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Possíveis origens fenícias de topónimos do nosso território

Primeira parte – Por montes e vales, ou talvez não…

por Lourenço Proença de Moura, em 02.10.20

Vista_panoramica_Torre_igreja_Caria_1991.jpg

Panorâmica tirada da torre da igreja de Caria – justaposição de fotografias
Na linha do horizonte, sobre a esquerda, a Serra da Estrela, antigos Montes Hermínios. Sobre a direita, a Serra de Nossa Senhora da Esperança, antigos Montes Crestados [3], vislumbrando-se por trás, sobre o lado direito a vila de Belmonte
LMCPM - 1991

Introdução

Passaram já bastantes anos, desde que numa feira do livro comprei pela primeira vez um livro do Dr. Moisés Espírito Santo. No caso denominava-se Origens orientais da religião popular portuguesa seguido de Ensaio sobre toponímia antiga. O autor descreve de forma bastante detalhada, como muitas tradições populares de cariz religioso, ainda hoje praticadas e enquadradas em cerimoniais da religião católica, apesar de conterem características a ela estranhas, seguem padrões comuns e têm fortes semelhanças com ritos ancestrais vindos do próximo oriente. De forma complementar, explica como muitos topónimos do nosso território surgem de forma agregada, tendo possíveis significados que ganham lógica entendidos também à luz dessa hipotética origem.

Como esses efeitos tão fortes e de origem tão distante aqui chegaram, parece bastante anormal à primeira vista, mas se percebermos o processo histórico, vemos que houve um período de tempo em que tudo se conjugou para que os comerciantes fenícios tenham aqui estabelecido pontos de contacto e conseguido influenciar de forma significativa os povos que aqui habitavam.

Para entender melhor a minha argumentação sobre a forte influência que a cultura fenícia terá tido neste nosso território, sugeria a leitura do Anexo - 1 desta publicação que faz um breve enquadramento histórico-geográfico.

Já há muitos anos que deixei de ser criança, mas desde que "me lembro de ser gente", guardo na memória alguns momentos marcantes em que por razões diversas senti que se “fez luz” de algo que considerei relevante a nível da “compreensão das coisas”. A leitura do livro que referi foi para mim um momento desse tipo, abrindo-me novas janelas para ajudar a compreender este nosso espaço e povo.

Após esse livro adquiri outros do mesmo autor e com base nestas leituras tenho feito análises diversas, por mera curiosidade.

Sucede que, no início de 2019, num passeio casual de fim-de-semana nas imediações de Aveiro (adiante explicarei onde), de forma algo inconsciente surgiu-me uma interrogação, no contexto das referidas leituras, sobre o nome da localidade que estava a visitar. Poderia ter origem fenícia?

Analisei a situação com algum cuidado e fiquei entusiasmado com o resultado. Publiquei mesmo algumas das principais “descobertas” em Maio, no Diário de Aveiro. 

Porém, passado algum tempo mais, surgiu-me uma nova dúvida, que poderei resumir da seguinte forma:

Se na verdade a minha interpretação estava correta e as influências fenícias fossem tão grandes, por que razão em Portugal apenas temos uma terra com o nome em causa?

A dúvida curiosamente demorou poucos dias a encontrar uma resposta. Por uma daquelas coincidências do destino, uma primeira resposta relacionava-se com uma localidade bem perto da minha terra natal, Caria. E a seguir a esta, outras com nomes semelhantes, um pouco por todo o país.

Estas constatações são certamente controversas, pois tanto quanto sei, até ao momento não há provas seguras, sobretudo arqueológicas, de que tenham feito comércio a norte do Tejo. Porém, a confirmarem-se as suposições que aqui coloco, tal realmente aconteceu.

Ficou com curiosidade em conferir estas constatações e suposições?

Venha então comigo nesta viagem…

A localidade junto a Aveiro onde identifiquei topónimos e características que indiciam uma ancestralidade fenícia, denomina-se Vale de Ílhavo.

IMG_3656.JPG

Na próxima publicação relatarei o que encontrei.

Até lá, sugeria a leitura da secção seguinte, que justifica a razão do título desta publicação.

 

Análise à dispersão dos topónimos Vale no atual território de Portugal

O estudo feito tem como ponto de partida uma das dúvidas básicas que o Dr. Moisés Espírito Santo exprime, relativa a topónimos iniciados por “Vale”. Segundo ele, alguns destes poderão ter derivado do teónimo “Baal”, um dos deuses mais venerados do panteão fenício.

A transposição fonética de Baal para Vale é direta.

Esta análise foi feita de uma forma bastante simples, mas que me pareceu esclarecedora. Teve como base a aplicação informática que os CTT disponibilizam na internéte (www.ctt.pt), no caso a pesquisa de códigos postais, acessível ao público.

Fazendo uma pesquisa por distrito, encontramos a seguinte quantidade de topónimos que contêm a dita palavra “Vale” (ex: “Vale”, “Vales”, Quinta do Vale", “Vale de Cambra”).

O leitor pode fazer a pesquisa básica, bastando selecionar o distrito e escrever “*Vale*” (acrescentar um asterisco no início e outro no fim da palavra “Vale”). Saliento que os valores que irá obter serão em princípio ligeiramente diferentes pois terão por exemplo de retirar localidades que correspondem a coincidências de escrita. Exemplo: Macedo de Cavaleiros. A análise que fiz apenas manteve as localidades em que a tónica estivesse na sílaba “Va”.

Quantidade de localidades “Vale” por distrito, por ordem decrescente:

Santarém - 161
Leiria - 141
Coimbra - 132
Castelo Branco - 125
Faro - 115
Beja - 64
Aveiro - 60
Viseu - 54
Setúbal - 52
Lisboa - 45
Portalegre - 30
Bragança - 29
Vila Real - 26
Guarda - 25
Évora - 18
Braga - 9
Viana do Castelo - 6
Porto - 1

Penso que o leitor já constatou algumas curiosidades nestes números, tais como:

Alguns distritos com muitos "Vale" não são claramente dos mais montanhosos. Exemplos: Beja e Santarém, sendo este mesmo o que maior quantidade apresenta.

Pelo contrário, alguns distritos com muito poucos "Vale" terão decerto muitos vales. Exemplos: Bragança, Vila Real, Guarda, Braga e Viana do Castelo.

Penso ser suficiente esta análise para concluir que para lá da orografia, outros fatores terão tido muita relevância na adoção deste topónimo.

 

Anexo 1 – Breve enquadramento histórico-geográfico

O mar mediterrâneo, pelas suas características originais de mar fechado, numa zona temperada, rodeando terras de três continentes tornou-se desde os primeiros tempos um ponto de atração das tribos humanas. Dele retiravam alimento, mas também cedo terão descoberto formas de utilizar esse mar como passagem entre as diversas terras. O engenho humano potenciado pela riqueza resultante da troca de experiências dos povos, resultou em sucessivos aperfeiçoamentos aos mais diversos níveis, técnicos, sociais, etc. O comércio terá ocorrido de forma natural, inicialmente com base em trocas, tudo isto tornando possível o nascimento e desenvolvimento precoces de grandes civilizações. Como sempre sucedeu ao longo da história da humanidade, as épocas de maior progresso ocorreram e tornaram-se mais impressionantes quando os vários povos partilharam ideias, conhecimentos, bens.

A civilização egípcia será a que tem uma história melhor conhecida, mas outras houve também bastante desenvolvidas como a Minóica que terá decorrido entre os séculos XX e XV AC [2].

Estas primeiras grandes civilizações contudo terão influenciado muito pouco os povos que habitavam no espaço em que hoje está Portugal, dada a nossa posição exterior a esse mar inter-terras. Tal situação porém mudou, por volta do que seria o século VIII AC. Na verdade, por essa altura, o povo fenício, que tinha criado no mediterrâneo uma rede comercial bastante dinâmica, sustentada em técnicas de navegação bem consolidadas, ousou ultrapassar aquelas águas relativamente seguras, passando pelas colunas de Hércules / estreito de Gibraltar aventurando-se no bem mais perigoso Atlântico.

Rotas_Fenicias_Map of Phoenicia and its trade rout

Rotas comerciais fenícias [4]

Estas trocas comerciais terão durado vários séculos [2]. Para lá dos bens comerciados muitas outras influências tiveram nesta região, como sejam religiosas e sociais. Neste espaço habitavam várias tribos, vivendo da pastorícia, de alguma agricultura e naturalmente da caça e pesca. O impacto terá sido muito grande, por razões fáceis de entender. A cultura dos povos autóctones era pouco evoluída, a nível de tecnologias, formas sociais, etc. Teriam de passar mais de seis séculos até surgir o império romano e com ele chegar uma nova e grande vaga de conhecimentos técnicos e organização social. Por essa razão é de supor que muitas marcas terão sido aqui deixadas, não apenas físicas, mas também a nível da oralidade, em vocábulos e topónimos, ou de tradições que poderão ter perdurado no tempo se bem que com inevitáveis adaptações.

Os fenícios atribuíam valor a alguns bens que podiam ser recolhidos no nosso território, como por exemplo prata, ouro e sal. Trocavam-nos por bens aqui muito valorizados como cerâmicas, armas, cereais. Criaram entrepostos comerciais. Tinham uma abordagem pacífica pois tal era essencial ao comércio e estabeleciam contratos sociais [1]. Traziam uma tremenda inovação, o uso da escrita, suportada num alfabeto. A sua língua terá passado a ser usada como “língua franca” unificadora do que seriam os vários dialetos tribais, como hoje por exemplo é usado o inglês. Os seus cultos religiosos seriam com toda a probabilidade adotados ou miscigenados com os deuses autóctones, pois vinham de um povo que claramente tinha uma capacidade superior. Barcos impressionantes, armas temíveis. Este povo era decerto tão poderoso pois poderosos seriam também os seus deuses!

Estas influências terão sido consolidadas nas tribos contactadas, que as transportaram nas suas zonas de influência, as quais, como veremos se terão estendido até bem dentro do nosso atual território.

Referências

[1] Espírito Santo, Moisés - Fontes remotas da cultura portuguesa, Assírio e Alvim, 1989

[2] Chaniotis, Angelos - Ancient Crete - Oxford Bibliographies - (https://www.oxfordbibliographies.com/view/document/obo-9780195389661/obo-9780195389661-0071.xml) consultado em 13/5/2020

[3] Concelho de Belmonte Memória e História – Manuel Marques – Edição da Câmara Municipal de Belmonte – 2001

[4] Khan Academy - https://www.khanacademy.org/humanities/whp-origins/era-3-cities-societies-and-empires-6000-bce-to-700-c-e/32-long-distance-trade-betaa/a/read-phoenicians-masters-of-the-sea-beta

 

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