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Escarigo_Largo_Dom_Dinis_GoogleMaps.JPG

Escarigo - Largo Dom Dinis
Imagem recolhida através de Google Maps / Street View

Na publicação anterior mostrei que na região onde vivo, Esgueira / Aveiro, existem vários topónimos que podem ter origem fenícia. Tal sucede mesmo para “Esgueira” que pode ser uma evolução do termo fenício “iskaru”, que significa "tarefa / material de trabalho", pelo que a sua atribuição corresponderia a denominá-la como “terra de trabalho”, neste caso possivelmente relacionada com uma intensa atividade de chegada e partida de bens através do seu porto.

Terminei referindo que “iskaru” provavelmente deu origem a outros topónimos no nosso território, um deles muito perto da minha terra natal, Caria, no concelho de Belmonte. Quem da minha região tenha lido o que escrevi, terá porventura identificado a terra a que me referia: Escarigo. Na verdade a correspondência fonética com "iskaru" é quase direta.

Escarigo fica no concelho do Fundão e é uma localidade bastante próxima de Caria, a cerca de 8Km na direção sudeste. Para quem não conheça a região, esclareço que faz parte dos denominados “Três Povos”, três localidades muito próximas (Escarigo, Quintãs e Salgueiro) com quem naturalmente partilha afinidades.

Como vos irei mostrar, também aqui identificamos boas razões para assumir que a origem do nome poderá ser a que proponho. Note-se no mapa da imagem seguinte [1] que Vale da Senhora da Póvoa (antigo “Vale de Lobo”) referido em publicação anterior sobre este mesmo tema, fica muito próximo.

Caria_Escarigo.JPG

Figura 2 - A localização de Escarigo, concelho do Fundão

Salgueiro_Quintans_Escarigo.JPG

Figura 3 - Os Três Povos

Se ampliarmos este espaço dos Três Povos, podemos observar no caso das Quintãs o que se visualiza na Figura 4.

Quintans.JPG

Figura 4 - Quintãs

Nas Quintãs, a Rua das Cortes. Cortes, pode derivar do fenício “krt” (corte) [2], com o significado de cortar, mas que era também associado a estabelecimento de acordos / alianças. É um termo que equivale a “perazu”, que referi em publicações anteriores como originando topónimos atuais “paraíso” ou “prazo”. Situaria locais em que os povos se encontravam para renovar os acordos entre si, provavelmente em refeições comunitárias e com eventos religiosos que teriam um formato semelhante às nossas atuais romarias.

Se continuarmos pela estrada para sudoeste, encontramos “Salgueiro”.

Salgueiro.JPG

Figura 5 - Salgueiro

Aqui surge-nos o já conhecido binómio Baal-Mout (deus da vida - deus da morte), na forma “Vale” e “Moita”. Temos uma “Rua da Fonte da Moita”, mas encontramos mesmo uma Rua Vale da Moita! Neste caso a proximidade dos espaços é ainda maior do que no Vale da Senhora da Póvoa (Vale de Lobo).

Mas a pesquisa reservou-nos uma descoberta ainda mais interessante.

Se continuarmos pela mesma estrada, mesmo à saída do Salgueiro, encontramos a “Quinta da Caneca”.

Quinta_da_Caneca.JPG

Figura 6 - Quinta da Caneca

O que tem este topónimo de particular?

De acordo com o dicionário de Fenício Português [2], "kanekany" significa sepultura. Sucede que… na Quinta da Caneca, trabalhos arqueológicos identificaram precisamente vestígios de um mausoléu da época romana, após um achado casual feito por um agricultor em 1973 [3].

Tal explica bastante bem o topónimo, mas também algo que o Dr. Moisés Espírito Santo defende: Os romanos dominavam e falavam latim, mas o mesmo não acontecia com o povo. O povo utilizaria termos fenícios como “língua franca”, a par com os dialetos tribais.

Ou seja, neste caso...

... os romanos fizeram um “sepulcrum”, que parecia mesmo um “canecani”…

:-)

 

Outros topónimos que podem ter a mesma origem

De forma semelhante ao que foi apresentado numa publicação anterior, do levantamento de topónimos que podem ter derivado de “Baal Ilib” como por exemplo “Vale de Lobo”, irei mostrar agora os resultados da pesquisa para este caso – topónimos que podem ter derivado de “iskaru”.

No anexo a esta publicação exponho os detalhes desta pesquisa para quem tenha curiosidade.

O resumo do resultado pode ser visto na tabela seguinte.

Tabela_1.JPG

Tabela 1 - Localidades com possível origem na palavra "iskaru"

Podemos ver a dispersão geográfica no mapa seguinte.

Posicoes toponimos com possivel origem Iskaru.jpg

Figura 7 - Dispersão geográfica das localidades

A dispersão geográfica é curiosa. Tem algumas semelhanças com a dispersão do topónimo “Godinho” / “Godim” que abordei na publicação “O famoso Godinho”, ao centrar-se na zona norte do território. Mas por outro lado a penetração na beira interior, tem semelhanças ao que se constatou na análise aos topónimos “Vale de Lobo” (Baal Ilib).

Para lá dos topónimos Esgueira (Aveiro) e Escarigo (Fundão) que mostraram uma envolvente bastante rica de outros locais com boa possibilidade de origem fenícia, encontramos um outro – na verdade dois – São Mamede e São Martinho de Escariz, com um enquadramento semelhante.

Por outro lado, Escariz de Arouca, Escariz de São Pedro de Agostem ficam com uma classificação intermédia. Têm ambas um razoável indício de relacionamento.

Escariz de Adoufe e Pescaria de Famalicão têm poucas evidências de topónimos próximos neste âmbito. Em Escarigo de Figueira Castelo Rodrigo não se identificou nenhum. Sublinhe-se contudo que nestes locais a informação disponibilizada pelo Google Maps é muito escassa o que naturalmente pode “esconder” informação com interesse.

Em conclusão, diria que o conjunto revela um padrão que dificilmente pode ser fruto do acaso.

O topónimo “Quinta da Caneca” é particularmente relevante nesta vertente.

Forme o leitor a sua própria avaliação.

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Anexo – Outras localidades em Portugal cujo nome poderá ter a mesma origem

Com base na informação disponibilizada pelos CTT [4] foi feita uma pesquisa de topónimos com uma estrutura fonética que pudesse da forma mais direta possível derivar de “iskaru”, assumindo que “Esgueira” e “Escarigo” sejam situações deste tipo.

Pesquisaram-se topónimos que pudessem ser ainda mais diretos iniciados por “i”.

Iniciar por “Isg” ou “Iscar”. Não se identificou nenhum topónimo.

Iniciar por “Esgue”, “Esga” ou “Escar”. Surgiram outros “Escarigo” e ainda “Escariz”.

Procurando no meio das palavras “escar” e “iscar” surgiu “Pescaria”.

Resultaram assim as localidades da tabela seguinte.

Tabela_A1.JPG

Tabela A-1 - Localidades que se consideraram poder ter como origem do nome "iskaru"

* - Por serem muito próximas, foram analisadas em conjunto

Nota: Para simplificar e não maçar com repetições o leitor que tem acompanhado as publicações neste tema, não farei a explicação de todos os topónimos relacionados.

Aveiro / Arouca / Escariz / Escariz

Escariz_Arouca_1.jpg

Figura - A-1 Escariz de Arouca

Rua / travessa Vale de Quartas

Escariz_Arouca_2.jpg

Figura - A-2 Escariz de Arouca

Cantinho do Outeiro na marca assinalada.

Braga / Vila Verde / São Mamede e São Martinho de Escariz

Escariz_VilaVerde_1.jpg

Figura A-3 - São Mamede e São Martinho de Escariz

Muitas referências… Vales…

Escariz_VilaVerde_2.jpg

Figura A-4 - São Mamede e São Martinho de Escariz

Carcavelos e Paredes estão próximos.

Escariz_VilaVerde_3.jpg

Figura A-5 - São Mamede e São Martinho de Escariz

Rua da Mata (Mout) na sequência de Rua do Vale (Baal).

 

Guarda / Figueira de Castelo Rodrigo / Escarigo

Escarigo_Figueira_de_Castelo_Rodrigo.jpg

Figura A-6 - Escarigo de Figueira de Castelo Rodrigo

Escarigo_Figueira_de_Castelo_Rodrigo_2.jpg

Figura A-7 - Escarigo de Figueira de Castelo Rodrigo

Na fronteira com Espanha. Não se identificou mais nenhum topónimo relevante. Há muito poucas referências de topónimos nesta região.

Leiria / Nazaré / Famalicão / Pescaria e Serra da Pescaria

Pescaria_Serra_da_Pescaria.jpg

Figura A-8 - Pescaria e Serra da Pescaria

O nome da freguesia, Famalicão localidade próxima, é um topónimo que segundo Moisés Espírito Santo [5] (página 207) se refere a um local onde se procederia à tomada de decisões em casos de disputas. “Kan” em fenício significa “regra assumida / regra fixada”. “Gamali” significa por outro lado “exercer / manter”. Ou seja, “Gamali kan” significaria exercer o direito / ajuizar.

Note-se por curiosidade que a evolução de “Iskaru” para “Pescaria” é melhor compreendida numa terra que não está no litoral, se soubermos que naquela época e até porventura ao século XVI [6] (páginas 11 a 18) o mar entraria pela foz do rio Alcobaça, sendo essa entrada navegável, formando aqui a Lagoa da Pederneira.

Lagoa_da_Pederneira_Camara_Municipal_Nazare.jpg

Figura A-9 - Lagoa da Pederneira

Imagem retirada do sítio da internéte da Câmara Municipal da Nazaré [7]

Vila Real / Chaves / São Pedro de Agostem / Escariz

Escariz_Sao_Pedro_de_Agostem_1.jpg

Figura A-10 - Escariz de São Pedro de Agostem

Escariz_Sao_Pedro_de_Agostem_2.jpg

Figura A-11 - Escariz de São Pedro de Agostem

Rua Vale em Escariz… (idem em Ventozelos…).

Quase não tem ruas… pequena aldeia. 

 

Vila Real / Adoufe / Escariz

Escariz_Adoufe_2.jpg

Figura A-12 - Escariz de Adoufe

Próximo de Paredes.

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Referências

[1] Google Maps - https://www.google.pt/maps/

(todos os mapas foram obtidos com esta aplicação à exceção do mapa da Lagoa da Pederneira e o mapa da dispersão geográfica dos topónimos)

[2] Espírito Santo, Moisés – Dicionário Fenício – Português – Universidade Nova de Lisboa – 2ª edição (sem data)

[3] CARVALHO, Pedro C. e ENCARNAÇÃO, José d’ (2006): “O monumento romano da Quinta da Caneca (Salgueiro, Fundão)”, Eburobriga, 4, p. 91-98.

Nota: Neste artigo o autor refere uma pedra da época romana existente na minha terra natal, Caria que considera poder também fazer parte de um mausoléu.

[4] www.ctt.pt - opção “Ferramentas” / “Encontrar códigos postais”

Opção “Download de ficheiros” https://www.ctt.pt/feapl_2/app/restricted/postalCodeSearch/postalCodeDownloadFiles.jspx

Permite recolher a lista completa que pode ser consultada em Excel

[5] Espírito Santo, Moisés - Fontes remotas da cultura portuguesa, Assírio e Alvim, 1989

[6] Soares, José – Os mitos da Lagoa – Câmara Municipal da Nazaré, 2002

[7] Câmara Municipal da Nazaré – Lagoa da Pederneira

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

1900_Balcoes_de_Esgueira.jpgBalcões de Esgueira (já demolidos)
~1900 – Aveiro Antigo – Câmara Municipal de Aveiro - 1985

Como mostrei em anteriores publicações, com base na análise de conjuntos de topónimos geograficamente próximos e da associação a ritos religiosos que ainda hoje têm grande expressão, há fortes indícios de naqueles casos ter havido influência fenícia quer dos nomes quer da origem desses ritos.

Mostrei também como essas influências eram particularmente significativas na zona Aveiro / Coimbra e se terão propagado pela Beira, para o seu interior. Vale de Ílhavo, junto a Aveiro / Ílhavo e Vale da Senhora da Póvoa, na Beira Baixa, foram os espaços principais de análise.

Vou agora fazer um outro exercício que na minha opinião reforça o anterior. Mais uma vez, por algo que denominaria “acasos do destino”, constatei uma curiosa coincidência entre a possível origem do nome da localidade em que habito, Esgueira, atual freguesia de Aveiro, com outra localidade bem próxima de Caria, próxima também do já referido Vale da Senhora da Póvoa. Guardarei porém esta última explicação para uma publicação futura.

Nas publicações anteriores expliquei como esta situação à primeira vista estranha pode ter ocorrido, pelo que não vou maçar o leitor, mas não deixa de ser impressionante assumir que as influências culturais terão sido tão intensas para tal suceder. Um povo de origem tão distante, essencialmente comerciante e navegador, que não terá ocupado o território, pode ter influenciado topónimos no interior do espaço que hoje é Portugal. 

Recordo apenas um aspeto muito relevante aí referido, de que no período em que as influências terão ocorrido o mar entrava mais pelo interior do que atualmente, possivelmente até Eirol e o rio Vouga era mais navegável. A laguna da atual Pateira de Fermentelos estava ligada ao mar.

A imagem seguinte ilustra de forma aproximada qual seria o perfil da costa e do encontro de rios desta região (A forma como este mapa foi elaborado é explicada na publicação anterior a que pode aceder aqui). Sublinhe-se que os nomes das localidades que se representam são sobretudo para o leitor situar a atual geografia do que era a linha de costa antiga. Não significa que já tivessem ocupação humana residente nessa época.

Mapa_Regiao_Aveiro_Esgueira_ha_dois_mil_anos.JPG

Antes de abordar a situação específica de Esgueira, irei referir outros topónimos próximos que podem reforçar a minha “tese”. Alguns são o resultado da minha pesquisa pessoal, tendo por base o dicionário Fenício – Português do Dr. Moisés Espírito Santo [3]. Outros são exemplos de muitas outras propostas deste estudioso na sua obra Origens orientais da religião popular portuguesa [1] na página 300 e seguintes. Estes últimos marco-os com um asterisco (*).

Seguirei em linhas gerais a direção Eirol => Esgueira. Corresponde a uma distância menor que 10 quilómetros.

Os mapas apresentado são obtidos via Google Maps [9].

Sublinho que, como referi nas publicações anteriores, este tipo de reflexões não permite assumir certezas, a menos que sejam corroboradas por outros estudos, por exemplo arqueológicos. Porém, em alguns casos os indícios da toponímia são tão específicos que nos levam a ter uma grande convicção nestas hipóteses.

Mapa_Regiao_Aveiro_Google_Eixo_Carcavelos_Requeixo

- Carcavelos (*) - Lugar, junto a Eirol; Seria a conjunção de duas palavras fenícias "Carca" e "Belus". A primeira significa "chão", ou "domínio". A segunda significa "senhor". Teria o significado de "proprietário". A junção das duas denominaria pois o espaço onde viveria o senhor que teria a jurisdição deste domínio. Possivelmente o encarregado do entreposto comercial. No livro citado, o autor identifica este topónimo em quarenta (!) localizações em Portugal, a maioria perto da costa. Mostra também como em seu redor surgem outros nomes de locais com um padrão muito semelhante e que indiciam a origem fenícia. Como curiosidade, para contextualizar o leitor e se bem que neste “nosso caso” tal não se verifique, o topónimo “Parede” ou “Paredes” ou “Parada” que derivariam de “Pardess”, significando “palácio”, surge próximo na maioria das vezes. Seria outro nome, equivalente a “Carca Belus”.

- Sardinha (*) (Cilha da Sardinha) significa "carreiro"

Taipa.jpg

- Taipa (*); Significa "subir" / inclinação, o que está de acordo com o terreno.

- Rua do Paraíso (na Taipa / Requeixo) – "Paraíso", poderá derivar de "perazu" (que terá dado muitos outros lugares em Portugal denominados ”Paraíso”, mas também "Prazo"), o qual significa "lugar da convocação dos acordos". Seriam locais onde os povos que habitavam esta região se reuniam e renovavam os acordos entre si mas e com os comerciantes fenícios. Tipicamente seriam próximos de locais de culto.

- Ponte da Rata (*); Segundo Moisés Espírito Santo “rata” pode derivar de "Hat"(ate), em fenício, significando "forja". Ao longo do tempo sucederia a evolução "Ate" - Ata - Rata. Uma forja, local em que os metais eram fundidos, era um dos recursos importantes junto a este tipo de entrepostos. Eu coloco uma outra hipótese. Segundo o referido dicionário, a palavra “rataq” significa “ligar”. Este mesmo local poderia já nessa época ser um ponto de passagem, por barcas, ou mesmo uma ponte primitiva. Em qualquer caso será muito pouco provável que um simples bicho (rata) desse o nome a um local.

Eixo.jpg

- Eixo; Pode derivar de “Erêsu” (pronuncia-se Erêchu); significa semear, agricultura, ou seja local de terras aráveis. Segundo Manuel Carvalho [5] as referências mais antigas conhecidas para esta localidade denominam-na Exso (1050), Exu (1081), Exo (1095). Pela minha proposta a evolução seria quase direta, correspondendo à síncope do “r” intervocálico, fenómeno comum de simplificação na evolução das línguas.

- Balsa (Parque da Balsa); Pode ter a mesma origem do que a conhecida cidade do mesmo nome, da época fenícia e romana, localizada junto a Tavira. O nome Balsa decorreria de ser dedicada a Baal. Baal tem dois epítetos que podem fazer esta correspondência: Baal Safon (Baal da montanha sagrada) ou Baal Xamã (Baal Sol, que terá dado nome a outras terras como Balsemão) [4].

- Outeiro; A Rua do Outeiro é essencialmente plana e quase nada inclinada. Não seria a meu ver muito lógico este nome. No seu final do lado do Vouga tem algum declive, mas bastante curto. Por outro lado, a palavra fenícia “Oter” corresponde a lugar de oração. Esta hipótese ganha significado por estar junto ao topónimo “Balsa”.

Neste ponto da sequência de nomes, será de interesse fazer uma breve incursão na direção sudoeste. Muito próximo, a cerca de três quilómetros, com ligação praticamente direta, temos Oliveirinha. Podemos aqui observar topónimos relevantes.

Moita.jpg

Mais uma vez surge o binómio de deuses que já se identificaram em Vale de Ílhavo e Vale da Senhora da Póvoa: O local “Moita”, que decorrerá de Mout, o deus fenício da morte. E “Vale”, de “Baal”, deus fenício da energia e da vida, surgindo em diversos nomes à volta, entre Ruas e Travessas. Por curiosidade, “Vale Diogo” pode decorrer de “Baal Dagon”, em que Dagon era o deus fenício da agricultura. Tal seria coerente com a interpretação do significado dado a Eixo. Seria este o “santuário” associado a Carcavelos.

Chegamos então a Esgueira. Numa publicação anterior, denominada “O famoso Godinho”, mostrei que a Rua do Godinho, situada no centro da antiga localidade, poderá ter o mesmo tipo de origem. Sugeria a sua leitura. Mas neste momento vou focar a argumentação no próprio nome da localidade.

Segundo averiguei, a mais antiga referência atualmente conhecida encontra-se representada no seu antigo selo, onde surge como Isgarie.

Selo_Esgueira.jpg

No dicionário, podemos identificar uma palavra foneticamente próxima: "iskaru", o qual tem como possível tradução "tarefa / material de trabalho". Como referi, este local encontrava-se na linha de costa e assim continuou, embora com assoreamento até por volta do século XV [6] Era possível a embarcações de grande calado ancorarem em Esgueira. Uma grande embarcação figura no brasão da vila.

Antes de Aveiro se desenvolver nos últimos séculos, mas muito provavelmente desde esses tempos mais remotos Esgueira seria um importante ponto de atividade económica, próximo da foz do Vouga, bem como porto de acesso por terra "de" e "para" o interior, de todo o tipo de bens, pescado, exploração de sal, bens agrícolas, etc.

"Terra do trabalho" seria pois um nome perfeitamente adequado.

Curiosamente, depois de ver esta possibilidade, encontrei duas outras referências interessantes.

- Num artigo sobre a vila de Esgueira [7] Monsenhor João Gaspar refere que tem memória de que o termo “esgueira” se utilizava com o significado de jorna / dia de trabalho.

- Se consultarmos por exemplo o dicionário da Infopedia / Porto Editora, este inclui o termo “esgueira” com o mesmo significado: pagamento do dia de trabalho ao jornaleiro.

Coincidências?

 

Na próxima publicação vou procurar mostrar como este mesmo termo fenício "iskaru" terá dado lugar a outros topónimos no nosso território, estando um deles, curiosamente muito perto da minha terra natal, Caria, no concelho de Belmonte.

 

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Referências

Nota: Todas as obras do Dr. Moisés Espírito Santo foram colocadas pelo autor no domínio público e podem ser descarregadas do seguinte endereço:

https://sites.google.com/site/obrasmoisesespiritosanto/

 

[1] Espírito Santo, Moisés - Fontes remotas da cultura portuguesa, Assírio e Alvim, 1989

[2] Espírito Santo, Moisés -Origens orientais da religião popular portuguesa, seguido de Ensaio sobre toponímia antiga - Assírio e Alvim, 1988

[3] Espírito Santo, Moisés – Dicionário Fenício – Português – Universidade Nova de Lisboa – 2ª edição (sem data)

[4] Balsa / Wikipedia https://pt.wikipedia.org/wiki/Balsa_(Lusit%C3%A2nia).

[5] Carvalho, Manuel José Gonçalves de - Povoamento e vida material no concelho de Aveiro: apontamentos para um estudo histórico-toponímico

http://ww3.aeje.pt/avcultur/Avcultur/ManJGCarv/PDFs/MJGC_Mestrado.pdf

[6] Girão, Amorim - Geografia de Portugal (1941)

[7] Gaspar, Monsenhor João – A vila de Esgueira - Notas proferidas num serão informal; Publicado no nº 25/26 do Boletim Municipal de Aveiro.

[8] Infopedia – Porto Editora

https://www.infopedia.pt/

[9] Google Maps

https://www.google.pt/maps/

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