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Possíveis origens fenícias de topónimos do nosso território

Terceira parte – Outras possíveis invocações de Baal e Ilib

por Lourenço Proença de Moura, em 11.10.20

Nossa_Senhora_da_Povoa_data_desconhecida.jpg
Nossa Senhora da Póvoa - Celebração religiosa - Data desconhecida
Fotografia retirada do sítio Capeia Arraiana (onde o leitor poderá ver outras fotos muito interessantes)

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Introdução

Nas duas últimas publicações procurei mostrar que existem fortes indícios de que, o nosso território, antes da influência romana, terá passado por um período razoavelmente longo de fortes influências fenícias, as quais terão sobrevivido em alguns nomes de terras / topónimos e cultos religiosos.
Mostrei como Vale de Ílhavo, junto a Aveiro se enquadra nessa hipótese.
Nesta publicação explico como o mesmo tipo de influências e culto parece ter-se espalhado um pouco por todo o país, mas sobretudo na faixa Beira Litoral - Beira Alta - Beira Baixa.
 
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Se bem que neste tipo de análises nunca se possa estar cem por cento seguro, os resultados do estudo exposto na publicação anterior sobre a possível origem do nome Vale de Ílhavo deixou-me bastante confiante sobre a correção dessa hipótese. Porém uma dúvida surgia:

- Se estes dois deuses Baal e Ilib tinham assim tantas devoções, não seria lógico que devêssemos encontrar outras terras com nomes deles derivados? “Vale de Ílhavo" em Portugal há apenas um e numa primeira fase não encontrei nomes que lhe fossem próximos.

Curiosamente não passaram muitos dias até que, das minhas memórias de beirão, nado e criado na Cova da Beira, me ocorreu uma associação relativamente simples e que aos poucos me convenceu de que seria a possível resposta à questão anterior.

Uma das maiores romarias da minha região é a do Vale da Senhora da Póvoa. Mas eu lembrava-me que esta localidade tinha um outro nome mais antigo, “Vale de Lobo”. Na verdade, numa época não muito distante, em 1957, adotou o nome atual. Será que o topónimo antigo “Lobo” poderia ser um outro derivado de “Ilib”? Se virmos a evolução proposta para o caso de Ílhavo, constatamos que é uma variante bastante direta.

Algo como: Ilib => Ilibo => libo => lobo

Em Ílhavo, terra do litoral, ligada ao mar, terá evoluído para uma palavra com sonoridade próxima de algo conhecido, neste caso “ilha”. Já no interior, a evolução seguiu um outro significado, igualmente reconhecido pela população, neste outro caso “lobo”.

Temos portanto mais uma vez esta denominação associada a um local de romaria. No caso, uma romaria muito relevante mesmo atualmente. É na verdade um sinal bastante relevante para reforçar a hipótese que aqui defendo, mas mais uma vez poder-se-ia argumentar tratar-se de coincidência. Para lhe dar mais força era necessário encontrar outros “sinais” que a reforçassem.

A pesquisa que fiz foi baseada em três tipos de fonte:

- o que é possível observar através da aplicação Google Maps;

- em leituras encontradas na internet;

- na monografia de António Cabanas sobre o Vale da Senhora da Póvoa [5].

Seria muito importante fazer uma pesquisa no local, em busca de outros nomes que pudessem interessar, por exemplo nomes antigos de caminhos, fontes, rios, que pudessem derivar das mesmas origens antigas. Mas até ao momento tal não me foi possível.

Da pesquisa no Google Maps resultou desde logo uma constatação muito significativa. Junto ao Vale da Senhora da Póvoa, um pouco a norte, temos a localidade da Moita. Trata-se de uma associação idêntica à que encontramos em Vale de Ílhavo. Como expliquei nesse caso, esta associação não deve surpreender. Também aqui teríamos devoções ao deus da vida Baal e a Mot, o deus da morte. Considero curiosa uma referência que António Cabanas faz na sua monografia. Segundo ele, na Moita ainda se diz que a Senhora da Póvoa lhe pertencia outrora. À luz do que aqui proponho, haverá um fundo de verdade, mas algo distinto. Da mesma forma que o povo se deslocava a Vale de Lobo para prestar culto ao deus da vida, o mesmo povo iria à Moita, prestar culto ao deus da morte. Não sabemos que formas tinham estas devoções, mas como comentei, provavelmente seriam semelhantes às atuais romarias. Não seria de estranhar que houvesse símbolos de ambos os deuses nas duas romarias, pelo que poderia até suceder que esses símbolos passassem nesses momentos de comemoração de uma terra para a outra. O mito da luta entre ambos poderia ser teatralizado, no verão comemorando-se a vitória da vida e das colheitas e no inverno a vitória da morte, quando a vida parece ter sido interrompida [3].

Localizacao_Vale_da_Senhora_da_Povoa.JPGFigura 2 - Localização da aldeia e santuário do Vale da Senhora da Póvoa - antigo Vale de Lobo - e Moita (Google Maps)

Salientaria ainda por último um aspeto particularmente curioso. À luz da proposta que aqui defendo, é possível entender o sentido de uma quadra de significado misterioso do cancioneiro da Senhora da Póvoa (existe uma quadra semelhante na Senhora do Almortão). De acordo com a transcrição da monografia de António Cabanas, reza assim:

Nossa Senhora da Póvoa,
- Olhai o que diz o mundo!-
Que detrás do Vosso altar
Está um poço “de sem” fundo.

Qual a razão para se mencionar um “poço sem fundo”? Tanto quanto li nunca se conseguiu encontrar uma explicação satisfatória, quer na vertente religiosa como a nível de tradições locais.

Porém, no contexto que estou a propor, surge uma resposta bastante direta. O deus Mot é o senhor do mundo subterrâneo. De acordo com os relatos fenícios conhecidos, o seu trono é precisamente um poço profundo / sem fundo [3, página 81]. Não conheço o lugar da Moita, mas a ser esta hipótese correta, deveria haver um poço, ou uma mina, junto ao local de culto, que seria o lugar simbólico onde esse deus habitava e onde muito provavelmente lhe eram feitas ofertas. Note-se que à semelhança do Vale da Senhora da Póvoa, o local de culto poderia situar-se fora da localidade, por exemplo no Terreiro das Bruxas.

Como nota de curiosidade, acrescentaria que a quadra equivalente na Senhora do Almortão, em que se refere uma fonte, em vez de um poço, deverá ter sido uma adaptação desta, pois constata-se que os cancioneiros replicam os cantares uns dos outros, adaptando-os ao seu contexto.

 

Outros topónimos em Portugal denominados Vale de Lobo

A denominação Vale de Lobo, ao contrário de Vale de Ílhavo, leva-nos a supor, mesmo para quem não conheça bem o país, que poderá haver mais locais com este nome. Um dos que facilmente vem à ideia de um cidadão português é o do empreendimento turístico com esse mesmo nome no Algarve.

Mas quantos poderemos encontrar realmente?

Numa pesquisa feita mais uma vez nos registos de códigos postais dos CTT, encontram-se doze referências “Vale de Lobo” ou equivalentes (Lobos/Lobas), a que estão associados códigos postais, ou seja, são habitados. Poderá haver bastantes mais em locais inabitados.

Aproveitaria este ponto para apresentar mais uma breve reflexão. Na verdade, denominar uma terra de Vale de Lobo não é muito lógico. O ser humano ancestralmente tinha medo deste animal que respeitava. Mas esse medo era acentuado pelo fato de os lobos caçarem quase sempre em alcateia. Lobos solitários são raros. Se uma região fosse conhecida por nela haver lobos, teria decerto essa denominação no plural “Vale de Lobos”. Seria pois de esperar que houvesse mais terras com este nome no plural do que no singular. Porém não é isso que sucede. Na referida pesquisa encontram-se sete “Vale de Lobo” e quatro “Vale de Lobos/Lobas”. Mais uma vez, parte da explicação para esta situação estranha pode ter a ver com as razões expostas nesta análise.

A tabela 2 apresenta as doze referências “Vale de Lobo” identificadas a que se acrescenta Vale da Senhora da Póvoa que também teve esse nome e Vale de Ílhavo.

A figura 3 mostra as suas posições geográficas.

Localizacao_Vale_de_Lobo.jpg

Figura 3 - Posições das localidades Vale de Lobo correspondentes às referidas na Tabela 2

Tabela 2.jpg

Tabela 2 - Referências “Vale de Lobo” a que se acrescenta Vale da Senhora da Póvoa que também teve esse nome e Vale de Ílhavo.

Analisando a dispersão deste topónimo “Vale de Lobo” salientaria dois aspetos:

- O seu maior número em zonas relativamente perto do litoral ao longo de quase toda a costa; Este aspeto é relevante, pois um topónimo associado a “lobos” deveria ser mais relevante no interior, até porque antigamente haveria uma maior homogeneidade da distribuição das tribos pelo território não tão concentrada no litoral como nos tempos atuais;

- Uma maior concentração na zona de Aveiro, a qual de certa forma se parece ter expandido para o interior; Este aspeto é também interessante. Parece indicar que por alguma razão houve nesta região uma maior permeabilidade a estas influências e cultos. Poderia estar associado a uma ou mais tribos que ocupariam este espaço fazendo entre si trocas comerciais e partilhando influências culturais.

Mas importa neste ponto sobretudo aferir, se estes outros 12 topónimos ainda não comentados, poderão também mostrar formas de influência semelhantes a Vale de Ílhavo e Vale da Senhora da Póvoa / Vale de Lobo. A abordagem foi a mesma já atrás referida, tendo cada local sido classificado num fator que denominei “Probabilidade de origem fenícia”.

Atribui-lhe uma classificação de 1 a 5, com base num conjunto de critérios que explico no Anexo 1.

Em síntese o resultado encontra-se na tabela seguinte.

Tabela 3_Simplificada.JPG
Tabela 3 - Referências Vale de Lobo / Vale de Ílhavo com e de probabilidade da origem fenícia do topónimo

 

O que podemos constatar desta breve análise?

Dos catorze topónimos analisados, sete têm a classificação mínima, ou seja não se identificaram associações relacionadas com este âmbito de pesquisa. A maioria destes está em locais bastante isolados, onde poderá ter sido efetiva a associação a lobos. Mas poderão igualmente ser antigos locais de culto que foram posteriormente abandonados. Esta forma de análise suportada essencialmente por pesquisas na internet é pouco eficaz sobretudo em locais deste tipo, em que até podem existir referências interessantes apenas conhecidas dos habitantes, mas que não estão traduzidas em informação digitalizada.

Já no caso mais conhecido, associado ao empreendimento turístico junto a Almancil, o que temos é uma urbanização intensa que pode ter eliminado anteriores denominações.

Dos sete restantes, dois são os já abordados Vale de Ílhavo e Vale de Lobo / Vale da Senhora da Póvoa.

Temos portanto outros cinco locais em que se identificam relações que considero relevantes:

1            Vale do Lobo     São Pedro de Castelões - Aveiro

2            Vale do Lobo     Aguada de Cima - Aveiro

9            Vale das Lobas Pombal - Leiria

10          Vale de Lobos   Un. Freg. Almargem do Bispo, Pêro Pinheiro e Montelavar - Lisboa

12          Vale do Lobo     Un. Freg. São João do Monte e Mosteirinho - Viseu

 

Em síntese, dos 14 locais, encontramos mais cinco com boas probabilidades de estarem associados a evocações de Baal Ilib, ou seja, um total de sete.

Trata-se de uma correlação bastante forte, que muito dificilmente será fruto do acaso.

 

Conclusões

Em jeito de conclusão, a minha tese é pois a seguinte:

- Ao longo de vários séculos antes da era cristã, presumivelmente iniciando-se no século oitavo antes de cristo, os mercadores fenícios navegaram nas nossas costas, criaram em alguns casos entrepostos comerciais, estabeleceram acordos com os povos que habitavam o litoral da península ibérica, tendo chegado à latitude de Aveiro;

- A sua influência foi tão forte que esses povos absorveram a sua cultura, a sua língua e a sua religião, efeito esse que se projetou gradualmente para o interior do país, na adoção de nomes de terras e de ritos religiosos;

- Por razões que desconhecemos, mas porventura relacionadas com a estrutura de tribos da época, as influências relativas ao culto religioso em torno dos deuses Baal e Ilib foram particularmente significativas na região de Aveiro / Coimbra tendo-se prolongado pela beira interior;

- A influência da língua terá sido bastante ampla, sendo utilizada possivelmente como língua franca em algumas das tribos que habitavam o território. A esse propósito veja-se uma breve referência no Anexo 2.

- As devoções em particular aos deuses Baal, Mot e Ilib, levaram à criação de fenómenos religiosos de devoção, através de celebrações partilhadas entre os diversos povos, na forma de romarias, celebrações essas tão enraizadas nas tradições que ao longo dos séculos sobreviveram nos gestos essenciais, adaptando-se ao longo dos tempos às influências das diversas “religiões oficiais” que as envolveram.

- Esta análise focou-se em Baal Ilib – topónimos “Vale de Lobo” e suas variantes. Em Portugal há uma muito grande quantidade de outros topónimos que simplesmente se denominavam “Vale”, ou que estão associados a outras referências mas que não são explicados pela orografia do terreno, como mostrei na estatística geral. Poderá haver aqui outras hipóteses de estudo neste mesmo âmbito de influências fenícias.

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Anexo 1 – Critérios e forma de classificação da probabilidade de origem fenícia do topónimo

Tiveram-se em conta os seguintes critérios:

- Caso junto a esse local existam um ou mais topónimos que poderão também ter essa origem:

- Um ponto adicional se for identificado um;

- Dois pontos adicionais se for identificado mais do que um;

- Caso junto a esse local exista um espaço de culto tradicional relevante:

- Um ponto adicional se for uma festa anual tradicional simples;

- Dois pontos adicionais se for uma romaria com muito significado regional.

O resultado desta análise é apresentado na tabela seguinte.

Tabela 3.jpg

Tabela A.1 - Referências Vale de Lobo / Vale de Ílhavo com análise de probabilidade da origem fenícia do topónimo

 

 

1 - Vale do Lobo - São Pedro de Castelões, Vale

1 - Vale do Lobo - São Pedro de Castelões - Vale de Cambra      Aveiro

 

2 - Vale de Lobo - Aguada de Cima.jpg

2 - Vale do Lobo - Aguada de Cima         - Águeda - Aveiro

 

3 - Vale do Lobo - Préstimo - Águeda.jpg

3 - Vale do Lobo - União das freguesias do Préstimo e Macieira de Alcoba – Águeda - Aveiro

 

4 - Vale de Lobos - Castelo de Paiva Aveiro.jpg

4 - Vale de Lobos – Real - Castelo de Paiva - Aveiro

 

5 - Vale de Lobo - Cedaes - Mirandela - Braganca.j

5 - Vale de Lobo - Cedães – Mirandela - Bragança

 

6 - Vale de Lobo - Poiares - Coimbra.jpg

6 - Vale do Lobo - Poiares (Santo André) - Vila Nova de Poiares - Coimbra

 

7 - Vale de Lobo - Marmelete - Monchique - Faro.jp

7 - Vale de Lobo             - Marmelete – Monchique - Faro

 

8 - Vale de Lobo - Almancil - Loule.jpg

8 - Vale de Lobo             - Almancil – Loulé - Faro

 

9 - Vale das Lobas - Pombal.jpg

9 – Vale (Olival) das Lobas – Pombal – Pombal - Leiria

 

10 - Vale de Lobo - Almargem do Bispo - mais ampli

10 - Vale de Lobo - Almargem do Bispo.jpg

10 - Vale de Lobos - União das freguesias de Almargem do Bispo, Pêro Pinheiro e Montelavar – Sintra - Lisboa

 

11 - Vale de Lobos - Sabacheira - Tomar V2.JPG

11 - Vale de Lobos – Sabacheira – Tomar - Santarém

 

12 - Vale de Lobo - Sao Joao do Monte - Tondela V2

12 - Vale do Lobo - União das freguesias de São João do Monte e Mosteirinho – Tondela - Viseu

 

Localizacao_Vale_da_Senhora_da_Povoa.JPG

13 - Vale de Lobo (Senhora da Póvoa) - Vale da Senhora da Póvoa – Penamacor - Castelo Branco

 

Posicionamento geografico Vale de Ilhavo.JPG

14 - Vale de Ílhavo - Vale de Ílhavo – Ílhavo - Aveiro

 

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Anexo 2 - Breves referências ao uso da língua fenícia no período romano

Em [1], página 148 por exemplo, Moisés Espírito Santo mostra como algumas aras votivas do tempo dos romanos, gravadas em caracteres latinos, transcreviam palavras que não eram latim, mas sim o fenício. Considero particularmente interessante a explicação para os diversos deuses “Banda” - por exemplo “BANDI ISIBRAIE”, “BANDOGA”, “BANDI OLIENAICO”, que segundo este autor, não são mais do que variantes de dedicatória em que o termo “BAND” corresponde a algo como “Para o” (dedicado a). Ou seja, os autóctones podiam obedecer aos romanos, mas não falavam latim.

Esta situação em que uma língua passa a ser foneticamente transcrita nos carateres originários de outra língua não é caso único. Por exemplo na península ibérica, nos séculos XIV e XV, surgiu o aljamiado, uma forma literária em que a língua era a castelhana, mas escrita em caracteres árabes – veja-se por exemplo [7], página 302.

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Referências e bibliografia

[1] Espírito Santo, Moisés - Fontes remotas da cultura portuguesa, Assírio e Alvim, 1989

[2] Espírito Santo, Moisés - Origens orientais da religião popular portuguesa, Assírio e Alvim, 1988

[3] Cassuto, U. (1962). "Baal and Mot in the Ugaritic Texts". Israel Exploration Journal. 12 (2): 81-83) (acessível via Jstor)

[4] Toorn, Karel van der, Becking, Bob, Horst, Pieter Willem van der - Dictionary of Deities and Demons in the Bible

[5] Cabanas, António - Vale da Senhora da Póvoa e a sua romaria – Edição do autor, 2016

[6] Carvalho, António Maria Romeiro – Toponímia do Concelho de Idanha a Nova – Edição do autor – 2017

[7] Rucquoi, Adeline - História medieval da península ibérica, Editorial Estampa, 1995

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Possíveis origens fenícias de topónimos do nosso território

Segunda parte – Ílhavo / Vale de Ílhavo

por Lourenço Proença de Moura, em 02.10.20

IMG_3645.JPGCapela da Ermida - Vale de Ílhavo - LMCPM 2020

Introdução

Na publicação anterior expliquei que, de acordo com estudos feitos por alguns investigadores como Moisés Espírito Santo, se constata que neste nosso território terá havido significativas influências de culturas do próximo oriente, muito possivelmente trazidas por comerciantes fenícios. Mostrei em particular como a dispersão no nosso país do topónimo “Vale” parece desafiar a lógica da orografia, pelo que terá havido outras razões para o mesmo ser adotado.

Agora vou apresentar uma análise que fiz de um caso geograficamente próximo de Aveiro, local onde moro. Nesta análise tento mostrar como o topónimo Ílhavo, ou mais especificamente Vale de Ílhavo pode ter origens fenícias.

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Vale de Ílhavo é uma localidade próxima de Ílhavo, junto a Aveiro, cidade onde resido. Esta reflexão começou um pouco por acaso, ao fazer um passeio de fim-de-semana, pois havia lá uma festa em celebração das tradicionais “Padeiras de Vale de Ílhavo”.

Sucede que esta simpática terra não está propriamente num vale e essa característica ficava bem à vista ao fazer o percurso. Toda esta região tem colinas suaves e nada mais. Não seria muito natural nomear por Vale uma terra assim.

Veio-me nessa altura à memória a hipótese de Moisés Espírito Santo, de o nome poder estar associado a um lugar de culto antigo ao deus fenício Baal.

Fiz nessa sequência uma pesquisa sobre as várias invocações de outros deuses do panteão fenício cuja sonoridade vocal fosse próxima de Ílhavo, tendo como base a grafia mais antiga conhecida, que será do ano 1047 da nossa era, em que surge como "Iliavo" [1] [5].

Identifiquei então o que seria um dos deuses com invocações mais relevantes e que poderá responder à nossa questão. Ilib, deus dos antepassados (Veja-se o anexo 1 em que se faz uma muito breve descrição de alguns dos mais relevantes deuses fenícios). Há documentos da época que mostram ser dos que recebiam mais oferendas dos fiéis [8]. Segundo informação recebida do Dr. Moisés Espírito Santo, podemos entendê-lo como deus da ordem, da boa vizinhança, da família, da fecundidade.

A proximidade fonética com “Ilib” e a sua evolução parecem diretas. Nesta última transição terá ocorrido por aproximação à palavra “Ilha”, tão familiar a estas gentes que do mar tiram o seu sustento.

Algo como: Ilib => Ilibo /Ilivo => Iliavo /Ílhavo

Mas naturalmente pode tratar-se de um curioso acaso. Teria pois que procurar algo mais para consolidar a hipótese.

Note-se que “Baal” e “Ilib” eram deuses distintos. O panteão fenício tinha muitos deuses, não sendo de espantar que os cultos fossem com frequência feitos em conjunto, como hoje também sucede. Apenas como exemplo, a conhecida romaria da Senhora do Almortão, na Beira Baixa, tem um dia dedicado à Senhora Virgem Maria e um outro dedicado a São Romão.

Em qualquer caso, esta hipótese tem implícito um ou mais lugares de culto.

Sucede que os fenícios faziam o seu culto sobretudo em lugares elevados, ou então junto a nascentes de rios, junto a rios ou junto ao mar [2]. Em Vale de Ílhavo propriamente dito não é visível nenhum local desse tipo. Mas bastante perto, num ponto relativamente elevado, temos a Capela da Ermida, junto a uma propriedade murada com casario antigo, conhecido por Paço da Ermida.

IMG_3648.JPGFigura 2 - Capela da Ermida e Paço da Ermida - LMCPM 2020

A Ermida, é referida nas informações paroquiais de 1721 e 1758. Estes e outros detalhes podem ser vistos no excelente blogue Património Religioso de Ílhavo, da autoria de Hugo Cálão [4]. Saliento duas referências:

 - Nas informações de 1721 a Capela da Ermida é referida como sendo do povo, ou seja não pertencia a nenhum senhorio nobre ou clerical;

- Nas informações de 1758 é referido que junto à Ermida ficam “as nobres casas do Senhorio do Prazo”. Ou seja, Senhorio do Prazo, ou Quinta do Prazo, é outra denominação antiga do Paço.

Sucede que este termo "Prazo" é muito relevante quando se procuram topónimos fenícios. Deriva de uma forma praticamente direta de "perazu" (que terá dado nome a muitos outros lugares em Portugal denominados por exemplo ”Paraíso” e "Prazo") [2]. Significa "lugar da convocação dos acordos". De acordo com esta interpretação, os povos que habitavam esta região renovavam os acordos entre si e com os comerciantes da longínqua fenícia e neste caso fariam rituais religiosos a “Baal Ilib” (ou a “Baal” e a “Ilib”), numa forma possivelmente próxima ao que atualmente denominamos romarias. No blogue referido podem-se observar fotografias muito interessantes dessa capela e de romeiros da década de 1950. Não consegui encontrar referências sobre a antiguidade desta romaria. A ser correta a minha interpretação, seria muitíssimo antiga.

Ao longo dos séculos as tradições e os cultos enraízam-se nas comunidades. Evoluem e adaptam-se às “religiões oficiais” mas em muitos casos mantêm a sua essência numa interpretação popular de religiosidade e hábitos que passam de geração em geração. A Ermida manteve-se do povo, fazendo parte da sua identidade, com ritos que de acordo com esta hipótese remontariam há mais de dois mil e quinhentos anos atrás.

Mas identifiquei mais alguns topónimos de grande interesse neste contexto,.

Bastante perto, ligeiramente a poente de vale de Ílhavo, encontramos “Moitas”.

Esta denominação e outras semelhantes, tais como Moita e Mota, podem derivar de Mot (“mout”), deus da morte, rival de Baal.

Saliento a relevância da sua proximidade ao espaço que estaria dedicado a Baal. Não sendo conhecidos detalhes dos ritos a estes deuses, conhecem-se contudo bastante bem os poderes que lhes eram atribuídos e os mitos. Entre Baal e Mot ocorria uma luta eterna. Ambos eram importantes e complementares. Dos seus ciclos de luta anuais dependia a vida no mundo. A associação ao ciclo das estações e daí às colheitas, surge de forma intuitiva, se bem que nos textos conhecidos tal associação não esteja explícita [10].

Nos locais a que estava associado Mot, havia também rituais de enterramento, ou seja cemitérios [2].

Por último realçaria mais um topónimo extremamente interessante pela sua sonoridade peculiar:

- Boco (Rio Boco); Este termo tem como um dos seus significados “oferenda”[9]. Poderia simplesmente ter ganho o nome por estar junto ao espaço de culto onde haveria oferendas aos deuses. Ou poderia mesmo haver algum ritual de oferendas na margem, ou na foz. Note-se que o Rio Boco, naquela época desaguava diretamente no mar como mais adiante explicarei.

Posicionamento geografico Vale de Ilhavo.JPGFigura 3 - Alguns topónimos na zona de Vale de Ílhavo (Google Maps)

Penso ser de interesse ter em conta que esta região passou por grandes mudanças em particular no último milénio decorrente da deposição de areias e assoreamento. No período a que reporta esta análise, não havia praticamente nenhum cordão dunar. O rio Boco desaguava diretamente no mar. A Figura seguinte mostra essa evolução. Note-se que a identificação de localidades atuais não significa que já houvesse ocupação humana na altura, mas apenas pretende ajudar a situar os contornos da costa. No anexo 2 explica-se como se elaborou este mapa.

Localizacao_Vale_Ilhavo_ha_2500_anos.JPGFigura 4 – Como seria o litoral deste espaço geográfico na época analisada

Em jeito de conclusão

Em síntese, a opção que aqui coloco remete a origem do nome Ílhavo, ou mais precisamente Vale de Ílhavo, para uma invocação de dois deuses fenícios, Baal e Ilib, que seriam objeto de adoração no Prazo, local onde em romaria os povos desta região se encontravam, manifestavam a sua fé e estabeleciam acordos entre si e com os fenícios.

Como Senos da Fonseca refere [5], na época em que situo o início deste culto, quase não haveria população residente fixa nestes locais. Na minha perspetiva, eram sobretudo pontos de encontro para as celebrações. Mas à medida que as gentes se foram fixando, nessa altura adotaram esses nomes, Vale de Ílhavo e Ílhavo.

Esta hipótese tem algumas “consequências” curiosas:

- Seria de certa forma Vale de Ílhavo que daria o nome a Ílhavo e não o inverso;

- Poderia a tradição das padeiras ter origens tão remotas como as aqui referidas, em que nessa época de culto preparariam o bodo que constituiria a renovação ritual dos acordos estabelecidos.

 

Por último…

Por último, deixaria aqui uma pergunta que fiz a mim mesmo quando cheguei a este ponto da pesquisa:

Mas se estes deuses eram tão relevantes e se o impacto dos fenícios foi significativo nos povos deste espaço que hoje é Portugal, por que razão não temos mais “Vales de Ílhavo” ou topónimos de sonoridade semelhante?

Pensei um pouco e… penso que encontrei uma resposta, curiosamente perto da minha terra natal, Caria. E depois outras respostas…

É o que irei explicar na próxima publicação.

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Anexo 1 – Algumas referências sobre o panteão de deuses fenícios

Os fenícios não constituíam uma nação no sentido atual do termo. Nem sequer há evidências de que a si mesmos assim se denominassem. Organizavam-se em cidades com gestão autónoma e cada cidade possuía o seu referencial religioso. Naturalmente havia similaridades entre elas, mas não havia um panteão de deuses único. O que se apresenta é a descrição de acordo com os textos de Ugarit  [3] [10]. Desconhecia-se a localização desta cidade até que em 1928 um camponês descobriu uma tumba por acaso. Seguiram-se trabalhos arqueológicos, que encontraram várias bibliotecas de “tábuas de argila”, escritas em diversas línguas e formas de escrita (ex: cuneiforme, hieróglifos). Estes achados foram extraordinariamente relevantes e permitiram termos atualmente uma perspetiva bastante razoável de muitos aspetos da vida dos povos que habitavam e comerciavam nesta região e época (cerca de 1200 AC), tais como os mitos, atos sociais e religião [6] [7].

 

Ilib – o deus dos antepassados; surge em primeiro lugar em listas de deuses, presumindo-se a sua importância. São conhecidas descrições de oferendas a deuses em que as melhores são atribuídas a este deus

EL.jpgEl  - Oriental Institute Museum, University of Chicago, Chicago, Illinois, USA - (Wikipedia)

El – O progenitor dos outros deuses à exceção de Baal; denominado “o criador das criaturas”; se bem que venerado, não surge como ator nos mitos; tem Échira (Ashirah) como esposa

Echira.jpgÉchira – Detalhe de caixa de marfim encontrada em Ugarit – Museu do Louvre - (Britannica)

Échira (em inglês Ashirah) – progenitora com El dos restantes deuses (cerca de 70); deusa da fertilidade; representada como uma árvore (ou figura feminina que simboliza a árvore)

Dagan (ou Dagon) – Deus das boas colheitas dos cereais. Inventor do arado.

Baal.jpgBaal representado com chifres e segurando um raio - Estela encontrada em Ugarit - Wikipedia

Baal – Deus das tempestades; “O que cavalga as nuvens”; Senhor da terra, é o que assegura a sua fertilidade; de acordo com um dos mitos torna-se rei dos deuses depois de derrotar Yam; de acordo com outro mito é derrotado por Mout, deus da morte, mas após ter a ajuda de Anat, sua consorte, renasce e vence Mout; Baal assume-se como o deus mais popular e devocionado

Anat – Esposa de Baal; deusa do amor e da guerra; denominada de “virgem”

Mout – Deus da morte e da seca; Vive nas profundezas da terra; Vence e mata Baal, mas este retorna à vida e consegue derrotá-lo

Yam – Deus do caos e do mar; desafia Baal para se tornar rei dos deuses, mas perde o combate depois de numa primeira fase estar a vencer;

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Anexo 2 – Como se elaborou o mapa da Figura 4

Teve-se como base a representação da esquerda, da figura seguinte, publicada na obra Geografia de Portugal, de Amorim Girão (1941)

Localizacao_geografica_ha_2500_anos.jpgFigura A2.1 – Evolução da costa na zona de Aveiro

Detalhou-se de seguida a península em que se situa esta análise tendo como base a representação usada na obra Ílhavo – Ensaio monográfico – século X ao século XX, de Senos da Fonseca, mostrada na figura seguinte.

Recorte da costa Ilhavo antes da laguna.pngFigura A2.2 – Recorte da costa na zona de Ílhavo antes da formação da laguna

Por último, sobrepôs-se um esquema de posicionamento relativo das localidades referidas, tendo como base o Google Maps.

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Referências

[1] Ferreira, Delfim Bismark - As Terras de Vouga nos Séculos IX a XIV - Território e Nobreza

[2] Espírito Santo, Moisés - Origens orientais da religião popular portuguesa, Assírio e Alvim, 1988

[3] Cassuto, U. (1962). "Baal and Mot in the Ugaritic Texts". Israel Exploration Journal. 12 (2): 81-83 (acessível via Jstor)

[4] Cálão, Hugo - Património Religioso de Ílhavo

[5] Fonseca, Senos da – Ílhavo - Ensaio monográfico – século X ao século XX

[6] Ugarit – Wikipedia

 

[7] Enciclopédia Britanicca / internet

[8] Toorn, Karel van der, Becking, Bob, Horst, Pieter Willem van der - Dictionary of Deities and Demons in the Bible

[9] Espírito Santo, Moisés – Dicionário Fenício – Português – Universidade Nova de Lisboa – 2ª edição

[10] Tsumura, David Toshio - Canaan, Canaanites in Bill T. Arnold & Hugh G. M. Williamson (eds), Dictionary of the Old Testament: The Historical Books. Leicester: InterVarsity Press, 2005.

[11] Girão, Amorim - Geografia de Portugal (1941)

 

 

 

 

 

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Possíveis origens fenícias de topónimos do nosso território

Primeira parte – Por montes e vales, ou talvez não…

por Lourenço Proença de Moura, em 02.10.20

Vista_panoramica_Torre_igreja_Caria_1991.jpg

Panorâmica tirada da torre da igreja de Caria – justaposição de fotografias
Na linha do horizonte, sobre a esquerda, a Serra da Estrela, antigos Montes Hermínios. Sobre a direita, a Serra de Nossa Senhora da Esperança, antigos Montes Crestados [3], vislumbrando-se por trás, sobre o lado direito a vila de Belmonte
LMCPM - 1991

Introdução

Passaram já bastantes anos, desde que numa feira do livro comprei pela primeira vez um livro do Dr. Moisés Espírito Santo. No caso denominava-se Origens orientais da religião popular portuguesa seguido de Ensaio sobre toponímia antiga. O autor descreve de forma bastante detalhada, como muitas tradições populares de cariz religioso, ainda hoje praticadas e enquadradas em cerimoniais da religião católica, apesar de conterem características a ela estranhas, seguem padrões comuns e têm fortes semelhanças com ritos ancestrais vindos do próximo oriente. De forma complementar, explica como muitos topónimos do nosso território surgem de forma agregada, tendo possíveis significados que ganham lógica entendidos também à luz dessa hipotética origem.

Como esses efeitos tão fortes e de origem tão distante aqui chegaram, parece bastante anormal à primeira vista, mas se percebermos o processo histórico, vemos que houve um período de tempo em que tudo se conjugou para que os comerciantes fenícios tenham aqui estabelecido pontos de contacto e conseguido influenciar de forma significativa os povos que aqui habitavam.

Para entender melhor a minha argumentação sobre a forte influência que a cultura fenícia terá tido neste nosso território, sugeria a leitura do Anexo - 1 desta publicação que faz um breve enquadramento histórico-geográfico.

Já há muitos anos que deixei de ser criança, mas desde que "me lembro de ser gente", guardo na memória alguns momentos marcantes em que por razões diversas senti que se “fez luz” de algo que considerei relevante a nível da “compreensão das coisas”. A leitura do livro que referi foi para mim um momento desse tipo, abrindo-me novas janelas para ajudar a compreender este nosso espaço e povo.

Após esse livro adquiri outros do mesmo autor e com base nestas leituras tenho feito análises diversas, por mera curiosidade.

Sucede que, no início de 2019, num passeio casual de fim-de-semana nas imediações de Aveiro (adiante explicarei onde), de forma algo inconsciente surgiu-me uma interrogação, no contexto das referidas leituras, sobre o nome da localidade que estava a visitar. Poderia ter origem fenícia?

Analisei a situação com algum cuidado e fiquei entusiasmado com o resultado. Publiquei mesmo algumas das principais “descobertas” em Maio, no Diário de Aveiro. 

Porém, passado algum tempo mais, surgiu-me uma nova dúvida, que poderei resumir da seguinte forma:

Se na verdade a minha interpretação estava correta e as influências fenícias fossem tão grandes, por que razão em Portugal apenas temos uma terra com o nome em causa?

A dúvida curiosamente demorou poucos dias a encontrar uma resposta. Por uma daquelas coincidências do destino, uma primeira resposta relacionava-se com uma localidade bem perto da minha terra natal, Caria. E a seguir a esta, outras com nomes semelhantes, um pouco por todo o país.

Estas constatações são certamente controversas, pois tanto quanto sei, até ao momento não há provas seguras, sobretudo arqueológicas, de que tenham feito comércio a norte do Tejo. Porém, a confirmarem-se as suposições que aqui coloco, tal realmente aconteceu.

Ficou com curiosidade em conferir estas constatações e suposições?

Venha então comigo nesta viagem…

A localidade junto a Aveiro onde identifiquei topónimos e características que indiciam uma ancestralidade fenícia, denomina-se Vale de Ílhavo.

IMG_3656.JPG

Na próxima publicação relatarei o que encontrei.

Até lá, sugeria a leitura da secção seguinte, que justifica a razão do título desta publicação.

 

Análise à dispersão dos topónimos Vale no atual território de Portugal

O estudo feito tem como ponto de partida uma das dúvidas básicas que o Dr. Moisés Espírito Santo exprime, relativa a topónimos iniciados por “Vale”. Segundo ele, alguns destes poderão ter derivado do teónimo “Baal”, um dos deuses mais venerados do panteão fenício.

A transposição fonética de Baal para Vale é direta.

Esta análise foi feita de uma forma bastante simples, mas que me pareceu esclarecedora. Teve como base a aplicação informática que os CTT disponibilizam na internéte (www.ctt.pt), no caso a pesquisa de códigos postais, acessível ao público.

Fazendo uma pesquisa por distrito, encontramos a seguinte quantidade de topónimos que contêm a dita palavra “Vale” (ex: “Vale”, “Vales”, Quinta do Vale", “Vale de Cambra”).

O leitor pode fazer a pesquisa básica, bastando selecionar o distrito e escrever “*Vale*” (acrescentar um asterisco no início e outro no fim da palavra “Vale”). Saliento que os valores que irá obter serão em princípio ligeiramente diferentes pois terão por exemplo de retirar localidades que correspondem a coincidências de escrita. Exemplo: Macedo de Cavaleiros. A análise que fiz apenas manteve as localidades em que a tónica estivesse na sílaba “Va”.

Quantidade de localidades “Vale” por distrito, por ordem decrescente:

Santarém - 161
Leiria - 141
Coimbra - 132
Castelo Branco - 125
Faro - 115
Beja - 64
Aveiro - 60
Viseu - 54
Setúbal - 52
Lisboa - 45
Portalegre - 30
Bragança - 29
Vila Real - 26
Guarda - 25
Évora - 18
Braga - 9
Viana do Castelo - 6
Porto - 1

Penso que o leitor já constatou algumas curiosidades nestes números, tais como:

Alguns distritos com muitos "Vale" não são claramente dos mais montanhosos. Exemplos: Beja e Santarém, sendo este mesmo o que maior quantidade apresenta.

Pelo contrário, alguns distritos com muito poucos "Vale" terão decerto muitos vales. Exemplos: Bragança, Vila Real, Guarda, Braga e Viana do Castelo.

Penso ser suficiente esta análise para concluir que para lá da orografia, outros fatores terão tido muita relevância na adoção deste topónimo.

 

Anexo 1 – Breve enquadramento histórico-geográfico

O mar mediterrâneo, pelas suas características originais de mar fechado, numa zona temperada, rodeando terras de três continentes tornou-se desde os primeiros tempos um ponto de atração das tribos humanas. Dele retiravam alimento, mas também cedo terão descoberto formas de utilizar esse mar como passagem entre as diversas terras. O engenho humano potenciado pela riqueza resultante da troca de experiências dos povos, resultou em sucessivos aperfeiçoamentos aos mais diversos níveis, técnicos, sociais, etc. O comércio terá ocorrido de forma natural, inicialmente com base em trocas, tudo isto tornando possível o nascimento e desenvolvimento precoces de grandes civilizações. Como sempre sucedeu ao longo da história da humanidade, as épocas de maior progresso ocorreram e tornaram-se mais impressionantes quando os vários povos partilharam ideias, conhecimentos, bens.

A civilização egípcia será a que tem uma história melhor conhecida, mas outras houve também bastante desenvolvidas como a Minóica que terá decorrido entre os séculos XX e XV AC [2].

Estas primeiras grandes civilizações contudo terão influenciado muito pouco os povos que habitavam no espaço em que hoje está Portugal, dada a nossa posição exterior a esse mar inter-terras. Tal situação porém mudou, por volta do que seria o século VIII AC. Na verdade, por essa altura, o povo fenício, que tinha criado no mediterrâneo uma rede comercial bastante dinâmica, sustentada em técnicas de navegação bem consolidadas, ousou ultrapassar aquelas águas relativamente seguras, passando pelas colunas de Hércules / estreito de Gibraltar aventurando-se no bem mais perigoso Atlântico.

Rotas_Fenicias_Map of Phoenicia and its trade rout

Rotas comerciais fenícias [4]

Estas trocas comerciais terão durado vários séculos [2]. Para lá dos bens comerciados muitas outras influências tiveram nesta região, como sejam religiosas e sociais. Neste espaço habitavam várias tribos, vivendo da pastorícia, de alguma agricultura e naturalmente da caça e pesca. O impacto terá sido muito grande, por razões fáceis de entender. A cultura dos povos autóctones era pouco evoluída, a nível de tecnologias, formas sociais, etc. Teriam de passar mais de seis séculos até surgir o império romano e com ele chegar uma nova e grande vaga de conhecimentos técnicos e organização social. Por essa razão é de supor que muitas marcas terão sido aqui deixadas, não apenas físicas, mas também a nível da oralidade, em vocábulos e topónimos, ou de tradições que poderão ter perdurado no tempo se bem que com inevitáveis adaptações.

Os fenícios atribuíam valor a alguns bens que podiam ser recolhidos no nosso território, como por exemplo prata, ouro e sal. Trocavam-nos por bens aqui muito valorizados como cerâmicas, armas, cereais. Criaram entrepostos comerciais. Tinham uma abordagem pacífica pois tal era essencial ao comércio e estabeleciam contratos sociais [1]. Traziam uma tremenda inovação, o uso da escrita, suportada num alfabeto. A sua língua terá passado a ser usada como “língua franca” unificadora do que seriam os vários dialetos tribais, como hoje por exemplo é usado o inglês. Os seus cultos religiosos seriam com toda a probabilidade adotados ou miscigenados com os deuses autóctones, pois vinham de um povo que claramente tinha uma capacidade superior. Barcos impressionantes, armas temíveis. Este povo era decerto tão poderoso pois poderosos seriam também os seus deuses!

Estas influências terão sido consolidadas nas tribos contactadas, que as transportaram nas suas zonas de influência, as quais, como veremos se terão estendido até bem dentro do nosso atual território.

Referências

[1] Espírito Santo, Moisés - Fontes remotas da cultura portuguesa, Assírio e Alvim, 1989

[2] Chaniotis, Angelos - Ancient Crete - Oxford Bibliographies - (https://www.oxfordbibliographies.com/view/document/obo-9780195389661/obo-9780195389661-0071.xml) consultado em 13/5/2020

[3] Concelho de Belmonte Memória e História – Manuel Marques – Edição da Câmara Municipal de Belmonte – 2001

[4] Khan Academy - https://www.khanacademy.org/humanities/whp-origins/era-3-cities-societies-and-empires-6000-bce-to-700-c-e/32-long-distance-trade-betaa/a/read-phoenicians-masters-of-the-sea-beta

 

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