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Corvo_Nevermore.jpg

Na publicação anterior mostrei uma transposição / tradução de um poema. O tema das traduções é extremamente interessante. As palavras têm significados que muitas vezes não têm fronteiras bem definidas e que podem mesmo mudar ao longo dos tempos. Uma boa tradução procura aproximar-se tanto quanto possível do significado original, mas de uma forma geral é impossível ser uma transcrição perfeita. São bem conhecidas por exemplo as questões colocadas nas traduções dos denominados "textos sagrados" como na Bíblia, em que mudanças subtis na tradução mudam de forma impressionante o seu significado.

A relativamente recente edição da Bíblia, traduzida diretamente do grego por Frederico Lourenço, é disso um excelente exemplo. O primeiro volume, com o novo testamento, (Quetzal, 2018), com imensas notas do tradutor, explicando algumas das dificuldades com que se deparou, é bem revelador deste problema. Para ilustrar refiro apenas dois exemplos logo no início (página 60) em que relativamente ao "casamento" de Maria com José, o termo original corresponderia não a um casamento mas a terem-se juntado. E que a conceção não foi através "do Espírito Santo", mas "de um espírito santo".

Mas regressaria a temas mais simples e à poesia.

Um bom exemplo das liberdades e dificuldades deste exercício de traduções pode ser observado sobre o poema "The raven" (O corvo), escrito por Edgar Allan Poe (1809 - 1849), em que são conhecidas versões para português feitas por Fernando Pessoa e Machado de Assis.

É um poema-conto de mistério, à semelhança de muitos contos pelos quais este autor se tornou conhecido. O poema descreve uma situação misteriosa e inquietante.

Encontra facilmente na internet o original e essas traduções.

 

Por exemplo aqui pode ver o original (mostro a primeira estrofe a seguir):
https://www.poetryfoundation.org/poems/48860/the-raven

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore—
    While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
“’Tis some visitor,” I muttered, “tapping at my chamber door—
            Only this and nothing more.”

Aqui a tradução de Fernando Pessoa:
https://pt.wikisource.org/wiki/O_Corvo_(tradu%C3%A7%C3%A3o_de_Fernando_Pessoa)

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."

E aqui a de Machado de Assis:
https://pt.wikisource.org/wiki/O_Corvo_(tradu%C3%A7%C3%A3o_de_Machado_de_Assis)

Em certo dia, à hora, à hora
         Da meia noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
         Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi á porta
Do meu quarto um soar devagarinho
         E disse estas palavras tais:
«É alguém que me bate á porta de mansinho;
         «Há de ser isso e nada mais.»

É delicioso ver como seguiram abordagens bastante diversas, mas de leitura a meu ver igualmente "saborosas".
Fernando Pessoa mantém o número original de estrofes de seis versos ficando mais perto da musicalidade original, mas permitindo-se menor rigor na tradução. Machado de Assis opta por mudar para estrofes de dez versos, numa descrição mais informal.

Já agora, se gosta do livro-objeto, existe uma edição conjunta disponível, editada pela Relógio D´Água em 2009.
https://relogiodagua.pt/produto/o-corvo/

Boas leituras!

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