a sede dos Lancienses (Oppidani e Transcudani) e outras questões conexas – Revista Conimbriga nº 46, 2007

https://repositorio.ul.pt/handle/10451/10615

(A página tem um ponteiro para o documento)

[4] Plínio o Velho – referência biográficas

https://pt.wikipedia.org/wiki/Pl%C3%ADnio,_o_Velho

[5] Wikipedia – Colmeal da Torre

https://pt.wikipedia.org/wiki/Colmeal_da_Torre

[6] Wikipedia – Columela

https://pt.wikipedia.org/wiki/Columela

[7] Buckley, Emma e Dinter, Martin editaram , A Companion to the Neronian Age, John Wiley & Sons, 2013

[8] Os Os Gallaeci - Wikimedia

https://artigos.wiki/blog/en/Gallaeci

[9] Registos paroquiais de Caria – Digitalizados

https://tombo.pt/f/bmt02

[10] – Arlindo Correia – A Lusitânia no tempo dos romanos

http://arlindo-correia.com/021208.html

 

Anexo 1 – Estrutura de ruas de localidades próximas do Colmeal da Torre

Fonte: Google Maps - https://www.google.pt/maps/

Ruas_Vale_Formoso.jpgVale Formoso

 

Ruas_Aldeia_do_Soito.jpg
Aldeia do Soito

 

Ruas_Goncalo.jpg
Gonçalo

 

Ruas_Caria_centro_historico.jpgCaria / Centro histórico

 

Anexo 2 – Registos de batismos realizados em Caria com a referência Colomeal / Colomial

Fonte: Registos paroquiais de Caria – Digitalizados [9]

Apresentam-se apenas as descrições iniciais onde surgem as referências abordadas nesta publicação.

Registo_Jose.jpgJosé – 1793 – Colomeal

Registo_Bonifacio.jpg
Bonifácio – 1843 – Colomial


Registo_Maria.jpg
Maria – 1846 – Colomeal


Registo_Joaquim.jpg
Joaquim – 1848 – Colomeal e Colomial


Registo_Ludovina.jpg
Ludovina 1858 – Colomeal e Colomial

 

 

Anexo 3 – Descrição dos povos que contribuíram para a construção da ponte romana de Alcântara / Cáceres

Ponte de Alcântara Google Maps.JPGVisão atual da ponte – imagem obtida via Google Maps

 

O conteúdo seguinte foi extraído de [10] – Publicação de Arlindo Correia

Placa_ponte_Alcantara.jpg

Placa descrevendo os povos / tribos que participaram

A placa actual é do sec. XIX, feita na sequência de obras de restauro promovidas pela Rainha Isabel II de Borbón em 1859.

Terá sido reposta a partir de autores que tinham transcrito a antiga placa, como sucedeu com o português Francisco de Holanda na obra “Da Fábrica que falece à cidade de Lisboa”. Por mera curiosidade refira-se que este título pode ser ajustado para o português corrente como “Das obras que fazem falta à cidade de Lisboa”.

Nota: O jornal “Público” tem à venda, à data desta publicação, uma edição fac-similada desta obra de Francisco de Holanda a um preço acessível ( http://loja.publico.pt/categories.php?category=Livros/Colec%C3%A7%C3%A3o-Tesouros-das-Bibliotecas )

 

Transcrição:

MUNICIPIA
PROVINCIAE
LUSITANIAE STIPE
CONLATA QUAE OPUS
PONTIS PERFECERUNT
IGAEDITANI
LANCIENSES OPPIDANI
TALORES
INTERAMNIENSES
COLARNI
LANCIENSES TRANSCUDANI
ARAVI
MEIDUBRIGENSES
ARABRICENSES 
BANIENSES
PAESURES

ELIZABETH REGINA
TITULUM ET MEMORIAM RESTITUIT

Tradução:
Municípios da província da Lusitania que, com o dinheiro obtido por subscrição, completaram a obra desta ponte: Igaeditanos, Lancienses Opidanos, Toloros, Interamnienses, Colarnos, Lancienses Transcudanos, Aravos, Meidubrigenses, Arabrigenses, Banienses, Paesures.

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Literatura de cordel

Uma pequena coleção

por Lourenço Proença de Moura, em 22.10.21

Maria_nao_me_mates_que_sou_tua_mae.jpg
Gravura do livro "Matrícidio sem exemplo" de Camilo Castelo Branco

“Lá na vila piscatória em que passei a infância, em cada segunda-feira a pacatez levava sumiço à conta de uma feira…

… havia um velhote que nunca faltava, a um par de metros de uma taberna onde almoçava frugalmente, e lhe emprestavam duas cadeiras meio desconjuntadas. De uma cadeira à outra ele punha um cordel não muito grosso e dele fazia pender uns cadernos de capas coloridas e umas folhas volantes, que prendia com pregadeiras de roupa. Em cima de uma cadeira havia um jornal dobrado, aonde ele colocava a bota e dedilhava a sua viola, que nem sempre tinha as cordas todas. A voz era roufenha, lamurienta, mas já contávamos com isso porque anunciara antes “um grande e horrível crime”. Toda a gente punha os olhos na folha onde estavam os versos e o retrato da rapariga que levara as dezassete facadas do namorado, que parecia ter sido enganado e afinal o que ele vira fora uma cena inocente da moça agarrada a chorar ao irmão que lhe trouxera a notícia da morte do pai no Brasil! O namorado interpretara mal aquele abraço, não conhecia o irmão, tinha a faca à mão e, levado pelo ciúme, cometera o tal grande e horrível crime! E como se lavava aquele pedaço de chão na feira com as lágrimas do mulherio!”

Esta é uma transcrição de alguns trechos deliciosos do capítulo introdutório de uma obra de José Viale Moutinho [4] dedicada a este tema.

--oo0oo--

Nesta publicação não irei apresentar nenhum estudo sobre o assunto, mas sobretudo colocar à disposição do leitor exemplares digitalizados de livros, brochuras e folhas volantes que ao longo do tempo tenho recolhido, em alfarrabistas e feiras de velharias. Apresento no final algumas sugestões de leitura, visualização (registo videográfico - programa de televisão) e escuta (registo áudio - programa na rádio), mas o leitor encontrará com facilidade outras referências na internete.

A literatura de cordel corresponderá à evolução natural dos romances e contos cantados e relatados pelos jograis e saltimbancos que se deslocavam de terra em terra e que, com a popularização da imprensa encontraram mais esta forma de comunicação e, naturalmente, de rendimento. Como seria de esperar, a qualidade do papel e da impressão era apenas a suficiente para que o custo pudesse ser suportado por uma “pessoa comum”, se bem que nesses tempos paradoxalmente, saber ler fosse uma competência pouco comum. Também não eram destinados a serem guardados em bibliotecas e daí que sejam relativamente escassos os exemplares que sobreviveram.

O nome decorre da forma como eram frequentemente postos à venda, simplesmente pendurados num cordel, pelo vendedor na sua banca de feira como que surge referido no texto introdutório.

Têm frequentemente uma estrutura em verso, o que permitia serem mais facilmente cantados e por vezes teatralizados. Era comum serem vendidos por cantores cegos, saltimbancos, pedintes. Também podiam ser vendidos porta a porta.

Ceguinho_folhetos.jpg

Imagem recolhida do blog "O homem que sabia demasiado"

Os contos com mais sucesso tiveram inúmeras edições e frequentemente eram traduzidos para outras línguas, cruzando séculos e nações.

Em Portugal, este tipo de literatura perdeu relevância de forma acentuada nos últimos 100 anos. Porém, no Brasil, sobretudo no denominado Nordeste, continua a ser uma realidade bem viva e interveniente, com uma grande dinâmica de publicação e de número de leitores. No Brasil, ainda hoje, qualquer assunto pode dar origem a uma ou mais “histórias de cordel”. Como seria de esperar o Covid já teve direito a tal…

Ver por exemplo esta página do blog Diário do Nordeste.

A Covid ceifando muitas vidas
E o perverso zombando da doença
Quando a morte espalha sua sentença
São milhares de histórias destruídas
As famílias enlutadas e perdidas
Sem saber se retornam ou vão em frente
É preciso mais amor por nossa gente
Esse povo sofrido e humilhado
O futuro que tenho projetado
Será muito melhor que meu presente.

--oo0oo--

Versões digitalizadas dos documentos

As tabelas abaixo permitem copiar cada um dos documentos para o seu computador / smartphone.
Para isso, depois de premir o ponteiro, surge uma página do serviço MeoCloud.
Deve selecionar o botão "Download" (descarregar). No caso dos smartphone, surge um ecrã como o seguinte, em que deve selecionar o símbolo de três pequenos traços horizontais assinalados. Surge então a opção "Download".

Telemovel_download_da_Cloud.JPG

Nota: Alguns livros e brochuras possuem uma dimensão relativamente grande e esta ação pode demorar. Indica-se em cada um o tamanho aproximado (Mb)

 

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No sentido de dar uma breve ideia dos temas e do estilo de relato, deixo aqui alguns exemplos de extratos iniciais de alguns dos contos relatados nas folhas de histórias

Madalena a mártir
Este drama se passou
Conforme contar vos vou
Entre um casal e uma filha
Ela era uma esposa séria
Mas ele da sua féria
Em casa nunca partilha

Triste fim de dois irmãos
Vivia um modesto casal
com dois filhos afinal
Um menino e uma menina
Mas nesse modesto lar
entrou lá dentro o azar
e tiveram uma má sina

Mãe desumana
Custa a crer mas é verdade
Duma mãe a crueldade
Que teve para uma filhinha
Foi uma reles tratante
Que por causa dum amante
Liquidou a inocentinha

Espera traiçoeira
Ainda mal rompia o dia
Já Maria Aurora ia
Levar farinha ao moinho
Certa vez teve o azar
Dum moço ela encontrar
Que lhe saiu ao caminho

Desventura de uma mãe
Foi na encosta de um monte
Sem haver água nem fonte
Que um incêndio sucedeu
Numa casa humilde e pobre
Três mortes lá se descobre
Nada escapou tudo ardeu
...

Triste fim de duas irmãs
Foi numa noite de inverno
O céu perecia o inferno
Vento, chuva e trovoadas
Duas vidas se finaram
Os lobos as devoraram
Deixando roupas e ossadas
...

A perdição do amor
Chamava-se Maria Rosa
Esta jovem tão formosa
A quem José muito amou
Mas teve a infelicidade
de ser morta com crueldade
por Romeu que a desflorou.

Ilusão, só ilusão
Foi bela e foi formosa
aquela Maria Rosa
dos meus tempos de criança.
E dela me enamorei
que com ela me casei
numa ilusão de esperança.

Amor de pai
Perdido de comoção
foi-se entregar à prisão
um pobre pai tresloucado
Para sua cruel sorte
foi ele o autor da morte
dum seu filhinho amado

O caso do Homem que esteve enjaulado 30 anos pela mulher no concelho de S. Pedro do Sul
O caso que eu vou contar
é digno de apreciar
deu-se em Tabuadelo
Um senhor José dos Santos
passou martírios tantos
meus senhores podem vê-lo.

Mãe malvada
Com cinco anos de idade
foi morta sem piedade
por uma mãe sem coração.
Foi por causa de um amante
que era um vil um tratante
vão ouvir qual a razão.
...

 

Os meus livros e brochuras

Títulos

Autor

Tipo

Data

Astucias subtilissimas de Bertoldo, villão de agudo engenho e sagacidade (26Mb)

Não referido, mas foi Giuliu Cesare della Croce (1550 - 1609)

Comédia

1849

Simplicidades de Bertoldinho, filho do sublime, e astuto Bertoldo; E das agudas respostas de Malcolfa sua mãi (30Mb)

Não referido, mas foi Giuliu Cesare della Croce (1550 - 1609)

Comédia

1824

Vida de Cacasseno, filho do simples Bertoldinho, neto do astuto Bertoldo (17Mb)

Não referido, mas foi o abade Adriano Banchieri

Comédia

1824

Vida de Cacasseno, filho do simples Bertoldinho, neto do astuto Bertoldo (12Mb)

Não referido, mas foi o abade Adriano Banchieri

Comédia

1927

Emperatiz Porcina (10Mb) 

Baltazar Dias (atribuído)

Drama

1690

História da imperatriz Porcina mulher de Lodório, imperador de Roma (11Mb)

Baltazar Dias (atribuído)

Drama

sem data; talvez década de 1960

A aldeia de loucos (Novo entremez intitulado…) (5Mb)

Desconhecido

Comédia

1789

A grande desordem de huma velha com hum peralta por não querer casar com ella (Novo e divertido entremez intitulado…) (6Mb)

Desconhecido

Comédia

1786

A velha garrida (Nova pessa intitulada…) (7Mb)

Desconhecido

Comédia

1788

Alcorão das amas de leite ou marmota… (6Mb)

Desconhecido

Comédia

1786

Amor sem pés nem cabeça (Novo, e gracioso entremez intitulado…) (5Mb)

Desconhecido

Comédia

1789

Bondade das mulheres contra a malicia dos homens (3Mb)

L.D.P.G.

Argumentação

Documento  interessante na defesa de género. 

1788

Carta de guia para novatos, vida importante, ou Chimica proveitosa, que hum tratante envia a hum seu amigo para cursar a Universidade de Coimbra com grandeza na codea, e xelpa (6Mb)

Bojamé Bernardino de Albuquerque e Faro

Sátira

1765

Conselhos para os novatos occuparem o tempo das ferias
II Parte (6Mb)

Paulo Moreno Toscano

Sátira

1765

Despique da mulher casada que teve as disputas com seu Marido, pela não querer levar a ver as Luminarias e o fogo (7Mb)

Pelo mesmo Author da Relação das Disputas
(Desconhecido)

Comédia

1785

Dialogo entre hum Algarvio e a sua Maria (2Mb)

Desconhecido

Comédia

1845

História da guerra europeia  (1Mb)

Desconhecido

Drama

s.d. por volta de 1940

Historia da donzella Theodora  (11Mb)

Carlos Ferreira Lisbone

Texto argumentativo

1827

Historia de D. Ignez de Castro
Collecção de Historias Populares - Nº 10 (8Mb)

Agostinho Velloso da Cruz

Livro de história, em jeito de romance

1909

História de João Soldado
Que teve a habilidade de meter o diabo num saco
Seguida da interessante história
As três cabeças de ouro (5Mb)

Desconhecido

Texto

1960 talvez

Historia jocosa dos tres corcovados de Setuval (7Mb)
Lucrecio, Flavio, e Juliano
Onde se descreve a equivocação graciosa de suas vidas

Desconhecido
(Escrita por hum curioso lisbonense)

Sátira

1842

Malicia da Mulheres (4Mb)

Desconhecido

Sátira

1827

Matricidio sem exemplo,
Uma filha que matou e esquartejou sua propria Mãi,
Matilde do Rozario da Luz, Lisboa - na travessa das Freiras, nº 17 (4Mb)

Camilo Castelo Branco
(se bem que não surja identificado)

Drama

1850
(se bem que não indicada a data)

Novo folheto contendo 5 lindas poesias (1Mb)

Desconhecido

Drama e sátira

1940 talvez (data não indicada)

O Braz Corcunda e o verdadeiro constitucional (8Mb)

E.J.A. De S.
(será Elesiário António de Sousa)

Debate de ideias

1821

O caçador (Entremez) 

(6Mb)

Desconhecido
(Pedro António Pereira ?)

Teatro de costumes com alguns toques humorísticos

1784

O desengano do mundo ou morte de Buonaparte encontrando este na eternidade hum rancho de corcundas (7Mb)

José Daniel Rodrigues da Costa

Diálogo / autocrítica

1830 talvez

O libertino castigado e a prizão no jogo de bilhar (5Mb)

Desconhecido

Teatro de costumes com alguns toques humorísticos

1789

O periodiqueiro por força, ou dialogo de hum tio e hum sobrinho (7Mb)

Desconhecido

Sátira

1821

A Peidologia (4Mb)

Desconhecido

Sátira

1836

 

As minhas folhas / panfletos - histórias

Títulos

Tipo

Data

Local impresão

Madalena a Mártir
Triste fim de dois irmãos

Drama

Não indicada mas será de antes de 1974

Tipografia C. O. Porto

Mãe desumana
(O triste drama de duas crianças) (autor Oileda)
Espera traiçoeira
(No hospital do Olival, uma pobre rapariguinha não resistiu à traição de que foi vítima) (autor Oileda)

Drama

Não indicada mas será de antes de 1974

Tipografia Colégio dos Órfãos - Porto

Desventura de uma mãe
(Morreu abraçada a duas filhinhas num pavoroso incêndio ao tentar salvá-las)
Lágrimas de dor
Triste fim de duas irmãs
(Como foi descoberto este abominável crime? Estes patifes, depois de terem abusado das duas donzelas, abandonaram-nas, as quais ficaram entregues às feras)

Drama

Não indicada mas será de depois de 1974

R.C.Fernandes
Rua dos Bragas 140 - Telef. 28239 - Porto
Tipografia: Colégio dos Órfãos - Porto

Menina assassinada na Póvoa
Mistérios da Natureza
Máter dolorosa
A vida de Beatriz (autor Oileda)

Drama

Não indicada mas será de depois de 1974

Tipografia: Colégio dos Órfãos - Porto

Guerra ao amor
(Um drama vivido entre duas primas, que tiveram a desdita de se apaixonarem pelo mesmo jovem, e daí nasceu a angústia para um coração destroçado, Sensacional, empolgante até ao fim.)
(autor Oileda)
A perdição do amor

Ilusão, só ilusão
(autor Oileda)
O desengano
(autor Oileda)

Drama

Não indicada mas será de depois de 1974

Tipografia: Colégio dos Órfãos - Porto

Amor de pai (dos jornais)
Mulher perversa
O caso do Homem que esteve enjaulado 30 anos pela mulher no concelho de S. Pedro do Sul
Pai assassinado pela própria filha (Barroca - Beira Baixa) (autor A. Nobre)
Mãe malvada (Autor Oileda)

Drama

Não indicada mas será de depois de 1974

Tip. Colégio dos Órfãos - Porto

Promessa mal cumprida
(Uma mulher de Vale Ferreiros, fez uma promessa à N. S. da Saúde. E vejam o que lhe aconteceu. Por sua culpa)
(autor: Oileda)
O rapto da Isabel
(Uma menina de 5 anos foi raptada pela própria mãe)
(autor: Oileda)

Drama

Não indicada mas será de antes de 1974

Tip. do Colégio dos Órfãos - Porto

As duas gémeas
(O mais sensacional drama de amor, vivido entre duas irmãs que se apaixonaram por um rapaz, que foi a sua perdição) (autor: Oileda)
Aventura duma Mãe (Morreu abraçada a duas filhinhas num pavoroso incêndio, ao tentar salvá-las)
A perdição duma Mãe

Drama

Não indicada mas será de antes de 1974

Tip. Colégio dos Órfãos - Porto

Falsidade
(O triste fim de uma mulher que se perdeu!)
Perdição de Amor!
A morte duma menina de 6 anos
(dos jornais diários)
Triste fim de dois irmãos
Mãe cruel

Drama

Não indicada mas será de antes de 1974

Tip. Colégio dos Órfãos - Porto

A abandonada
(O mais enternecedor drama de amor)
(Autor: Oileda)
Triste fim de duas irmãs
As duas órfãs
Espera traiçoeira

Drama

Não indicada mas será de antes de 1974

Tip. Colégio dos Órfãos - Porto

Milagre de amor
(Emoção - Suspense ; Leiam com atenção)
(Autor: Oileda)

Drama

Não indicada mas será de antes de 1974

Tip. do Colégio dos Órfãos - Porto

A história de uma mulher que casou com dois homens
Afinal não tinha nada
Grande Marcha de Lisboa
(Marcha popular - Letra: Artur Ribeiro)

Drama / Comédia / Canção

Não indicada mas será de antes de 1974

Tip. Batalha & Irmã - A. Saraiva de Carvalho, 55 - Porto

Fernanda, a mártir
(Uma jovem com 18 anos, órfã de mãe, por motivo da sua pouca sorte com o primeiro namoro, deixou tudo na vida, para professar a ser freira. Emoção, entusiasmo e sofrimento.)
Pai atraiçoado
(Caso comovedor. Um pobre pai que tinha três filhos, dois rapazes e uma mocinha, foi atraiçoado pelo seu filho mais velho)
Sinceridade e coragem duma mulher casada em honra de seu marido.
(S. Marcos)

Drama

Não indicada mas será de depois de 1974

Tip. Colégio dos Órfãos - Porto

O fugitivo
(O fugitivo é uma obra prima da Rádio Televisão Portuguesa)
(Autor: Oileda)
O emigrante
(Canta: Maria Albertina)

Romance

Não indicada mas será de depois de 1974

Tip. Colégio dos Órfãos - Porto

Uma vítima do destino
(Bem criada mas… malfadada)
Sacrifício duma Mãe

Drama

Não indicada mas será de depois de 1974

Tip. Colégio dos Órfãos - Porto

Sinceridade e coragem de uma mulher casada
(Em honra de seu marido)
Cruel traição

Drama

Não indicada mas será de depois de 1974

Não indicado

Mais um fenomeno
(Uma criança metade Peixe e metade Gente)

Drama

Não indicada mas será de antes de 1974

Tipografia Olhanense - Olhão

Uma creança morta à paulada pelos seus próprios pais
Mulher morta à machadada pelo marido

Drama

Não indicada

Tip. I. P. R. Lda T. Convento (carimbo)

As medalhas que ganhei
(Por José Serralheiro)
São Martinho nosso Amigo
(Letra de Sousa Rosa)

Louvor
Sátira
Não indicadaNão indicado
O horroroso crime de Soutêlo
(Um filho que mata o pai, a mãi e dois irmãos
Mãi desumana
(que queima o filho após 2 dias de nascido)
O crime de Vila Franca
(Mãi que afoga duas filhinhas para viver com um amante
DramaNão indicadaNão indicado
Mãi
(Recordação de A. Luiz Vieira Correia)
Morena
LouvorNão indicadaNão indicado
Castigo de Deus na Quinta de Monte Alegre - Santa Comba
Fado das caravelas
Perdoas-me
(Para uso dos Senorit)
(Por Ernesto Loureiro)
Drama / CançãoNão indicadaNão indicado
Em Vila-Flor deu-se um grande exemplo
Caldo e brôa
Saudades de outrora
(Música do Zé do Telhado)
Drama / Canção1945Tip. Ouriense
O horroroso Crime d'Aldeia de Matos
(Um homem que traiçoeiramente mata outro vibrando-lhe sete facadas)
A VII Volta a Portugal
(Homenagem aos corredores)
O crime de Salvaterra de Magos
Arrependimento da filha
Drama / Louvor1938 data da 7ª volta a Portugal ganha por José Albuquerque.
Data não indicada
Não indicado

Mar e terra
Uma filha criminosa

Louvor
Drama

Não indicada

Não indicado

Escuta Carmen
(Letra de: Domingos Gonçalves Costa)

Aconselhº

Não indicada

Não indicado

Amor de Perdição
Sebastião coitado
A minha casinha
(Cantada por MILU na sua casa da Costa do Castelo)

Drama / Comédia / Canção

Não indicada

Tip. Ferreira - Lagos

 

As minhas folhas / panfletos - canções

Títulos

Tipo

Data

Local impresão

Canções novas
L´oiseau et l´enfant
Último passeio de Santo António
Gabriela Cravo e Canela
A Anita não é bonita
Caldeirada poluída
É preciso renascer
É triste não saber ler
Milho verde
Cigano
Coentros e rabanetes
O menino
Volta Rabi
Hino à liberdade
Canta cigarra
Só eu sei, meu amor
Mão na mão

Canções

Não indicada mas será de depois de 1974

Não indicado

Canções modernas
Grândola vila morena
Vamos lá fadistas
Ó liberdade
Tu és mulher não és uma santa
O nosso amor
Ó Ramos hoje cá estamos
Portugal ressuscitado
O Homem de Nazaré
Meu amor é marinheiro
Avante camarada
25 de Abril; Nova aurora!
Paz e amor
Malhão de Águeda
Não deixes que calem mais a tua voz
Os Bravos
Felicidade
Um novo Abril
Pátria libertada
Prisioneiro
Ao trabalho meu povo
Catarina Eufémia
Alta roda
Não julgues
Oferenda
O poder da flor
Caminhada

Canções

Não indicada mas será de depois de 1974

Tip. Colégio dos Órfãos - Porto

Novas canções
Eu tenho dois amores
Minha Tia
Hoje há festa
Bem-me-quer, mal-me-quer, muito, pouco e nada
Canção do beijinho
Tão amantes que nós fomos
O Chico Pinguinhas
Vamos dar as mãoes
Ninguém, ninguém
Canção proibida
Meu querido, meu velho, meu amigo

Canções

Não indicada mas será de depois de 1974

Não indicado

Canções
Uma flor à janela
A ave e a infância
Saca o saca-rolhas
Hinoà liberdade
Vinho verde
Português é um malmequer
Somos dois
Marco
É preciso renascer
A Anita não é bonita
Menina alegre
O menino
Gabriela cravo e canela
Cigano
Canta cigarra
Só eu sei meu amor
Milho verde
A mão na tua mão

Canções

Não indicada mas será de depois de 1974

Tip. Colégio dos Órfãos - Porto

Canções do festival - 78
Dai-li dai-li dou
Tudo vale a pena
Porquê
Aqui fica uma canção
Pela vida fora
Tu, Charlot!
Ano novo, vida nova
O largo do coreto
Só louco
Um Dia uma Flor
Canção da amizade
O circo e a cidade
Nuvem passageira
Quem te quer bem, meu bem
Algodão doce

Canções

Não indicada mas será possivelmente de 1978

Não indicado

Canções do festival 82
Bem-bom
Em segredo
Até amanhecer
Gosto do teu gosto
Quero ser feliz agora
Sonho a dois
Trocas-baldrocas
Banha da Cobra estica e não dobra
Amor português
É o fim do mundo
Vai mas vem
Tudo tim-tim por tim-tim
Quem vier por bem

Canções

Não indicada mas será possivelmente de 1982

Não indicado

Canções do festival 83
Erva ruim
Rosas brancas para o meu amor
Vinho do Porto, vinho de Portugal
Parabéns, parabéns a você
Terra desmedida
A cor do teu baton
E afinal quem és tu?
No calor da noite
Mal d'amores
Esta balada que te dou
Ave do paraíso
Rosa flor-mulher

Canções

Não indicada mas será possivelmente de 1983

Não indicado

Tudo perdi
Não te mereço
(Fado - canção - creação de Rui de Mascarenhas)

Drama / Canção

Não indicada

Não indicado

Canção do desespero
(Do filme português "Capas Negras")
Canção de Coimbra
(Do grande filme "Capas Negras")
Serenata
(Do lindo filme "Capas Negras")
Rapazes cautela
(Por José Serralheiro)

Canção / Sátira

Não indicada

Tip. Feijão - C. Branco

Colete encarnado - Fado da Severa
(Cantado por Manuel Monteiro)
Amor à pátria
As Boas-Festas
(Letra de Alberto da Silva Braga)
As mulheres são todas boas

Canção
Louvor (ao filho soldado que vai combater…)
Oração
Sátira

Não indicada

Tip. Fonseca - R. Picaria, 74 - Porto

O preto
O toureiro e a bailarina
(Por Júl o Vieitas)
Fado das caravelas
Lisboa não sejas francesa

Louvor
Drama
Canção

Não indicada

Não indicado

As medalhas que ganhei
(Por José Serralheiro)
São Martinho nosso Amigo
(Letra de Sousa Rosa)

Louvor
Sátira

Não indicada

Não indicado

Algemas
(Letra de "Algemas" Fox)
Pedido de mãe
(Letra de Augusto Artur da Silva para o reportório de sua Esposa)

Canção

Não indicada

Não indicado

Rainha da Paz Salvadora de Portugal
Nª Sª de Fátima

Canção

Não indicada

Tip. Progresso - Espinho

 

Referências e sugestões de leitura

[1] - Wikipedia – Literatura de cordel

[2] - Roque, Renato – De Plauto ao teatro de cordel em Portugal e no Brasil

2014 - Faculdade de Letras da Universidade do Porto

[3] - Nogueira, Carlos – Literatura de cordel portuguesa – 3ª edição- 2006 – Apenas Livros

[4] - Moutinho, José Viale – Literatura de cordel / uma antologia – Círculo de leitores ; 2014

[5] – Ruiz, Betina dos Santos - A retórica da mulher em polémicas de folhetos de cordel do século XVIII- Dissertação de mestrado – 2009 - Faculdade de Letras da Universidade do Porto

 

Outras sugestões

Programa áudio apresentado por Iolanda Ferreira, com o saudoso Rúben de Carvalho, dedicado à literatura e canção de cordel. Bastante didático, como era tónica dos programas do Rúben de Carvalho.

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/literatura-e-cancao-de-cordel/

_o0o_

Filme dos arquivos da RTP em que os primeiros 20 minutos abordam este tema (a imagem foi extraída desse filme). São entrevistados um editor, uma senhora que fazia traduções, alguns vendedores.

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/impacto-6/

1973_Cego_folheto_cordel_RTP_Memoria.jpg

_o0o_

Vídeo "Romances e vozes de cordel" - acessível no Youtube (a imagem foi extraída desse filme). São entrevistadas pessoas que têm contos / cantigas na memória e os declamam.

https://www.youtube.com/watch?v=wXn2d6h2Psw&ab_channel=memoriamedia

Vozes_de_cordel.jpg

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Manuel_Proenca_Rebelo_arar_terra_1984_possivelment

Foto: O senhor Manuel Proença Rebelo lavrando a sua terra
LMCPM - 1982

Até um tempo relativamente recente, a grande maioria das pessoas cumpria o seu ciclo de vida quase sem sair da sua terra natal. Em Caria, como em todas as localidades do interior de Portugal, o dia-a-dia seguia as rotinas do tratamento da terra e do cuidar do gado. Se Deus Nosso Senhor assim o determinasse, recolheriam os frutos do seu esforço e assim sustentavam a sua família. As palavras ajustavam-se às necessidades e a fonética era o resultado de uma combinação de um caldo de cultura que veio de tempos remotos, recombinando-se em cada geração com o que de novo a sociedade ia propondo.

“As novidades”, sempre ocorreram em todas as épocas, mas o ritmo era muitíssimo menor do que atualmente. Com o evoluir dos tempos, sobretudo desde o final do século 19, tudo se alterou de forma progressivamente mais acelerada. A chegada do comboio, a abertura de estradas, o telefone, a rádio, a televisão, a mobilidade das pessoas para centros urbanos ou como emigrantes para “outros mundos” e, claro, as profundas mudanças sociais decorrentes da revolução de 1974, trouxeram uma avalanche de novos hábitos, novas práticas, tornando obsoletas e desnecessárias muitas das palavras que antigamente eram comuns.

Quem como eu nasceu e viveu a juventude numa pequena localidade como Caria até ao início da década de 1980, guarda na memória um mosaico único de palavras que constituía uma espécie de “impressão digital” da terra. Algumas das palavras são conhecidas um pouco por todo o país. Outras são mais específicas, em particular desta região da Beira Baixa. Não houve preocupação em distinguir quanto a esse aspeto, mas tão só registar os termos de uso comum - gíria da minha terra natal, até há cerca de 50 anos atrás.

Este levantamento teve como ponto de partida, para lá da memória pessoal, outros levantamentos disponíveis na internet, em particular dois que são identificados no final desta publicação.

 

Ti Maria

Numa gravação áudio de 1991, “Cantadeiras de Caria”, na altura vendida no suporte de fita das “velhinhas cassetes” hoje em desuso, Maria Alcina (ver breve nota biográfica no final desta publicação) assume a personagem “Ti Maria”, onde num delicioso monólogo com o ouvinte vai explicando como lhe está a correr dia. Usa como seria de esperar muitos dos termos deste glossário.

Pode escutá-la aqui.
Selecione "Download" na página que surge.

 

Sugestões

Todas as sugestões de revisão são bem-vindas. Agradeço que para tornar mais eficaz a comunicação, as sugestões sejam encaminhadas para o meu mail pessoal: lmcpm@sapo.pt

 

Glossário de termos regionais de Caria / Belmonte

 

A

Abalar - Partir, ir embora

Abano - Utensílio para atear a fogueira

Acagaçado – Com medo

Acartar – Carregar, transportar

Achanatar - Fazer à pressa

Acunapado - Mal remendado

Acusa-Cristos - Denunciante

Aforrar (as mangas) - Arregaçar

Alancar (com o saco às costas) – Aguentar o peso

Alacrário – Lacrau, escorpião

Alapado – Agachado, à espera, parado

Albarda - Sela rústica para animal de carga

Aldraba – Argola que fica do lado de fora da porta e que rodando faz abrir o trinco interno

Aldravada - Aldrabice

Amainar – Acalmar (muito usado referindo-se ao vento)

Amanhar (a terra) – Preparar a terra para o cultivo

Amargoso – Amargo

Amigar-se – Ir viver com a amante

Amochar – Aguentar um peso com resignação (com frequência associado a cargas físicas)

Amodorrado – Encolhido (por vezes associado a doença febril)

Amolancar / amolancado – Amolgar / Amolgado

Arreado – Vestido (possivelmente por associação jocoso aos arreios dos animais)

Arrelampado – Confuso, zonzo

Arreganhar (os dentes) – Atemorizar mostrando os dentes

Arreganhar (de frio) – estar a tiritar de frio

Arreliar - Provocar outro com o sentido de o irritar

Arremedar – Gozar com o outro, repetindo o que ele diz

Arrenegar – Esconjurar; Amaldiçoar

Arrocho – Pau curvo onde se penduravam os animais para ser desmanchado depois de morto

Arteiro – Vivaço (ex: Veio todo arteiro…)

Artolas – Mariola, armado em esperto

Atão – Então

Atazanar – Espicaçar / Enervar

Atiradeira – Fisga

Atoleimado – Tolo

Aventar – Deitar abaixo, deitar fora

Avesar / avesada (com isto) – Habituar / habituada (com isto); Ex: Avezamo-nos – Habituamo-nos

Asado – Ajeitado; Ter jeito

 

B

Bácoro – Porco

Badagaio (dar-lhe o) – Desmaiar, ir-se abaixo…

Badameco – Zé ninguém

Bandulho – Barriga (estômago)

Baraço – Novelo de corda

Barbeiro (estar um) – Estar frio

Barda (em) – Em grande quantidade

Bardamerda – (Mandar à) Merda

Barguilha – Abertura das calças

Barroco = Rochedo de granito de grandes dimensões (referido normalmente na sua localização natural)

Bate-cu – Cair de rabo no chão

Bedum - Sabor e cheiro do sebo na carne de borrego ou carneiro

Bento / Benta – Curandeiro, alguém que tem poderes de curar os males do espírito

Bica - Pão comprido e espalmado que se come pelos Santos feito com farinha triga e azeite; Servia de presente dos padrinhos aos afilhados. Fonte com água a escorrer por um tubo, telha, ou uma qualquer conduta que a faz sair da parede, muro ou tanque de onde a água provém.

Bichas – Lombrigas; verme parasita que por vezes se aloja no estômago e intestinos

Bisca – Jogo de cartas; “Bisca lambida” era um termo que derivaria da forma popular em que os jogadores humedeciam os dedos (lambiam) com saliva para melhor manusear as cartas, que se tornavam sujas e pouco higiénicas. Mas antigamente a higiene era um luxo e preocupação de poucos…

Bispo (entrou o) – A comida esturrou

Boa-vai-ela (andar na…) – Divertir-se, vadiar, sem grandes preocupações.

Bocachinho – Poucochinho, Bocadinho

Bôcho – Nome genérico para chamar um cão

Bodega – Coisa imunda

Boer – Corrupção de beber

Bofatada - corrupção de "bofetada"

Bofes – Pulmões

Bolacha / (andar à bolachada) - Sopapo / (andar à bulha dando sopapos)

Bolandas (andar em) – Andar em voltas complicadas

Bolir – (Mexer, incomodar)

Bonda (bem bonda) – Basta, já bem basta

Borco (de) – De barriga para baixo

Bordoada – Pancada com um pau (bordão)

Bornal - Saco em que se levam pertences ou a merenda. Saco com ração que se enfia no pescoço dos burros

Borra-botas – Pessoa sem posses a quem se pretende retirar qualquer valor

Borracho / Borrachana / Borrachão – Bêbado

Borralho – Braseiro na lareira

Borrega – Bolha de água na mão ou no pé

Botar – Deitar algo em algum lugar ou recipiente

Botelha - Cabaça, tipo de abóbora

Botica - Farmácia

Botifarra – Bota grosseira e grande

Braguilha – Abertura da frente da calça dos homens; equivale a “portinhola”

Braveira / apanhar uma... - Estar irritado e barafustar

Bromelho – Corrupção de Vermelho

Brusco (tempo…) – Tempo nublado, escuro, desagradável

Bucha – Bocado de pão com conduto

Bucho - estômago do animal (o termo pode ser aplicado ao nosso estômago - ex: enchi o bucho)

Bufa – Peido

Bulha – Zaragata

Búzio (o tempo estar... os olhos estarem...) - cinzento / enevoado

 

C

Cabeça de alho chôcho – Pessoa com pouco juízo

Cabo dos trabalhos – Expressão que se refere a algo que foi ou será muito difícil de fazer

Cachaporra – Pancada muito forte

Cachimónia – Cabeça (com o sentido de cérebro – pensar)

Cachopa / cachopo - Rapariga / rapaz

Caco (menino do…) – Menino mimado

Cagaço – Medo, susto

Caga-lume - Pirilampo

Cagança – Gabarolice

Caganeira - Diarreia

Caganeirento – Vaidoso

Caganito – Pequena quantidade de algo

Caguinchas - Medroso

Cagulo (de) – Estar cheio ao máximo (comida tipicamente – não se aplica a líquidos)

Calhoada – Pedrada

Calmeirão – Homem corpulento

Caluda! – Expressão para exigir silêncio

Cambada – Corja; Gente de má índole (aplica-se a um conjunto de pessoas e não individualmente)

Canalha – Crianças pequenas

Cantareira - Armário ou estrutura montada numa parede para colocar os cântaros, sobretudo os cântaros de água (quando a água era recolhida de fontes públicas ou naturais), mas também pratos e copos.

Cantilena - Cantiga

Caracho – Expressão de admiração; Equivale a Carago

Carago - Expressão de admiração; Equivale a Catancho e a um termo ainda hoje em uso com as mesmas duas sílabas iniciais.

Caramelo – Camada de gelo; frio intenso

Cardina - Bebedeira

Carrapato (=Encarrapato) – Carraça de pele lisa; Também se refere a alguém nú

Carrapicha (ir à) – Ir aos ombros (sentado nos ombros) de outro; Normalmente uma criança às carrapichas de um adulto

Carrapito – Arranjo de cabelo das senhoras em que o cabelo fica apanhado por trás e por cima (zona da coroa / occipital) formando um pequeno novelo

Carraspana – Bebedeira

Carrego (Um…) – Carga que seguia um padrão. Podia referir-se a um homem “levar um carrego às costas”, ou um animal, como por exemplo um burro

Carumba - Corrupção de "caruma", agulhas de pinheiro secas depois de cairem ao chão

Cascar (cascar em) - Bater em alguém

Castada - Corrupção de cacetada (pancada)

Casulo (do milho) - Interior da maçaroca

Catano – Expressão de admiração; Equivale a Carago

Catancho – Expressão de admiração; Equivale a Carago

Catita – Bem arranjado; Bonito

Catraio – Garoto

Catrapiscar – Piscar o olho a alguém

Catrefa – Grande quantidade (tipicamente quantidade de gente)

Cavalitas (andar às) – Andar às costas de alguém; tipicamente crianças

Catrino (ai o) – Desabafo; equivale a “Mas que raio!”; Equivale a Catano e Catancho

Chanato - Sapato

Chão – Pequena horta

Chambaril - Pau ou ferro para pendurar o porco após ser morto, para se proceder ao ato de o "desmanchar"; Equivale a arrocho

Chiba – corcunda

Chicha – febra

Chincar – Espetar

Chinfrim - Barulheira /algazarra

Chita - Ficar a zero, por exemplo num jogo / ter um péssimo resultado; "Não ser chita" corresponde por exemplo a não ficar a zero, não ter o péssimo resultado

Côca – Entidade perigosa que se nomeava para assustar as crianças com medo, para não fazerem algo ou não ir a determinado sítio (pois podia vir a côca)

Corricho - Porco

Cravelha – Lingueta (trinco) da porta

Conduto – Pedaço de comida de origem animal (carne, chouriço…) para comer

Cunapa – Remendo

 

D

Danado (estar) - Estar furioso;

Derrancado – Extenuado; De rastos

Desandador – Chave de fendas

Desenculatrado – Escangalhado

Desenxabido – Sem gosto

Desobriga – Confissão anual pela Quaresma (para cumprir o preceito – pelo menos uma vez por ano…)

Destrocar (dinheiro) – Trocar tipicamente uma nota de valor elevado por notas ou moedas de menor valor.

Diacho - Forma popular de referir o diabo; Exemplo: "Arre diacho!"; Segundo a tradição não se devem nomear de forma direta os "maus espíritos" pois eles podem acorrer ao nosso chamamento. Por essa razão foram criados diversas outras denominações para que "ele" não vir ao nosso encontro...

Doidana (estar numa) - Estar a comporatar-se de forma irracional

Doidivanas – Pessoa de vida desregrada

 

E

Emborcar – Beber de forma sôfrega

Empancar – Bater em algo que não deixa avançar ou não deixa abrir da forma normal (por exemplo uma gaveta)

Empanturrado – Cheio de comida até ao limite

Empanzinado – semelhante a empanturrado, mas mais associado a pão

Empata (um…) – Alguém que não se desenvencilha no que devia fazer e atrasa os outros

Empenado – Torcido, torto; Diz-se também de uma mesa ou banco em que as pernas não estão à altura correta, e fica a abanar facilmente

Empinar (bebida) - Beber até à última gota; Termo possivelmente derivado do gesto que será comum fazer de colocar o recipiente na vertical para que tal se faça

Empranhar – Corrupção de emprenhar; Ficar prenhe, grávida

Encafuado – Escondido, oculto; Aplica-se também na simples situação de estar na cama todo coberto com o lençol ou manta (encafuado na cama)

Encalacrado – Estar numa situação comprometedora, difícil de sair

Encarrapato – Nú

Encarrapitar – Colocar / colocar-se por cima, tipicamente numa posição não muito estável. Exemplo:  O senhor encarrapitou a criança aos ombros.

Enfarruscar / enfuscar - Sujar com cinza ou pó de carvão

Engonhar - Perder tempo

Enjorcado (mal) - Mal enjorcado = mal arranjado, normalmente referente a "mal vestido"

Enjorcar – Engolir de forma sôfrega

Ensertado – Já aberto (um invólucro que esteve fechado com alguma coisa – tipicamente comida, mas que entretanto alguém já abriu e gastou parte)

Entornado - Bêbedo

Esborralhar – Desmanchar (em partes pequenas)

Esbugalhar os olhos – Abrir muito os olhos (como bugalhos?)

Escanchar – Abrir, alargar, rachar (frase comum “escanchar as pernas” – estar de pé com os pés / pernas afastados

Escarafunchar - Revolver; Esgravatar

Escarcéu – Ruído; tipicamente gritaria

Escarranchado; Estar sentado de pernas abertas (por exemplo montado num animal)

Escarrapachado – Equivalente a escarranchado; Mas também se aplica a um texto, por exemplo de um edital, que se queira dizer que está bem à vista (possivelmente por associação malandra de quando uma mulher de saias está assim deixará algo bem à vista…)

Escava-terra (uma… feminino) – Toupeira

Escápulas – Cápsulas de medicamentos

Escorropichar – Beber até à última gota, deixando o líquido escorrer

Esgalhar – Cortar os galhos (ramos mais pequenos); Também se aplica com o significado de andar de depressa (andar a esgalhar, andar na esgalha)

Esgana – Doença dos cães que lhes afeta a respiração (Nota: Este termo é o usado pelos veterinários)

Esganar – Matar por asfixia; Estrangular

Esgolaimada – Mulher com camisa aberta à frente de forma exagerada tendo em conta as convenções (nos anos 1960 podia ser algo extremamente discreto aos olhos de hoje…)

Esgróviado – Tolo

Esguedelhado – Cabelo desgrenhado

Esmifrar (alguém) – Explorar alguém de forma abusiva; Ex: conseguir obter muitos bens / dinheiro dessa pessoa

Esmoer – Fazer a digestão

Estortegar – Torcer e danificar um membro – Ex: “Estorteguei um tornozelo” equivalendo a “torci / desloquei um tornozelo”

Espichar – Esguichar; Líquido que sai sob pressão de um orifício pequeno

Espinhaço / espinhela – Coluna dorsal

Espojar-se – Rebolar-se no chão e encher-se de pó / areia

Esquecido – Tipo de bolo regional achatado e redondo, com massa parecida com o pão de ló, mas seco

Estafermo – Pessoa de má índole

 

F

Farrusco - Estar enfarruscado; aplica-se também ao tempo atmofésrico com o sentido de nublado (equivale a "estar búzio")

Fedelho – Criança / miúdo (pejorativo)

Fraldisqueiro – Mal vestido

Fressura - Vísceras

Fumaceira – Fumarada / Muito fumo

Funda – Quantidade de azeite que se teve por uma quantidade de referência de azeitona (Ex: Um alqueire)

 

G

Gacho (de uvas) - Corrupção de "cacho"

Gadanha - Concha da sopa

Ganas – (dar nas ganas) Decidir-me a … (ter ganas) Ter vontade muito forte de…

Garruço - Gorro, caparuço

Gasganete – Goela / garganta

Gola – Goela / Garganta

Gosma (estar com a) – Estar com catarro

 

J

Jaja – Fato / Roupa

Javardo – Porco

Jeira - Parcela de terra que se consegue lavrar num dia pelos bois

 

L

Ladroeira - Ato de roubar (pode não ser o roubo de objetos, mas o de se vender a preço excessivo)

Lanho – Golpe / ferida

Lamúria – Choramingueira

Laréu (estar no) – Conversar (estar a)

Lavarinto (andar num) – Andar em grandes trabalhos e pressas, de um lado para o outro

 

M

Madeiro - Um único grande tronco de árvore, ou vários troncos de menor dimensão mas constituindo um volume igualmente considerável de madeira, o qual é ritualmente colocado a arder na véspera de Natal, numa praça central da localidade, procurando-se que a chama continue acesa até ao ano novo. Constitui um ponto de encontro das gentes da terra, sobretudo no final do dia, reconfortando-as da habitualmente gélida temperatura ambiente.

Mal-amanhado – Feito à pressa

Mal – enjorcado – Mal vestido

Malha (Levar uma) – Levar uma sova

Malina – Doença mortal epidémica (nos animais); muito frequente nos coelhos

Malmandado – Indivíduo desobediente

Malmurcho – Doença que murcha as plantas

Marrafa – Franja de cabelo comprida sobre a testa

Marrano - Porco

Matacão – Alguém corpulento e sem modos / abrutalhado

Matação – Matança do porco

Marreco – Corcunda

Mecha – Pedaço de pano que se põe a arder (exemplo: a tira que está embebida no petróleo – candeeiro de petróleo)

Medrar – Crescer

Melindrosa – Sensível / que fica facilmente afetada (por exemplo com doenças)

Mijinhas (às) – Aos poucos

Miminho do caco – Pessoa mimada

Mocho – Banco baixo e pequeno

Monca – Ranho (a pingar do nariz, ficando dependurado)

Mono – Amuado

Mordiscar – Pequena mordidela; Comer um pequeno pedaço de algo, tipicamente pão, cortando apenas com os dentes incisivos

Mosca-morta – Pessoa com pouca iniciativa

 

N

Nagalho – Pedaço de cordel

Nalgas – Nádegas

Nesga - Parte pequena de algo - exemplo: Uma nesga de terreno;
              "De nesga" - Estar de lado, estar de viés;
              "Bater de nesga" - Bater de raspão.

 

O

Ódespois / Osdespois – Equivale a “e depois…”

 

P

Panada – Pancada ; Exemplo: andar à panada – andar à pancada

Pantanas (ir de) - Cair

Pantominas – Trapalhão

Papo-seco - Pequeno pão de trigo, com uma forma peculiar, em que o padeiro batia com a mão no meio, em jeito de cutelo e puxava os extremos originando o que se denominava as "maminhas"

Pecarricho / Pequerricho - Pequeno

Pedrisco - Granizo

Pelainudo – Alguém com mau aspeto, mal vestido, desleixado

Peneiras / Peneirento – Vaidade / Vaidoso

Penicada - Fezes humanas

Penico - Esterco, estrume (para lá do habitual significado de recipiente próprio para se urinar e defecar)

Pentem – Corrupção de Pente

Pertelinho – Pertinho

Pincho – Trinco

Pindericalho – Algo pendente de pouco valor; Por exemplo uma bugiganga a fazer de colar

Pingarelho (armar ao) – Basófia

Pinoco – Marcador / pino (por exemplo um marco da estrada, ou um pino de um jogo da malha)

Pirisca – Parte final do cigarro, quase todo já fumado (os pobres apanhavam as piriscas dos outros e fumavam-nas)

Pita – Galinha

Pitrol – Petróleo

Poldras – Pedras que se colocavam nas ribeiras, afastadas um pouco umas das outras, mas permitindo passar a pé sobre elas sem se molhar

Portelo – Entrada da quinta

Portinhola – O mesmo que braguilha

Prantar – Colocar algo num sítio de forma muito exposta / que incomoda; Exemplos: “Prantaram-me aqui isto à porta!”; “Estás aí prantado a olhar para mim?”

 

Q

Quêdo – Quieto; Sossegado

Quelha – Viela estreita

Queimoso – Sabor do queijo picante

Quilhado – Prejudicado

 

R

Rabicho – Cabelo a fazer… “rabo de cavalo”

Ralado – Preocupado

Raimoso – Picante (ex: queijo)

Rebatinha (deitar à) – Deitar tudo de uma vez para quem quiser apanhar (quando alguém tinha por exemplo cromos de jogadores a mais que já não lhe interessavam, gerava alguma “festa” para os outros deitando-os ao ar e os outros corriam a apanhar)

Recusa (fazer) - Acusação, denúncia

Respigo – Pequena parte de um cacho de uvas

Roçar (o chão da casa) - Esfregar o chão da casa

 

S

Salvação (dar a) – Cumprimentar (quando se cruza com alguém)

Salta-roscas - Osga

Saraiva - Granizo

Sêmea - Pão de formato médio / grande, arredondado, com uma côr algo escura pois é / era feito com farinha de trigo pouco refinada (dizia-se ser de "farinha de 2ª")

Sobrado – Sótão

Soltura – Diarreia (= Caganeira…)

Somítico – avarento

Sopapo / andar à sopapada - bofetada / andar à bofetada

Sorna (ser um) – Preguiçoso

Sortes (ir às) – Ir fazer exame militar

Sumiço – Desaparecimento

Sucapa (à) - De forma a tentar passar despercebido

Sustância – Comida de maior riqueza proteica (ex: carne, peixe, ovos)

 

T

Tapada – Terreno agrícola com muro à volta

Tartulho – Tipo de cogumelo

Testo - Tampa da panela

Tinhoso – Nojento

Tomata - Corrupção de tomate

Topadela – Pancada imprevista com os dedos dos pés, a andar, tipicamente bastante dolorosa

Trambalazana – Brutamontes

Trambelho – Juízo

Trampa – Fezes

Trombas (andar de…) – Andar com cara de desagrado

Trouxe-mouxe – Feito rápido sem cuidado

Tuta e meia – Barato

 

U

Unto – Banha de porco

Úrsula – Corrupção de úlcera

 

V

Venda (a) – Pequeno comércio / mercearia

Veneta – Fúria

Vianda – Preparo de comida para dar aos porcos, tipicamente uma “sopa” com bastante água, legumes cortados e restos diversos de comida humana;

Vivo (O…) – Animais que se tratam. “Ir dar de comer ao vivo”, significa ir dar de comer aos animais. Porcos, coelhos, galinhas…

Vraveira (estar numa) – Estar bravo, irado – corrupção de “braveira”

 

X

Xé-xé – maluco

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Foram incluídas sugestões de:

Graça Neiva Correia Ribeiro
Dulce Pinheiro
José Joaquim Pinto de Almeida
Adozinda Pereirinha

 

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Breves notas biográficas da D. Maria Alcina.

Maria Alcina Cameira Franco Patrício (Caria 1920 – Lisboa 2012), dedicou boa parte dos seus estudos à música e às artes (Conservatório Nacional de Música; Escola de Artes António Arroio). Exerceu diversas atividades sobretudo relacionadas com o ensino de arte e desporto. Escreveu poesia. Teve intervenção política.

Manteve sempre um grande dinamismo demonstrando uma enorme alegria de viver, dinamizando ações na sua terra natal.

Criou o grupo Cantadeiras de Caria, o qual participou em eventos e festivais nacionais e internacionais.

Recebeu da câmara municipal de Belmonte a medalha de mérito municipal.

1985_Cantadeiras_2.jpg

Foto: Cantadeiras de Caria, cantando as Janeiras, em 1985
Maria Alcina surge com as mãos juntas, sensívelmente ao centro mas um pouco sobre o lado esquerdo
LMCPM - 1985

 

Agradeço aos filhos Albertina e António a concordância na divulgação da gravação aqui disponibilizada.

 

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Este levantamento consultou as seguintes páginas da internet. Aos seus autores, manifesto o meu reconhecimento.

Paulo Jesus - pj1966@sapo.pthttp://cidadedacovilha.blogs.sapo.pt/1820.html

Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa» - leitaobatista@gmail.com - https://capeiaarraiana.wordpress.com/category/o-falar-de-riba-coa/

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Retrato_infanta_Joana.jpgRetrato da infanta Joana ~1472 – Museu de Aveiro

Preâmbulo

A imagem com que inicio estas breves reflexões, é a de um quadro pintado em 1472 ou pouco antes, encontrando-se atualmente no Museu de Aveiro. Este museu está localizado numa zona central da cidade, dentro do que foi o perímetro da antiga muralha hoje inexistente, no antigo Convento de Jesus, da Ordem Dominicana feminina. Representa a infanta Joana, filha mais velha de D. Afonso V, irmã portanto de D. João II. Terá nascido em 1453 como mostrou Francisco Messias Trindade Ferreira [15]. No ano de 1472, ou seja, possivelmente pouco após a pintura do quadro, abandonou Lisboa vindo para esta então distante e remota vila, precisamente para este convento, que tinha sido fundado poucos anos antes. As razões deste auto-exílio são alvo de debate, mas presume-se que tenha sido essencialmente uma busca por refúgio das atribulações e intrigas da vida do paço, numa época em que o reino passava por tremendas mudanças, em que por exemplo as conquistas em África e as contínuas descobertas de terras cada vez mais distantes e surpreendentes na costa africana, tornavam Lisboa num centro onde convergiam grandes interesses por poder fortuna e fama, sobretudo entre uma nobreza em perda de influência e uma burguesia a ganhar cada vez mais relevância.

A infanta Joana faleceu em Aveiro em 1490 com 38 anos. Foi beatificada em 1693 e hoje é a padroeira da cidade.

Nesta publicação pretendo fazer uma análise breve a algumas das características deste retrato, e procurar possíveis respostas a perguntas tais como:

  • Seria Joana bela, à luz da estética da época?
  • Seria parecida com os seus parentes mais próximos?
  • A posição da mão terá algum significado?

 

A infanta e o seu retrato

Terei como base dois estudos feitos já há algum tempo mas que a meu ver continuam a ser muito boas referências:

  • “O retrato de Santa Joana no Museu de Aveiro”, estudo feito por Alberto Souto (1888 – 1961) em 1937, publicado no Arquivo Distrital [1].
  • O livro “Iconografia da infanta Santa Joana”, datado de 1952, da autoria de António Gomes da Rocha Madhail (1893 – 1969) [2].

Refere Alberto Souto duas descrições das características físicas da infanta, mas apenas aqui transponho a primeira, pois a outra parece ser uma simples reinterpretação. Joana é descrita desta forma por uma religiosa que a conheceu no referido convento e que consta de um códice que ali existiu e que entretanto faz parte do Museu (texto mantendo a estrutura da época mas ajustado a termos atuais). De notar que esta descrição é atribuída a D. Margarida Pinheiro, mas Francisco Messias Trindade Ferreira [15] mostra que terá sido feita por Isabel Luís:

Era no rosto e corpo muito aposta (com boa apresentação). A fronte muito graciosa. Os olhos verdes muito formosos. O nariz meão e de boa feição. A boca grossa e revolta. Rosto redondo. A cara alva com alguma cor bem-posta. Muito formosa garganta e mãos mais do que se pudesse achar e ver a nenhuma outra mulher. Alta e grande de corpo direito muito aposto e airoso. A vista e representação de grande senhora e estado.

Com base no quadro, poderemos conferir a descrição do rosto e a pose. Diria que há uma correspondência bastante boa, à exceção de dois aspetos:

- a descrição da boca; Pelo menos de acordo com os atuais significados comuns das palavras. Adjetivar os lábios como grossos, poderia fazer supor alguma sátira o que decerto não foi o caso. Curiosamente os comentários que li nos estudos publicados sobre esta particularidade, vão no sentido de que existe um alinhamento. Ou seja, a boca apesar de claramente pequena pode ser considerada “grossa”. E por ter uma curvatura acentuada pode considerar-se adequado o adjetivo “revolta”.

- o “nariz meão”; Na minha perceção, diria que era mais longo que o normal. Parece haver aliás uma distorção da face, surgindo demasiado longa. Tentei avaliar essa hipótese. Como? Irei explicar mais adiante. Até lá peço ao leitor que aceite a minha conclusão. Deduzi que pode haver um alongamento, mas ligeiro, bem menor do que supus inicialmente. Podemos ver de seguida, lado a lado a imagem atual da face e a versão ligeiramente mais curta.

Joana_duas_proporcoes_Irmao.JPGO rosto de Joana na escala em que surge no quadro e com um ligeiro encurtamento de acordo com uma análise que será explicada mais adiante

Sobre a interpretação do quadro, julguei útil transpor aqui parte do conteúdo do livro dedicado à iconografia da infanta [2], em que Madahil cita o estudioso Joaquim de Vasconcelos (1849 — 1936), que em 1914 descreveu assim o quadro, de forma muito minuciosa e sabedora:

O quadro que representa a Princesa é sem dúvida uma das obras de arte mais valiosas do Museu regional de Aveiro, As dimensões da tábua de castanho, sem o caixilho do século XVIII, são as seguintes: altura 0m,60; largura, 0m,40; a madeira, com a grossura de 7 milímetros, está bastante carcomida nas extremidades, e apresenta numerosos furos das larvas dos vermes.

     A Princesa traja á moda da corte

     O busto está visível num decote muito aberto, protegido o peito apenas por uma camisa de cambraia transparente, finamente bordada a retrós de seda preta. Um corpete de brocado de ouro, com bordado semelhante, surge de ambos os lados; apenas a linha ondulada do recorte do vestido ajuda a indicar suavemente os seios, que não aparecem todavia na modelação da carne.

     O vestido mostra-se golpeado na manga do braço direito e junto da cinta; a mão direita descansa no entretalho, com certa intenção, não só para revelar a rara beleza da forma, mas também a preciosa joia que a orna. Os golpes do vestido estão tomados com cordão preto guarnecido de pontas de ouro; cordão igual aperta o vestido no extremo do recorte.

Além da preciosa touca, de que já falarei, há a notar, como enfeite, o anel de ouro com um grande carbúnculo; uma espécie de pulseira, formada por um laço de galão de ouro, talvez com significação simbólica que nos escapa. Um grosso cordão de ouro, torcido, com quatro voltas acompanha o recorte da camisa; mas não tem joia pendente, nem sequer a pérola tradicional.

     Para adorno de uma princesa e de uma noiva – todo o aspeto da figura largamente decotada, o movimento da mão posta sobre o coração indicam, para mim, que se trata, com efeito, de uma noiva – parece-nos modesto o atavio, se não fora a preciosa touca. É ela formada por grossos cordões de fio de ouro torcido nos quais o joalheiro enclausurou uma abundância de pedraria rara: rubis, safiras e pérolas. A touca compõe-se de duas tiras largas, que descem sobre o diadema da frente e se prendem a dois cantos menores; estes fecham a touca dos lados.

     O maior ornamento, e o mais encantador, não seria a touca cintilante; deviam sê-lo os maravilhosos cabelos louros, que descem em abundantes ondas sobre o busto. Infelizmente, o retocador destruiu esse encanto! Não tocou, por fortuna, nos olhos garços, que na estampa parecem muito escuros; o cronista afirma que eram verdes. Como geralmente acontece com as belezas loiras, a tez rosada do rosto, a alvura acetinada do pescoço e do colo andam associadas; a suavidade da epiderme, a elegância intencional da mão aristocrática, o pescoço alto, os ombros descaídos denunciam a raça.

     Acresce a expressão reservada; o segredo dos lábios firmemente cerrados, onde se desenha já nos cantos um vinco amargo. O nariz um tanto longo, mas muito delgado e mais ainda a pequena boca, contrastam com as faces muito cheias; eu diria inchadas, se um exame cuidadoso da pintura não me indicasse que houve indiscretos retoques na carnação; a técnica esfumada não é do efeito primitivo; basta comparar a cor da epiderme no rosto com a do peito e das mãos; ali suja, aqui clara.

     Em conclusão: temos um retrato autêntico da escola portuguesa de pintura da segunda metade do seculo XV, que revela qualidades artísticas não vulgares.

Segundo Joaquim de Vasconcelos, o quadro tem as características de ter sido feito para ser mostrado como noiva a um pretendente. A mão sobre o coração, o amplo decote, a touca preciosa, indicarão isso.

Comentou também que o quadro terá sido retocado e nesse processo ter-se-á perdido o que seria um dos fatores de maior encanto, que seriam os longos cabelos louros descendo em ondas sobre o busto.

Segundo as crónicas os olhos seriam verdes, se bem que tal cor não seja já visível. E salientou a tez rosada do rosto, a alvura do pescoço alto, os ombros descaídos, a expressão reservada, a boca pequena, os lábios cerrados como que guardando um segredo.

Note-se que esta descrição foi feita antes do restauro por que passou em 1935. A imagem seguinte, se bem que a preto e branco, permite perceber que estaria a necessitar dessa intervenção.

Quadro_infanta_Joana_antes_1935.jpgO quadro antes do restauro de 1935 [2]

Os ideais de beleza nesta época

Poderia Joana ser considerada bela à luz da época? Quais seriam os ideais de beleza feminina neste período?

É um exercício arriscado por inúmeras razões, até por estarmos numa época de grandes transições. O que se convencionou denominar de idade média tinha terminado (1459 – Queda de Constantinopla). A idade moderna estava a dar os primeiros passos e Portugal iria mesmo ser um ator principal com a abertura de novas rotas e descobertas.

Umberto Eco [6] refere-se a este período como tendo um conceito de “beleza mágica”. A beleza integraria dois planos, o da imitação da natureza com regras estabelecidas, mas também como contemplação da perfeição do que é sobrenatural, não percetível à vista. Esta interpretação seria estranha para nós, mas coerente para quem vivesse na altura. A técnica do “esfumado” de Leonardo da Vinci, permitiria dar essa vertente mística à perceção de quem observasse as suas obras. Em Florença, o movimento neoplatónico, promovido por Marsílio Ficino, procurou definir um sistema simbólico e mostrar formas de harmonia com o simbolismo cristão. A “beleza supra-sensível” devia poder ser contemplada na beleza que percecionamos através dos cinco sentidos. A mulher, para ser bela, para lá dos atributos físicos devia ser virtuosa.

No que respeita a tendência artísticas e maturidade dos sentidos estéticos e da arte, as cidades-estado daquela região que hoje é o norte de Itália, tinham decerto um muito maior desenvolvimento do que neste nosso periférico território. Por essa razão, se bem que seja decerto discutível determinar qual seria então o sentido do belo no reino de Portugal, penso que ainda possuiria muitas afinidades com a estética medieval. Procurei por isso referências a características de beleza física que pudessem ser consideradas comuns (ver Anexo 1). Aqui as resumo:

- Pele clara, com toques rosados na face, cabeleira loira, testa grande, face alongada, pescoço longo, nariz delicado, olhos brilhantes e claros, lábios pequenos e finos;

- Identifiquei ainda estas outras referências, se bem que não citadas de forma tão frequente: sobrancelhas escuras em curva, braços e dedos longos e delgados, ombros curvilíneos, seios pequenos erguidos, cintura fina…

Será razoável afirmar que o retrato de Joana se aproxima deste ideal. Poderíamos até pensar que o ideal de “rosto alongado” e “dedos longos e delgados” teriam influenciado o artista, se bem que, como referi antes, o rosto de Joana fosse já bastante alongado. Em qualquer caso, decerto que eventuais ajustes se enquadrariam nos conceitos comuns da estética da época e teriam a autorização do seu encomendador.

Parece-me claro que apenas o olhar não corresponde ao ideal, pois Joana mostra-se algo triste. Sendo este quadro provavelmente destinado a ser enviado a outros reinos com que se procuravam estabelecer relações de proximidade através do casamento, seria de esperar uma outra expressão. O referido “olhar brilhante” citado como belo, está ausente. João Gaspar [14] refere que Joana não estaria satisfeita com essa possibilidade, o que justificaria a atitude. Note-se que não seria difícil ao artista, se tal lhe fosse ordenado, que dispusesse um pouco mais de alegria no rosto. Porém tal não sucedeu. O mesmo autor refere que Joana tinha uma personalidade forte e que não era submissa. Poderá ter imposto essa característica ao seu retrato, quem sabe? Mas neste caso estamos no puro reino da especulação… 

 

Parecenças físicas – quem sai aos seus…

Considerei também curioso refletir um pouco sobre as semelhanças físicas de Joana com outros familiares.

Chegaram até aos nossos dias muito poucos quadros desta época que se possam considerar retratos fiéis e com atribuição clara de quem está retratado. O quadro de Joana é nessa perspetiva algo raro e valioso. Os bem conhecidos “painéis de Nuno Gonçalves”, constituem uma extraordinária representação de personagens de uma época anterior, muito provavelmente sendo retratos fiéis, mas até ao momento não há consenso sobre “quem é quem”. Tal sai completamente fora do âmbito deste artigo, mas apenas saliento que até o bem conhecido “homem do chapeirão borgonhês” está longe de ser consensual que corresponda ao infante D. Henrique.

Se vier a ser confirmada essa não correspondência, muitos livros e estátuas terão de ser revistos…
:-)

 

O pai Afonso V

Curiosamente, temos algumas imagens que podemos considerar como retratos fiéis do pai de Joana, o rei Afonso V e o que salientaria em primeiro lugar encontra-se mesmo nos referidos Painéis.

Surge representada uma criança, num local central. É a única criança, trajando de forma rica e com uma espada. Tal representação tem o claro significado de ser rei. Não me vou aqui alongar em detalhes. Apenas saliento que li vários estudos sobre a interpretação dos personagens, dos significados das suas poses, vestes, etc. Considero como muito bem fundamentadas as obras de Henrique Seruca [7] e Fernando Branco [8] Fazem ambas uma compilação de imensos dados interessantes, como sejam a datação das tábuas em que as pinturas foram feitas, as roupas vestidas e as épocas em que “estariam na moda”, as armas exibidas, a possível data que se pode interpretar no botim da criança, etc. Convergem em muitos aspetos como seja a datação aproximada, mas assumem razões de ser para a pintura distintas e daí divergem quanto à atribuição da generalidade dos personagens. Porém coincidem na conclusão de que a criança só pode ser Afonso V, com cerca de 11 anos.

Podemos pois olhar para estes dois retratos com bastante confiança de que estamos perante filha e pai em criança. Diria que há traços na fisionomia, como sejam o olhar e o desenho da boca que sugerem algumas parecenças, mas não me alongo. São opiniões sempre discutíveis e esta imagem pretende apenas mostrar essa situação curiosa de pai e filha lado a lado e nada pretende demonstrar.

Joana_e_pai_Afonso.JPG
Joana lado a lado com a imagem do pai AfonsoV em criança

É conhecido um outro retrato da época, de corpo inteiro, que representa Afonso V em adulto e pode ser vista no Anexo 2. A cara mostra-se na imagem seguinte. Pensa-se ter uma razoável correspondência pois terá sido mandada fazer por um cavaleiro alemão que combateu a seu lado. A forma de olhar, o desenho dos olhos, com o que aparenta serem o que vulgarmente denominamos olheiras, não será fruto do acaso. O olhar algo triste tem semelhanças com o de Joana. O nariz tem um desenho normal, mas relativamente grande, o que terá também alguma correspondência com a filha. Idem para a forma da boca.

AfonsoV_Georg_Ehingen_cara.JPGDesenho / retrato de D. Afonso V com boa probabilidade de corresponder à realidade

 

Por último, sobre D. Afonso V, apenas saliento a diferença entre estas representações que serão próximas da realidade e as que surgem seguindo padrões convencionais, nas estátuas ou livros de história: Barba farta, aspeto austero, espada na mão…

AfonsoV_convencional_3.jpgDesenho / retrato de D. Afonso V convencional
Recolhido de https://www.arqnet.pt/portal/portugal/temashistoria/afonso5.html

 

O irmão D. João II

Na perspetiva de analisar semelhanças, surge de forma natural o interesse em se analisar o que possam ser semelhanças com os irmãos, neste caso o único que atingiu a idade adulta, D. João II.

Curiosamente, sobre este monarca, apesar de ter tido um reinado de grande proeminência, temos poucas referências seguras quanto a serem retratos fidedignos.

Identifiquei três retratos como bastante plausíveis, mas todos eles carecendo de algo que passo a explicar. Dois são pinturas, com algum detalhe, mas de épocas posteriores, supondo-se contudo que sejam cópias de retratos da época. O terceiro é da época, mas trata-se de uma iluminura, ou seja de um desenho que será uma representação simplificada.

 

A iluminura do Livro dos copos [9]

Comecemos por este último. Representa o monarca no denominado Livro dos copos, mandado por si fazer. Se bem que seja uma representação simplificada, penso que permite retirar algumas ilações, como sejam: A compleição física não aparenta ser pesada, apesar da capa a esconder. O nariz mostra um desenho de linhas direitas, sendo bem marcado. A cara ostenta uma barba bastante aparada e curta.

D._João_II_em_iluminura_do_Livro_dos_Copos_(1490-Representação de D. João II – Iluminura do Livro dos Copos

O quadro da Casa ducal de Medinaceli [10]

A imagem seguinte é de uma pintura considerada como tendo uma representação bastante fidedigna. É referida como datando do final do século XVI, mas sendo uma cópia de um retrato do século XV entretanto desaparecido. Podemos também aqui constatar uma compleição elegante, com uma barba e bigode mas bastante curtos, podendo sobre ele aplicarem-se os comentários anteriores que fiz à iluminura.

JoaoII_Casa_Medinaceli.jpgD. João II – Quadro da Casa ducal de Medinaceli

 

O quadro do Museu de História da Arte de Viena [11]

Sobre esta terceira representação a identificação do monarca não terá sido consensual.

O texto no próprio quadro refere ser João o quarto, o que corresponderia ao quarto rei da dinastia de Avis. Foi identificado como correspondendo a D. João II por Pedro Batalha Reis (1906 - 1966) em 1946. António Henrique de Oliveira Marques (1933 – 2007) e Maria Fernanda Gomes da Silva (1931 – 1971) discordaram desta atribuição.

Apesar da polémica a hipótese terá sido considerada muito credível pois passou a ser utilizada em diversas situações, Recordo como exemplo uma das últimas versões da nota de 500 escudos, que se recorda a seguir.

O quadro encontra-se no Museu de História da Arte em Viena (Kunsthistorisches Museum).Será do final do século XVI, mas mais uma vez pode ter-se baseado em imagens anteriores.

Neste ponto apenas comento que numa análise superficial parece haver uma grande semelhança entre as duas representações. Porém o desenho das sobrancelhas e da ponta do nariz são bastante diferentes, como se pode ver na sua colocação lado a lado como se apresenta a seguir.

JoaoII.jpgD. João II – Quadro do Museu de História da Arte de Viena
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_II_de_Portugal

500_escudos_Nota_JoaoII.jpgD. João II representado numa antiga nota de 500 escudos que teve como base o quadro anterior

Duas_imagens_DJoaoII.JPGPresumíveis rostos de D. João II – Quadro de Medinaceli e Museu de História da Arte de Viena

Posso agora finalmente explicar qual a base de análise através da qual concluí que a face de Joana seria provavelmente alongada como no quadro em que se baseia este artigo.

Assumi como termo de comparação o retrato que é mais plausivelmente fidedigno, o da Casa Ducal de Medinaceli.

A forma como estabeleci essa correspondência é explicada no Anexo 3.

 

A posição da mão de Joana

Procurei por último analisar se poderia ser atribuído um significado específico à posição da mão.

Joaquim de Vasconcelos refere, como vimos, que a mão sobre o coração teria o significado de estar a ser representada como noiva.

Nas pesquisas que fiz não consegui confirmar se essa simbologia na época era assumida como regra. Identifiquei um estudo curioso [12] em que associa o significado a um sinal de devoção a chefes. O autor atribui-lhe uma carga misteriosa, de rituais maçónicos. Discordo dessa explicação, mas os exemplos de imagens recolhidas são tantos e tão diversos, que o considero de interesse por essa razão. O leitor faça a sua própria interpretação. Se contudo retirarmos esse “exagero de perspetiva de interpretação”, podemos a meu ver reconhecer algo que na essência é semelhante, mas muito mais naturalmente humano: Em vez da “devoção a chefes”, sugiro interpretar o gesto como “devoção por quem nos sentimos próximos”.

Encontrei precisamente um estudo interessante [13] From the heart: hand over heart as an embodiment of honesty, o qual não se debruça sobre o simbolismo formal, mas sobre o significado que instintivamente atribuímos a esta posição. Este estudo, que se suportou em testes de reação de pessoas, mostra que fazemos instintivamente uma atribuição de maior honestidade a alguém que faça este gesto.

Imagens_do_estudo_significado_de_honestidade.JPGImagem utilizada no estudo From the heart: hand over heart as an embodiment of honesty [13]

Diria pois que poderá existir uma atribuição de significado formal a este gesto, mas não o consegui encontrar. Mas muito provavelmente corresponderá a este tipo de correspondência. Uma mensagem visual ao(s) nosso(s) interlocutor(es) para mostrar que queremos confiar e pretendemos nele(s) confiar.

Esta explicação é também coerente com a hipótese de o retrato de Joana poder ter como objetivo ser apresentado a algum candidato a noivo. Mas na verdade podia não se restringir a esse objetivo, pois este significado no limite ajusta-se a muitos outros fins, como a simples exposição em contexto mais privado.

Outros exemplos deste gesto

Mostro de seguida, apenas para fins ilustrativos, outros quadros desta época e épocas próximas, em que a posição da mão é semelhante e é adotada por homens e mulheres.

Chamo apenas a atenção para o último, que por curiosidade, é de uma prima de Joana, mais precisamente, filha de um primo direito…

 

1440_Filippo_Lippi.jpgRetrato de uma mulher - Filippo Lippi – por volta de 1440
Gemäldegalerie de Berlim
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Filippo_Lippi,_ritratto_femminile.jpg

1470_Retrato_mulher_familia_Hofer.jpgRetrato de mulher da família Hofer – Autor desconhecido - Por volta de 1470
The National Gallery, Londres
https://www.nationalgallery.org.uk/artists/swabian

 

1483_Sandro_Botticelli.jpgRetrato de jovem - Sandro Botticelli – Por volta de 1483
Andrew W. Mellon Collection
https://www.nga.gov/features/slideshows/portrait-painting-in-florence-in-the-later-1400s.html

1508_Girolamo_Benvenuto.jpgRetrato de uma jovem - Girolamo di Benvenuto – por volta de 1508
Samuel H. Kress Collection
https://www.nga.gov/collection/art-object-page.497.html

 

1510_Giorgione_Castelfranco.jpgRetrato de um jovem – Giorgione Castelfranco - - Por volta de 1510
Museu de Belas Artes de Budapeste
https://www.mfab.hu/artworks/portrait-of-a-young-man-the-%CA%BAbroccardo-portrait/

1516_Rafael_de_Urbino.jpgLe Velata (mulher com véu) – Rafael de Urbino – por volta de 1516
Galeria Palatina – Palácio Pitti, Florença
https://en.wikipedia.org/wiki/La_velata

Isabel_Jan_Vermeyen.jpg

Isabel de Portugal – Jan Corneliuz Vermeyer – por volta de 1523
Localização não identificada (terá sido vendido em leilão)
http://www.artnet.com/artists/jan-cornelisz-vermeyen/portrait-of-emperor-charles-v-RnthKoBKVav1OfgxE3GcFQ2

Isabel era filha de D. Manuel I. D. Manuel era primo direito da infanta Joana. Isabel nasceu em 1503. Era muito culta e considerada muito bela. Teve um percurso de vida muito interessante que pode ser visto no ponteiro seguinte. O seu filho primogénito foi Filipe II de Espanha, Filipe I de Portugal.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Isabel_de_Portugal,_Imperatriz_Romano-Germ%C3%A2nica

 

Nota final

As razões que levaram a infanta Joana a refugiar-se em Aveiro têm suscitado debate. Idem também quanto à sua fama de santidade. Independentemente dessas razões, a época em que viveu é na minha opinião das mais fascinantes da nossa história. No sentido de procurar compreender melhor o contexto histórico e o seu percurso de vida, fiz diversas leituras. Nessa sequência, publiquei um romance histórico denominado Os sonhos de Joana, o qual tem naturalmente muitos contextos ficcionados, mas procura seguir da forma mais fidedigna que pude os factos que ocorriam no reino e com ela, ao longo do período em que o romance decorre.

Se gosta de romance histórico, ele pode ser adquirido nas principais livrarias e respetivos sítios na internete.

--oo0oo--

Referências

[1] – Alberto Souto; O retrato de Santa Joana no Museu de Aveiro; Arquivo do Distrito de Aveiro, Vol. III, pp. 161-178.

http://ww3.aeje.pt/avcultur/AvCultur/ArkivDtA/Vol03/Vol03p161.htm

[2] Madahil, António Gomes da Rocha; Iconografia da infanta Santa Joana; Coimbra - Oficinas Gráficas da Coimbra Editora, 1957.

http://ww3.aeje.pt/avcultur/AvCultur/ArkivDtA/Vol18/Vol18p186.htm

[3] – Ariés, Philippe e Duby, George – História da vida privada; Edições Afrontamento, 1990, página 358 e 359

http://ww3.aeje.pt/avcultur/AvCultur/ArkivDtA/Vol03/Vol03p161.htm

[4] – Elliot, Lynne - Clothing in the Middle Ages, página 29

https://books.google.pt/books?id=qtq_WSpdo0gC&printsec=frontcover&dq=clothing+in+the+middle+ages&hl=pt-PT&sa=X&redir_esc=y#v=onepage&q=clothing%20in%20the%20middle%20ages&f=false

[5] – Shaus, Margaret - Women and Gender in Medieval Europe: An Encyclopedia; Páginas 64 e 65

https://books.google.pt/books?id=aDhOv6hgN2IC&printsec=frontcover&dq=woman+and+gender+in+medieval&hl=pt-PT&sa=X&redir_esc=y#v=onepage&q=woman%20and%20gender%20in%20medieval&f=false

[6] – Eco, Umberto (Direção da obra) – História da Beleza ; Difel 2002 ; Páginas 176 e seguintes

[7] - Seruca, Henrique – Os painéis de Nuno Gonçalves – Scribe, 2013

[8] - Branco, Fernando – Os novos painéis de S. Vicente – Verbo, 2017

[9] - Livro dos copos, mandado fazer por D. João II a Álvaro Dias de Frielas

Livro de registo de títulos da Ordem Religiosa e Militar de Santiago – Torre do Tombo (1490 / 1498).

Nota 1 Penso que a denominação “copos” tem a ver com as guardas de mão da espada, neste caso empunhada por D. João II.

http://digitarq.arquivos.pt/ViewerForm.aspx?id=4251394

Nota 2: o conteúdo começa a surgir apenas na imagem digitalizada nº 21. A figura mostrada surge na imagem digitalizada nº 29

[10] - Casa ducal de Medinaceli

http://www.fundacionmedinaceli.org/coleccion/fichaobra.aspx?id=153

[11] – Commons Wikipedia

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:IOANNES_QVARTVS_PORTVGALIAE_REX_(Kunsthistorisches_Museum).png

[12] – Significado da mão sobre o coração – Devoção a chefes

http://www.bibliotecapleyades.net/sociopolitica/codex_magica/codex_magica16.htm

[13] – Parzuchowski, Michal e outros - From the heart: hand over heart as an embodiment of honesty

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4121547/

[14] – Gaspar, Monsenhor João - A Princesa Santa Joana e a sua Época – Câmara Municipal de Aveiro – 2012 (3ª edição)

[15] – Ferreira, Francisco Messias Trindade – Infanta Joana, um novo olhar – Edição do autor - 2019

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Anexos

Anexo 1 – Ideal de beleza feminina na idade média

Algumas referências bibliográficas

- Segundo a obra História da vida privada [3], a beleza feminina teria como atributos a pele clara realçada por um toque rosado, cabeleira loira, face alongada, nariz alto e regular, olhos risonhos, lábios finos;

- Já no livro Clothing in the middle ages [4], realçam-se como fatores de beleza a magreza, a pele clara, os cabelos louros, dentes brancos, olhos cinzentos brilhantes, testa grande, lábios pequenos, pescoço longo. Refere que para sublinhar o efeito pretendido na testa, podiam arrancar algum cabelo ou esfregando com uma pedra-pomes afiada ou queimando com cal viva... Aparavam também as pestanas e as sobrancelhas de forma a ficarem mais finas. Apenas jovens ou mulheres solteiras poderiam ter o cabelo longo e solto.

- No livro Women and Gender in Medieval Europe [5], refere-se que a cor e a luz estavam na base do conceito de beleza na época medieval. Em torno desta ideia base enaltecia-se o cabelo louro, sobrancelhas escuras em curva, pele branca brilhante, faces rosadas, nariz delicado, olhos brilhantes cinzentos ou azuis, boca pequena vermelha, pescoço longo, ombros curvilíneos, braços e dedos longos e delgados, seios pequenos erguidos, cintura fina…

 

 

Anexo 2 – Retratos de família

D. Afonso V

AfonsoV_Georg_Ehingen.jpg

Representação do rei D. Afonso V. Um esboço colorido à mão do diário de Georg von Ehingen (1428-1508), atualmente na Württembergische Landesbibliothek em Estugarda.

George von Ehingen foi um cavaleiro alemão que serviu Afonso V em Ceuta em 1458-59. O autor do esboço é incerto, mas foi incluído no manuscrito das memórias de von Ehingen escritas por volta de 1470.

Como von Ehingen foi contemporâneo de Afonso V, esta imagem pode ter uma boa semelhança com a realidade.

Informação recolhida de: https://en.wikipedia.org/wiki/Afonso_V_of_Portugal

 

Leonor de Portugal, irmã de D. Afonso V

Leonor_Austria.jpg

Leonor de Portugal - Imagem recolhida de https://pt.wikipedia.org/wiki/Leonor_de_Portugal,_Imperatriz_Romano-Germ%C3%A2nica

Note-se que esta imagem corresponde a uma parte do quadro original onde surge com o marido Frederico III.

Frederico_III_Leonor_de_Portugal.jpg

Frederico III e Leonor de Portugal
Imagem recolhida de https://en.wikipedia.org/wiki/Frederick_III,_Holy_Roman_Emperor

 

Anexo 3 – A face de Joana – comparação de características com faces de familiares

No ponto que denominei – Análise das parecenças físicas, realcei o que me pareceu ser uma distorção da face, por alongamento vertical.

Como podemos aferir essa hipótese?

A forma mais razoável será porventura comparar com imagens de irmãos. No caso apenas o podemos fazer com o seu irmão D. João II.

Tomei assim como base de trabalho o quadro da Casa Ducal de Medinaceli. Mas temos aqui um problema: Ao contrário do retrato de Joana, este de João não está de frente mas sim do que se pode denominar “de três quartos”. Há assim o efeito de perspetiva das dimensões observadas na horizontal.

JoaoII_Medinaceli_Cara.jpg

Para quantificar esse efeito temos que avaliar o ângulo que a face está a fazer relativamente ao ponto de vista do pintor.

Para isso fiz uma sequência de fotografias, tomando-me a mim próprio como modelo, que vão da posição frontal até um ângulo de 45 graus, em doze passos / treze posições. Obtive assim uma sequência com o seguinte aspeto.

Sequencia_de_fotos_0_45_graus.jpg

Por esta sequência assumi que o ângulo aproximado do quadro de João corresponde a um ângulo de 33 graus aproximadamente.

Comparacao_angulo.JPG

Com este valor, podemos saber por cálculos básicos de trigonometria, que as distâncias na horizontal são reduzidas de um fator de 0,83. Ou seja, como exemplo, se a distância entre os olhos neste retrato for um valor “x”, se o retrato fosse frontal, a distância entre os olhos seria superior, no valor “x / 0,83” (“x” a dividir por o,83).

Podemos assim comparar as proporções deste rosto com o do retrato de Joana.

JoaoII_Medinaceli_Cara_proporcoes.JPG

A proporção neste quadro, entre a distância das pupilas (“a”) e a linha entre elas e a boca (“b”), ou seja a/b = 0,67. Mas aplicando o fator anterior (0,83), temos 0,81.

Ajustando agora estas linhas a esta proporção e colocando-as no retrato de Joana, vemos que está próxima (imagem seguinte do lado esquerdo), necessitando apenas de um ligeiro encurtamento da face. É o que podemos observar na imagem seguinte do lado direito.

Joana_duas_proporcoes_Irmao_com_reguas.JPG

Podemos daqui concluir duas coisas:

- Há uma muito razoável correspondência entre as proporções da face entre o quadro de Joana e o quadro suposto do seu irmão; tal ajuda a reforçar a hipótese de o quadro ser realmente do seu irmão;

- A suposta distorção significativa de alongamento vertical da face, não se confirma; o que sucede é que efetivamente ambos teriam um rosto alongado;

A última constatação fica mais reforçada se fizermos um estudo idêntico mas agora com a tia Leonor…

Permitam-me neste ponto uma breve referência histórica sobre esta pessoa.

Leonor, irmã do pai Afonso V, casou com o imperador Frederico III do Sacro-Império Romano-Germânico.
Dela descende toda a linhagem da Casa de Áustria. Apenas como exemplos de descendentes, foi seu bisneto o imperador Carlos V (1500 – 1558), que reinou em Espanha como Carlos I. Recorde-se que este por sua vez casou com Isabel de Portugal , filha do nosso rei D. Manuel I  e teve como filho Filipe II de Espanha  (Filipe I de Portugal)...

Foi desta linhagem que este último ganhou direito a ser rei de Portugal.

O casamento de Leonor foi possível pois a dinastia de Avis gozava já na altura de bastante prestígio. Desde D. João I que o reino mantinha cidades conquistadas no norte de África e eram entusiasmantes as sucessivas notícias de novas descobertas de terras e bens comerciáveis na costa africana.

Mas a razão de trazer esta referência a este trabalho, tem a ver com o facto de ser um parente bastante direto de Joana e João e dispormos de bons retratos seus, como o da imagem seguinte (ver mais detalhes no Anexo 2).

Leonor_Austria_cara.JPG

Focando-nos nas características do rosto, parece constatar-se uma proximidade com as características do irmão e da sobrinha, com um desenho de nariz proporcionado, algo grande, testa alta, boca bem desenhada.

A posição da face relativamente ao ponto de vista do pintor parece ser idêntica, ou seja igualmente de 33 graus, desta vez para o lado esquerdo. O ajuste de escala é por isso igual ao que foi feito com o quadro de João.

Porém, desta vez obtemos uma relação de dimensões muito distinta, como podemos ver na imagem seguinte e nas medidas recolhidas.

Leonor_Austria_cara_com_reguas.JPG

Feita a mesma análise anterior, encontramos, depois de aplicado o fator de correção, o valor a/b = 1,11.

É um valor muito diferente do encontrado no sobrinho João, que, recordo, era 0,81.

Significa que o rosto de Leonor é significativamente mais redondo.

Apenas por curiosidade, se aplicássemos a proporção de Leonor ao rosto de Joana, teríamos algo como a imagem seguinte.

Joana_redondinha.JPG

Por último, mostro a aplicação das medidas de proporção do quadro de Medinaceli com o do Museu de História da arte de Viena. A imagem seguinte mostra que há uma correspondência perfeita, ou seja, é coerente com a hipótese de serem a mesma pessoa.

JoaoII_Cara_quadro_2_com_proporcoes.JPG

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Por vales de águas de éguas e de águias

Como os mais relevantes deuses fenícios podem ter influenciado topónimos no nosso território

por Lourenço Proença de Moura, em 11.06.21

KTU_1_118_topo.jpg

Figura 1 – Parte superior da placa KTU 1.118

Em publicações anteriores apresentei o resultado de análises a topónimos do nosso território que me levaram a colocar como forte hipótese a sua origem fenícia.

Numa primeira publicação, denominada “Por montes e vales, ou talvez não…”, mostrei que o topónimo Vale / Vales ocorre de uma forma que não tem relação direta com a orografia. Ou seja, temos muitas ocorrências em várias áreas do país bastante planas e no sentido inverso, poucas ocorrências em algumas zonas onde seria natural que surgissem.

Em publicações posteriores, “Vale de Ílhavo…” e “Outras possíveis invocações de Baal Ilib no nosso território”, mostrei como os topónimos Vale de Ílhavo e Vale de Lobo podem ter uma origem comum, como espaços de encontro e devoção aos deuses Baal e Ilib. O primeiro destes deuses, era o deus da criação e das tempestades. O segundo, o deus que vela pelos antepassados. Não seria fruto do acaso que em vários destes locais ainda hoje ocorrem romarias que tiveram e têm grande devoção, com realce para a Romaria de Nossa Senhora da Póvoa, na localidade que até 1957 se chamava Vale de Lobo, uma das maiores da Beira Interior.

Chegado a este ponto, uma nova hipótese de trabalho se colocou:

O panteão fenício é bastante vasto, como era comum nos povos que desenvolveram civilizações sofisticadas, como os bem conhecidos panteões egípcio, grego e romano. Na minha publicação inicial fiz uma breve referência a alguns dos principais deuses fenícios. Vários deles tiveram uma relevância pelo menos semelhante a Ilib e Baal. Se a influência fenícia fosse assim tão significativa, deveria ser possível encontrar no nosso território topónimos de outros deuses.

Será que tal se pode constatar? E com que distribuição geográfica?

Vou de seguida resumir a pesquisa feita e as conclusões a que cheguei.

---ooOoo---

Como referi numa publicação anterior, boa parte do que hoje conhecemos sobre esta cultura, resultou dos estudos arqueológicos feitos na antiga cidade de Ugarit, atual Ras Shamra, na Síria.

fenicios2.jpg

Figura 2 - Principais rotas comerciais fenícias
(imagem recolhida de https://en.wikipedia.org/wiki/Phoenicia tendo-se acrescentado Ugarit)

Foram encontradas em Ugarit diversas bibliotecas de placas de argila / terracota com textos em escrita cuneiforme. Os estudiosos têm-se debruçado sobre eles e existem na internéte inúmeros estudos publicados. Cada placa de argila encontrada está identificada e catalogada. Todas as placas de Ugarit possuem um código identificador iniciado por “KTU” significando esta sigla “Keilalphabetische Texte aus Ugarit", ou seja, algo como “Textos alfabéticos cuneiformes de Ugarit”.

Se bem que a escrita seja cuneiforme, ao contrário de outras escritas cuneiformes anteriores, já era alfabética, ou seja, um símbolo corresponde a um caracter.

Para esta análise, são de interesse as placas KTU 1.47 e KTU 1.118.
As suas imagens podem ser vistas no anexo 1. A imagem com que se inicia esta publicação mostra a parte superior da placa KTU 1.118.

O que é que estas placas têm de particular?

Contêm ambas listas de deuses do panteão fenício. São listas muito parecidas. A sua transcrição pode ser vista nas duas colunas da esquerda da imagem seguinte [2]. A sua constituição é muito interessante. Não se conhece qual era exatamente a função destas listas, mas presume-se que pudessem ser usadas em rituais semelhantes a procissões, definindo a ordem de precedências. As listas têm denominações para cada “nível hierárquico”. Os primeiros níveis teriam maior relevância.

Lista_deuses_fenicios_KTU1_47_e_outras.jpg

Figura 3 - Listas de deuses do panteão fenício

Note-se que a escrita fenícia quase não possui vogais. Tal sucede com a generalidade das escritas semíticas, como o hebraico clássico. Daí que as transcrições propostas para os nomes, no que respeita às vogais, resultam de estudos comparativos e por vezes há dúvidas quanto à sua exata vocalização.

KTU 1.47 começa por identificar a lista, como sendo dos Deuses de Saphon. Saphon, atualmente denominado Jebel Aqra, era um monte considerado sagrado, como o Olimpo era na mitologia grega.

No primeiro nível temos uma tríade:

  • Ilib; o deus que velava pelos antepassados;
  • El; o deus supremo, criador de todos os deuses;
  • Dagan: o deus da fertilidade dos campos e das colheitas;

No segundo nível surgem sete referências de deuses Baal. Baal era o deus das tempestades e da criação. A primeira referência inclui o atributo do monte sagrado de Saphon. Não se tem a certeza sobre o real significado das outras seis, mas presume-se que pudessem ser associados a templos e / ou lugares próximos que participassem do culto. De forma semelhante ao que ainda hoje ocorre nas imagens de devoção católica, que têm representações associadas aos locais. Por exemplo, temos o Santo Antão de Caria (minha terra), no concelho de Belmonte e próximo, o Santo Antão do Teixoso, havendo mesmo antigamente alguma rivalidade invocada numa quadra popular. Ou noutros exemplos, as invocações de Jesus Cristo ou da Virgem Maria, tais como a Senhora de Fátima, a Senhora de Lourdes e tantas outras.

A lista prossegue e como podem constatar é longa, mas para este estudo foquei-me nestes dois primeiros níveis.

Sobre Ilib, já mostrei numa publicação anterior que pode ter originado os topónimos Ílhavo (Vale de) e Lobo (Vale de).

Quanto a Baal, a sua correspondência fonética a “Vale” é tão forte, que me limitei a mostrar, numa outra publicação, que a distribuição destes topónimos não está relacionada com a orografia.

Relativamente a “El” surgem algumas dificuldades:

- De acordo com os trabalhos arqueológicos feitos e os textos conhecidos, aparentemente não era adorado em templos [3]. Por vezes é associado às nascentes de água. É uma vez referido como vivendo numa tenda, mais uma vez não associado a um local em particular.

- Trata-se de uma palavra muito curta que só por si dificilmente denominaria uma terra. Poderia surgir integrado numa expressão. Por exemplo a expressão “El o grande”, pode traduzir-se por “Gan El”. De acordo com a base de dados dos códigos postais dos CTT [4], há em Portugal sete localidades denominadas Gandarela. Poderíamos pois pôr esta hipótese de origem, mas seria muito discutível. A partícula “el” é demasiado básica e existe em inúmeros combinações e topónimos, por exemplo, Chelas, ou Aljustrel.

Por estas razões optei por não fazer esta pesquisa em particular.

Nota 2: A origem do prefixo “El” de “El-rei” pode ter tido origem neste deus. A sua correspondência simbólica é perfeitamente coerente com a relevância que se pretende dar à figura do rei. As explicações dadas em alguns dicionários de que deriva do latim “illu” (ver https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/el ) parecem-me pouco razoáveis.

Nota 3: El é muitas vezes denominado nos textos sagrados de “Tôru El”, com o significado de “deus touro” [3]. O leitor leu bem… A nossa palavra “touro”, bem como os rituais da tourada, podem ter tido aqui origem.

Em síntese, irei pois focar esta pesquisa em dois deuses:

  • Dagan;
  • Baal e algumas das suas invocações como Saphon.


Dagan

Mais uma vez, como foi feito relativamente a Ilib, procuraram-se associações com Baal, ou seja, com “Vale”, para reforçar a probabilidade da origem. Dito de outra forma, procuraram-se por topónimos que tivessem uma sonoridade semelhante a “Baal Dagan” (Vale Dagan).

Tendo em conta a já referida base de dados dos códigos postais dos CTT [4], torna-se fácil encontrar muitas possíveis respostas, a saber:

  • Vale de água (e suas variantes, como por exemplo Vale das Águas);
  • Vale de águia (idem);
  • Vale de égua (ibidem).

Identificam-se assim 38 ocorrências, 23 “Água”, 12 “Égua” e 3 “Águia”.

No Anexo 2 apresenta-se a lista de todas estas localidades.

À primeira vista parecem topónimos normais, mas se analisarmos com um pouco de atenção, podemos perceber algumas características estranhas:

  • No que respeita à referência égua / éguas, surgem respetivamente em número de quatro (singular) e oito (plural). Porquê denominar um lugar com grupos de cavalos fêmeas? Na mesma base de dados (ver anexo 3) encontramos sete referências a “Vale de cavalos” e nenhuma a “Vale de/do cavalo” (singular). Tal é natural. Sendo um espaço em que se poderiam encontrar este tipo de animais. Mas nunca no singular. Não é lógico termos mais referências a “éguas” do que cavalos. Muito menos no singular.
  • Sobre a referência “águia”, coloca-se um comentário semelhante. As três referências surgem na forma singular. Porquê designar um vale referindo-o a um animal isolado?
  • Quanto à referência “água”, sendo esta tão comum, apenas uma inspeção ao local poderia ajudar a conferir eventuais contradições (por exemplo ser uma zona de pouca água). Mas mesmo apenas olhando para o topónimo saliento que sete deles ainda atualmente se denominam “D’água”, com a contração da preposição “de”, o que, a confirmar-se a minha hipótese corresponderia a uma espantosa sobrevivência da denominação original “Dagan”.

As evoluções fonéticas poderiam ser:

Evolucao_Dagan.jpg

Figura 4 – Hipótese de evoluções do nome do deus Dagan

Comentaria porém que estas hipóteses podem ter sido de certa forma curto-circuitadas, tendo em conta as evoluções históricas no nosso território, o qual passou por sucessivas invasões, cada uma delas trazendo novas línguas e significados. Se bem que tenham ocorrido diferenças entre as regiões, para lá da presença dos romanos, tivemos os alanos, suevos, vândalos, árabes e depois a reconquista, trazendo o que veio a ser a nossa língua galaico-portuguesa.

Note-se que estas invasões podiam não implicar uma substituição completa das línguas faladas. Os romanos por exemplo não impunham o latim aos povos dominados. Moisés Espírito Santo mostrou por exemplo que algumas lápides da época romana, escritas em caracteres latinos, continham frases fenícias ([1], página 148).

Em qualquer caso, mesmo que uma língua substitua a anterior, tipicamente não substitui os nomes dos lugares, pois tal é complexo. Os romanos tentaram impor “Liberitas Julia”, mas o nome que sobreviveu ao tempo foi a anterior denominação “Évora”. A nova língua pode procurar sim encontrar um sentido nos “nomes antigos” de significado desconhecido, ajustando-os aos novos fonemas. Por exemplo, o som “Dagan” podia ter-se mantido ao longo das várias ocupações dos povos e ter passado diretamente para “D’água” quando da reconquista cristã / chegada da língua galaico-portuguesa, pois há uma grande semelhança fonética. Vem-me a propósito à memória, a denominação com que na década de 1980 os técnicos de telecomunicações nos CTT, empresa em que trabalhei, denominavam os equipamentos de verificação áudio (auscultadores), que em inglês davam pelo nome de “Head-set”. A adaptação fonética levou os meus colegas a transpor a terminologia inglesa para “Aniceto”…

Baal e alguns dos seus epítetos

Vejamos agora a situação particular de Baal, que possui diversos epítetos. Nesta análise vamo-nos cingir aos que surgem na lista de deuses mostrada no início. Podemos dizer que Baal Saphon, era a denominação comum, “Baal do monte Saphon”. Equivaleria a dizer algo como “Deus que está no Céu”. Como se pode constatar [5], esta denominação podia expressar-se como Baalsapunu. Por outro lado, também tinha a denominação de Hadad, ou na terminologia de Ugarit, Haddu [6}. Presume-se que Hadad signifique “o que lança os trovões” [7], o que é coerente com os atributos do deus.

Com estas duas denominações relevantes, podemos então fazer a nossa pesquisa e mais uma vez é fácil encontrar correspondências fonéticas próximas.

Correspondências a Baalsapunu, temos apenas duas, mas particularmente curiosas:

Distrito

Concelho

Freguesia

Localidade

Aveiro

Albergaria-a-Velha

RIBEIRA DE FRÁGUAS

Vale da Sapa

Coimbra

Penacova

PENACOVA

Vale Sapos

 

Sapa tem o significado de sachola. Dificilmente seria razão para dar nome a um vale. Muito menos os simpático batráquios, a menos que houvesse uma espantosa proliferação destes animais. Mas aí o nome teria a partícula “dos” (Vale dos Sapos).

Sapunu => Sapum => Sapo / Sapa

Se as correspondências anteriores são poucas, com Haddad sucede o oposto.

Podemos de facto atribuir a correspondência “Baal Haddad” a “Valada” e “Baal Haddu” a “Valado”.

Baal Haddad => Vale Adad => Valadad => Valada

Podemos identificar (ver anexo 4) 42 topónimos com sonoridade semelhante, sendo:

16 Valado / Valados

22 Valada / Valadas / Valadares

4 outras grafias que considerei terem a mesma origem – Balaído; Baladia; Balada; Balaida

O número total de ocorrências é como se vê bastante grande. 

 

Distribuição geográfica

Mostrei a distribuição quantitativa dos topónimos e as tabelas também permitem ver a sua distribuição geográfica.

Considerei contudo que a visualização dessa distribuição permitiria formar uma melhor ideia da mesma e do que tal pode significar.

É o que se apresenta de seguida, em que se atribui um símbolo a cada correspondência assinalando o concelho em que surge. Acrescentei nesta representação a localização dos topónimos Vale de ílhavo / Vale de Lobo que abordei em publicação anterior, para formar um quadro visual mais completo. A lista pode ser consultada no anexo 5.

Note-se que não se define o local exato, mas tão só o concelho.

Legenda_mapa_distribuicao_deuses.jpg

Figura 5 – Legenda dos símbolos da Figura 6

Mapa_Portugal_dispersao_deuses.jpg

Figura 6 - Dispersão dos topónimos que se podem relacionar com Baal, Saphon, Dagan, Hadad e Ilib

Aspetos mais interessantes desta dispersão geográfica:

- Se bem que ocorram situações um pouco por todo o país, são bastante escassas no interior;

- As ocorrências nos distritos de Braga, Viana do Castelo, Vila Real, Bragança, Viseu, Guarda e Castelo Branco são bastante escassas, o que é pouco lógico, tendo em conta a suposta relação com orografia (vale de…), água, águias…;

- Constata-se uma grande concentração de topónimos – mais de metade - na zona Aveiro / Coimbra / Leiria, onde ocorrem quase todas as variantes. Apenas a variante Vale de águia não ocorre aqui;

- Cerca de dois terços dos topónimos Valado/Valada, com a possível origem em Baal Hadad ocorrem nesta região sendo escasso nas restantes;

- São muito escassas as ocorrências no mesmo concelho dos topónimos com possível origem em Baal Hadad e Baal Dagan, como se fossem opções alternativas. Já os de Baal Ilib “convivem” frequentemente com ambos;

 

Conclusões

Todos os principais deuses do panteão fenício, à exceção de El que não foi analisado, possuem topónimos foneticamente correspondentes numa quantidade significativa de ocorrências. Apenas com Baalsapunu (Baal Saphon) identificámos poucas (duas) ocorrências, sendo que neste caso não é um deus específico, mas sim uma invocação de Baal.

Seria uma enorme coincidência constatar que para todos os principais deuses temos correspondências fonéticas próximas em topónimos, mesmo quando o resultado / significado seja algo estranho ou sem sentido, como em Vale do Sapo ou Vale de Ílhavo.

A distribuição destes topónimos é compatível com a hipótese de origem fenícia, havendo uma muito maior concentração em regiões próximas do litoral, onde essa influência terá ocorrido.

--ooOoo--

Referências

[1] Espírito Santo, Moisés - Fontes remotas da cultura portuguesa, Assírio e Alvim, 1989

Todas as publicações de Moisés Espírito Santo foram disponibilizadas pelo autor para consulta livre neste endereço:

https://sites.google.com/site/obrasmoisesespiritosanto/home

[2] – Wyatt, N. – The Rumpelstiltskin factor: Explorations in the arithmetic of pantheons

https://www.academia.edu/37844696/THE_RUMPELSTILTSKIN_FACTOR_EXPLORATIONS_IN_THE_ARITHMETIC_OF_PANTHEONS

[3] https://en.wikipedia.org/wiki/El_(deity)

[4] Base de dados dos códigos postais dos CTT

https://www.ctt.pt/feapl_2/app/open/postalCodeSearch/postalCodeSearch.jspx?request_locale=pt

Nota: É possível descarregar os ficheiros (opção “Download de Ficheiros - Códigos Postais e Apartados”) e fazer pesquisas de forma expedita.

[5] Baal Saphon

https://en.wikipedia.org/wiki/Baal-zephon

[6] Hadad (Baal)

https://en.wikipedia.org/wiki/Hadad

[7] Dictionary of deities and demons in the bible – editado por Karel van der Toorn, Bob Becking, Pieter Willem van der Horst - Wm. B. Eerdmans Publishing, 1999

https://www.academia.edu/30069945/Dictionary_of_Deities_and_Demons_in_the_Bible

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ANEXOS

Anexo 1 – imagem das placas das listas de deuses referidas nesta publicação

KTU_1_47.jpg

Figura A.1 - KTU 1.47

https://ochre.lib.uchicago.edu/ochre?uuid=7e0be7da-c8d6-4b18-845d-e9f6d1bd9952&image

 

KTU_1_118.jpg

Figura A.2 - KTU 1.118

https://ochre.lib.uchicago.edu/ochre?uuid=ae6f6807-ef6e-4305-8958-e919b65b84cb&image

 

Anexo 2

Lista de localidades cujo topónimo pode derivar de Baal Dagan

Distrito

Concelho

Freguesia

Localidade

Aveiro

Águeda

PRÉSTIMO

Vale Égua

Beja

Aljustrel

ALJUSTREL

Vale de Água

Beja

Aljustrel

MESSEJANA

Foros de Vale de Água

Beja

Aljustrel

MESSEJANA

Vale Água

Beja

Aljustrel

MESSEJANA

Vale D' Água Velho

Beja

Odemira

RELÍQUIAS

Vale de Água

Beja

Odemira

SÃO TEOTÓNIO

Vale D'Água da Serra

Beja

Odemira

SÃO TEOTÓNIO

Vale de Água

Bragança

Miranda do Douro

MIRANDA DO DOURO

Vale de Águia

Castelo Branco

Castelo Branco

SANTO ANDRÉ DAS TOJEIRAS

Vale D'Água

Castelo Branco

Oleiros

ORVALHO

Bairro Vale D'Égua

Castelo Branco

Proença-a-Nova

PROENÇA-A-NOVA

Vale Água

Castelo Branco

Sertã

TROVISCAL SRT

Vale de Água

Coimbra

Cantanhede

PORTUNHOS

Vale de Água

Coimbra

Penacova

CARVALHO PCV

Vale das Éguas

Faro

Loulé

ALMANCIL

Vale de Éguas

Faro

Loulé

LOULÉ

Vale de Éguas

Faro

Monchique

MARMELETE

Vale das Águas de Baixo

Faro

Monchique

MARMELETE

Vale de Água

Faro

Monchique

MARMELETE

Vale de Água de Cima

Faro

Portimão

MEXILHOEIRA GRANDE

Vale de Éguas

Faro

Vila do Bispo

BARÃO DE SÃO MIGUEL

Vale Água

Guarda

Sabugal

VALE DAS ÉGUAS

Vale das Éguas

Leiria

Caldas da Rainha

NADADOURO

Vale da Égua

Leiria

Leiria

LEIRIA

Vale D'água

Leiria

Porto de Mós

JUNCAL

Vale D'Água

Lisboa

Azambuja

ALCOENTRE

Vale de Éguas

Portalegre

Campo Maior

CAMPO MAIOR

Vale Águia

Santarém

Abrantes

SÃO FACUNDO

Monte Vale da Água

Santarém

Cartaxo

EREIRA CTX

Vale de Água

Santarém

Cartaxo

PONTÉVEL

Casais Vale de Água

Santarém

Santarém

ALCANEDE

Vale de Água

Santarém

Santarém

TREMÊS

Vale de Água

Setúbal

Santiago do Cacém

ABELA

Monte Vale de Águia

Setúbal

Santiago do Cacém

VALE DE ÁGUA

Vale de Água

Setúbal

Santiago do Cacém

VALE DE ÁGUA

Vale de Éguas

Vila Real

Murça

JOU

Vale de Égua

Viseu

Mortágua

CERCOSA

Vale das Éguas

 

Anexo 3 – Lista de localidades com os topónimos “Vale” e “Cavalo”

Distrito

Concelho

Freguesia

Localidade

Lisboa

Torres Vedras

CARMÕES

Casal de Vale de Cavalos

Évora

Alandroal

TERENA

Monte do Vale de Cavalos

Lisboa

Cascais

ALCABIDECHE

Vale de Cavalos

Portalegre

Portalegre

ALEGRETE

Vale de Cavalos

Santarém

Chamusca

VALE DE CAVALOS

Vale de Cavalos

Santarém

Ourém

FÁTIMA

Vale de Cavalos

Santarém

Coruche

FAJARDA

Vale dos Cavalos

 

Anexo 4 – Lista de localidades cujos topónimos podem derivar de Baal Hadad

Distrito

Concelho

Freguesia

Localidade

Aveiro

Arouca

FERMEDO

Balaído

Aveiro

Arouca

ROSSAS ARC

Baladia

Aveiro

Aveiro

AVEIRO

Costa do Valado

Aveiro

Aveiro

NOSSA SENHORA FÁTIMA

Póvoa do Valado

Aveiro

Aveiro

OLIVEIRINHA

Costa do Valado

Aveiro

Estarreja

AVANCA

Valada

Aveiro

Santa Maria da Feira

RIO MEÃO

Valada

Aveiro

Santa Maria da Feira

RIO MEÃO

Urbanização da Valada

Aveiro

Oliveira de Azeméis

MACIEIRA DE SARNES

Valados

Beja

Alvito

VILA NOVA DA BARONIA

Horta da Valada

Braga

Barcelos

IGREJA NOVA BCL

Balada

Braga

Vila Nova de Famalicão

VILA NOVA DE FAMALICÃO

Balaida

Bragança

Mogadouro

MOGADOURO

Bairro do Valado

Castelo Branco

Idanha-a-Nova

MONSANTO IDN

Valado

Castelo Branco

Sertã

CASTELO SRT

Casal de Entre Valados

Castelo Branco

Sertã

SERTÃ

Azinhaga da Valada

Castelo Branco

Sertã

SERTÃ

Foz da Valada

Castelo Branco

Sertã

SERTÃ

Ponte da Valada

Castelo Branco

Sertã

SERTÃ

Valada

Castelo Branco

Vila de Rei

VILA DE REI

Valadas

Coimbra

Arganil

MOURA DA SERRA

Chão do Valado

Coimbra

Arganil

MOURA DA SERRA

Valado

Coimbra

Condeixa-a-Nova

CONDEIXA-A-VELHA

Valada

Coimbra

Lousã

SERPINS

Valada

Coimbra

Pampilhosa da Serra

PAMPILHOSA DA SERRA

Sobral Valado

Coimbra

Soure

GESTEIRA

Valada

Évora

Estremoz

ARCOS ETZ

Quinta do Valadares

Évora

Montemor-o-Novo

SILVEIRAS

Valadas

Faro

Faro

FARO

Valados

Leiria

Figueiró dos Vinhos

FIGUEIRÓ DOS VINHOS

Valada

Leiria

Pombal

SANTIAGO DE LITÉM

Valada

Porto

Baião

BAIÃO (SANTA LEOCÁDIA)

Valados

Santarém

Cartaxo

VALADA

Valada

Santarém

Ferreira do Zêzere

AREIAS FZZ

Valadas

Santarém

Ferreira do Zêzere

BECO

Valada

Santarém

Ferreira do Zêzere

FERREIRA DO ZÊZERE

Valadas

Santarém

Ourém

CAXARIAS

Valados

Santarém

Ourém

FÁTIMA

Valada

Santarém

Ourém

SEIÇA

Valada

Vila Real

Santa Marta de Penaguião

CUMIEIRA

Valado

Viseu

Cinfães

TRAVANCA CNF

Valado

Viseu

Tabuaço

SENDIM TBC

Valado

 

Anexo 5 – Lista de localidades cujos topónimos podem derivar de Baal Ilib

Distrito

Concelho

Freguesia

Localidade

Aveiro

Águeda

AGUADA DE CIMA

Vale do Lobo

Aveiro

Águeda

PRÉSTIMO

Vale do Lobo

Aveiro

Castelo de Paiva

REAL CPV

Vale de Lobos

Aveiro

Ílhavo

ÍLHAVO

Vale de Ílhavo

Aveiro

Vale de Cambra

VALE DE CAMBRA

Vale do Lobo

Bragança

Mirandela

CEDÃES

Vale de Lobo

Castelo Branco

Penamacor

Vale da Senhora da Póvoa

Vale da Senhora da Póvoa (ex: Vale de Lobo)

Coimbra

Montemor-o-Velho

MONTEMOR-O-VELHO

Urb. Quinta do Vale do Lobo

Coimbra

Vila Nova de Poiares

VILA NOVA DE POIARES

Vale do Lobo

Faro

Loulé

ALMANCIL

Vale de Lobo

Faro

Monchique

MARMELETE

Vale de Lobo

Leiria

Leiria

LEIRIA

Urb. Varandas de Vale de Lobos

Leiria

Pombal

POMBAL

Vale das Lobas

Lisboa

Lourinhã

MARTELEIRA

Vale de Lobos

Lisboa

Sintra

ALMARGEM DO BISPO

Vale de Lobos

Porto

Amarante

MANCELOS

Vale de Lobo

Santarém

Santarém

AZOIA DE BAIXO

Quinta de Vale de Lobos

Santarém

Tomar

SABACHEIRA

Vale de Lobos

Setúbal

Seixal

AMORA

Quinta do Vale da Loba

Viseu

Tondela

SÃO JOÃO DO MONTE

Vale do Lobo

 

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A Fonte (que não é fonte) da Fonte Nova (que já não é fonte nem era nova)

As desventuras e (a)venturas de uma estátua…

por Lourenço Proença de Moura, em 05.02.21

Quando no já distante ano de 1981, terminei a minha formação académica em Coimbra e comecei o meu percurso profissional em Aveiro, a cidade era muitíssimo diferente de hoje, tanto a nível do espaço físico, como social. A vida universitária, por exemplo, estava ainda numa fase muito inicial. O campus tinha apenas um edifício… E recordo a sensação estranha, quando ao passear nos finais de dia se percebia uma quase desertificação das ruas e mesmo da avenida Lourenço Peixinho à hora da telenovela.

Quem visite hoje esta cidade tão cosmopolita, pode encontrar na parte central da zona mais antiga, a Praça Marquês de Pombal, com uma forma retangular alongada. É atualmente um espaço de lazer, sem trânsito, com alguns serviços, cafés e esplanadas. Naquela época o ambiente era completamente distinto. Havia circulação automóvel criando frequentes situações de congestionamento pois a generalidade das ruas que aí confluíam eram / são estreitas e de sentido único e toda essa zona tinha muitos comércios e serviços. Num dos extremos da praça existia uma estrutura redonda, tendo uns seis metros de diâmetro, com uns repuxos a toda a volta, normalmente desligados, apontando para o centro, onde estavam umas esculturas com forma semelhante a grandes folhas em bronze, na vertical. Na imagem deste postal antigo [1], podemos ver o seu aspeto. Lembro-me que na altura apenas achava que esta fonte esteticamente era pouco feliz.

Praca_Marques_Pombal_Fonte_1.jpg

Também por essa altura em que procurava conhecer a cidade, constatei que no Parque Municipal, num recanto bastante escondido e sombrio pelo efeito das árvores e arbustos, sobre um pequeno repuxo, estava uma estátua com uma dimensão grande demais para espaço tão exíguo.

Esta outra imagem permite perceber como ela se encontrava [2].

Fonte_2.jpg

Alguns anos mais tarde soube que havia uma ligação entre estas duas situações e pesquisei um pouco mais sobre o que sucedera.

Entretanto, como resultado da renovação urbana recente, esta estátua foi reposicionada, estando atualmente num espaço totalmente diferente, de horizontes amplos, sobre as águas do “lago” do Cais da Fonte Nova, junto à antiga Fábrica Cerâmica Jerónimo Pereira Campos. A imagem seguinte mostra essa localização.

Fonte_3.jpg

Sucede que, pelo que eu tinha estudado, a colocação neste local, que julgo casual, tinha em si algumas coincidências curiosas.

Quer acompanhar-me nesta viagem?

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Recuemos então até ao início da década de 1960. Amândio de Sousa (no Anexo 2 apresentam-se umas breves notas biográficas), jovem estudante da Escola de Belas Artes do Porto, estagiava na fábrica de cerâmica Jerónimo Pereira Campos Filhos, única que na altura trabalhava em grés, material com que estava a produzir alguns trabalhos.

Dos contactos feitos com o arquiteto José Semide, urbanista da Câmara Municipal de Aveiro, resultou a encomenda de uma escultura... uma escultura para uma fonte que iria ficar numa das praças centrais de Aveiro.

O jovem Amândio deslocava-se nessa altura com grande frequência a esta terra de espaços amplos e abertos, com horizontes luminosos de Ria, mar, sol e sal. Estava longe da sua tão diferente terra natal, o Funchal, de declives acentuados, em que o mar é em simultâneo muralha e caminho.

Concebe então uma figura feminina, inclinada, de braços cruzados em frente ao peito, a cabeça erguida. Foi esta figura que apresentou como projeto de final de curso, obtendo a avaliação máxima. Uma figura de mulher, pairando sobre as águas. Banha-se e recatada esconde o peito, contemplando o céu.

O seu lugar, será bem no meio de um “mar de humanas gentes”, numa fonte de água, luminosa, no centro desta cidade, no centro dos olhares.

Estamos em 1964, num tempo em que os conceitos de estética e de liberdade de opinião estão confinados às malhas de uma ditadura. As ideias são cinzentas, a cor com que vemos o mundo quando temos apenas direito a dar valor às verdades oficiais.

Ela é apenas uma forma estilizada, lufada de ar fresco, liberta das linhas habituais deste tipo de arte. Mas o comum cidadão imerso na cultura do tempo, poucos exemplos reconhece de mulher símbolo. A Mãe de Jesus, a mulher mãe de família, dona de casa, doméstica e cuidadora dos seus filhos, ou quando muito uma estrela de cinema ou “misse” de beleza estereotipada. Ela não representa nem vagamente nenhuma dessas representações.

Surgem vozes de escárnio em tom cada vez mais alto. Era feia, disforme, indigna de por todos ser olhada em espaço tão nobre.

Mamarracho, desancada, cochuda!

Foi alcunhada então de “Maria da Fonte”, por uma simples associação ao nome que em mulher é o mais comum e ao título com reminiscências históricas que o comum cidadão reconhecia e à fonte em que ela se banhava.

Sob uma chuva de críticas, os responsáveis municipais cederam e em 1971 foi levada para longe desses olhares, para um outro espaço, como prisioneira degredada. Ficou então como já referi, junto a uma fonte bem mais simples, por entre arbustos e vegetação que a resguardavam. Note-se que foi ali colocada com respeito, nesse espaço, belo apesar de tudo.

Entretanto a cidade cresceu. No que se tornou o final do canal da ribeira das Azenhas aberto em 1874 segundo informação do Doutor Francisco Messias Trindade, foi criada uma nova lagoa tendo à sua volta um parque, aberto, luminoso, que nos convida a saborear a sensação de liberdade.

Passados trinta e três anos de exílio, em 2004, alguém nela pensou. Colocaram-na então nesse novo e renovado espaço, sobre as águas, junto à margem dessa lagoa.

A frontaria do edifício da antiga fábrica de cerâmica ergue-se bem ali, à sua frente.

Naquele mesmo espaço, naquela fábrica, em que o seu criador o escultor Amândio de Sousa, possivelmente a terá começado a idealizar…

Banha-se agora sem receio. Olha o céu amplo lá no alto. Flutua e desafia as nuvens.

As águas do tempo lavaram os antigos preconceitos...

 

Chegados ao fim deste relato, poderá o leitor comentar:

“Não estou bem a entender o título desta publicação!

A Fonte (que não é fonte) da Fonte Nova (que já não é fonte nem era nova)”

Pois passo a explicar…

O nome que Amândio de Sousa deu a esta escultura, foi tão só “Fonte”. É assim que consta do seu processo individual de aluno, informação que me foi prestada pelos serviços da universidade.

Fonte Nova, por seu lado é o atual nome daquele espaço em Aveiro. Decorre do nome de uma fonte, atualmente inexistente, mas que se situava perto, junto a uma esquina da antiga muralha. Foi-lhe dado esse nome… há mais de 200 anos! No anexo 1 explico melhor, para quem tenha curiosidade, onde era a sua localização.

E já agora, para terminar, vejamos qual era o aspeto original desta fonte.

Praca_Marques_Pombal_Fonte_4.jpg

Imagem retirada de: https://retratosdeportugal.blogspot.com/

Referências

[1] – Imagem recolhida de http://ww3.aeje.pt/avcultur/avcultur/Postais/Aveipostais15.htm

[2] - Imagem recolhida de http://ww3.aeje.pt/avcultur/hjco/Texturas/Pg000004.htm

[3] – Islenha (revista) – Direção Regional dos Assuntos Culturais - número 49 – Julho / Dezembro de 2011

[4] – As artes plásticas na Madeira (1910 – 1990) –Tese de Mestrado -  António Carlos Jardim Valente https://digituma.uma.pt/bitstream/10400.13/251/1/MestradoCarlosValente.pdf

[5] – Evolução urbana de Aveiro – Maria José Curado - Sana editora - 2019

[6] – Breve vídeo com um resumo biográfico de Amândio de Sousa - https://www.youtube.com/watch?v=v7gsBF4AmfA&ab_channel=600anosMadeiraePortoSanto

[7] Página Facebook - Uma escultura na cidade, dinamizada por Danilo Matos
https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

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Anexo 1 – Localização da “Fonte Nova”

Como Maria José Curado explica na sua obra [5], sabe-se que já em 1571 existia no lugar indicado, na zona central da imagem seguinte, uma fonte denominada “Fonte da Macieira”. Por volta de 1680 passou a denominar-se Fonte Nova.

Temos pois uma “Fonte Nova” com cerca de 240 anos, e que já teria mais de um século quando lhe atribuíram esse nome…

Fontes_antigas_e_estatua_Amandio_de_Sousa.JPG

Imagem retirada do livro Evolução Urbana de Aveiro [5] mostrando entre outros aspetos as fontes antigas de Aveiro.

Acrescentei a localização do espelho de água / Cais da Fonte Nova / Centro de congressos e da estátua que é objeto desta publicação, para ajudar a situar o leitor.

 

Anexo 2 – Breves notas biográficas do escultor Amândio de Sousa e alguns exemplos dos seus trabalhos [3] [4] 

Amandio_de_Sousa_1.jpg

Imagem recolhida de um vídeo publicado no Youtube, o qual apresenta um resumo biográfico [6]

Amândio Manuel Abreu de Sousa nasceu a 22 de Setembro de 1934, no Funchal, sendo o segundo de três filhos de Joaquim Carlos João de Sousa e Henriqueta Ivone de França Abreu.

A sua sensibilidade leva-o de forma natural em busca de desenvolver os seus conhecimentos e competências artísticas.

Em meados da década de 50, na sua ilha da Madeira, sente-se o sopro de algumas brisas de mudança que ali como no continente levam a refletir sobre a forma de abordar a arte e a cultura. Conscientes desta necessidade, em 1956, alguns responsáveis dinamizam as primeiras estruturas que virão a dispor de condições para a promoção de produção artística naquele espaço insular.

Criaram-se nesse ano, na Academia de Música da Madeira, cursos de pintura e escultura, à semelhança dos cursos já disponíveis nas escolas continentais. Passou então a escola a denominar-se Academia de Música e Belas Artes da Madeira. Teve como primeiro diretor o pintor Vasco de Lucena, sucedendo-lhe nestes primeiros anos o pintor Louro de Almeida e o escultor Anjos Teixeira.

No primeiro ano letivo matricularam-se vinte e dois alunos nos cursos de Pintura e Escultura. Alguns dos primeiros alunos vieram a ser percursores, nas décadas seguintes, de movimentos dinamizadores da arte a nível regional e nacional, destacando-se os escultores Franco Fernandes e Amândio de Sousa, a pintora Patrícia Morris e o pintor Danilo Gouveia.

Desejoso de potenciar mais os seus conhecimentos, sobretudo a partir do contacto com outros mestres e experiências culturais, Amândio de Sousa em 1959 inscreve-se na Escola Superior de Belas Artes da Universidade do Porto onde foi aluno de Barata Feyo e Lagoa Henriques, concluindo o curso com a nota máxima.

Conviveu nesse período com os elementos do grupo “os quatro vintes” (o nome era uma paródia a uma marca de tabaco da época – os três vintes), constituído por Ângelo de Sousa, Armando Alves, Jorge Pinheiro, José Rodrigues, assim conhecidos por terem terminado com essa nota de curso. Naturalmente participou na dinâmica própria dessa geração e da “Escola do Porto”.

Ainda como aluno participou em 1960 e 1961 em exposições magnas da Escola, bem como em diversas exposições extra-curriculares da iniciativa dos alunos. Estagiou na fábrica de cerâmica Jerónimo Pereira Campos Filhos, única que na altura trabalhava em grés. Aí teve oportunidade de fazer os relevos colocados na Clínica de Santa Catarina no Funchal.

Dos contactos feitos com o arquiteto José Semide, urbanista da Câmara Municipal de Aveiro, resultou a encomenda de uma escultura para uma fonte que iria ficar numa das praças centrais de Aveiro. Concebeu então uma figura feminina, longilínea, pairando, a que deu o nome “Fonte” e que apresentou como projeto de final de curso obtendo a avaliação máxima.

De regresso ao Funchal, em 1964 abriu com o arquiteto Rui Goes Ferreira a Galeria de Artes Decorativas “Tempo”, sendo uma iniciativa pioneira para a época. O ambiente cultural então incipiente do Funchal, foi surpreendido. A exposição inaugural, denominada Sete Pintores Portugueses, apresentou trabalhos de Manuel Mouga, Jorge Pinheiro, Espiga Pinto, Manuel Pinto, José Rodrigues, Ângelo Sousa e Júlio Resende.

A década de 60 decorreu com enormes transformações a nível mundial, incluindo a nível social e artístico. Apesar do caráter ditatorial e fechado, era impossível evitar que muitas dessas influências se produzissem ocorrendo mesmo alguma abertura a novas tendências a nível oficial. Surgiram então obras escultóricas de características contemporâneas, inclusivamente na Região da Madeira. Amândio de Sousa acompanhou sempre estes projetos de cariz inovador na arquitetura e escultura.

Produziu nessa época diversos trabalhos tais como um friso para a entrada oeste do Edifício da Caixa de Previdência do Funchal, painéis de cimento com relevos vegetalistas estilizados a duas cores, funcionando como esculturas de parede para o átrio da Clínica Santa Catarina e uma outra escultura parietal, uma “maternidade” (mostram-se imagens adiante). Em 1969 concebeu uma escultura em bronze, a primeira obra abstrata ao ar livre, fora do Funchal, com planos e curvas representados de forma simétrica tendo motivado críticas, pela completa abstração do tema. Tal reação era já familiar ao autor, de certa forma semelhante às críticas que a escultura “Fonte” teve em Aveiro.

Amândio de Sousa assumiu-se sempre como alguém preocupado pelo trabalho de fundo, estruturante, rejeitando projetos de ostentação. Segundo ele, a arte deve estar ao serviço do cidadão comum e com ele deve dialogar. Porém tal não significa que a sua abordagem seja básica. A arte deve questionar o observador, para que por adesão ou oposição ocorra um desenvolvimento como ser humano.

«Será sempre de maior dificuldade usarem-se termos de cultura quando se pressupõem ainda no seu estado verdejante, problemas de infraestrutura um dos quais, gravíssimo — o do analfabetismo»
Amândio de Sousa, 3/9/1967

Amândio de Sousa ao longo da sua vida complementou a sua atividade de escultor com a de professor. Foi professor de desenho no Liceu Nacional do Funchal, onde abordou a arte de forma criativa, bem diferente da tradicional.

Foi professor de desenho e marcenaria na Escola Salesiana de Artes e Ofícios. Colaborou no Design de móveis para lojas de mobiliário e decoração.

Foi assessor para os assuntos culturais entre 1976 e 1978 colaborando na elaboração do Guia Básico da Educação Cultural.

Foi diretor do Museu da Quinta das Cruzes de 1977 a 2001. Entre outras evoluções introduzidas, deu-lhe uma consistência orgânica, em que interiores e exteriores se conjugavam, nos espaços da casa, jardins e capela, incluindo um núcleo bibliográfico sobre artes decorativas.

A sua arte tem abordagens bastante diversas, por vezes figurativa, outras vezes totalmente abstrata. Ora seguiu padrões de realização relativamente clássicos, ora “experimentais” através de novas técnicas e materiais.

Mostram-se a seguir algumas imagens ilustrativas das suas obras.

Tem sido também um cidadão permanentemente empenhado na intervenção cívica, tendo feito parte de vários movimentos e petições, tendo sempre em vista a valorização da cultura, património e o seu usufruto por todos, sem discriminação.

É casado com a também escultora Luíza Helena Claude.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Luiza_Clode

Amandio_de_Sousa_2.jpg

Amândio de Sousa

Foto retirada de https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

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Exemplos de obras de Amândio de Sousa

Maternidade.jpg

Maternidade

Local: Clínica de Santa Catarina, Funchal

Data: 1963

Material: Gesso

Foto de Danilo Matos retirada de [7] https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/ 

 

Paineis_Clinica_Santa_Catarina.jpg

Paineis_Clinica_Santa_Catarina_2.jpg

Painéis do átrio da clínica de Santa Catarina

Local: Clínica de Santa Catarina, Funchal

Data: 1963

Material: Cimento e Grés

Fotos de Danilo Matos retiradas de [7] https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

 

 

Senhora_dos_Caminhos_1.jpg

Senhora_dos_Caminhos_2.jpg

Senhora dos Bons Caminhos

Local: Casais d`Além, freguesia da Camacha

Data: 1965

Material: Cantaria e betão

Fotos de Amândio de Sousa, retiradas de [7] https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

 

 

Comemoracao_1o_jogo_Futebol.jpg

Foto que consta do Inventário de José de Sainz-Trueva e Nelson Veríssimo, DRAC 1996, obtida de [7]: https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

Segundo Danilo Matos o autor desta página do Facebook, “Inicialmente a escultura assentava no solo, depois é que a colocaram dentro daquele "pocinho". Agora, depois do roubo em 2016, foi colocada numa base de cantaria cinzenta.”

Escultura comemorativa do 1º jogo de futebol na Madeira em 1875;
(Nota pessoal: Na minha interpretação, a parede por trás será a metáfora do campo de jogo. A bola movimenta-se com o sol, como “esfera de luz”)

Local: Largo da Achada, Camacha

Data: 1969

Material: Latão

 

 

Manuel_Alvares.jpg

Padre jesuíta Manuel Álvares

Local: Ribeira Brava

Data: 1972

Material: Bronze

Foto de Danilo Matos retirada de [7] https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

 

 

Virgem_com_o_menino.jpg

Virgem com o menino

Local: Igreja do Carmo, Câmara de Lobos

Data: 1985

Material: Folha de prata sobre bronze

Foto de Amândio de Sousa, retirada de [7] https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

 

 

Trilogia_dos_poderes.jpg

Trilogia dos poderes – Legislativo, Executivo, Judicial

Local: Pátio da Assembleia Regional da Madeira, Funchal

Data: 1990

Material: Bronze

Foto retirada de http://estatuasmadeirenses.blogspot.com/

 

 

Justica.jpg

Justiça

Local: Tribunal da comarca da Ponta do Sol

Data: 1994

Material: Bronze

Foto retirada de http://estatuasmadeirenses.blogspot.com/

 

 

500_anos_Ponta_do_Sol.jpg

Monumento comemorativo dos 500 anos do concelho da Ponta do Sol

(nota pessoal: Cada século está representado por um nível da cascata)

Local: Ponta do Sol

Data: 2001

Material: Betão

Foto de Danilo Matos retirada de [7] https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

 

 

Homenagem_diaspora.jpg

Homenagem à diáspora madeirense

Local: Parque Temático, Santana.

Data: 2004

Material: Muro de cantaria com intervenção em cobre

Foto retirada de: https://nim.pt/parque-tematico-da-madeira-onde-a-nossa-essencia-se-une/

 

 

 

 

 

 

 

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Escarigo_Largo_Dom_Dinis_GoogleMaps.JPG

Escarigo - Largo Dom Dinis
Imagem recolhida através de Google Maps / Street View

Na publicação anterior mostrei que na região onde vivo, Esgueira / Aveiro, existem vários topónimos que podem ter origem fenícia. Tal sucede mesmo para “Esgueira” que pode ser uma evolução do termo fenício “iskaru”, que significa "tarefa / material de trabalho", pelo que a sua atribuição corresponderia a denominá-la como “terra de trabalho”, neste caso possivelmente relacionada com uma intensa atividade de chegada e partida de bens através do seu porto.

Terminei referindo que “iskaru” provavelmente deu origem a outros topónimos no nosso território, um deles muito perto da minha terra natal, Caria, no concelho de Belmonte. Quem da minha região tenha lido o que escrevi, terá porventura identificado a terra a que me referia: Escarigo. Na verdade a correspondência fonética com "iskaru" é quase direta.

Escarigo fica no concelho do Fundão e é uma localidade bastante próxima de Caria, a cerca de 8Km na direção sudeste. Para quem não conheça a região, esclareço que faz parte dos denominados “Três Povos”, três localidades muito próximas (Escarigo, Quintãs e Salgueiro) com quem naturalmente partilha afinidades.

Como vos irei mostrar, também aqui identificamos boas razões para assumir que a origem do nome poderá ser a que proponho. Note-se no mapa da imagem seguinte [1] que Vale da Senhora da Póvoa (antigo “Vale de Lobo”) referido em publicação anterior sobre este mesmo tema, fica muito próximo.

Caria_Escarigo.JPG

Figura 2 - A localização de Escarigo, concelho do Fundão

Salgueiro_Quintans_Escarigo.JPG

Figura 3 - Os Três Povos

Se ampliarmos este espaço dos Três Povos, podemos observar no caso das Quintãs o que se visualiza na Figura 4.

Quintans.JPG

Figura 4 - Quintãs

Nas Quintãs, a Rua das Cortes. Cortes, pode derivar do fenício “krt” (corte) [2], com o significado de cortar, mas que era também associado a estabelecimento de acordos / alianças. É um termo que equivale a “perazu”, que referi em publicações anteriores como originando topónimos atuais “paraíso” ou “prazo”. Situaria locais em que os povos se encontravam para renovar os acordos entre si, provavelmente em refeições comunitárias e com eventos religiosos que teriam um formato semelhante às nossas atuais romarias.

Se continuarmos pela estrada para sudoeste, encontramos “Salgueiro”.

Salgueiro.JPG

Figura 5 - Salgueiro

Aqui surge-nos o já conhecido binómio Baal-Mout (deus da vida - deus da morte), na forma “Vale” e “Moita”. Temos uma “Rua da Fonte da Moita”, mas encontramos mesmo uma Rua Vale da Moita! Neste caso a proximidade dos espaços é ainda maior do que no Vale da Senhora da Póvoa (Vale de Lobo).

Mas a pesquisa reservou-nos uma descoberta ainda mais interessante.

Se continuarmos pela mesma estrada, mesmo à saída do Salgueiro, encontramos a “Quinta da Caneca”.

Quinta_da_Caneca.JPG

Figura 6 - Quinta da Caneca

O que tem este topónimo de particular?

De acordo com o dicionário de Fenício Português [2], "kanekany" significa sepultura. Sucede que… na Quinta da Caneca, trabalhos arqueológicos identificaram precisamente vestígios de um mausoléu da época romana, após um achado casual feito por um agricultor em 1973 [3].

Tal explica bastante bem o topónimo, mas também algo que o Dr. Moisés Espírito Santo defende: Os romanos dominavam e falavam latim, mas o mesmo não acontecia com o povo. O povo utilizaria termos fenícios como “língua franca”, a par com os dialetos tribais.

Ou seja, neste caso...

... os romanos fizeram um “sepulcrum”, que parecia mesmo um “canecani”…

:-)

 

Outros topónimos que podem ter a mesma origem

De forma semelhante ao que foi apresentado numa publicação anterior, do levantamento de topónimos que podem ter derivado de “Baal Ilib” como por exemplo “Vale de Lobo”, irei mostrar agora os resultados da pesquisa para este caso – topónimos que podem ter derivado de “iskaru”.

No anexo a esta publicação exponho os detalhes desta pesquisa para quem tenha curiosidade.

O resumo do resultado pode ser visto na tabela seguinte.

Tabela_1.JPG

Tabela 1 - Localidades com possível origem na palavra "iskaru"

Podemos ver a dispersão geográfica no mapa seguinte.

Posicoes toponimos com possivel origem Iskaru.jpg

Figura 7 - Dispersão geográfica das localidades

A dispersão geográfica é curiosa. Tem algumas semelhanças com a dispersão do topónimo “Godinho” / “Godim” que abordei na publicação “O famoso Godinho”, ao centrar-se na zona norte do território. Mas por outro lado a penetração na beira interior, tem semelhanças ao que se constatou na análise aos topónimos “Vale de Lobo” (Baal Ilib).

Para lá dos topónimos Esgueira (Aveiro) e Escarigo (Fundão) que mostraram uma envolvente bastante rica de outros locais com boa possibilidade de origem fenícia, encontramos um outro – na verdade dois – São Mamede e São Martinho de Escariz, com um enquadramento semelhante.

Por outro lado, Escariz de Arouca, Escariz de São Pedro de Agostem ficam com uma classificação intermédia. Têm ambas um razoável indício de relacionamento.

Escariz de Adoufe e Pescaria de Famalicão têm poucas evidências de topónimos próximos neste âmbito. Em Escarigo de Figueira Castelo Rodrigo não se identificou nenhum. Sublinhe-se contudo que nestes locais a informação disponibilizada pelo Google Maps é muito escassa o que naturalmente pode “esconder” informação com interesse.

Em conclusão, diria que o conjunto revela um padrão que dificilmente pode ser fruto do acaso.

O topónimo “Quinta da Caneca” é particularmente relevante nesta vertente.

Forme o leitor a sua própria avaliação.

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Anexo – Outras localidades em Portugal cujo nome poderá ter a mesma origem

Com base na informação disponibilizada pelos CTT [4] foi feita uma pesquisa de topónimos com uma estrutura fonética que pudesse da forma mais direta possível derivar de “iskaru”, assumindo que “Esgueira” e “Escarigo” sejam situações deste tipo.

Pesquisaram-se topónimos que pudessem ser ainda mais diretos iniciados por “i”.

Iniciar por “Isg” ou “Iscar”. Não se identificou nenhum topónimo.

Iniciar por “Esgue”, “Esga” ou “Escar”. Surgiram outros “Escarigo” e ainda “Escariz”.

Procurando no meio das palavras “escar” e “iscar” surgiu “Pescaria”.

Resultaram assim as localidades da tabela seguinte.

Tabela_A1.JPG

Tabela A-1 - Localidades que se consideraram poder ter como origem do nome "iskaru"

* - Por serem muito próximas, foram analisadas em conjunto

Nota: Para simplificar e não maçar com repetições o leitor que tem acompanhado as publicações neste tema, não farei a explicação de todos os topónimos relacionados.

Aveiro / Arouca / Escariz / Escariz

Escariz_Arouca_1.jpg

Figura - A-1 Escariz de Arouca

Rua / travessa Vale de Quartas

Escariz_Arouca_2.jpg

Figura - A-2 Escariz de Arouca

Cantinho do Outeiro na marca assinalada.

Braga / Vila Verde / São Mamede e São Martinho de Escariz

Escariz_VilaVerde_1.jpg

Figura A-3 - São Mamede e São Martinho de Escariz

Muitas referências… Vales…

Escariz_VilaVerde_2.jpg

Figura A-4 - São Mamede e São Martinho de Escariz

Carcavelos e Paredes estão próximos.

Escariz_VilaVerde_3.jpg

Figura A-5 - São Mamede e São Martinho de Escariz

Rua da Mata (Mout) na sequência de Rua do Vale (Baal).

 

Guarda / Figueira de Castelo Rodrigo / Escarigo

Escarigo_Figueira_de_Castelo_Rodrigo.jpg

Figura A-6 - Escarigo de Figueira de Castelo Rodrigo

Escarigo_Figueira_de_Castelo_Rodrigo_2.jpg

Figura A-7 - Escarigo de Figueira de Castelo Rodrigo

Na fronteira com Espanha. Não se identificou mais nenhum topónimo relevante. Há muito poucas referências de topónimos nesta região.

Leiria / Nazaré / Famalicão / Pescaria e Serra da Pescaria

Pescaria_Serra_da_Pescaria.jpg

Figura A-8 - Pescaria e Serra da Pescaria

O nome da freguesia, Famalicão localidade próxima, é um topónimo que segundo Moisés Espírito Santo [5] (página 207) se refere a um local onde se procederia à tomada de decisões em casos de disputas. “Kan” em fenício significa “regra assumida / regra fixada”. “Gamali” significa por outro lado “exercer / manter”. Ou seja, “Gamali kan” significaria exercer o direito / ajuizar.

Note-se por curiosidade que a evolução de “Iskaru” para “Pescaria” é melhor compreendida numa terra que não está no litoral, se soubermos que naquela época e até porventura ao século XVI [6] (páginas 11 a 18) o mar entraria pela foz do rio Alcobaça, sendo essa entrada navegável, formando aqui a Lagoa da Pederneira.

Lagoa_da_Pederneira_Camara_Municipal_Nazare.jpg

Figura A-9 - Lagoa da Pederneira

Imagem retirada do sítio da internéte da Câmara Municipal da Nazaré [7]

Vila Real / Chaves / São Pedro de Agostem / Escariz

Escariz_Sao_Pedro_de_Agostem_1.jpg

Figura A-10 - Escariz de São Pedro de Agostem

Escariz_Sao_Pedro_de_Agostem_2.jpg

Figura A-11 - Escariz de São Pedro de Agostem

Rua Vale em Escariz… (idem em Ventozelos…).

Quase não tem ruas… pequena aldeia. 

 

Vila Real / Adoufe / Escariz

Escariz_Adoufe_2.jpg

Figura A-12 - Escariz de Adoufe

Próximo de Paredes.

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Referências

[1] Google Maps - https://www.google.pt/maps/

(todos os mapas foram obtidos com esta aplicação à exceção do mapa da Lagoa da Pederneira e o mapa da dispersão geográfica dos topónimos)

[2] Espírito Santo, Moisés – Dicionário Fenício – Português – Universidade Nova de Lisboa – 2ª edição (sem data)

[3] CARVALHO, Pedro C. e ENCARNAÇÃO, José d’ (2006): “O monumento romano da Quinta da Caneca (Salgueiro, Fundão)”, Eburobriga, 4, p. 91-98.

Nota: Neste artigo o autor refere uma pedra da época romana existente na minha terra natal, Caria que considera poder também fazer parte de um mausoléu.

[4] www.ctt.pt - opção “Ferramentas” / “Encontrar códigos postais”

Opção “Download de ficheiros” https://www.ctt.pt/feapl_2/app/restricted/postalCodeSearch/postalCodeDownloadFiles.jspx

Permite recolher a lista completa que pode ser consultada em Excel

[5] Espírito Santo, Moisés - Fontes remotas da cultura portuguesa, Assírio e Alvim, 1989

[6] Soares, José – Os mitos da Lagoa – Câmara Municipal da Nazaré, 2002

[7] Câmara Municipal da Nazaré – Lagoa da Pederneira

 

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1900_Balcoes_de_Esgueira.jpgBalcões de Esgueira (já demolidos)
~1900 – Aveiro Antigo – Câmara Municipal de Aveiro - 1985

Como mostrei em anteriores publicações, com base na análise de conjuntos de topónimos geograficamente próximos e da associação a ritos religiosos que ainda hoje têm grande expressão, há fortes indícios de naqueles casos ter havido influência fenícia quer dos nomes quer da origem desses ritos.

Mostrei também como essas influências eram particularmente significativas na zona Aveiro / Coimbra e se terão propagado pela Beira, para o seu interior. Vale de Ílhavo, junto a Aveiro / Ílhavo e Vale da Senhora da Póvoa, na Beira Baixa, foram os espaços principais de análise.

Vou agora fazer um outro exercício que na minha opinião reforça o anterior. Mais uma vez, por algo que denominaria “acasos do destino”, constatei uma curiosa coincidência entre a possível origem do nome da localidade em que habito, Esgueira, atual freguesia de Aveiro, com outra localidade bem próxima de Caria, próxima também do já referido Vale da Senhora da Póvoa. Guardarei porém esta última explicação para uma publicação futura.

Nas publicações anteriores expliquei como esta situação à primeira vista estranha pode ter ocorrido, pelo que não vou maçar o leitor, mas não deixa de ser impressionante assumir que as influências culturais terão sido tão intensas para tal suceder. Um povo de origem tão distante, essencialmente comerciante e navegador, que não terá ocupado o território, pode ter influenciado topónimos no interior do espaço que hoje é Portugal. 

Recordo apenas um aspeto muito relevante aí referido, de que no período em que as influências terão ocorrido o mar entrava mais pelo interior do que atualmente, possivelmente até Eirol e o rio Vouga era mais navegável. A laguna da atual Pateira de Fermentelos estava ligada ao mar.

A imagem seguinte ilustra de forma aproximada qual seria o perfil da costa e do encontro de rios desta região (A forma como este mapa foi elaborado é explicada na publicação anterior a que pode aceder aqui). Sublinhe-se que os nomes das localidades que se representam são sobretudo para o leitor situar a atual geografia do que era a linha de costa antiga. Não significa que já tivessem ocupação humana residente nessa época.

Mapa_Regiao_Aveiro_Esgueira_ha_dois_mil_anos.JPG

Antes de abordar a situação específica de Esgueira, irei referir outros topónimos próximos que podem reforçar a minha “tese”. Alguns são o resultado da minha pesquisa pessoal, tendo por base o dicionário Fenício – Português do Dr. Moisés Espírito Santo [3]. Outros são exemplos de muitas outras propostas deste estudioso na sua obra Origens orientais da religião popular portuguesa [1] na página 300 e seguintes. Estes últimos marco-os com um asterisco (*).

Seguirei em linhas gerais a direção Eirol => Esgueira. Corresponde a uma distância menor que 10 quilómetros.

Os mapas apresentado são obtidos via Google Maps [9].

Sublinho que, como referi nas publicações anteriores, este tipo de reflexões não permite assumir certezas, a menos que sejam corroboradas por outros estudos, por exemplo arqueológicos. Porém, em alguns casos os indícios da toponímia são tão específicos que nos levam a ter uma grande convicção nestas hipóteses.

Mapa_Regiao_Aveiro_Google_Eixo_Carcavelos_Requeixo

- Carcavelos (*) - Lugar, junto a Eirol; Seria a conjunção de duas palavras fenícias "Carca" e "Belus". A primeira significa "chão", ou "domínio". A segunda significa "senhor". Teria o significado de "proprietário". A junção das duas denominaria pois o espaço onde viveria o senhor que teria a jurisdição deste domínio. Possivelmente o encarregado do entreposto comercial. No livro citado, o autor identifica este topónimo em quarenta (!) localizações em Portugal, a maioria perto da costa. Mostra também como em seu redor surgem outros nomes de locais com um padrão muito semelhante e que indiciam a origem fenícia. Como curiosidade, para contextualizar o leitor e se bem que neste “nosso caso” tal não se verifique, o topónimo “Parede” ou “Paredes” ou “Parada” que derivariam de “Pardess”, significando “palácio”, surge próximo na maioria das vezes. Seria outro nome, equivalente a “Carca Belus”.

- Sardinha (*) (Cilha da Sardinha) significa "carreiro"

Taipa.jpg

- Taipa (*); Significa "subir" / inclinação, o que está de acordo com o terreno.

- Rua do Paraíso (na Taipa / Requeixo) – "Paraíso", poderá derivar de "perazu" (que terá dado muitos outros lugares em Portugal denominados ”Paraíso”, mas também "Prazo"), o qual significa "lugar da convocação dos acordos". Seriam locais onde os povos que habitavam esta região se reuniam e renovavam os acordos entre si mas e com os comerciantes fenícios. Tipicamente seriam próximos de locais de culto.

- Ponte da Rata (*); Segundo Moisés Espírito Santo “rata” pode derivar de "Hat"(ate), em fenício, significando "forja". Ao longo do tempo sucederia a evolução "Ate" - Ata - Rata. Uma forja, local em que os metais eram fundidos, era um dos recursos importantes junto a este tipo de entrepostos. Eu coloco uma outra hipótese. Segundo o referido dicionário, a palavra “rataq” significa “ligar”. Este mesmo local poderia já nessa época ser um ponto de passagem, por barcas, ou mesmo uma ponte primitiva. Em qualquer caso será muito pouco provável que um simples bicho (rata) desse o nome a um local.

Eixo.jpg

- Eixo; Pode derivar de “Erêsu” (pronuncia-se Erêchu); significa semear, agricultura, ou seja local de terras aráveis. Segundo Manuel Carvalho [5] as referências mais antigas conhecidas para esta localidade denominam-na Exso (1050), Exu (1081), Exo (1095). Pela minha proposta a evolução seria quase direta, correspondendo à síncope do “r” intervocálico, fenómeno comum de simplificação na evolução das línguas.

- Balsa (Parque da Balsa); Pode ter a mesma origem do que a conhecida cidade do mesmo nome, da época fenícia e romana, localizada junto a Tavira. O nome Balsa decorreria de ser dedicada a Baal. Baal tem dois epítetos que podem fazer esta correspondência: Baal Safon (Baal da montanha sagrada) ou Baal Xamã (Baal Sol, que terá dado nome a outras terras como Balsemão) [4].

- Outeiro; A Rua do Outeiro é essencialmente plana e quase nada inclinada. Não seria a meu ver muito lógico este nome. No seu final do lado do Vouga tem algum declive, mas bastante curto. Por outro lado, a palavra fenícia “Oter” corresponde a lugar de oração. Esta hipótese ganha significado por estar junto ao topónimo “Balsa”.

Neste ponto da sequência de nomes, será de interesse fazer uma breve incursão na direção sudoeste. Muito próximo, a cerca de três quilómetros, com ligação praticamente direta, temos Oliveirinha. Podemos aqui observar topónimos relevantes.

Moita.jpg

Mais uma vez surge o binómio de deuses que já se identificaram em Vale de Ílhavo e Vale da Senhora da Póvoa: O local “Moita”, que decorrerá de Mout, o deus fenício da morte. E “Vale”, de “Baal”, deus fenício da energia e da vida, surgindo em diversos nomes à volta, entre Ruas e Travessas. Por curiosidade, “Vale Diogo” pode decorrer de “Baal Dagon”, em que Dagon era o deus fenício da agricultura. Tal seria coerente com a interpretação do significado dado a Eixo. Seria este o “santuário” associado a Carcavelos.

Chegamos então a Esgueira. Numa publicação anterior, denominada “O famoso Godinho”, mostrei que a Rua do Godinho, situada no centro da antiga localidade, poderá ter o mesmo tipo de origem. Sugeria a sua leitura. Mas neste momento vou focar a argumentação no próprio nome da localidade.

Segundo averiguei, a mais antiga referência atualmente conhecida encontra-se representada no seu antigo selo, onde surge como Isgarie.

Selo_Esgueira.jpg

No dicionário, podemos identificar uma palavra foneticamente próxima: "iskaru", o qual tem como possível tradução "tarefa / material de trabalho". Como referi, este local encontrava-se na linha de costa e assim continuou, embora com assoreamento até por volta do século XV [6] Era possível a embarcações de grande calado ancorarem em Esgueira. Uma grande embarcação figura no brasão da vila.

Antes de Aveiro se desenvolver nos últimos séculos, mas muito provavelmente desde esses tempos mais remotos Esgueira seria um importante ponto de atividade económica, próximo da foz do Vouga, bem como porto de acesso por terra "de" e "para" o interior, de todo o tipo de bens, pescado, exploração de sal, bens agrícolas, etc.

"Terra do trabalho" seria pois um nome perfeitamente adequado.

Curiosamente, depois de ver esta possibilidade, encontrei duas outras referências interessantes.

- Num artigo sobre a vila de Esgueira [7] Monsenhor João Gaspar refere que tem memória de que o termo “esgueira” se utilizava com o significado de jorna / dia de trabalho.

- Se consultarmos por exemplo o dicionário da Infopedia / Porto Editora, este inclui o termo “esgueira” com o mesmo significado: pagamento do dia de trabalho ao jornaleiro.

Coincidências?

 

Na próxima publicação vou procurar mostrar como este mesmo termo fenício "iskaru" terá dado lugar a outros topónimos no nosso território, estando um deles, curiosamente muito perto da minha terra natal, Caria, no concelho de Belmonte.

 

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Referências

Nota: Todas as obras do Dr. Moisés Espírito Santo foram colocadas pelo autor no domínio público e podem ser descarregadas do seguinte endereço:

https://sites.google.com/site/obrasmoisesespiritosanto/

 

[1] Espírito Santo, Moisés - Fontes remotas da cultura portuguesa, Assírio e Alvim, 1989

[2] Espírito Santo, Moisés -Origens orientais da religião popular portuguesa, seguido de Ensaio sobre toponímia antiga - Assírio e Alvim, 1988

[3] Espírito Santo, Moisés – Dicionário Fenício – Português – Universidade Nova de Lisboa – 2ª edição (sem data)

[4] Balsa / Wikipedia https://pt.wikipedia.org/wiki/Balsa_(Lusit%C3%A2nia).

[5] Carvalho, Manuel José Gonçalves de - Povoamento e vida material no concelho de Aveiro: apontamentos para um estudo histórico-toponímico

http://ww3.aeje.pt/avcultur/Avcultur/ManJGCarv/PDFs/MJGC_Mestrado.pdf

[6] Girão, Amorim - Geografia de Portugal (1941)

[7] Gaspar, Monsenhor João – A vila de Esgueira - Notas proferidas num serão informal; Publicado no nº 25/26 do Boletim Municipal de Aveiro.

[8] Infopedia – Porto Editora

https://www.infopedia.pt/

[9] Google Maps

https://www.google.pt/maps/

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Colecionar molas de roupa...

por Lourenço Proença de Moura, em 13.11.20

As_nossas_molas_de_casa_1997_Esgueira.jpg

Foi no já distante ano de 1997 que tirei a fotografia com que inicio esta publicação. O pequeno mas aconchegado cesto, as cores variadas refletidas pelo sol que inundava a marquise do nosso apartamento, captaram-me a atenção.

Esta imagem teve algum efeito de ressonância na minha mente e pus a mim mesmo perguntas para as quais procurei a resposta. Como seriam as molas de roupa noutros países? Que outros tipos de mecanismo e forma haveriam? Qual seria a “história” deste objeto tão comum?

Fui então aos poucos fazendo alguma pesquisa e criando uma pequena coleção.

Vou procurar de forma breve contextualizar o que fui descobrindo e mostrar alguns exemplos do que consegui colecionar.

 

Como terá surgido a ideia para este objeto?

Como tem sucedido na maioria das vezes na história do ser humano, a necessidade aguça-nos o engenho. Quando o Homem começou a lavar as suas roupas, por razões de higiene ou para as manter melhor conservadas, terá procurado formas de as secar ao sol. 

Decerto que as roupas de pele, lã, linho, ou outros materiais seriam postas a secar sobre pedras, ou diretamente em ramos de árvore ou arbustos. Mas logo que começaram a fazer cordas feitas de fibras, vegetais ou animais, a ideia de as pendurar nesse suporte terá ocorrido naturalmente e daí a pensarem numa forma de evitar que tombassem com o vento.

Roupa_a_secar_arbusto.jpg

Muito provavelmente terão logo nessa altura concebido mecanismos simples, ainda hoje utilizados. A forma mais básica passaria por abrir uma ranhura num pedaço estreito de madeira que tivesse alguma resistência.

Mola_basica_antiga.JPG

Uma outra forma utilizaria um troço de ramo estreito de uma madeira flexível, como por exemplo o salgueiro. Nele é aberta uma fenda numa das extremidades e na outra é feito um laço de uma fibra, impedindo que se quebre.

Com a evolução das tecnologias, por exemplo quando os metais passaram a entrar nos usos quotidianos, durante o século 18 na europa, a sua maior durabilidade foi substituindo as fibras, permitindo que os modelos iniciais beneficiassem desta evolução. Surgiram assim molas como as da imagem seguinte, que ainda eram muito comuns no início do século 20.

Mola_basica_com_anel_metalico_antiga.JPG

Naturalmente com as progressivas evoluções tecnológicas, tornando comum a aplicação do aço, mas sobretudo dos plásticos, as formas e mecanismos foram evoluindo em muitas e diversas formas, tendo quase apenas a imaginação como limite…

 

A industrialização, modelos e patentes de molas de roupa

Com a industrialização, as sociedades mais desenvolvidas passaram a valorizar as novas ideias, pois uma boa ideia devidamente aplicada podia gerar imenso valor financeiro. Surgiram assim os conceitos de propriedade intelectual e patentes, para proteger os criadores dessas ideias de serem copiados de forma não autorizada. Os Estados Unidos da América (EUA) foram percursores neste campo.

A primeira patente conhecida para uma mola foi emitida precisamente nos EUA a 22 de março de 1832. Descrevia uma tira dobrada de madeira de nogueira, de seis polegadas, apertada com um parafuso de madeira. Mas quando foi fabricada, viu-se que não funcionava bem. A chuva e a humidade faziam o parafuso inchar e deixava de prender. Porém ficou para a história como primeira patente deste tipo de objeto. Note-se que na sequência de um incêndio no departamento de registos em 1836, perdeu-se esse documento, pelo que dele não existem cópias e não se conhece a sua imagem exata.

Passaram mais 21 anos para aparecer, em 1853, uma grande melhoria. O criador da patente chamou-lhe “spring-clamp for clotheslines”, que podemos traduzir por "grampo de mola para cordas de roupa". Chamava-se David M. Smith. Era natural de Springfield, no estado de Vermont, nos Estados Unidos da América. Tinha duas “pernas” em madeira, articuladas entre si por uma mola de metal.

Foi o antepassado moderno a partir do qual se criaram a maioria das molas que hoje temos. A imagem seguinte foi retirada do registo de patente e mostra qual o seu aspeto. Na minha coleção tenho uma mola muito semelhante que se poderá ver mais adiante.

A invenção de Smith foi revista e modificada vezes sem fim. Só até meados do século XIX houve mais 146 novas patentes nos Estados Unidos da América [1].

Spring_Clamp_1853.jpg

Uma evolução significativa a nível de materiais deveu-se ao italo-americano Mario Maccaferri, que desenvolveu o primeiro modelo de mola de plástico durante a Segunda Guerra Mundial, supostamente depois de se constatar a escassez de prendedores de madeira. Industrializou-a e a sua fábrica produziu mais de um milhão de unidades por dia para atender à procura em tempo de guerra [2] [3].

Molas_Mario_MaccaFerri.JPG

Esta imagem de molas em plástico, foram produzidas pela indústria criada por Mario Maccaferri. A que surge mais acima é o modelo inicial, ou seja, a primeira mola feita em plástico. Mostrarei adiante uma idêntica na minha coleção.

Naturalmente as variações de modelos, formas e mecanismos têm surgido sem cessar em ritmo cada vez maior.

Como último exemplo, relativamente recente, numa espécie de regresso às origens, veja-se o desenho das brasileiras Taciana Silva e Marcela Albuquerque, patenteado em 2006, que pode também ser visto adiante nas imagens da coleção.

2006_Taciana_Silva_Marcela_Albuquerque.jpg

Colecionar molas de roupa…

Porquê colecionar molas de roupa?

Resposta nº 1: Porque não? 

Resposta nº 2: É fácil começar uma coleção. Todos nós temos exemplares para começar e possivelmente os nossos pais têm alguns, mais antigos, bem curiosos…

Resposta nº 3: É um objeto muito simples, sem pretensões, prático e condensa muitas ideias e aperfeiçoamentos do engenho humano.

Resposta nº 4: Considero que existe muita beleza nas rotinas simples da nossa vida diária. E fazendo minhas as palavras (adaptadas) de Lahey [2]… Considero bela uma corda de roupa a secar. É estimulante e conforta a alma, ver uma fileira de tecidos de cores e padrões variados erguendo-se com rajadas de vento, mantidos no lugar por minúsculos soldados de costas direitas, oscilando de um lado para o outro, firmes na sua missão, sobre as suas minúsculas dobradiças…

Devo dizer que por vezes me arrisco a passar por ladrão, ou quem sabe algo ainda mais censurável, quando, por exemplo ao passear numa qualquer rua, caminhando descontraído, a minha atenção é de forma instintiva atraída por um estendal, ficando o meu olhar automaticamente focado nas molas de roupa, procurando por modelos que ainda não tenha. E tanto faz que estejam a prender peúgas, calças, “lingerie” ou ceroulas…

Possivelmente há outros colecionadores em Portugal, mas até ao momento não identifiquei nenhum…

Consegui contactar alguns colecionadores estrangeiros, não muitos, mas foram todos muito simpáticos e temos trocado exemplares pelo correio. Todos tiveram comigo (e eu tentei retribuir) uma "atitude de mãos largas”. Doamos o que temos duplicado, se o outro colecionador não tem.

Penso que o maior colecionador de molas do mundo será Mike Bradley, engenheiro australiano reformado. Podem consultar o seu blog: https://peglomania.blogspot.com/

Faz poucas publicações, mas numa ele indica os links de acesso a fotografias da sua vastíssima coleção. Reproduzo os ponteiros no anexo desta minha publicação.

 

Alguns exemplares da minha coleção

Modelo de gancho simples – exemplares antigos e réplica recente em madeira

IMG_3672.JPG

Img_3673.jpg

Modelo de gancho simples – exemplares antigos em arame / lâmina metálica

IMG_3674.JPG

 

Modelo de gancho simples – em plástico ou metal

IMG_3677.JPG

IMG_3678.JPG

IMG_3671.JPGO modelo da direita mantém o desenho de Mario Maccaferri referido antes

 

Modelo de gancho simples - clipe
IMG_3675.JPG

Modelo de gancho simples em espelho
O que surge à esquerda, corresponde ao desenho de Taciana Silva e Marcela Albuquerque referido antes

Img_3676.jpg

Modelo de gancho complexo – ação manual

IMG_3679.JPG

IMG_3681.JPG

 

Tensor triangular – tensão de contração em fio de aço

IMG_3682.JPG

IMG_3686.JPG

Tensor circular – tensão de contração em fio de aço

IMG_3692.JPG

IMG_3684.JPG

IMG_3690.JPG

 

Tensor em fita – tensão de contração em aço

IMG_3687.JPG

IMG_3688.JPG

 

Tensor em fita – tensão de contração em plástico

IMG_3689.JPG

 

Tensor em fita – tensão de expansão em metal / plástico

IMG_3683.JPG

 

Tensor em hélice com asas – tensão de expansão

IMG_3693.JPG

IMG_3694.JPG

 

Tensor em hélice com asas – tensão de contração

IMG_3700.JPG

IMG_3701.JPG

IMG_3695.JPG

IMG_3696.JPG

IMG_3702.JPG

IMG_3703.JPG

IMG_3704.JPG

 

Tensor em hélice simples – tensão de expansão
O modelo da esquerda é semelhante ao que referi atrás, panteado em 1853 por David M. Smith

IMG_3697.JPG

IMG_3698.JPG

IMG_20201113_200101_resized_20201113_080147562.jpg

 

 

Tensor em hélice simples – tensão de contração

IMG_3699.JPG

 

Tensor em anel / fita de borracha  – tensão de contração

IMG_20201113_195948_resized_20201113_080148562.jpg

 

Brincando com as formas…

IMG_3706.JPG

IMG_3707.JPG

IMG_3708.JPG

 

E quando as crianças brincam…

IMG_3705.JPG

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Familia_Mola.jpg

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Por último, não por lhe atribuir menor significado, deixo o leitor na companhia de um poema que me foi dado a conhecer pela autora, Carla Veríssimo, que casualmente encontrou esta página e achou curiosas algumas correspondências entre as suas palavras e o conteúdo desta publicação.

Transcrevo apenas o seu início.

Como a autora o declama num vídeo original, convido o leitor (devia dizer "convídeo leitor"?) a escutá-lo...

Poema da mola da roupa - Ode Primeira

Apertam-me as pontas os teus dedos suaves.
Estalidos de prazer sob tensão se escutam.
No aro metálico que em espiral se embrulha, enrola, torce e retorce dentro do meu âmago.
Medula presa a pacotes de gente que vegeta, interpreta, desconecta.
...

Veja o vídeo neste ponteiro:
https://www.youtube.com/watch?v=Bc65N-4gWQ4

Se tiver curiosidade em conhecer mais trabalhos desta autora:
https://www.facebook.com/CarlaVerissimo.PaginaOficial

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Referências

[1] The Better clothespin (A melhor mola de roupa) https://www.inventionandtech.com/content/better-clothespin-0

[2] Lahey, Anita - Clothespin Encounters https://maisonneuve.org/article/2010/03/8/clothespin-encounters/

[3] Mario Maccaferri - un liutaio fra Cento, Parigi e New York  - http://www.bagnoli1920.it/Sito_Tipo/Libri_files/cat_maccaferri-E.pdf

 

Anexo

Endereços de acesso à coleção de Mike Bradley

Butterfly Spring Pegs:
Compression Coil Sprung Clothes Pegs:
Conventional Design Pegs
Leaf Sprung Clothes Pegs:
Magnetic clip:
Ring Sprung Clothes Pegs:
Rubber Band Spring:
Self Sprung Plastic Clothes Pegs:
Self Sprung Wooden Pegs:
Tension Coil Sprung Clothes Pegs:
Wide Clip Sprung Clothes Pegs:
Wire over 6cm:
Wire under 6cm:
Wooden Conventional Pegs:

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