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Ecos de uma longínqua memória judaica?

por Lourenço Proença de Moura, em 05.08.22

Lintel_ao_natural.jpg

A minha terra natal Caria, no concelho de Belmonte, irrigada por duas ribeiras, com solo fértil e água em abundância, possui diversas marcas do seu passado, de terra há muito habitada.

Muitas iniciativas se têm feito para preservar e valorizar o nosso património, como por exemplo a Casa da Roda dos expostos e a Casa Etnográfica. Mas há diversos outros artefactos e espaços que merecerão atenção. Alguns já os referi neste blog como os “Armários sagrados”.

O que agora aqui partilho refere-se a uma gravação discreta mas que considero muitíssimo curiosa, num lintel em granito de uma porta e que surge no início desta publicação. Estava oculta pelo reboco até há cerca de 20 anos, tendo ficado à vista com obras de renovação.

Qual a sua interpretação?

Sugiro que o leitor analise a imagem por uns momentos.

À esquerda surge uma data, que na minha leitura é bastante clara, 1598. Apenas para contextualizar o leitor, segundo o livro “História de Portugal em datas” [1], neste ano estamos sob o domínio filipino que se iniciara em 1580, sucedendo precisamente em 1598 a transição de Filipe I de Portugal para Filipe II seu filho. Decorria uma grave crise agrícola e no ano anterior houve um surto de fome. Para piorar a situação começava uma nova pandemia de peste! Tempos difíceis para todos, mas sobretudo para o povo…

Assumindo que a data é clara, o mesmo não sucede com os símbolos do lado direito, bem mais difíceis de destrinçar. Parecem letras, mas não estão gravadas na habitual norma latina de caracteres maiúsculos. Dir-se-ia que a maioria das letras está em formato de letra minúscula.

A imagem seguinte mostra o que julgo serem as linhas dos sulcos principais.

Lintel_Josefo.jpg

As hipotéticas letras parecem representar Jos…f…

Como poderemos validar esta hipótese?

Felizmente temos uma boa e fácil forma de o fazer! Se analisarmos os livros paroquiais desta época, que se encontram digitalizados e acessíveis na internéte [2] podemos ver registos como o que mostro a seguir.

Registo_nascimento_Joao_filho_de_Baltasar_Gomes.jp

A transcrição pode ler-se como:

Ao derradeiro (último dia) de Agosto de 1601, bautizei João filho de Balthasar Guomes e de Maria Hyeronima (Jerónima) … foi padr. (padrinho) Brás Afonso deste luguar e madrinha Constança de Proença mulher de Francisco Rodrigues da vila da Covilhã. Por verdade…

A transcrição em concreto não é o que mais interessa nesta análise, mas permitir ajudar o leitor a conferir a grande proximidade de aspeto entre as letras “J” maiúsculo, “o”, “s” “f” da gravação.

Parece que quem fez esta gravação foi o pároco de Caria… 😊 com letra manuscrita e depois alguém abriu rasgos a cinzel…

Qual o significado destas letras?

A palavra / nome que de imediato me veio à ideia foi “Josefo”. A letra entre o “s” e o “f”, apesar de estar bastante desgastada pode ter sido de facto um “e”. Depois do “f” por sua vez surge ainda uma marca, mas a uma distância relativamente grande, pelo que presumo não corresponder à letra seguinte. Em qualquer caso “Josefo” será com grande probabilidade o nome representado.

Sucede que esta hipótese levanta uma grande questão…

Trata-se de um apelido judaico!

Ora nesta data tal não deveria suceder. Já tinha decorrido cerca de um século desde o decreto de expulsão dos judeus assinado por D. Manuel I. A alternativa era converterem-se ao cristianismo. Nesse caso adotavam novos nomes de batismo sucedendo o mesmo ao apelido, que seria por exemplo o do padrinho cristão-velho. De facto, se virmos os livros paroquiais desta mesma época, encontramos os muito comuns Álvares, Antunes, Geraldes, Fernandes, Gonçalves, Pires, Martins, etc, mas nunca apelidos que remetam como este para origens judaicas.

Para quem tenha curiosidade por história e em particular pela história judaica, este apelido poderá ser-lhe familiar. Flávio Josefo [3], foi um historiador romano de origem judaica, a quem devemos relatos detalhados sobre o povo judeu e das lutas contra Roma.

Por que razão tal apelido foi assim exposto de forma tão temerária? Naturalmente não sei responder.

Por último, uma possível interpretação para os sinais que surgem entre a data e o nome. Parecem ser duas pequenas marcas, que se fossem letras seriam um “o” por cima e um “J” por baixo. Teriam algum significado?

Bom… seguindo a hipótese de que estamos perante letras com estilo manuscrito, a possível resposta surge de imediato. Escrever a letra “J” maiúscula, com um “o” minúsculo por cima é uma forma simplificada de nesta época se escrever “João”.

Podemos por exemplo ver a imagem seguinte, de um outro registo de batismo que surge no mesmo livro, algumas folhas depois do registo que mostrei antes. Vemos aqui essa escrita abreviada do nome da criança que curiosamente também é "João" como o anterior. Podemos fazer a transcrição do registo para “Aos 25 dias do mês de fevereiro da dita era de 607 (1607) baptizei Jo (João) filho de Gaspar Esteves e Sabina Antunes. Foram padrinhos Manuel Antunes e Susana Domingues. E por verdade assinei aqui mês e era como acima…

Registo_nascimento_Joao.jpg

Em jeito de síntese

Estamos perante uma gravação que não segue um formato convencional com símbolos latinos em maiúsculas e usa uma forma de escrita caligráfica. Assumindo que a interpretação “Josefo” está correta, ela é coerente com a possibilidade de os símbolos do meio corresponderem à abreviatura de “João” pois “Josefo” é normalmente um apelido.

Teríamos assim que nesta casa terá habitado João Josefo, descendente de cristãos-novos, possivelmente cripto-judeu, que detinha a escassa competência de saber ler e escrever e com a sua própria caligrafia assinalou que nesta casa vivia.

Por alguma razão a sua família conseguiu manter o apelido judaico, se bem que o nome de batismo fosse neutro, pois “João” é nome adotado por cristãos e judeus.

---oOo---

Notas complementares e um jogo de “Caça ao tesouro” que poderá fazer em família…

Tem curiosidade em ver esta epígrafe no seu local?

Se por acaso quiser saber onde este lintel se encontra, pode observá-lo no seu local, acedendo a este endereço do “Google Maps”. É bem no centro da vila na parte mais elevada, na Rua Direita, relativamente perto da igreja e da Casa da Torre.

Trata-se da travessa / lintel da 2ª porta verde.

Uma outra epígrafe muito curiosa a poucos metros desta

Já agora, se gosta de curiosidades do nosso passado, se fizer uma visita a este local, poderá ver muito perto, num outro lintel da porta principal da Casa da Torre, um interessante texto em latim, cuja imagem transcrição e tradução aqui mostro.

Lintel_Casa_da_Torre_epigrafe.jpg

De acordo com Manuel Marques [4] a transcrição é:

Mille Dolos victis domus est haeC Condita quando

X indiCat et major lItera quaeque tibI

 

Segundo o mesmo autor, uma possível tradução é:

Vencidas mil dificuldades esta casa foi construída

quando indica a incógnita X e também as letras maiúsculas

 

Ou seja, as maiúsculas e a incógnita X indicam a data de construção:

MDCCXCII – 1792

 

Já António Borges [5] mantendo o sentido do entendimento da data, propõe uma diferente tradução:

Vencidos mil ardis, foi esta casa fundada quando

X e cada uma das letras maiores te indicam

Esta interpretação também possível à luz dos vários significados das palavras latinas, corresponderia a terem sido ultrapassadas muitas dificuldades, mas que não eram decorrentes dos acasos e sim de oposições intencionais de alguém. António Borges coloca algumas hipóteses para explicar de onde poderiam vir estas oposições, mas esse é um tema já fora do âmbito desta simples publicação.

Note-se que esta é a data de uma reconstrução profunda. Este espaço foi habitado desde tempos bem mais distantes. Ao lado de uma outra porta de formato ogival, situada nas traseiras, podemos ver outra inscrição com a data de 1360.

 

Uma “Caça ao tesouro” que poderá fazer em família numa visita a Caria

Cruciforme.JPG

Um património relativamente pouco divulgado diz respeito a marcas antigas, existentes nas casas, sobretudo nas ombreiras das portas mas também na pedra superior – lintel ou mesmo nas fachadas. Na sua maioria apresentam simbologia cristã, com cruzes em muitas variantes.

Não há certezas quanto à sua origem e significado. São naturalmente invocações cristãs. Poderão ter sido usadas para apelar à proteção divina sem outra pretensão, mas há quem refira a possibilidade de ter sido uma forma de os cristãos-novos mostrarem a sua aceitação da nova fé. Na verdade, os locais de maior concentração destes grafismos correspondem com os espaços onde se presume se situar em maior número a comunidade judaica / cristãos-novos.

No livro Território de Caria - Marcas lutas e gentes, António Borges [5] faz algumas reflexões sobre este tema e mostra o resultado de uma recolha destas marcas, feita inicialmente pela Dra Elisabete Robalo dos serviços de arqueologia da Câmara Municipal de Belmonte, tendo depois a colaboração da Dra Graça Neiva Ribeiro.

Com base nesta informação editei um folheto que pode descarregar aqui.

Contém um mapa antigo de Caria (1957) onde se assinalam as ruas em que se identificaram estas marcas. E mostra os símbolos que cada rua tem, mas não indica onde.

O desafio é simples: Procurar encontrar (caçar) os vários símbolos. Quem mais encontrar ganha…

Note-se que boa parte deles têm uma marca colocada pela autarquia, o que facilita a procura, mas não deixa de ser um bom passatempo para fazer em família.

Se por alguma razão não encontrar algum, ou preferir aceder-lhes de forma mais rápida, neste outro documento tem indicado o endereço exato.

E claro que pode descobrir algum símbolo não catalogado. Seria muito interessante. Nesse caso não hesite em comunicar à Câmara de Belmonte, à Junta de Freguesia de Caria, ou a mim… lmcpm@spo.pt

 

---oOo---

Agradecimentos

Ao Luís Proença Ribeiro que com a sua enorme disponibilidade e competência fotográfica me obteve uma “fotografia fresquinha” e de boa qualidade do lintel da Casa da Torre

Ao Professor António Borges por me facultar as imagens dos símbolos cruciformes para o folheto do “jogo”

---oOo---

Referências

[1] História de Portugal em datas – Coordenação de António Simões Rodrigues, Círculo de Leitores 1994

[2] Ver www.tombo.pt – selecionando “Caria” e depois especificamente Caria / Belmonte

Surgem os livros disponíveis. As imagens apresentadas fazem parte do livro mais antigo – Livro misto 1594-1640

[3] Flávio Josefo - https://pt.wikipedia.org/wiki/Fl%C3%A1vio_Josefo

[4] Concelho de Belmonte – Memória e História – Manuel Marques – Edição da Câmara Municipal de Belmonte – 2001

[5] Território de Caria: Marcas lutas e gentes – António Borges – Edição do autor - 2020

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