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Algumas curiosidades sobre a devoção a São Bartolomeu em Aveiro

por Lourenço Proença de Moura, em 18.07.20

IMG_8731b.jpgAltar da capela de São Bartolomeu no dia 24 de Agosto de 2018, dia dedicado a este santo

 

Na publicação anterior fiz uma contextualização da origem desta capela e da sua invocação original, que era diferente da atual. No final comentei que gostaria de partilhar com o leitor algumas curiosidades sobre esta devoção a São Bartolomeu.

A formação das devoções aos “nossos santos”, tem sido alvo de muitos estudos sobretudo nos tempos mais recentes. Importa desde logo distinguir a perspetiva da Igreja - a qual também varia, por exemplo nas vertentes católicas, ortodoxas, coptas, etc - da perspetiva do homem comum, havendo em muitos casos uma enorme distância na valorização dos ritos e dos seus significados.

Há bastante consenso entre os estudiosos de que os atuais cultos decorrem de cultos anteriores, a deuses de panteões mais antigos, que por sua vez os reinterpretaram de outros...

Com o passar do tempo os cultos evoluem, adaptando-se à medida que as culturas dominantes vão instituindo os novos modelos, mas ficando tipicamente alguns sinais das devoções precedentes.

A Igreja procura expurgar naturalmente os vestígios dessas crenças ditas primitivas. O cidadão comum, por sua vez é tendencialmente apegado às tradições que os seus pais e os pais deles lhes passaram…

Resulta daqui um jogo de forças em que por vezes há alguma conflituosidade, mas chega-se normalmente a uma situação de compromisso em que ocorre um convívio entre “o sagrado” e “o profano”.

Sabemos que, com o império romano, chegaram os seus deuses ao território que hoje é Portugal. Mas antes dos romanos, muito provavelmente outras influências religiosas tiveram os povos que aqui habitaram. É por exemplo minha convicção de que neste nosso espaço houve uma grande influência cultural fenícia. Espero numa próxima publicação abordar esse tema.

Nesta publicação farei apenas de forma muito breve algumas notas sobre esta devoção a São Bartolomeu.

Não possuímos muita informação sobre este santo. Foi um dos apóstolos de Jesus Cristo (1). Nos evangelhos, com esse nome, é referido apenas nas listas dos apóstolos. Existe porém a tradição de o fazer corresponder a Natanael, que surge em algumas passagens.  Mesmo a origem do seu nome não é consensual. Virá do aramaico, havendo duas explicações mais prováveis para o seu significado. O prefixo “Bar” significará “filho de”. Podendo o patronímico ser Talmay (Bartalmay) ou Ptolomeu (Barptolomeu).

Para lá dos evangelhos, há relatos de tradição e lendas, mas sem certeza histórica. Terá pregado o cristianismo para oriente, pela Arábia, pela Índia… Terá enfrentado oráculos que foram associados a demónios, ganhando fama de exorcista. Terá sido martirizado e esfolado e é com esse símbolo de sofrimento que é muitas vezes retratado. Por este seu martírio torna-se padroeiro dos que trabalham com peles, como os curtidores.

Como é que um santo com este perfil se torna tão devocionado numa terra como Aveiro e de uma forma geral em todo o litoral (veja-se por exemplo a tradição do "banho santo" em São Bartolomeu do Mar), se bem que também seja muito devocionado no interior do país? Possivelmente nunca saberemos, mas considero muito curiosa a perspetiva de Moisés Espírito Santo (2).

Segundo ele, a representação popular de São Bartolomeu, tem claras influências orientais. E a “nossa” representação de Aveiro é das que melhor transmite essa influência, em particular através do tridente. Nas palavras deste antropólogo, este santo reinterpreta as capacidades e símbolos associadas ao deus grego Poséidon, o qual por sua vez os terá adotado a partir do deus fenício Yam, deus do mar e dos rios. Como Poséidon que tradicionalmente é representado com um golfinho, o qual segundo o mito o servia, São Bartolomeu tem uma relação com “o diabo” que na verdade não é de ódio, como seria normal se essa fosse a natureza efetivamente atribuída.

Neptuno_Poseidon_Sao_Bartolomeu.jpg

Representação de Neptuno / Poséidon - estatueta romana do século 2º/3º DC (3) e a imagem de São Bartolomeu desta capela

O diabo tem com o santo boas relações e serve o santo. Por essa razão, quando é conseguida uma graça ao crente, o pagamento ao santo passa por dar também uma parte ao diabo.

Como curiosidade, refira-se que para lá do nome comum “diabo”, o “ajudante” em algumas terras é denominado de “búgio”. Em Aveiro chamam-lhe “o moço”.

Tudo isto, em conclusão, são suposições que muito dificilmente alguma vez se poderão provar ou desmentir. Mas não deixa de ser uma hipótese interessante, de termos nesta pequena capela de Aveiro uma representação de um poderoso deus de povos antigos, que cruzou panteões, mares e gerações, sobrevivendo agora na forma de São Bartolomeu.

IMG_8737.JPG

Junto uma última foto tirada no mesmo dia da imagem inicial. Nos bancos, sentadas, senhoras que moram no bairro cumprem a tradição de vigília. A D. Luísa Fortes, mais à direita, mordoma desta devoção, assegura a limpeza e a preparação da capela.

À noite, velas são acesas. Por volta da meia-noite, o olhar das pessoas presentes foca-se nessas velas, procurando ver alguma ondulação na sua chama, sinal claro, para quem tem fé, de que o diabo regressou à sua prisão e submissão ao santo e o mundo seguirá o seu rumo normal.

Isso dá-lhes um sentimento de alívio, pois naquele dia findo, no dia de São Bartolomeu, o diabo teve uma hora de seu!

 

 

Referências no texto:

  1. Wikipedia - https://pt.wikipedia.org/wiki/Bartolomeu,_o_Ap%C3%B3stolo
  2. Moisés Espírito Santo – Origens orientais da religião popular portuguesa – Assírio e Alvim - 1988
  3. Museum of Fine Arts of Boston - https://collections.mfa.org/objects/152757

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Algumas curiosidades sobre a capela de São Bartolomeu em Aveiro

por Lourenço Proença de Moura, em 10.07.20

A capela de São Bartolomeu é bem menos conhecida do que a capela de São Gonçalinho, referida numa publicação anterior deste blog. Curiosamente encontra-se relativamente perto da sua “irmã”, a poucas centenas de metros. Mas vários aspetos contribuem para esta sua reduzida visibilidade, quer de quem mora em Aveiro, quer de quem a visita. Está num local algo escondido, fora dos circuitos turísticos mais comuns, raramente é aberta ao público e atualmente não tem nenhuma confraria que dinamize a devoção do seu atual padroeiro.

E contudo… não lhe faltam história e características que justificam ser melhor conhecida e mais visitada.

Img_8676.jpg

Esta capela situa-se no bairro da Beira-Mar em Aveiro, na rua com o nome do mesmo santo, junto ao quartel dos Bombeiros Novos. Fica precisamente no ponto em que é feita a confluência com a Rua Manuel Luiz Nogueira.

Existem muitas descrições desta capela na internet e também em livros. Não me vou alongar na sua descrição. Salientarei apenas que, como é visível na imagem, é de planta circular, bastante singela, de dimensão reduzida. O seu interior é completamente coberto a azulejo. Na opinião do Dr. Amaro Neves (1), os azulejos do altar são de estilo hispano-árabe, possivelmente do tempo da fundação, ou seja de meados do século XVI, enquanto o revestimento do seu interior é feito com azulejos do século XVII, provenientes de uma obra posterior. Em Aveiro poderem-se apreciar azulejos com esta antiguidade é uma oportunidade única segundo este historiador.

Tem a particularidade de sabermos exatamente o nome de quem a mandou fazer, André Dias Caldeira, e em que data, 1568, informação que está bem visível na pedra do friso da porta de entrada.

Img_8680.jpg

Refere o texto: Esta caza mandou fazer Andre Dyas Caldeira Ano 1568

Vivia o reino de Portugal um período de grande desenvolvimento e poder económico, sendo rei D. Sebastião, na altura com 14 anos, longe de imaginar que passados outros 14 anos tudo se esfumaria em Alcácer Quibir…

Se bem que eu, pessoalmente, não seja estudioso de história, penso que até ao momento em que fiz esta pesquisa há cerca de quatro anos, não eram conhecidos dados concretos sobre André Dias Caldeira. Existia uma presunção de que pudesse ser um André Dias, referido como arcipreste, ou seja um clérigo, numa descrição de um assento de batismo datado de 2 de Setembro de 1571.

Como a seguir irei mostrar, esta suposição não será correta.

Ao consultar por mera curiosidade geral alguns livros paroquiais antigos que o Arquivo Distrital de Aveiro disponibiliza na internet, no livro mais antigo disponível relativamente à paróquia de Vera Cruz, fiquei surpreendido ao ler nas folhas relativas a óbitos, a seguinte referência, cuja imagem aqui apresento.

obito_andre_dias_caldeira.jpg

Adaptando as palavras ao português atual teremos algo como:

Aos 4 do mesmo mês (Fevereiro de 1574 – referido no registo de óbito anterior) faleceu André Dias Caldeira está sepultado na capela de Nossa Senhora da Esperança que ele mesmo fez e fez testamento Sua mulher e sua sogra são herdeiras e testamenteiras. Segue-se a assinatura do pároco.

Temos pois dois aspetos curiosos neste assento:

- Era casado; não seria clérigo em princípio …

-A invocação inicial da capela não era de São Bartolomeu, mas Nossa Senhora da Esperança; tanto quanto sei esta informação era também desconhecida.

Após estas duas surpresas, procurei averiguar se haveria outros registos relativos a André Dias e se bem que não trouxessem muita mais informação, de facto aqui partilho mais algumas “descobertas”:

- Na folha 51, correspondente a casamentos, ano de 1572, André Dias Caldeira surge como testemunha de casamento. Infelizmente sem outra informação.

- A 4 de Julho de 1574, é batizada uma filha sua, Maria. A imagem seguinte apresenta esse registo. É curiosa a forma como foi redigido “filha que foi de…”. Repare o leitor que a filha nasce cerca de 5 meses após a sua morte. E ficamos a saber o nome da esposa, Cecília de Mariz (2).

1574_Maria_filha_de_Andre_Dias_Caldeira_Vera_Cruz.

 

- Na folha 63, relativa a casamentos, ano de 1579, surge uma curiosa referência a uma testemunha, citada como “criada da mulher que foi de André Dias Caldeira”. Saliente-se que o ter sido criada é relevado como sendo uma referência, de onde se presume a importância da família.

No que respeita a registos paroquiais, foi tudo quanto encontrei.

Acrescentaria agora alguns breves comentários à questão da invocação da capela. Presumo que não seja possível saber quando a invocação passou para a atual.

Na descrição que o Dr. António Christo faz desta capela num artigo que foi originalmente publicado possivelmente na década de 1950 (António Christo faleceu em 1963), e republicado em 1989 num simples mas muito interessante livro com o título Capelas de Aveiro, é referido que teria três imagens: Uma Senhora do Ó, São Bartolomeu e São João Batista.

O que podemos observar atualmente e que se mostra na imagem, é coerente com a descrição do Dr. António Christo.

IMG_8686_2.jpg

Na verdade, a Senhora está grávida nesta representação. Confirmou-me o Dr. Amaro Neves que de facto a imagem corresponde a essa invocação e que será da época da construção. Explicou-me também que essa imagem tem sinais de que o seu ventre terá em tempos idos sido alvo de algum desbaste, para que a gravidez não fosse demasiado evidente...

Contingências de outros tempos e outras mentalidades…

A imagem da Virgem grávida tem várias denominações, como por exemplo Senhora do Ó, Senhora da Expectação, mas também Senhora da Esperança. Ora é com esta última denominação que surge no registo de óbito de André Dias Caldeira. Sendo esta imagem dessa época, com muito forte probabilidade terá sido a imagem original a quem a capela foi dedicada. Não será fruto do acaso que possua melhor qualidade que as restantes e que ainda hoje ocupe a parte central do altar.

A razão da mudança de invocação, será quase impossível de saber. A forte tradição de devoção a São Bartolomeu por parte das gentes do mar, é uma causa provável.

Mas sobre isso penso que será curioso partilhar convosco mais alguns pormenores, numa próxima publicação, ainda dedicada a esta capela.

Por último, deixo ao leitor uma imagem do interior, em que se percebe melhor o ambiente que sente o visitante. Poderá ser apenas uma perceção pessoal, mas diria que transmite uma intensa experiência de recolhimento, como se estivéssemos no ventre de uma mãe espiritual.

Img_8686.jpg

Nota 1 - Amaro Neves - Aveiro História e Arte (1984); Amaro Neves - Azulejaria antiga em Aveiro (1985)

Nota 2 - Quando publiquei o artigo não consegui identificar o nome da esposa; Num artigo publicado mais tarde também no Diário de Aveiro por Francisco Messias Trindade Ferreira, essa leitura foi apresentada.

 

Este artigo com ligeiras adaptações foi publicado inicialmente no Diário de Aveiro – edição de 27 de Julho de 2016

Se quiser procurar na internet num sistema de coordenadas, esta capela situa-se no seguinte local:

40.643568, -8.652482

 

 

 

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Tempos sobrepostos - Metáfora da memória

por Lourenço Proença de Moura, em 03.07.20

teste1.jpg

 

Quando estivemos a preparar a publicação anterior, foi necessário fazer um processamento gráfico que resultou na imagem inicial.

Nessa fase, o meu filho João mostrou-me uma composição que fez, que achei muito interessante e que aqui partilho.

Nela, os personagens, o tempo e o espaço, a cor e as sombras interpenetram-se.

Como se nos visitassem e às nossas memórias…

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