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Breves reflexões sobre a origem do nome do arquipélago dos Açores

por Lourenço Proença de Moura, em 15.08.20

Mapa_Ilhas_terceiras_Lazaro_Luis_1563_Academia_das

E se o nome deste nosso território se devesse à devoção de um frade e a um simples mal-entendido?

Se o leitor ficou curioso com esta possibilidade, convido-o a acompanhar-me nestas próximas linhas.

Este tema está decerto no grupo de assuntos relacionados com a nossa História, que mais apaixonadamente tem sido alvo de debate, por historiadores ou simples curiosos como eu. Quase tudo terá já sido dito. Poderei dar algum contributo por mais pequeno que seja?

 

Como seria de esperar, há muita documentação coeva sobre “os descobrimentos” boa parte da qual apenas se pode consultar em arquivos de acesso restrito a estudiosos. Mas felizmente há imensa informação disponível na internet, sejam documentos digitalizados ou artigos de estudo. A Wikipedia por exemplo tem páginas interessantes centradas na vertente histórica. Nas referências incluo duas páginas, em português [1] e inglês [2] e que no que respeita à origem do nome curiosamente apresentam perspetivas um pouco diferentes.

Mas no essencial, como se poderá supor e conferir nas páginas citadas:

- há muitas fontes documentais antigas que referem o conhecimento de ilhas – algumas delas com nomes coincidentes com os atuais, antes da sua “descoberta” pelos portugueses;

- estudos recentes a nível da arqueologia indiciam a existência de estruturas de construção anteriores, mas não há ainda consenso sobre esta matéria;

- estudos igualmente recentes, de ADN, realizados em ratos, demonstraram existir ligações a antepassados de países nórdicos, possivelmente chegados em barcos, sendo coerente com a hipótese de terem chegado em embarcações viquingues.

Tal não deve surpreender nem pôr em causa nada de essencial no “nosso” mérito na arte da navegação e neste caso, no de conseguir povoar e tornar habitáveis estas remotas ilhas.

As breves reflexões que vou fazer focam-se em dois aspetos:

- O primeiro, é um singelo contributo para a denominação “Ilhas terceiras” que antecedeu a denominação atual e que durante alguns séculos conviveu com a nova identidade;

- O segundo, é uma proposta que penso ser original na defesa de uma das opções justificativas para o nome atual do arquipélago.

 

A denominação “Ilhas terceiras”

Não existe qualquer dúvida sobre este facto e o significado desta antiga denominação. Nas referidas páginas da Wikipedia tal é bem explicado. Correspondia à ordem de afastamento da costa. As primeiras eram as Canárias, as segundas o arquipélago da Madeira e finalmente as terceiras, os atuais Açores.

O belo mapa do cartógrafo português Lázaro Luís, datado de 1563 [15], de que retirei um detalhe para iniciar este texto e que aqui apresento noutra vista, é um bom exemplo desse posicionamento e da denominação.

Mapa_Ilhas_terceiras_Lazaro_Luis_1563_Academia_das

Mas a questão curiosa que aqui pretendo trazer é sobre o nome das ilhas, em particular da ilha Terceira. A explicação que mais frequentemente tenho ouvido e lido (por exemplo [2]) refere ter sido a terceira ilha a ser descoberta. Não me parece que faça sentido. O grupo central é constituído por 5 ilhas bastante próximas que terão sido “descobertas” praticamente em simultâneo.

Sucede que numa leitura casual, de um livro de ensino que foi publicado em Portugal em diversas edições entre o final do século 18 e o início do 19 – “Atlas moderno para uso da mocidade” [4], fui surpreendido com a leitura da descrição do arquipélago dos Açores. A imagem seguinte mostra essa explicação.

As_ilhas_dos_Acores.jpg

Está escrito num estilo comum na época, na forma de perguntas e respostas. Para a pergunta sobre quantas ilhas são, surge a resposta que logo ao início nos surpreende:

Nove, cujos nomes são:

- As duas Terceiras

- A Graciosa… e por ali continua.

Torna-se fácil de perceber que o Faial ainda não tem nome próprio nesta lista. O Faial é ainda uma “ilha Terceira”.

Note-se que o nome “Faial” já surge referido em descrições e mapas muito anteriores, como o já referido de Lázaro Luís. Mas o que esta descrição parece mostrar é que na verdade as ilhas apenas foram ganhando identidades oficiais à medida das necessidades. O Faial terá sido a última a ganhar a sua “alforria identitária”. A Terceira não precisou de o fazer. Se todas as outras tinham nomes próprios distintos dela, ela já não precisava de mudar. Ficou com o “nome da família”!

 

Vejamos agora o segundo tema - a questão da razão de ser do atual nome do arquipélago.

Nos tempos mais recentes o debate tem sido feito sobre três hipóteses [1]:

  • Dever-se à presença de milhafres identificadas de forma errada pelos marinheiros portugueses como sendo açores. Esta justificação é algo estranha pois há muitas diferenças quer físicas quer na forma de voar e naquela época esse era um conhecimento das gentes do povo; Porém, de facto muitas fontes antigas referem essa justificação.
  • A devoção de Gonçalo Velho a Santa Maria dos Açores, padroeira da freguesia de Açores, em Celorico da Beira, no Distrito da Guarda;
  • Provir do nome Azzurro em italiano ou Azureus em latim, que significa Azul em português, como referência ao céu azul num dia brilhante e claro quando as ilhas se veem ao longe (em [1] consideram esta a possibilidade mais forte).

Pessoalmente, considero mais plausível a segunda opção e vou explicar as razões. O que a seguir refiro é conhecido dos estudiosos, mas será importante para contextualizar o leitor.

Na verdade, na época em que as ilhas foram descobertas, a devoção a Santa Maria dos Açores era muito forte, pelo menos na Beira interior. No final desta publicação, em “Informação anexa” faço uma breve referência aos milagres que terão sido mais famosos.

Penso não existir muita informação disponível sobre este tema, mas irei mostrar um exemplo bastante elucidativo e que está consultável na internet [6] – Trata-se das "Cronicas del Rey Dom João de gloriosa memoria" (Dom João I, fundador da Dinastia de Aviz), escritas por Duarte Nunes do Leão (n.1530 - f.1608).

Se selecionarem a ligação, acedem diretamente ao conteúdo que apresento na imagem seguinte, focado no ponto que quero realçar.

Partindo_se_logo_El_Rei_da_Guarda.jpg

Qual o contexto e o que diz este relato? O reino de Portugal está a atravessar a denominada crise de 1383 – 1385. D. Fernando falecera sem deixar descendência masculina. D. João de Castela, casado com D. Beatriz, filha de D. Fernando, seria quem deteria o direito de reinar. Porém em Portugal havia grande oposição a que tal sucedesse, em particular da parte da burguesia e do povo. Pelo contrário, a maior parte da nobreza defendia a posição do rei de Castela. Em 1384, D. João de Portugal foi aclamado como regente. Este, nomeou Nuno Álvares para fronteiro do Alentejo. Tendo conhecimento destas movimentações, o rei de Castela entrou em Portugal para tentar fazer valer os seus direitos. Não traz ainda o enorme exército que um ano mais tarde batalhará em Aljubarrota, pois nesta fase pretende sobretudo reunir quem lhe fosse favorável.

É neste ponto que se situa o texto da crónica. E o que nos diz ele? Que El Rei de Castela, depois de entrar em Portugal, dirigiu-se à Guarda, fazendo depois romaria a Santa Maria dos Açores seguindo depois para Celorico…

Ou seja, o próprio Rei de Castela conhecia a devoção e atribuía-lhe tanta relevância que mesmo num contexto de tensão e crise – ou até por isso - fez questão de passar naquele local.

Penso que este exemplo é claro da importância deste culto pelo menos nesta região, chegando mesmo ao reino vizinho.

Vejamos agora o que se sabe sobre a “descoberta” das ilhas, mas sobretudo sobre o início do seu povoamento.

Existe algum debate sobre quem “descobriu” os Açores. Há os que defendem que foi Diogo de Silves. Há também quem refira Gonçalo Velho. Mas para o que pretendo salientar esse aspeto não é relevante, mas sim o seu povoamento. E sobre isso não existem dúvidas.

Em 2 de Julho de 1439, por sua lealdade e por sua reconhecida experiência no mar, o Infante Dom Henrique designou-o (Gonçalo Velho) para "povoar e lançar ovelhas nas sete ilhas" do Arquipélago dos Açores. Levou famílias do Alentejo, Estremadura e do Algarve, e gado para as ilhas de Santa Maria, estabelecendo-se na Praia do Lobo. Em 1444 inicia a colonização da Ilha de São Miguel, onde funda a vila de Povoação [9].

Ou seja, a primeira ilha a ser povoada foi Santa Maria. Apenas cerca de 5 anos depois se iniciou o povoamento de São Miguel, ainda por Gonçalo Velho. As outras ilhas naturalmente seguiram-se em datas posteriores com outros donatários.

Sucede que os pais de Gonçalo Velho eram da beira interior. A mãe, Maria Álvares Cabral (Tia bisavó de Pedro Álvares Cabral) era de Belmonte, localidade bastante próxima de Açores.

Ascendencia_Goncalo_Velho.jpg

Árvore genealógica de Gonçalo Velho [10]
Nota: Podemos também situar Fernando Álvares Cabral que foi avô de Pedro Álvares Cabral

Na figura Gonçalo Velho surge aproximadamente no centro. Como se refere também na figura, o pai era alcaide de Veleda (Não consegui situar este castelo - ver nota sobre este tema no final – informação anexa) título dado por el-rei D. Fernando. Foi-lhe também atribuído o Souto da Mercê. Sobre este último território consegui encontrar referências. Ocupava uma área bastante extensa entre a Gardunha e o vale do Zêzere, desde Alcongosta até aos limites do Castelejo, passando pelo Souto da Casa, Aldeia Nova e Aldeia de Joanes, até às povoações de Donas e Alcaide [8]. Ou seja, um território um pouco a sul de Belmonte mas muito próximo.

Não se conhece o local de nascimento, mas terá sido provavelmente nesta região. Significa isto que Gonçalo Velho não podia deixar de conhecer e valorizar este culto. Até porque temos que ter em conta um outro fator… Gonçalo Velho seguiu a via religiosa. Ficou aliás conhecido por Frei Gonçalo Velho.

Estamos finalmente no ponto em que, penso eu, sugiro uma interpretação original sobre o que terá sucedido.

E o que terá sucedido?

Gonçalo Velho denominou a primeira ilha que povoou não simplesmente de “Santa Maria”, mas de “Santa Maria dos Açores”. E assim terá sido chamada nos primeiros anos. Porém esta devoção não era conhecida de todos, mesmo em Portugal, nestes tempos em que o poder e a posse da terra seguiam ainda um modelo feudal e com ele toda uma estrutura social tendencialmente fechada nos domínios dos senhorios. Por exemplo Diogo de Silves, se como se argumenta era algarvio, poderia não a conhecer, à semelhança dos seus companheiros naturais desta região de onde muitas armadas partiram. Por maioria de razão seria desconhecida de navegadores de outras nacionalidades.

Por outro lado, como se refere por exemplo no livro Memórias para a história de Portugal [11], a ilha de Santa Maria juntamente com a de São Miguel eram, naquele tempo de rotas ditadas pelo vento, tipicamente as primeiras a avistar.

Assim, ao se dirigirem para esta ilha recém-povoada, ou mesmo passando ao largo, ouvindo nomear “Santa Maria dos Açores”, terão associado o termo “dos” à comum ideia de pertença. Ou seja, o nome da ilha para esses primeiros visitantes seria simplesmente “Santa Maria” a qual pertencia aos “Açores” que neste contexto só poderia ser o nome do arquipélago.

O nome era simples e foi rapidamente partilhado. Serviu os propósitos da comunicação entre as gentes e foi quanto bastou. Usando uma expressão popular “pegou de estaca”.

Esta hipótese tem uma curiosidade…

Tendo ficado a ilha Terceira com o nome da “antiga família”, a ilha de Santa Maria seria a “ilha madrinha” das suas irmãs no que se refere a lhes ter dado o nome da “ nova família”…

 

Se me permitem terminar em jeito de romance, imaginem então o dedilhar de um alaúde e uma toada como na “Nau Catrineta”…

Era uma vez nove irmãs, filhas da Terra e do Mar.
Da família das “Terceiras”, esse nome partilhavam.
Gonçalo Velho chegou, para duas povoar,
E
 novos nomes lhes deu, melhor assim as chamavam.

Santa Maria dos Açores, chamou à ilha primeira,
Pela devoção que tinha, à sua Senhora da Beira
Os marinheiros de longe, tendo nela aportado
Pensaram “Açores” ser, o arquipélago chamado!

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Referências

[1] Wikipedia – História dos Açores

[2] Wikipedia – History of the Azores

[3] Wikipedia – A ilha Terceira

[4] Atlas moderno para uso da mocidade – Typographia Rollandiana – Lisboa 1812

[5] Wikipedia – Açores / Celorico / Guarda

[6] Cronicas del Rey Dom João de gloriosa memoria o I deste nome… – Duarte Nunes de Leão – Lisboa 1780

[7] Celorico da Beira através da História – Margarida Sobral Neto

[8] O culto a S. Brás e a Misericórdia do Fundão. Devoção, memória e patrimonialização – Pedro Miguel Salvado e Joana Bizarro – Revista online do Museu de Lanifícios da Beira Interior

[9] Sítio da internet – Genearc – Página sobre Fernão Velho

[10] Concelho de Belmonte Memória e História – Manuel Marques – Edição da Câmara Municipal de Belmonte - 2001

[11] Memórias para a história de Portugal que compreendem o governo del rei D. João o I – José Soares da Silva - 1730

[12] Portugal antigo e moderno – Volume segundo – partes 3 e 4 Padre João Batista de Castro – 1763 (página 238)

[13] Corografia portugueza e descripçam topografica do famoso reyno de Portugal – Tomo terceiro – Padre António Carvalho da Costa – 1708 (Páginas 365 e 366)

[14] - Quarta parte da monarquia lusitana – Frei António Brandão – 1632

(El rei D. Sancho primeiro) - Páginas – 6 (verso), 7 (frente e verso), 8 (frente)

[15] Mapa de Lázaro Luís – 1563 – Academia das Ciências

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INFORMAÇÃO ANEXA

Notas sobre o castelo de que Fernão Velho foi alcaide

Fernão Velho, pai de Gonçalo Velho, foi nomeado por D. Fernando alcaide de um castelo. Sucede que, não tendo eu acesso à fonte original, encontrei referências diferentes, como a seguir exponho.

Como se mostrou na árvore de família de Gonçalo Velho, Manuel Marques refere Veleda como o nome do castelo.

Numa outra página de genealogia (ver ligação)surge também como senhor de Veleda.

Encontrei porém uma outra página com outra denominação que me pareceu bem sustentada. Trata-se de um repositório académico, refere a data (1/5/1370) e o lugar (Pontevel) onde foi assinado e onde se encontra o original.

Doação do Castelo de Aveleda a Fernão Velho

Refere o castelo como sendo de Aveleda.

De acordo com os registos de códigos postais temos terras com este nome nos concelhos de Braga, Bragança, Chaves, Cinfães, Lousada, Paredes de Coura, Valpaços, Vila Verde e Vila do Conde.

Mas nenhuma com castelo.

Nesta outra página da Enciclopédia Açoriana referem que o castelo era da Valada…

Depois de alguma pesquisa, encontrei uma referência ao castelo de Santarém como tendo essa denominação (Valada).

Porém fiquei na dúvida, pois parecer-me-ia mais natural que no documento de nomeação fosse identificado pela cidade e não por uma denominação aparentemente local. Além de que no levantamento de alcaides de Santarém não surge Fernão Velho.

Alcaides de Santarém – Wikipedia

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Lendas em torno dos milagres de Santa Maria dos Açores [7] (páginas 105 e 106)

(transcrição do documento referido)

O brasão do concelho de Celorico ostenta como elementos simbólicos um castelo, uma águia com um peixe nas garras, cinco estrelas e uma figura representativa da lua.

Segundo informação dos priores das três freguesias urbanas de Celorico, apresentada nas Memórias. paroquiais de 1758, a figuração referida fazia parte da bandeira da câmara, sendo interpretada da seguinte forma: a águia e a truta reportavam-se a uma estratégia utilizada pelo Alcaide-mor de Celorico para induzir o conde de Bolonha a levantar o cerco ao castelo. Por sua vez, as estrelas e a lua evocariam o milagre ocorrido durante uma batalha (travada num campo próximo de Trancoso) contra um rei de Leão, segundo o qual a lua "parara” até ao desfecho vitorioso das tropas portuguesas. Este milagre foi atribuído a Nossa Senhora dos Açores. Em reconhecimento deste prodígio dos céus, as câmaras da cidade de Guarda e das vilas de Trancoso, Linhares, Algodres e Mesquitela deslocavam-se, todos os anos, em romagem à ermida da milagrosa senhora, em dias diferentes, entre a primeira oitava da Páscoa e o domingo da Santíssima Trindade (Rodrigues, 1992: 139). Esta tradição é referida em vários documentos da época moderna, nomeadamente no foral manuelino de Celorico, no capítulo em que se destina uma parte das receitas do montado aos cavaleiros que participassem no cortejo que anualmente se dirigia a Santa Maria dos Açores, acompanhando, a cavalo, a bandeira do concelho.

Santa Maria dos Açores era uma criatura divina a quem se atribuíam três grandes milagres. O primeiro remonta ao momento do encontro da imagem da Senhora, ocorrido após a mãe de Deus ter salvo do afogamento um pastor e uma vaca que tinham caído numa lagoa; o segundo, manifestou-se através da devolução da vida, e de um corpo são, a um filho de uma rainha, vinda de longe em busca de cura para as deformidades físicas e que entretanto falecera; finalmente, o terceiro realizara-se no mesmo contexto do segundo, no momento em que o rei se preparava para cortar a mão de um dos seus criados que, inadvertidamente, deixara fugir um Açor; por intercessão divina a ave interpusera-se entre a lâmina cortante e o vassalo salvando-lhe a vida.

Celorico da Beira e Linhares - Adriano Vasco Rodrigues - 1992

 

Nota pessoal

Este texto sintetiza as lendas e os milagres desta devoção. Mas se o leitor tem curiosidade em conhecer textos antigos em que o mesmo tema é descrito, sugiro que aceda às ligações das referências [11], [12], [13] e [14], em particular a esta última, mais antiga e mais longa.

Apresento aqui apenas o texto da referência [13] para ilustrar a forma antiga de relatar este tipo de veneração.

Corografia_Portuguesa_1708_1.jpg

Corografia_Portuguesa_1708_2.jpg

Corografia_Portuguesa_1708_3.jpg

 

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Breves referências à localidade dos Açores

Não era minha ideia inicial fazer referência específica a esta localidade, pois presumi que estivesse razoavelmente divulgada. Sendo uma terra muito antiga (uma lápide na igreja remete para a época visigótica) com uma devoção que foi relevante na nossa História, para não falar da possibilidade de ter sido a inspiradora do nome do arquipélago dos Açores, havia razões de sobra para que houvesse bastante informação e imagens na internet.

Pode ter sido minha falha, mas para lá de um breve artigo na Wikipedia, apenas encontrei algumas descrições das lendas. Imagens do interior da igreja não encontrei.

Julgo que esta localidade merece mais reconhecimento e visibilidade, em particular a igreja.

Apesar de se perceber que passou por inúmeras "obras" desde a sua construção original que terá sido gótica, ainda tem motivos de interesse. Por exemplo a imagem de Santa Maria dos Açores com um dessas aves aos pés, os quadros descrevendo os milagres e a epígrafe visigótica.

Não tendo encontrado imagens melhores, aqui mostro algumas fotos que tirei há cerca de seis anos, apesar da fraca qualidade pois foram tiradas sem "flash" por um telemóvel com baixa sensibilidade à luz.

Nota: A sua localização, mesmo sem utilizar GPS é bastante fácil. Se por exemplo estiver a percorrer a A25, no sentido Aveiro => Guarda, já relativamente perto da Guarda, mas ainda sem iniciar a subida da serra, passa por Celorico da Beira à sua esquerda. Fique então atento, pois cerca de 7 Kilómetros depois terá a saída para a aldeia dos Açores, a qual está logo ali muito perto. Boa viagem. Boa visita.

IMG_20131213_161829.jpg

 

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O famoso Godinho

por Lourenço Proença de Moura, em 01.08.20

Godinho_quadro.jpg

O leitor vai perceber no final, a razão por que começo esta publicação com uma anedota. Penso que é bastante conhecida e por isso vou tentar contá-la numa versão abreviada com umas simples adaptações aos tempos atuais…

              Naquele dia de fim-de-semana, o trânsito estava ainda mais confuso que o habitual. O nosso presidente Marcelo Rebelo de Sousa fazia-nos uma nova visita. Já não me recordo da razão. Pode ter sido para celebrar algo, para partilhar o seu pesar por algum infortúnio, ou por outro qualquer motivo… Razões não faltam para distribuir abraços e beijos fraternos por todo o país.

              O facto é que estava previsto que percorresse a avenida principal e eu, depois de estacionar o carro bem longe para evitar mais transtornos, lá fui apressado à zona em que a população se juntava, aguardando a sua passagem.

              Estava ainda a procurar o melhor local para assistir ao cortejo, quando um toque no ombro me fez dirigir a atenção para o autor do gesto. Era o meu amigo "Zé dos plásticos", que já não via há muito. Fizemos alguma conversa de circunstância. Pelos vistos a vida estava a correr-lhe bem. Muitos negócios, muitos contactos, muito sucesso. Em determinada altura fiz um comentário qualquer sobre o facto do nosso presidente ser tão conhecido de todos. E não é que o Zé ripostou? Disse que conhecia muito bem o presidente, era amigo da família e possivelmente ele, Zé, já seria mais famoso que o Marcelo!...

              Como ele sempre foi bastante gabarolas sorri. Mas na verdade o Zé despediu-se apressado dizendo qualquer coisa que não percebi e desapareceu na multidão.

              Passados alguns minutos, finalmente, começou a aparecer ao longe o que parecia ser a comitiva do presidente. O povo começou a aglomerar-se ainda mais e a acenar.

              Eis que, no carro descapotável que vinha à frente, em ritmo lento, vejo duas figuras de pé. Uma era o Marcelo. A outra, não conseguia reconhecer. Curiosamente tinha algumas semelhanças com o meu amigo de quem me despedira havia poucos minutos.

              Não podia ser… Mas cheio de curiosidade, perguntei a uma outra pessoa ao meu lado, que estava mais à frente em melhor posição:

              - Por favor, sabe-me dizer quem vem no carro descapotável?

              A pessoa virou-se para mim e perguntou-me:

              - Quer saber quem está ao lado do Zé dos plásticos?

 

Posta esta introdução, vamos ao assunto da publicação…

Moro no centro da "antiga vila de Esgueira", que atualmente constitui uma freguesia urbana de Aveiro.

Sendo uma terra antiga, como é comum nestes casos, o centro corresponde à zona também mais antiga da localidade. A minha casa dá para uma rua, atualmente sem tráfego automóvel, denominada Rua do Godinho.

Rua_do_Godinho.jpg

 

Durante muitos anos não tive curiosidade em descobrir quem teria sido este Godinho. Mas ao ler o livro “Fontes remotas da cultura portuguesa” [1], do Dr. Moisés Espírito Santo, em que sustenta a argumentação de que muitos topónimos portugueses têm origens fenícias, achei curiosa a explicação que ele dava, no caso, referente à denominação de um monte - "Monte Godinho". Este monte situa-se na beira interior, mais especificamente junto à localidade de Enxabarda, a cerca de 10Km a oeste do Fundão. Refere esse autor (página 371) que "Godinho" pode significar "gad 'yny" sendo nesse caso um título de chefe.

Note-se que num outro livro, “Origens orientais da religião popular portuguesa” [2], o mesmo autor, perante topónimos semelhantes, tais como o Bairro do Godim, no Porto (pág 283), Porto Godinho na zona de Soure (pág 297), Godinho na zona de Góis (pág 298), apresenta uma outra hipótese - a de derivarem do termo "godel" que também era um título com o significado de "Grande", igualmente associado a um líder. Sublinho que nestes trabalhos, este autor focou-se em topónimos de locais e não de ruas.

Foneticamente a primeira interpretação será mais plausível, mas em qualquer caso a interpretação seria equivalente. No caso da minha curiosidade – Rua do Godinho, denominaria um percurso associado a alguém com estatuto de liderança da comunidade.

Tentei saber se havia alguma explicação para o nome da “minha Rua do Godinho” mas não encontrei nenhuma razoável. Daí que decidi fazer as minhas próprias pesquisas. Achei que seria interessante averiguar até que ponto esta denominação é comum. Qual seria a sua distribuição geográfica?

Seria uma tarefa quase impossível se não dispuséssemos de uma ferramenta adequada. Sucede que hoje em dia temos uma, curiosamente acessível a qualquer cidadão. Trata-se da aplicação de pesquisa de códigos postais dos CTT, disponível na internet [3]!

Venho pois partilhar convosco o que desta forma encontrei.

Para não maçar o leitor, vou desde já mostrar a distribuição geográfica de ruas, travessas, quelhas… do Godinho, Gondinho, Godinhos…

Surgem no mapa com marcas de fundo branco.

Entretanto como o Dr. Moisés Espírito Santo comenta nos livros citados, há uma outra denominação que terá a mesma raiz. Trata-se de “Godim”.

Fiz por isso a mesma pesquisa para esta outra denominação. Correspondem às marcas com fundo laranja.

Se o leitor tiver curiosidade em saber as correspondências, elas estão ao fundo deste artigo, numa zona que denominei “Informação anexa”.

Localizacao_Ruas_Godinho_Godim.jpg

Localização de ruas com denominação “Godinho” (marcas brancas) e “Godim” (marcas laranja) [4]

O que podemos constatar?

  • A localização do termo “Godim” situa-se no mesmo espaço de “Godinho” e terá muito provavelmente a mesma origem.
  • A concentração junto ao litoral é compatível com a possível origem fenícia proposta pelo Dr. Moisés Espírito Santo. Seria contudo de esperar situações mais a sul, por exemplo no Algarve.
  • Há uma muito grande concentração na região entre Viana do Castelo e Aveiro. Não será possível numa análise tão simples dar justificações, mas apenas por curiosidade, partilho com o leitor o seguinte. Segundo o mesmo autor [2] (pág. 352), de acordo com a Bíblia, vinha de Ofir o ouro dos fenícios, sendo Ofir a fonte do ouro mais puro. Como ele explica, há bastante debate sobre onde este lugar se situava. Mas segundo afirma, terras com esse nome apenas existem em Portugal e uma é precisamente nesta região, junto a Fão. Será coincidência que o Minho tenha tanta tradição no trabalho do ouro? Esta concentração de ruas do Godinho / Godim podia ter a ver com um maior fluxo de interações comerciais.

Em conclusão, tudo leva a crer que esta denominação Rua do Godinho / Godim, decorra de uma associação muito antiga, possivelmente semelhante à que ocorreu em muitas terras, de terem a sua "Rua direita". Há várias explicações para esta denominação, mas partilho da opinião dos que argumentam que deriva de ser a rua que dirigia (rua direta) ao centro de poder da localidade.

À semelhança da “Rua direita”, a grande maioria das “Ruas do Godinho”, situa-se em espaços centrais das terras.

A localização concentrada junto ao litoral, é compatível com a hipótese fenícia, mas como sempre digo nestes casos, trata-se apenas de uma hipótese.

A ser um personagem real, sem dúvida que era famosíssimo.

O Godinho seria quase tão conhecido como o Zé dos plásticos!

E tendo em conta o atual espaço geográfico de Portugal, seria um “homem do norte!”…

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Referências

[1] Moisés Espírito Santo - Fontes remotas da cultura portuguesa - Assírio e Alvim - 1989

[2] Moisés Espírito Santo - Origens orientais da religião popular portuguesa seguido de Ensaio sobre toponímia antiga - Assírio e Alvim – 1988

[3] www.ctt.pt - opção “Ferramentas” / “Encontrar códigos postais”

Nota: Fiz esta pesquisa em Julho de 2017. Atualmente o sistema obriga a indicar o distrito / concelho. Na altura apenas exigia o distrito o que facilitou muito.

[4] Note-se que a localização pode não estar absolutamente exata, pois as ferramentas que usei não mo permitiam. Também em alguns casos as localizações eram muito próximas e levariam à sobreposição de marcadores. Preferi separar os marcadores o suficiente para se conseguirem identificar. Tais condicionantes porém não alteram em nada a análise.

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Informação anexa

De acordo com o sistema de informação dos códigos postais, temos “Rua do Godinho” / “Rua Godinho”, nas seguintes localidades:

1 –Matosinhos; 2 -Maceda, Ovar; 3 - Leça da Palmeira; 4 – Esgueira;

5 - Mosteiró (Vila do Conde); 6 - Castro Daire ; 7 – Valadares (Baião)

8 – Gião (Santa Maria da Feira); 9 – Lage (Vila Verde)

 

Com variantes que claramente se enquadram nesta fonética temos ainda:

10 - Vila Franca de Xira [Beco do Godinho] ; 11 – Queijas (Oeiras) [Travessa Godinho]

12 - Vila Cova (Barcelos) [Travessa de Dom Godinho e Rua de Godinhos]

13 - Maiorca (Figueira da Foz) [Rua Godinhos]

14 - Sobradelo da Goma (Póvoa de Lanhoso) [Caminho dos Godinhos]

15 – Negreiros (Barcelos) [Rua de Gondinho e Travessa de Gondinho]

 

Considerando “Godim” como equivalente, temos ainda:

Rua de Godim nas seguintes terras:

16 - Maia; 17 - Bonfim (Porto); 18 - Campanhã (Porto); 19 - Fregim (Amarante)

Rua do Picoto de Godim:

20 - Jugueiros (Felgueiras)

 

 

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