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Colecionar molas de roupa...

por Lourenço Proença de Moura, em 13.11.20

As_nossas_molas_de_casa_1997_Esgueira.jpg

Foi no já distante ano de 1997 que tirei a fotografia com que inicio esta publicação. O pequeno mas aconchegado cesto, as cores variadas refletidas pelo sol que inundava a marquise do nosso apartamento, captaram-me a atenção.

Esta imagem teve algum efeito de ressonância na minha mente e pus a mim mesmo perguntas para as quais procurei a resposta. Como seriam as molas de roupa noutros países? Que outros tipos de mecanismo e forma haveriam? Qual seria a “história” deste objeto tão comum?

Fui então aos poucos fazendo alguma pesquisa e criando uma pequena coleção.

Vou procurar de forma breve contextualizar o que fui descobrindo e mostrar alguns exemplos do que consegui colecionar.

 

Como terá surgido a ideia para este objeto?

Como tem sucedido na maioria das vezes na história do ser humano, a necessidade aguça-nos o engenho. Quando o Homem começou a lavar as suas roupas, por razões de higiene ou para as manter melhor conservadas, terá procurado formas de as secar ao sol. 

Decerto que as roupas de pele, lã, linho, ou outros materiais seriam postas a secar sobre pedras, ou diretamente em ramos de árvore ou arbustos. Mas logo que começaram a fazer cordas feitas de fibras, vegetais ou animais, a ideia de as pendurar nesse suporte terá ocorrido naturalmente e daí a pensarem numa forma de evitar que tombassem com o vento.

Roupa_a_secar_arbusto.jpg

Muito provavelmente terão logo nessa altura concebido mecanismos simples, ainda hoje utilizados. A forma mais básica passaria por abrir uma ranhura num pedaço estreito de madeira que tivesse alguma resistência.

Mola_basica_antiga.JPG

Uma outra forma utilizaria um troço de ramo estreito de uma madeira flexível, como por exemplo o salgueiro. Nele é aberta uma fenda numa das extremidades e na outra é feito um laço de uma fibra, impedindo que se quebre.

Com a evolução das tecnologias, por exemplo quando os metais passaram a entrar nos usos quotidianos, durante o século 18 na europa, a sua maior durabilidade foi substituindo as fibras, permitindo que os modelos iniciais beneficiassem desta evolução. Surgiram assim molas como as da imagem seguinte, que ainda eram muito comuns no início do século 20.

Mola_basica_com_anel_metalico_antiga.JPG

Naturalmente com as progressivas evoluções tecnológicas, tornando comum a aplicação do aço, mas sobretudo dos plásticos, as formas e mecanismos foram evoluindo em muitas e diversas formas, tendo quase apenas a imaginação como limite…

 

A industrialização, modelos e patentes de molas de roupa

Com a industrialização, as sociedades mais desenvolvidas passaram a valorizar as novas ideias, pois uma boa ideia devidamente aplicada podia gerar imenso valor financeiro. Surgiram assim os conceitos de propriedade intelectual e patentes, para proteger os criadores dessas ideias de serem copiados de forma não autorizada. Os Estados Unidos da América (EUA) foram percursores neste campo.

A primeira patente conhecida para uma mola foi emitida precisamente nos EUA a 22 de março de 1832. Descrevia uma tira dobrada de madeira de nogueira, de seis polegadas, apertada com um parafuso de madeira. Mas quando foi fabricada, viu-se que não funcionava bem. A chuva e a humidade faziam o parafuso inchar e deixava de prender. Porém ficou para a história como primeira patente deste tipo de objeto. Note-se que na sequência de um incêndio no departamento de registos em 1836, perdeu-se esse documento, pelo que dele não existem cópias e não se conhece a sua imagem exata.

Passaram mais 21 anos para aparecer, em 1853, uma grande melhoria. O criador da patente chamou-lhe “spring-clamp for clotheslines”, que podemos traduzir por "grampo de mola para cordas de roupa". Chamava-se David M. Smith. Era natural de Springfield, no estado de Vermont, nos Estados Unidos da América. Tinha duas “pernas” em madeira, articuladas entre si por uma mola de metal.

Foi o antepassado moderno a partir do qual se criaram a maioria das molas que hoje temos. A imagem seguinte foi retirada do registo de patente e mostra qual o seu aspeto. Na minha coleção tenho uma mola muito semelhante que se poderá ver mais adiante.

A invenção de Smith foi revista e modificada vezes sem fim. Só até meados do século XIX houve mais 146 novas patentes nos Estados Unidos da América [1].

Spring_Clamp_1853.jpg

Uma evolução significativa a nível de materiais deveu-se ao italo-americano Mario Maccaferri, que desenvolveu o primeiro modelo de mola de plástico durante a Segunda Guerra Mundial, supostamente depois de se constatar a escassez de prendedores de madeira. Industrializou-a e a sua fábrica produziu mais de um milhão de unidades por dia para atender à procura em tempo de guerra [2] [3].

Molas_Mario_MaccaFerri.JPG

Esta imagem de molas em plástico, foram produzidas pela indústria criada por Mario Maccaferri. A que surge mais acima é o modelo inicial, ou seja, a primeira mola feita em plástico. Mostrarei adiante uma idêntica na minha coleção.

Naturalmente as variações de modelos, formas e mecanismos têm surgido sem cessar em ritmo cada vez maior.

Como último exemplo, relativamente recente, numa espécie de regresso às origens, veja-se o desenho das brasileiras Taciana Silva e Marcela Albuquerque, patenteado em 2006, que pode também ser visto adiante nas imagens da coleção.

2006_Taciana_Silva_Marcela_Albuquerque.jpg

Colecionar molas de roupa…

Porquê colecionar molas de roupa?

Resposta nº 1: Porque não? 

Resposta nº 2: É fácil começar uma coleção. Todos nós temos exemplares para começar e possivelmente os nossos pais têm alguns, mais antigos, bem curiosos…

Resposta nº 3: É um objeto muito simples, sem pretensões, prático e condensa muitas ideias e aperfeiçoamentos do engenho humano.

Resposta nº 4: Considero que existe muita beleza nas rotinas simples da nossa vida diária. E fazendo minhas as palavras (adaptadas) de Lahey [2]… Considero bela uma corda de roupa a secar. É estimulante e conforta a alma, ver uma fileira de tecidos de cores e padrões variados erguendo-se com rajadas de vento, mantidos no lugar por minúsculos soldados de costas direitas, oscilando de um lado para o outro, firmes na sua missão, sobre as suas minúsculas dobradiças…

Devo dizer que por vezes me arrisco a passar por ladrão, ou quem sabe algo ainda mais censurável, quando, por exemplo ao passear numa qualquer rua, caminhando descontraído, a minha atenção é de forma instintiva atraída por um estendal, ficando o meu olhar automaticamente focado nas molas de roupa, procurando por modelos que ainda não tenha. E tanto faz que estejam a prender peúgas, calças, “lingerie” ou ceroulas…

Possivelmente há outros colecionadores em Portugal, mas até ao momento não identifiquei nenhum…

Consegui contactar alguns colecionadores estrangeiros, não muitos, mas foram todos muito simpáticos e temos trocado exemplares pelo correio. Todos tiveram comigo (e eu tentei retribuir) uma "atitude de mãos largas”. Doamos o que temos duplicado, se o outro colecionador não tem.

Penso que o maior colecionador de molas do mundo será Mike Bradley, engenheiro australiano reformado. Podem consultar o seu blog: https://peglomania.blogspot.com/

Faz poucas publicações, mas numa ele indica os links de acesso a fotografias da sua vastíssima coleção. Reproduzo os ponteiros no anexo desta minha publicação.

 

Alguns exemplares da minha coleção

Modelo de gancho simples – exemplares antigos e réplica recente em madeira

IMG_3672.JPG

Img_3673.jpg

Modelo de gancho simples – exemplares antigos em arame / lâmina metálica

IMG_3674.JPG

 

Modelo de gancho simples – em plástico ou metal

IMG_3677.JPG

IMG_3678.JPG

IMG_3671.JPGO modelo da direita mantém o desenho de Mario Maccaferri referido antes

 

Modelo de gancho simples - clipe
IMG_3675.JPG

Modelo de gancho simples em espelho
O que surge à esquerda, corresponde ao desenho de Taciana Silva e Marcela Albuquerque referido antes

Img_3676.jpg

Modelo de gancho complexo – ação manual

IMG_3679.JPG

IMG_3681.JPG

 

Tensor triangular – tensão de contração em fio de aço

IMG_3682.JPG

IMG_3686.JPG

Tensor circular – tensão de contração em fio de aço

IMG_3692.JPG

IMG_3684.JPG

IMG_3690.JPG

 

Tensor em fita – tensão de contração em aço

IMG_3687.JPG

IMG_3688.JPG

 

Tensor em fita – tensão de contração em plástico

IMG_3689.JPG

 

Tensor em fita – tensão de expanção em metal / plástico

IMG_3683.JPG

 

Tensor em hélice com asas – tensão de expansão

IMG_3693.JPG

IMG_3694.JPG

 

Tensor em hélice com asas – tensão de contração

IMG_3700.JPG

IMG_3701.JPG

IMG_3695.JPG

IMG_3696.JPG

IMG_3702.JPG

IMG_3703.JPG

IMG_3704.JPG

 

Tensor em hélice simples – tensão de expansão
O modelo da esquerda é semelhante ao que referi atrás, panteado em 1853 por David M. Smith

IMG_3697.JPG

IMG_3698.JPG

IMG_20201113_200101_resized_20201113_080147562.jpg

 

 

Tensor em hélice simples – tensão de contração

IMG_3699.JPG

 

Tensor em anel / fita de borracha  – tensão de contração

IMG_20201113_195948_resized_20201113_080148562.jpg

 

Brincando com as formas…

IMG_3706.JPG

IMG_3707.JPG

IMG_3708.JPG

 

E quando as crianças brincam…

IMG_3705.JPG

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Familia_Mola.jpg

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Referências

[1] The Better clothespin (A melhor mola de roupa) https://www.inventionandtech.com/content/better-clothespin-0

[2] Lahey, Anita - Clothespin Encounters https://maisonneuve.org/article/2010/03/8/clothespin-encounters/

[3] Mario Maccaferri - un liutaio fra Cento, Parigi e New York  - http://www.bagnoli1920.it/Sito_Tipo/Libri_files/cat_maccaferri-E.pdf

 

Anexo

Endereços de acesso à coleção de Mike Bradley

Butterfly Spring Pegs:
Compression Coil Sprung Clothes Pegs:
Conventional Design Pegs
Leaf Sprung Clothes Pegs:
Magnetic clip:
Ring Sprung Clothes Pegs:
Rubber Band Spring:
Self Sprung Plastic Clothes Pegs:
Self Sprung Wooden Pegs:
Tension Coil Sprung Clothes Pegs:
Wide Clip Sprung Clothes Pegs:
Wire over 6cm:
Wire under 6cm:
Wooden Conventional Pegs:

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18 comentários

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Anónimo a 16.11.2020

Estamos na corda a que nos prendes com as tuas histórias. Bem hajas!
Um abraço.
Coutinho

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