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Retrato_infanta_Joana.jpgRetrato da infanta Joana ~1472 – Museu de Aveiro

Preâmbulo

A imagem com que inicio estas breves reflexões, é a de um quadro pintado em 1472 ou pouco antes, encontrando-se atualmente no Museu de Aveiro. Este museu está localizado numa zona central da cidade, dentro do que foi o perímetro da antiga muralha hoje inexistente, no antigo Convento de Jesus, da Ordem Dominicana feminina. Representa a infanta Joana, filha mais velha de D. Afonso V, irmã portanto de D. João II. Terá nascido em 1453 como mostrou Francisco Messias Trindade Ferreira [15]. No ano de 1472, ou seja, possivelmente pouco após a pintura do quadro, abandonou Lisboa vindo para esta então distante e remota vila, precisamente para este convento, que tinha sido fundado poucos anos antes. As razões deste auto-exílio são alvo de debate, mas presume-se que tenha sido essencialmente uma busca por refúgio das atribulações e intrigas da vida do paço, numa época em que o reino passava por tremendas mudanças, em que por exemplo as conquistas em África e as contínuas descobertas de terras cada vez mais distantes e surpreendentes na costa africana, tornavam Lisboa num centro onde convergiam grandes interesses por poder fortuna e fama, sobretudo entre uma nobreza em perda de influência e uma burguesia a ganhar cada vez mais relevância.

A infanta Joana faleceu em Aveiro em 1490 com 38 anos. Foi beatificada em 1693 e hoje é a padroeira da cidade.

Nesta publicação pretendo fazer uma análise breve a algumas das características deste retrato, e procurar possíveis respostas a perguntas tais como:

  • Seria Joana bela, à luz da estética da época?
  • Seria parecida com os seus parentes mais próximos?
  • A posição da mão terá algum significado?

 

A infanta e o seu retrato

Terei como base dois estudos feitos já há algum tempo mas que a meu ver continuam a ser muito boas referências:

  • “O retrato de Santa Joana no Museu de Aveiro”, estudo feito por Alberto Souto (1888 – 1961) em 1937, publicado no Arquivo Distrital [1].
  • O livro “Iconografia da infanta Santa Joana”, datado de 1952, da autoria de António Gomes da Rocha Madhail (1893 – 1969) [2].

Refere Alberto Souto duas descrições das características físicas da infanta, mas apenas aqui transponho a primeira, pois a outra parece ser uma simples reinterpretação. Joana é descrita desta forma por uma religiosa que a conheceu no referido convento e que consta de um códice que ali existiu e que entretanto faz parte do Museu (texto mantendo a estrutura da época mas ajustado a termos atuais). De notar que esta descrição é atribuída a D. Margarida Pinheiro, mas Francisco Messias Trindade Ferreira [15] mostra que terá sido feita por Isabel Luís:

Era no rosto e corpo muito aposta (com boa apresentação). A fronte muito graciosa. Os olhos verdes muito formosos. O nariz meão e de boa feição. A boca grossa e revolta. Rosto redondo. A cara alva com alguma cor bem-posta. Muito formosa garganta e mãos mais do que se pudesse achar e ver a nenhuma outra mulher. Alta e grande de corpo direito muito aposto e airoso. A vista e representação de grande senhora e estado.

Com base no quadro, poderemos conferir a descrição do rosto e a pose. Diria que há uma correspondência bastante boa, à exceção de dois aspetos:

- a descrição da boca; Pelo menos de acordo com os atuais significados comuns das palavras. Adjetivar os lábios como grossos, poderia fazer supor alguma sátira o que decerto não foi o caso. Curiosamente os comentários que li nos estudos publicados sobre esta particularidade, vão no sentido de que existe um alinhamento. Ou seja, a boca apesar de claramente pequena pode ser considerada “grossa”. E por ter uma curvatura acentuada pode considerar-se adequado o adjetivo “revolta”.

- o “nariz meão”; Na minha perceção, diria que era mais longo que o normal. Parece haver aliás uma distorção da face, surgindo demasiado longa. Tentei avaliar essa hipótese. Como? Irei explicar mais adiante. Até lá peço ao leitor que aceite a minha conclusão. Deduzi que pode haver um alongamento, mas ligeiro, bem menor do que supus inicialmente. Podemos ver de seguida, lado a lado a imagem atual da face e a versão ligeiramente mais curta.

Joana_duas_proporcoes_Irmao.JPGO rosto de Joana na escala em que surge no quadro e com um ligeiro encurtamento de acordo com uma análise que será explicada mais adiante

Sobre a interpretação do quadro, julguei útil transpor aqui parte do conteúdo do livro dedicado à iconografia da infanta [2], em que Madahil cita o estudioso Joaquim de Vasconcelos (1849 — 1936), que em 1914 descreveu assim o quadro, de forma muito minuciosa e sabedora:

O quadro que representa a Princesa é sem dúvida uma das obras de arte mais valiosas do Museu regional de Aveiro, As dimensões da tábua de castanho, sem o caixilho do século XVIII, são as seguintes: altura 0m,60; largura, 0m,40; a madeira, com a grossura de 7 milímetros, está bastante carcomida nas extremidades, e apresenta numerosos furos das larvas dos vermes.

     A Princesa traja á moda da corte

     O busto está visível num decote muito aberto, protegido o peito apenas por uma camisa de cambraia transparente, finamente bordada a retrós de seda preta. Um corpete de brocado de ouro, com bordado semelhante, surge de ambos os lados; apenas a linha ondulada do recorte do vestido ajuda a indicar suavemente os seios, que não aparecem todavia na modelação da carne.

     O vestido mostra-se golpeado na manga do braço direito e junto da cinta; a mão direita descansa no entretalho, com certa intenção, não só para revelar a rara beleza da forma, mas também a preciosa joia que a orna. Os golpes do vestido estão tomados com cordão preto guarnecido de pontas de ouro; cordão igual aperta o vestido no extremo do recorte.

Além da preciosa touca, de que já falarei, há a notar, como enfeite, o anel de ouro com um grande carbúnculo; uma espécie de pulseira, formada por um laço de galão de ouro, talvez com significação simbólica que nos escapa. Um grosso cordão de ouro, torcido, com quatro voltas acompanha o recorte da camisa; mas não tem joia pendente, nem sequer a pérola tradicional.

     Para adorno de uma princesa e de uma noiva – todo o aspeto da figura largamente decotada, o movimento da mão posta sobre o coração indicam, para mim, que se trata, com efeito, de uma noiva – parece-nos modesto o atavio, se não fora a preciosa touca. É ela formada por grossos cordões de fio de ouro torcido nos quais o joalheiro enclausurou uma abundância de pedraria rara: rubis, safiras e pérolas. A touca compõe-se de duas tiras largas, que descem sobre o diadema da frente e se prendem a dois cantos menores; estes fecham a touca dos lados.

     O maior ornamento, e o mais encantador, não seria a touca cintilante; deviam sê-lo os maravilhosos cabelos louros, que descem em abundantes ondas sobre o busto. Infelizmente, o retocador destruiu esse encanto! Não tocou, por fortuna, nos olhos garços, que na estampa parecem muito escuros; o cronista afirma que eram verdes. Como geralmente acontece com as belezas loiras, a tez rosada do rosto, a alvura acetinada do pescoço e do colo andam associadas; a suavidade da epiderme, a elegância intencional da mão aristocrática, o pescoço alto, os ombros descaídos denunciam a raça.

     Acresce a expressão reservada; o segredo dos lábios firmemente cerrados, onde se desenha já nos cantos um vinco amargo. O nariz um tanto longo, mas muito delgado e mais ainda a pequena boca, contrastam com as faces muito cheias; eu diria inchadas, se um exame cuidadoso da pintura não me indicasse que houve indiscretos retoques na carnação; a técnica esfumada não é do efeito primitivo; basta comparar a cor da epiderme no rosto com a do peito e das mãos; ali suja, aqui clara.

     Em conclusão: temos um retrato autêntico da escola portuguesa de pintura da segunda metade do seculo XV, que revela qualidades artísticas não vulgares.

Segundo Joaquim de Vasconcelos, o quadro tem as características de ter sido feito para ser mostrado como noiva a um pretendente. A mão sobre o coração, o amplo decote, a touca preciosa, indicarão isso.

Comentou também que o quadro terá sido retocado e nesse processo ter-se-á perdido o que seria um dos fatores de maior encanto, que seriam os longos cabelos louros descendo em ondas sobre o busto.

Segundo as crónicas os olhos seriam verdes, se bem que tal cor não seja já visível. E salientou a tez rosada do rosto, a alvura do pescoço alto, os ombros descaídos, a expressão reservada, a boca pequena, os lábios cerrados como que guardando um segredo.

Note-se que esta descrição foi feita antes do restauro por que passou em 1935. A imagem seguinte, se bem que a preto e branco, permite perceber que estaria a necessitar dessa intervenção.

Quadro_infanta_Joana_antes_1935.jpgO quadro antes do restauro de 1935 [2]

Os ideais de beleza nesta época

Poderia Joana ser considerada bela à luz da época? Quais seriam os ideais de beleza feminina neste período?

É um exercício arriscado por inúmeras razões, até por estarmos numa época de grandes transições. O que se convencionou denominar de idade média tinha terminado (1459 – Queda de Constantinopla). A idade moderna estava a dar os primeiros passos e Portugal iria mesmo ser um ator principal com a abertura de novas rotas e descobertas.

Umberto Eco [6] refere-se a este período como tendo um conceito de “beleza mágica”. A beleza integraria dois planos, o da imitação da natureza com regras estabelecidas, mas também como contemplação da perfeição do que é sobrenatural, não percetível à vista. Esta interpretação seria estranha para nós, mas coerente para quem vivesse na altura. A técnica do “esfumado” de Leonardo da Vinci, permitiria dar essa vertente mística à perceção de quem observasse as suas obras. Em Florença, o movimento neoplatónico, promovido por Marsílio Ficino, procurou definir um sistema simbólico e mostrar formas de harmonia com o simbolismo cristão. A “beleza supra-sensível” devia poder ser contemplada na beleza que percecionamos através dos cinco sentidos. A mulher, para ser bela, para lá dos atributos físicos devia ser virtuosa.

No que respeita a tendência artísticas e maturidade dos sentidos estéticos e da arte, as cidades-estado daquela região que hoje é o norte de Itália, tinham decerto um muito maior desenvolvimento do que neste nosso periférico território. Por essa razão, se bem que seja decerto discutível determinar qual seria então o sentido do belo no reino de Portugal, penso que ainda possuiria muitas afinidades com a estética medieval. Procurei por isso referências a características de beleza física que pudessem ser consideradas comuns (ver Anexo 1). Aqui as resumo:

- Pele clara, com toques rosados na face, cabeleira loira, testa grande, face alongada, pescoço longo, nariz delicado, olhos brilhantes e claros, lábios pequenos e finos;

- Identifiquei ainda estas outras referências, se bem que não citadas de forma tão frequente: sobrancelhas escuras em curva, braços e dedos longos e delgados, ombros curvilíneos, seios pequenos erguidos, cintura fina…

Será razoável afirmar que o retrato de Joana se aproxima deste ideal. Poderíamos até pensar que o ideal de “rosto alongado” e “dedos longos e delgados” teriam influenciado o artista, se bem que, como referi antes, o rosto de Joana fosse já bastante alongado. Em qualquer caso, decerto que eventuais ajustes se enquadrariam nos conceitos comuns da estética da época e teriam a autorização do seu encomendador.

Parece-me claro que apenas o olhar não corresponde ao ideal, pois Joana mostra-se algo triste. Sendo este quadro provavelmente destinado a ser enviado a outros reinos com que se procuravam estabelecer relações de proximidade através do casamento, seria de esperar uma outra expressão. O referido “olhar brilhante” citado como belo, está ausente. João Gaspar [14] refere que Joana não estaria satisfeita com essa possibilidade, o que justificaria a atitude. Note-se que não seria difícil ao artista, se tal lhe fosse ordenado, que dispusesse um pouco mais de alegria no rosto. Porém tal não sucedeu. O mesmo autor refere que Joana tinha uma personalidade forte e que não era submissa. Poderá ter imposto essa característica ao seu retrato, quem sabe? Mas neste caso estamos no puro reino da especulação… 

 

Parecenças físicas – quem sai aos seus…

Considerei também curioso refletir um pouco sobre as semelhanças físicas de Joana com outros familiares.

Chegaram até aos nossos dias muito poucos quadros desta época que se possam considerar retratos fiéis e com atribuição clara de quem está retratado. O quadro de Joana é nessa perspetiva algo raro e valioso. Os bem conhecidos “painéis de Nuno Gonçalves”, constituem uma extraordinária representação de personagens de uma época anterior, muito provavelmente sendo retratos fiéis, mas até ao momento não há consenso sobre “quem é quem”. Tal sai completamente fora do âmbito deste artigo, mas apenas saliento que até o bem conhecido “homem do chapeirão borgonhês” está longe de ser consensual que corresponda ao infante D. Henrique.

Se vier a ser confirmada essa não correspondência, muitos livros e estátuas terão de ser revistos…
:-)

 

O pai Afonso V

Curiosamente, temos algumas imagens que podemos considerar como retratos fiéis do pai de Joana, o rei Afonso V e o que salientaria em primeiro lugar encontra-se mesmo nos referidos Painéis.

Surge representada uma criança, num local central. É a única criança, trajando de forma rica e com uma espada. Tal representação tem o claro significado de ser rei. Não me vou aqui alongar em detalhes. Apenas saliento que li vários estudos sobre a interpretação dos personagens, dos significados das suas poses, vestes, etc. Considero como muito bem fundamentadas as obras de Henrique Seruca [7] e Fernando Branco [8] Fazem ambas uma compilação de imensos dados interessantes, como sejam a datação das tábuas em que as pinturas foram feitas, as roupas vestidas e as épocas em que “estariam na moda”, as armas exibidas, a possível data que se pode interpretar no botim da criança, etc. Convergem em muitos aspetos como seja a datação aproximada, mas assumem razões de ser para a pintura distintas e daí divergem quanto à atribuição da generalidade dos personagens. Porém coincidem na conclusão de que a criança só pode ser Afonso V, com cerca de 11 anos.

Podemos pois olhar para estes dois retratos com bastante confiança de que estamos perante filha e pai em criança. Diria que há traços na fisionomia, como sejam o olhar e o desenho da boca que sugerem algumas parecenças, mas não me alongo. São opiniões sempre discutíveis e esta imagem pretende apenas mostrar essa situação curiosa de pai e filha lado a lado e nada pretende demonstrar.

Joana_e_pai_Afonso.JPG
Joana lado a lado com a imagem do pai AfonsoV em criança

É conhecido um outro retrato da época, de corpo inteiro, que representa Afonso V em adulto e pode ser vista no Anexo 2. A cara mostra-se na imagem seguinte. Pensa-se ter uma razoável correspondência pois terá sido mandada fazer por um cavaleiro alemão que combateu a seu lado. A forma de olhar, o desenho dos olhos, com o que aparenta serem o que vulgarmente denominamos olheiras, não será fruto do acaso. O olhar algo triste tem semelhanças com o de Joana. O nariz tem um desenho normal, mas relativamente grande, o que terá também alguma correspondência com a filha. Idem para a forma da boca.

AfonsoV_Georg_Ehingen_cara.JPGDesenho / retrato de D. Afonso V com boa probabilidade de corresponder à realidade

 

Por último, sobre D. Afonso V, apenas saliento a diferença entre estas representações que serão próximas da realidade e as que surgem seguindo padrões convencionais, nas estátuas ou livros de história: Barba farta, aspeto austero, espada na mão…

AfonsoV_convencional_3.jpgDesenho / retrato de D. Afonso V convencional
Recolhido de https://www.arqnet.pt/portal/portugal/temashistoria/afonso5.html

 

O irmão D. João II

Na perspetiva de analisar semelhanças, surge de forma natural o interesse em se analisar o que possam ser semelhanças com os irmãos, neste caso o único que atingiu a idade adulta, D. João II.

Curiosamente, sobre este monarca, apesar de ter tido um reinado de grande proeminência, temos poucas referências seguras quanto a serem retratos fidedignos.

Identifiquei três retratos como bastante plausíveis, mas todos eles carecendo de algo que passo a explicar. Dois são pinturas, com algum detalhe, mas de épocas posteriores, supondo-se contudo que sejam cópias de retratos da época. O terceiro é da época, mas trata-se de uma iluminura, ou seja de um desenho que será uma representação simplificada.

 

A iluminura do Livro dos copos [9]

Comecemos por este último. Representa o monarca no denominado Livro dos copos, mandado por si fazer. Se bem que seja uma representação simplificada, penso que permite retirar algumas ilações, como sejam: A compleição física não aparenta ser pesada, apesar da capa a esconder. O nariz mostra um desenho de linhas direitas, sendo bem marcado. A cara ostenta uma barba bastante aparada e curta.

D._João_II_em_iluminura_do_Livro_dos_Copos_(1490-Representação de D. João II – Iluminura do Livro dos Copos

O quadro da Casa ducal de Medinaceli [10]

A imagem seguinte é de uma pintura considerada como tendo uma representação bastante fidedigna. É referida como datando do final do século XVI, mas sendo uma cópia de um retrato do século XV entretanto desaparecido. Podemos também aqui constatar uma compleição elegante, com uma barba e bigode mas bastante curtos, podendo sobre ele aplicarem-se os comentários anteriores que fiz à iluminura.

JoaoII_Casa_Medinaceli.jpgD. João II – Quadro da Casa ducal de Medinaceli

 

O quadro do Museu de História da Arte de Viena [11]

Sobre esta terceira representação a identificação do monarca não terá sido consensual.

O texto no próprio quadro refere ser João o quarto, o que corresponderia ao quarto rei da dinastia de Avis. Foi identificado como correspondendo a D. João II por Pedro Batalha Reis (1906 - 1966) em 1946. António Henrique de Oliveira Marques (1933 – 2007) e Maria Fernanda Gomes da Silva (1931 – 1971) discordaram desta atribuição.

Apesar da polémica a hipótese terá sido considerada muito credível pois passou a ser utilizada em diversas situações, Recordo como exemplo uma das últimas versões da nota de 500 escudos, que se recorda a seguir.

O quadro encontra-se no Museu de História da Arte em Viena (Kunsthistorisches Museum).Será do final do século XVI, mas mais uma vez pode ter-se baseado em imagens anteriores.

Neste ponto apenas comento que numa análise superficial parece haver uma grande semelhança entre as duas representações. Porém o desenho das sobrancelhas e da ponta do nariz são bastante diferentes, como se pode ver na sua colocação lado a lado como se apresenta a seguir.

JoaoII.jpgD. João II – Quadro do Museu de História da Arte de Viena
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_II_de_Portugal

500_escudos_Nota_JoaoII.jpgD. João II representado numa antiga nota de 500 escudos que teve como base o quadro anterior

Duas_imagens_DJoaoII.JPGPresumíveis rostos de D. João II – Quadro de Medinaceli e Museu de História da Arte de Viena

Posso agora finalmente explicar qual a base de análise através da qual concluí que a face de Joana seria provavelmente alongada como no quadro em que se baseia este artigo.

Assumi como termo de comparação o retrato que é mais plausivelmente fidedigno, o da Casa Ducal de Medinaceli.

A forma como estabeleci essa correspondência é explicada no Anexo 3.

 

A posição da mão de Joana

Procurei por último analisar se poderia ser atribuído um significado específico à posição da mão.

Joaquim de Vasconcelos refere, como vimos, que a mão sobre o coração teria o significado de estar a ser representada como noiva.

Nas pesquisas que fiz não consegui confirmar se essa simbologia na época era assumida como regra. Identifiquei um estudo curioso [12] em que associa o significado a um sinal de devoção a chefes. O autor atribui-lhe uma carga misteriosa, de rituais maçónicos. Discordo dessa explicação, mas os exemplos de imagens recolhidas são tantos e tão diversos, que o considero de interesse por essa razão. O leitor faça a sua própria interpretação. Se contudo retirarmos esse “exagero de perspetiva de interpretação”, podemos a meu ver reconhecer algo que na essência é semelhante, mas muito mais naturalmente humano: Em vez da “devoção a chefes”, sugiro interpretar o gesto como “devoção por quem nos sentimos próximos”.

Encontrei precisamente um estudo interessante [13] From the heart: hand over heart as an embodiment of honesty, o qual não se debruça sobre o simbolismo formal, mas sobre o significado que instintivamente atribuímos a esta posição. Este estudo, que se suportou em testes de reação de pessoas, mostra que fazemos instintivamente uma atribuição de maior honestidade a alguém que faça este gesto.

Imagens_do_estudo_significado_de_honestidade.JPGImagem utilizada no estudo From the heart: hand over heart as an embodiment of honesty [13]

Diria pois que poderá existir uma atribuição de significado formal a este gesto, mas não o consegui encontrar. Mas muito provavelmente corresponderá a este tipo de correspondência. Uma mensagem visual ao(s) nosso(s) interlocutor(es) para mostrar que queremos confiar e pretendemos nele(s) confiar.

Esta explicação é também coerente com a hipótese de o retrato de Joana poder ter como objetivo ser apresentado a algum candidato a noivo. Mas na verdade podia não se restringir a esse objetivo, pois este significado no limite ajusta-se a muitos outros fins, como a simples exposição em contexto mais privado.

Outros exemplos deste gesto

Mostro de seguida, apenas para fins ilustrativos, outros quadros desta época e épocas próximas, em que a posição da mão é semelhante e é adotada por homens e mulheres.

Chamo apenas a atenção para o último, que por curiosidade, é de uma prima de Joana, mais precisamente, filha de um primo direito…

 

1440_Filippo_Lippi.jpgRetrato de uma mulher - Filippo Lippi – por volta de 1440
Gemäldegalerie de Berlim
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Filippo_Lippi,_ritratto_femminile.jpg

1470_Retrato_mulher_familia_Hofer.jpgRetrato de mulher da família Hofer – Autor desconhecido - Por volta de 1470
The National Gallery, Londres
https://www.nationalgallery.org.uk/artists/swabian

 

1483_Sandro_Botticelli.jpgRetrato de jovem - Sandro Botticelli – Por volta de 1483
Andrew W. Mellon Collection
https://www.nga.gov/features/slideshows/portrait-painting-in-florence-in-the-later-1400s.html

1508_Girolamo_Benvenuto.jpgRetrato de uma jovem - Girolamo di Benvenuto – por volta de 1508
Samuel H. Kress Collection
https://www.nga.gov/collection/art-object-page.497.html

 

1510_Giorgione_Castelfranco.jpgRetrato de um jovem – Giorgione Castelfranco - - Por volta de 1510
Museu de Belas Artes de Budapeste
https://www.mfab.hu/artworks/portrait-of-a-young-man-the-%CA%BAbroccardo-portrait/

1516_Rafael_de_Urbino.jpgLe Velata (mulher com véu) – Rafael de Urbino – por volta de 1516
Galeria Palatina – Palácio Pitti, Florença
https://en.wikipedia.org/wiki/La_velata

Isabel_Jan_Vermeyen.jpg

Isabel de Portugal – Jan Corneliuz Vermeyer – por volta de 1523
Localização não identificada (terá sido vendido em leilão)
http://www.artnet.com/artists/jan-cornelisz-vermeyen/portrait-of-emperor-charles-v-RnthKoBKVav1OfgxE3GcFQ2

Isabel era filha de D. Manuel I. D. Manuel era primo direito da infanta Joana. Isabel nasceu em 1503. Era muito culta e considerada muito bela. Teve um percurso de vida muito interessante que pode ser visto no ponteiro seguinte. O seu filho primogénito foi Filipe II de Espanha, Filipe I de Portugal.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Isabel_de_Portugal,_Imperatriz_Romano-Germ%C3%A2nica

 

Nota final

As razões que levaram a infanta Joana a refugiar-se em Aveiro têm suscitado debate. Idem também quanto à sua fama de santidade. Independentemente dessas razões, a época em que viveu é na minha opinião das mais fascinantes da nossa história. No sentido de procurar compreender melhor o contexto histórico e o seu percurso de vida, fiz diversas leituras. Nessa sequência, publiquei um romance histórico denominado Os sonhos de Joana, o qual tem naturalmente muitos contextos ficcionados, mas procura seguir da forma mais fidedigna que pude os factos que ocorriam no reino e com ela, ao longo do período em que o romance decorre.

Se gosta de romance histórico, ele pode ser adquirido nas principais livrarias e respetivos sítios na internete.

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Referências

[1] – Alberto Souto; O retrato de Santa Joana no Museu de Aveiro; Arquivo do Distrito de Aveiro, Vol. III, pp. 161-178.

http://ww3.aeje.pt/avcultur/AvCultur/ArkivDtA/Vol03/Vol03p161.htm

[2] Madahil, António Gomes da Rocha; Iconografia da infanta Santa Joana; Coimbra - Oficinas Gráficas da Coimbra Editora, 1957.

http://ww3.aeje.pt/avcultur/AvCultur/ArkivDtA/Vol18/Vol18p186.htm

[3] – Ariés, Philippe e Duby, George – História da vida privada; Edições Afrontamento, 1990, página 358 e 359

http://ww3.aeje.pt/avcultur/AvCultur/ArkivDtA/Vol03/Vol03p161.htm

[4] – Elliot, Lynne - Clothing in the Middle Ages, página 29

https://books.google.pt/books?id=qtq_WSpdo0gC&printsec=frontcover&dq=clothing+in+the+middle+ages&hl=pt-PT&sa=X&redir_esc=y#v=onepage&q=clothing%20in%20the%20middle%20ages&f=false

[5] – Shaus, Margaret - Women and Gender in Medieval Europe: An Encyclopedia; Páginas 64 e 65

https://books.google.pt/books?id=aDhOv6hgN2IC&printsec=frontcover&dq=woman+and+gender+in+medieval&hl=pt-PT&sa=X&redir_esc=y#v=onepage&q=woman%20and%20gender%20in%20medieval&f=false

[6] – Eco, Umberto (Direção da obra) – História da Beleza ; Difel 2002 ; Páginas 176 e seguintes

[7] - Seruca, Henrique – Os painéis de Nuno Gonçalves – Scribe, 2013

[8] - Branco, Fernando – Os novos painéis de S. Vicente – Verbo, 2017

[9] - Livro dos copos, mandado fazer por D. João II a Álvaro Dias de Frielas

Livro de registo de títulos da Ordem Religiosa e Militar de Santiago – Torre do Tombo (1490 / 1498).

Nota 1 Penso que a denominação “copos” tem a ver com as guardas de mão da espada, neste caso empunhada por D. João II.

http://digitarq.arquivos.pt/ViewerForm.aspx?id=4251394

Nota 2: o conteúdo começa a surgir apenas na imagem digitalizada nº 21. A figura mostrada surge na imagem digitalizada nº 29

[10] - Casa ducal de Medinaceli

http://www.fundacionmedinaceli.org/coleccion/fichaobra.aspx?id=153

[11] – Commons Wikipedia

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:IOANNES_QVARTVS_PORTVGALIAE_REX_(Kunsthistorisches_Museum).png

[12] – Significado da mão sobre o coração – Devoção a chefes

http://www.bibliotecapleyades.net/sociopolitica/codex_magica/codex_magica16.htm

[13] – Parzuchowski, Michal e outros - From the heart: hand over heart as an embodiment of honesty

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4121547/

[14] – Gaspar, Monsenhor João - A Princesa Santa Joana e a sua Época – Câmara Municipal de Aveiro – 2012 (3ª edição)

[15] – Ferreira, Francisco Messias Trindade – Infanta Joana, um novo olhar – Edição do autor - 2019

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Anexos

Anexo 1 – Ideal de beleza feminina na idade média

Algumas referências bibliográficas

- Segundo a obra História da vida privada [3], a beleza feminina teria como atributos a pele clara realçada por um toque rosado, cabeleira loira, face alongada, nariz alto e regular, olhos risonhos, lábios finos;

- Já no livro Clothing in the middle ages [4], realçam-se como fatores de beleza a magreza, a pele clara, os cabelos louros, dentes brancos, olhos cinzentos brilhantes, testa grande, lábios pequenos, pescoço longo. Refere que para sublinhar o efeito pretendido na testa, podiam arrancar algum cabelo ou esfregando com uma pedra-pomes afiada ou queimando com cal viva... Aparavam também as pestanas e as sobrancelhas de forma a ficarem mais finas. Apenas jovens ou mulheres solteiras poderiam ter o cabelo longo e solto.

- No livro Women and Gender in Medieval Europe [5], refere-se que a cor e a luz estavam na base do conceito de beleza na época medieval. Em torno desta ideia base enaltecia-se o cabelo louro, sobrancelhas escuras em curva, pele branca brilhante, faces rosadas, nariz delicado, olhos brilhantes cinzentos ou azuis, boca pequena vermelha, pescoço longo, ombros curvilíneos, braços e dedos longos e delgados, seios pequenos erguidos, cintura fina…

 

 

Anexo 2 – Retratos de família

D. Afonso V

AfonsoV_Georg_Ehingen.jpg

Representação do rei D. Afonso V. Um esboço colorido à mão do diário de Georg von Ehingen (1428-1508), atualmente na Württembergische Landesbibliothek em Estugarda.

George von Ehingen foi um cavaleiro alemão que serviu Afonso V em Ceuta em 1458-59. O autor do esboço é incerto, mas foi incluído no manuscrito das memórias de von Ehingen escritas por volta de 1470.

Como von Ehingen foi contemporâneo de Afonso V, esta imagem pode ter uma boa semelhança com a realidade.

Informação recolhida de: https://en.wikipedia.org/wiki/Afonso_V_of_Portugal

 

Leonor de Portugal, irmã de D. Afonso V

Leonor_Austria.jpg

Leonor de Portugal - Imagem recolhida de https://pt.wikipedia.org/wiki/Leonor_de_Portugal,_Imperatriz_Romano-Germ%C3%A2nica

Note-se que esta imagem corresponde a uma parte do quadro original onde surge com o marido Frederico III.

Frederico_III_Leonor_de_Portugal.jpg

Frederico III e Leonor de Portugal
Imagem recolhida de https://en.wikipedia.org/wiki/Frederick_III,_Holy_Roman_Emperor

 

Anexo 3 – A face de Joana – comparação de características com faces de familiares

No ponto que denominei – Análise das parecenças físicas, realcei o que me pareceu ser uma distorção da face, por alongamento vertical.

Como podemos aferir essa hipótese?

A forma mais razoável será porventura comparar com imagens de irmãos. No caso apenas o podemos fazer com o seu irmão D. João II.

Tomei assim como base de trabalho o quadro da Casa Ducal de Medinaceli. Mas temos aqui um problema: Ao contrário do retrato de Joana, este de João não está de frente mas sim do que se pode denominar “de três quartos”. Há assim o efeito de perspetiva das dimensões observadas na horizontal.

JoaoII_Medinaceli_Cara.jpg

Para quantificar esse efeito temos que avaliar o ângulo que a face está a fazer relativamente ao ponto de vista do pintor.

Para isso fiz uma sequência de fotografias, tomando-me a mim próprio como modelo, que vão da posição frontal até um ângulo de 45 graus, em doze passos / treze posições. Obtive assim uma sequência com o seguinte aspeto.

Sequencia_de_fotos_0_45_graus.jpg

Por esta sequência assumi que o ângulo aproximado do quadro de João corresponde a um ângulo de 33 graus aproximadamente.

Comparacao_angulo.JPG

Com este valor, podemos saber por cálculos básicos de trigonometria, que as distâncias na horizontal são reduzidas de um fator de 0,83. Ou seja, como exemplo, se a distância entre os olhos neste retrato for um valor “x”, se o retrato fosse frontal, a distância entre os olhos seria superior, no valor “x / 0,83” (“x” a dividir por o,83).

Podemos assim comparar as proporções deste rosto com o do retrato de Joana.

JoaoII_Medinaceli_Cara_proporcoes.JPG

A proporção neste quadro, entre a distância das pupilas (“a”) e a linha entre elas e a boca (“b”), ou seja a/b = 0,67. Mas aplicando o fator anterior (0,83), temos 0,81.

Ajustando agora estas linhas a esta proporção e colocando-as no retrato de Joana, vemos que está próxima (imagem seguinte do lado esquerdo), necessitando apenas de um ligeiro encurtamento da face. É o que podemos observar na imagem seguinte do lado direito.

Joana_duas_proporcoes_Irmao_com_reguas.JPG

Podemos daqui concluir duas coisas:

- Há uma muito razoável correspondência entre as proporções da face entre o quadro de Joana e o quadro suposto do seu irmão; tal ajuda a reforçar a hipótese de o quadro ser realmente do seu irmão;

- A suposta distorção significativa de alongamento vertical da face, não se confirma; o que sucede é que efetivamente ambos teriam um rosto alongado;

A última constatação fica mais reforçada se fizermos um estudo idêntico mas agora com a tia Leonor…

Permitam-me neste ponto uma breve referência histórica sobre esta pessoa.

Leonor, irmã do pai Afonso V, casou com o imperador Frederico III do Sacro-Império Romano-Germânico.
Dela descende toda a linhagem da Casa de Áustria. Apenas como exemplos de descendentes, foi seu bisneto o imperador Carlos V (1500 – 1558), que reinou em Espanha como Carlos I. Recorde-se que este por sua vez casou com Isabel de Portugal , filha do nosso rei D. Manuel I  e teve como filho Filipe II de Espanha  (Filipe I de Portugal)...

Foi desta linhagem que este último ganhou direito a ser rei de Portugal.

O casamento de Leonor foi possível pois a dinastia de Avis gozava já na altura de bastante prestígio. Desde D. João I que o reino mantinha cidades conquistadas no norte de África e eram entusiasmantes as sucessivas notícias de novas descobertas de terras e bens comerciáveis na costa africana.

Mas a razão de trazer esta referência a este trabalho, tem a ver com o facto de ser um parente bastante direto de Joana e João e dispormos de bons retratos seus, como o da imagem seguinte (ver mais detalhes no Anexo 2).

Leonor_Austria_cara.JPG

Focando-nos nas características do rosto, parece constatar-se uma proximidade com as características do irmão e da sobrinha, com um desenho de nariz proporcionado, algo grande, testa alta, boca bem desenhada.

A posição da face relativamente ao ponto de vista do pintor parece ser idêntica, ou seja igualmente de 33 graus, desta vez para o lado esquerdo. O ajuste de escala é por isso igual ao que foi feito com o quadro de João.

Porém, desta vez obtemos uma relação de dimensões muito distinta, como podemos ver na imagem seguinte e nas medidas recolhidas.

Leonor_Austria_cara_com_reguas.JPG

Feita a mesma análise anterior, encontramos, depois de aplicado o fator de correção, o valor a/b = 1,11.

É um valor muito diferente do encontrado no sobrinho João, que, recordo, era 0,81.

Significa que o rosto de Leonor é significativamente mais redondo.

Apenas por curiosidade, se aplicássemos a proporção de Leonor ao rosto de Joana, teríamos algo como a imagem seguinte.

Joana_redondinha.JPG

Por último, mostro a aplicação das medidas de proporção do quadro de Medinaceli com o do Museu de História da arte de Viena. A imagem seguinte mostra que há uma correspondência perfeita, ou seja, é coerente com a hipótese de serem a mesma pessoa.

JoaoII_Cara_quadro_2_com_proporcoes.JPG

 

 

 

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A Fonte (que não é fonte) da Fonte Nova (que já não é fonte nem era nova)

As desventuras e (a)venturas de uma estátua…

por Lourenço Proença de Moura, em 05.02.21

Quando no já distante ano de 1981, terminei a minha formação académica em Coimbra e comecei o meu percurso profissional em Aveiro, a cidade era muitíssimo diferente de hoje, tanto a nível do espaço físico, como social. A vida universitária, por exemplo, estava ainda numa fase muito inicial. O campus tinha apenas um edifício… E recordo a sensação estranha, quando ao passear nos finais de dia se percebia uma quase desertificação das ruas e mesmo da avenida Lourenço Peixinho à hora da telenovela.

Quem visite hoje esta cidade tão cosmopolita, pode encontrar na parte central da zona mais antiga, a Praça Marquês de Pombal, com uma forma retangular alongada. É atualmente um espaço de lazer, sem trânsito, com alguns serviços, cafés e esplanadas. Naquela época o ambiente era completamente distinto. Havia circulação automóvel criando frequentes situações de congestionamento pois a generalidade das ruas que aí confluíam eram / são estreitas e de sentido único e toda essa zona tinha muitos comércios e serviços. Num dos extremos da praça existia uma estrutura redonda, tendo uns seis metros de diâmetro, com uns repuxos a toda a volta, normalmente desligados, apontando para o centro, onde estavam umas esculturas com forma semelhante a grandes folhas em bronze, na vertical. Na imagem deste postal antigo [1], podemos ver o seu aspeto. Lembro-me que na altura apenas achava que esta fonte esteticamente era pouco feliz.

Praca_Marques_Pombal_Fonte_1.jpg

Também por essa altura em que procurava conhecer a cidade, constatei que no Parque Municipal, num recanto bastante escondido e sombrio pelo efeito das árvores e arbustos, sobre um pequeno repuxo, estava uma estátua com uma dimensão grande demais para espaço tão exíguo.

Esta outra imagem permite perceber como ela se encontrava [2].

Fonte_2.jpg

Alguns anos mais tarde soube que havia uma ligação entre estas duas situações e pesquisei um pouco mais sobre o que sucedera.

Entretanto, como resultado da renovação urbana recente, esta estátua foi reposicionada, estando atualmente num espaço totalmente diferente, de horizontes amplos, sobre as águas do “lago” do Cais da Fonte Nova, junto à antiga Fábrica Cerâmica Jerónimo Pereira Campos. A imagem seguinte mostra essa localização.

Fonte_3.jpg

Sucede que, pelo que eu tinha estudado, a colocação neste local, que julgo casual, tinha em si algumas coincidências curiosas.

Quer acompanhar-me nesta viagem?

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Recuemos então até ao início da década de 1960. Amândio de Sousa (no Anexo 2 apresentam-se umas breves notas biográficas), jovem estudante da Escola de Belas Artes do Porto, estagiava na fábrica de cerâmica Jerónimo Pereira Campos Filhos, única que na altura trabalhava em grés, material com que estava a produzir alguns trabalhos.

Dos contactos feitos com o arquiteto José Semide, urbanista da Câmara Municipal de Aveiro, resultou a encomenda de uma escultura... uma escultura para uma fonte que iria ficar numa das praças centrais de Aveiro.

O jovem Amândio deslocava-se nessa altura com grande frequência a esta terra de espaços amplos e abertos, com horizontes luminosos de Ria, mar, sol e sal. Estava longe da sua tão diferente terra natal, o Funchal, de declives acentuados, em que o mar é em simultâneo muralha e caminho.

Concebe então uma figura feminina, inclinada, de braços cruzados em frente ao peito, a cabeça erguida. Foi esta figura que apresentou como projeto de final de curso, obtendo a avaliação máxima. Uma figura de mulher, pairando sobre as águas. Banha-se e recatada esconde o peito, contemplando o céu.

O seu lugar, será bem no meio de um “mar de humanas gentes”, numa fonte de água, luminosa, no centro desta cidade, no centro dos olhares.

Estamos em 1964, num tempo em que os conceitos de estética e de liberdade de opinião estão confinados às malhas de uma ditadura. As ideias são cinzentas, a cor com que vemos o mundo quando temos apenas direito a dar valor às verdades oficiais.

Ela é apenas uma forma estilizada, lufada de ar fresco, liberta das linhas habituais deste tipo de arte. Mas o comum cidadão imerso na cultura do tempo, poucos exemplos reconhece de mulher símbolo. A Mãe de Jesus, a mulher mãe de família, dona de casa, doméstica e cuidadora dos seus filhos, ou quando muito uma estrela de cinema ou “misse” de beleza estereotipada. Ela não representa nem vagamente nenhuma dessas representações.

Surgem vozes de escárnio em tom cada vez mais alto. Era feia, disforme, indigna de por todos ser olhada em espaço tão nobre.

Mamarracho, desancada, cochuda!

Foi alcunhada então de “Maria da Fonte”, por uma simples associação ao nome que em mulher é o mais comum e ao título com reminiscências históricas que o comum cidadão reconhecia e à fonte em que ela se banhava.

Sob uma chuva de críticas, os responsáveis municipais cederam e em 1971 foi levada para longe desses olhares, para um outro espaço, como prisioneira degredada. Ficou então como já referi, junto a uma fonte bem mais simples, por entre arbustos e vegetação que a resguardavam. Note-se que foi ali colocada com respeito, nesse espaço, belo apesar de tudo.

Entretanto a cidade cresceu. No que se tornou o final do canal da ribeira das Azenhas aberto em 1874 segundo informação do Doutor Francisco Messias Trindade, foi criada uma nova lagoa tendo à sua volta um parque, aberto, luminoso, que nos convida a saborear a sensação de liberdade.

Passados trinta e três anos de exílio, em 2004, alguém nela pensou. Colocaram-na então nesse novo e renovado espaço, sobre as águas, junto à margem dessa lagoa.

A frontaria do edifício da antiga fábrica de cerâmica ergue-se bem ali, à sua frente.

Naquele mesmo espaço, naquela fábrica, em que o seu criador o escultor Amândio de Sousa, possivelmente a terá começado a idealizar…

Banha-se agora sem receio. Olha o céu amplo lá no alto. Flutua e desafia as nuvens.

As águas do tempo lavaram os antigos preconceitos...

 

Chegados ao fim deste relato, poderá o leitor comentar:

“Não estou bem a entender o título desta publicação!

A Fonte (que não é fonte) da Fonte Nova (que já não é fonte nem era nova)”

Pois passo a explicar…

O nome que Amândio de Sousa deu a esta escultura, foi tão só “Fonte”. É assim que consta do seu processo individual de aluno, informação que me foi prestada pelos serviços da universidade.

Fonte Nova, por seu lado é o atual nome daquele espaço em Aveiro. Decorre do nome de uma fonte, atualmente inexistente, mas que se situava perto, junto a uma esquina da antiga muralha. Foi-lhe dado esse nome… há mais de 200 anos! No anexo 1 explico melhor, para quem tenha curiosidade, onde era a sua localização.

E já agora, para terminar, vejamos qual era o aspeto original desta fonte.

Praca_Marques_Pombal_Fonte_4.jpg

Imagem retirada de: https://retratosdeportugal.blogspot.com/

Referências

[1] – Imagem recolhida de http://ww3.aeje.pt/avcultur/avcultur/Postais/Aveipostais15.htm

[2] - Imagem recolhida de http://ww3.aeje.pt/avcultur/hjco/Texturas/Pg000004.htm

[3] – Islenha (revista) – Direção Regional dos Assuntos Culturais - número 49 – Julho / Dezembro de 2011

[4] – As artes plásticas na Madeira (1910 – 1990) –Tese de Mestrado -  António Carlos Jardim Valente https://digituma.uma.pt/bitstream/10400.13/251/1/MestradoCarlosValente.pdf

[5] – Evolução urbana de Aveiro – Maria José Curado - Sana editora - 2019

[6] – Breve vídeo com um resumo biográfico de Amândio de Sousa - https://www.youtube.com/watch?v=v7gsBF4AmfA&ab_channel=600anosMadeiraePortoSanto

[7] Página Facebook - Uma escultura na cidade, dinamizada por Danilo Matos
https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

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Anexo 1 – Localização da “Fonte Nova”

Como Maria José Curado explica na sua obra [5], sabe-se que já em 1571 existia no lugar indicado, na zona central da imagem seguinte, uma fonte denominada “Fonte da Macieira”. Por volta de 1680 passou a denominar-se Fonte Nova.

Temos pois uma “Fonte Nova” com cerca de 240 anos, e que já teria mais de um século quando lhe atribuíram esse nome…

Fontes_antigas_e_estatua_Amandio_de_Sousa.JPG

Imagem retirada do livro Evolução Urbana de Aveiro [5] mostrando entre outros aspetos as fontes antigas de Aveiro.

Acrescentei a localização do espelho de água / Cais da Fonte Nova / Centro de congressos e da estátua que é objeto desta publicação, para ajudar a situar o leitor.

 

Anexo 2 – Breves notas biográficas do escultor Amândio de Sousa e alguns exemplos dos seus trabalhos [3] [4] 

Amandio_de_Sousa_1.jpg

Imagem recolhida de um vídeo publicado no Youtube, o qual apresenta um resumo biográfico [6]

Amândio Manuel Abreu de Sousa nasceu a 22 de Setembro de 1934, no Funchal, sendo o segundo de três filhos de Joaquim Carlos João de Sousa e Henriqueta Ivone de França Abreu.

A sua sensibilidade leva-o de forma natural em busca de desenvolver os seus conhecimentos e competências artísticas.

Em meados da década de 50, na sua ilha da Madeira, sente-se o sopro de algumas brisas de mudança que ali como no continente levam a refletir sobre a forma de abordar a arte e a cultura. Conscientes desta necessidade, em 1956, alguns responsáveis dinamizam as primeiras estruturas que virão a dispor de condições para a promoção de produção artística naquele espaço insular.

Criaram-se nesse ano, na Academia de Música da Madeira, cursos de pintura e escultura, à semelhança dos cursos já disponíveis nas escolas continentais. Passou então a escola a denominar-se Academia de Música e Belas Artes da Madeira. Teve como primeiro diretor o pintor Vasco de Lucena, sucedendo-lhe nestes primeiros anos o pintor Louro de Almeida e o escultor Anjos Teixeira.

No primeiro ano letivo matricularam-se vinte e dois alunos nos cursos de Pintura e Escultura. Alguns dos primeiros alunos vieram a ser percursores, nas décadas seguintes, de movimentos dinamizadores da arte a nível regional e nacional, destacando-se os escultores Franco Fernandes e Amândio de Sousa, a pintora Patrícia Morris e o pintor Danilo Gouveia.

Desejoso de potenciar mais os seus conhecimentos, sobretudo a partir do contacto com outros mestres e experiências culturais, Amândio de Sousa em 1959 inscreve-se na Escola Superior de Belas Artes da Universidade do Porto onde foi aluno de Barata Feyo e Lagoa Henriques, concluindo o curso com a nota máxima.

Conviveu nesse período com os elementos do grupo “os quatro vintes” (o nome era uma paródia a uma marca de tabaco da época – os três vintes), constituído por Ângelo de Sousa, Armando Alves, Jorge Pinheiro, José Rodrigues, assim conhecidos por terem terminado com essa nota de curso. Naturalmente participou na dinâmica própria dessa geração e da “Escola do Porto”.

Ainda como aluno participou em 1960 e 1961 em exposições magnas da Escola, bem como em diversas exposições extra-curriculares da iniciativa dos alunos. Estagiou na fábrica de cerâmica Jerónimo Pereira Campos Filhos, única que na altura trabalhava em grés. Aí teve oportunidade de fazer os relevos colocados na Clínica de Santa Catarina no Funchal.

Dos contactos feitos com o arquiteto José Semide, urbanista da Câmara Municipal de Aveiro, resultou a encomenda de uma escultura para uma fonte que iria ficar numa das praças centrais de Aveiro. Concebeu então uma figura feminina, longilínea, pairando, a que deu o nome “Fonte” e que apresentou como projeto de final de curso obtendo a avaliação máxima.

De regresso ao Funchal, em 1964 abriu com o arquiteto Rui Goes Ferreira a Galeria de Artes Decorativas “Tempo”, sendo uma iniciativa pioneira para a época. O ambiente cultural então incipiente do Funchal, foi surpreendido. A exposição inaugural, denominada Sete Pintores Portugueses, apresentou trabalhos de Manuel Mouga, Jorge Pinheiro, Espiga Pinto, Manuel Pinto, José Rodrigues, Ângelo Sousa e Júlio Resende.

A década de 60 decorreu com enormes transformações a nível mundial, incluindo a nível social e artístico. Apesar do caráter ditatorial e fechado, era impossível evitar que muitas dessas influências se produzissem ocorrendo mesmo alguma abertura a novas tendências a nível oficial. Surgiram então obras escultóricas de características contemporâneas, inclusivamente na Região da Madeira. Amândio de Sousa acompanhou sempre estes projetos de cariz inovador na arquitetura e escultura.

Produziu nessa época diversos trabalhos tais como um friso para a entrada oeste do Edifício da Caixa de Previdência do Funchal, painéis de cimento com relevos vegetalistas estilizados a duas cores, funcionando como esculturas de parede para o átrio da Clínica Santa Catarina e uma outra escultura parietal, uma “maternidade” (mostram-se imagens adiante). Em 1969 concebeu uma escultura em bronze, a primeira obra abstrata ao ar livre, fora do Funchal, com planos e curvas representados de forma simétrica tendo motivado críticas, pela completa abstração do tema. Tal reação era já familiar ao autor, de certa forma semelhante às críticas que a escultura “Fonte” teve em Aveiro.

Amândio de Sousa assumiu-se sempre como alguém preocupado pelo trabalho de fundo, estruturante, rejeitando projetos de ostentação. Segundo ele, a arte deve estar ao serviço do cidadão comum e com ele deve dialogar. Porém tal não significa que a sua abordagem seja básica. A arte deve questionar o observador, para que por adesão ou oposição ocorra um desenvolvimento como ser humano.

«Será sempre de maior dificuldade usarem-se termos de cultura quando se pressupõem ainda no seu estado verdejante, problemas de infraestrutura um dos quais, gravíssimo — o do analfabetismo»
Amândio de Sousa, 3/9/1967

Amândio de Sousa ao longo da sua vida complementou a sua atividade de escultor com a de professor. Foi professor de desenho no Liceu Nacional do Funchal, onde abordou a arte de forma criativa, bem diferente da tradicional.

Foi professor de desenho e marcenaria na Escola Salesiana de Artes e Ofícios. Colaborou no Design de móveis para lojas de mobiliário e decoração.

Foi assessor para os assuntos culturais entre 1976 e 1978 colaborando na elaboração do Guia Básico da Educação Cultural.

Foi diretor do Museu da Quinta das Cruzes de 1977 a 2001. Entre outras evoluções introduzidas, deu-lhe uma consistência orgânica, em que interiores e exteriores se conjugavam, nos espaços da casa, jardins e capela, incluindo um núcleo bibliográfico sobre artes decorativas.

A sua arte tem abordagens bastante diversas, por vezes figurativa, outras vezes totalmente abstrata. Ora seguiu padrões de realização relativamente clássicos, ora “experimentais” através de novas técnicas e materiais.

Mostram-se a seguir algumas imagens ilustrativas das suas obras.

Tem sido também um cidadão permanentemente empenhado na intervenção cívica, tendo feito parte de vários movimentos e petições, tendo sempre em vista a valorização da cultura, património e o seu usufruto por todos, sem discriminação.

É casado com a também escultora Luíza Helena Claude.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Luiza_Clode

Amandio_de_Sousa_2.jpg

Amândio de Sousa

Foto retirada de https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

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Exemplos de obras de Amândio de Sousa

Maternidade.jpg

Maternidade

Local: Clínica de Santa Catarina, Funchal

Data: 1963

Material: Gesso

Foto de Danilo Matos retirada de [7] https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/ 

 

Paineis_Clinica_Santa_Catarina.jpg

Paineis_Clinica_Santa_Catarina_2.jpg

Painéis do átrio da clínica de Santa Catarina

Local: Clínica de Santa Catarina, Funchal

Data: 1963

Material: Cimento e Grés

Fotos de Danilo Matos retiradas de [7] https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

 

 

Senhora_dos_Caminhos_1.jpg

Senhora_dos_Caminhos_2.jpg

Senhora dos Bons Caminhos

Local: Casais d`Além, freguesia da Camacha

Data: 1965

Material: Cantaria e betão

Fotos de Amândio de Sousa, retiradas de [7] https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

 

 

Comemoracao_1o_jogo_Futebol.jpg

Foto que consta do Inventário de José de Sainz-Trueva e Nelson Veríssimo, DRAC 1996, obtida de [7]: https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

Segundo Danilo Matos o autor desta página do Facebook, “Inicialmente a escultura assentava no solo, depois é que a colocaram dentro daquele "pocinho". Agora, depois do roubo em 2016, foi colocada numa base de cantaria cinzenta.”

Escultura comemorativa do 1º jogo de futebol na Madeira em 1875;
(Nota pessoal: Na minha interpretação, a parede por trás será a metáfora do campo de jogo. A bola movimenta-se com o sol, como “esfera de luz”)

Local: Largo da Achada, Camacha

Data: 1969

Material: Latão

 

 

Manuel_Alvares.jpg

Padre jesuíta Manuel Álvares

Local: Ribeira Brava

Data: 1972

Material: Bronze

Foto de Danilo Matos retirada de [7] https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

 

 

Virgem_com_o_menino.jpg

Virgem com o menino

Local: Igreja do Carmo, Câmara de Lobos

Data: 1985

Material: Folha de prata sobre bronze

Foto de Amândio de Sousa, retirada de [7] https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

 

 

Trilogia_dos_poderes.jpg

Trilogia dos poderes – Legislativo, Executivo, Judicial

Local: Pátio da Assembleia Regional da Madeira, Funchal

Data: 1990

Material: Bronze

Foto retirada de http://estatuasmadeirenses.blogspot.com/

 

 

Justica.jpg

Justiça

Local: Tribunal da comarca da Ponta do Sol

Data: 1994

Material: Bronze

Foto retirada de http://estatuasmadeirenses.blogspot.com/

 

 

500_anos_Ponta_do_Sol.jpg

Monumento comemorativo dos 500 anos do concelho da Ponta do Sol

(nota pessoal: Cada século está representado por um nível da cascata)

Local: Ponta do Sol

Data: 2001

Material: Betão

Foto de Danilo Matos retirada de [7] https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

 

 

Homenagem_diaspora.jpg

Homenagem à diáspora madeirense

Local: Parque Temático, Santana.

Data: 2004

Material: Muro de cantaria com intervenção em cobre

Foto retirada de: https://nim.pt/parque-tematico-da-madeira-onde-a-nossa-essencia-se-une/

 

 

 

 

 

 

 

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1900_Balcoes_de_Esgueira.jpgBalcões de Esgueira (já demolidos)
~1900 – Aveiro Antigo – Câmara Municipal de Aveiro - 1985

Como mostrei em anteriores publicações, com base na análise de conjuntos de topónimos geograficamente próximos e da associação a ritos religiosos que ainda hoje têm grande expressão, há fortes indícios de naqueles casos ter havido influência fenícia quer dos nomes quer da origem desses ritos.

Mostrei também como essas influências eram particularmente significativas na zona Aveiro / Coimbra e se terão propagado pela Beira, para o seu interior. Vale de Ílhavo, junto a Aveiro / Ílhavo e Vale da Senhora da Póvoa, na Beira Baixa, foram os espaços principais de análise.

Vou agora fazer um outro exercício que na minha opinião reforça o anterior. Mais uma vez, por algo que denominaria “acasos do destino”, constatei uma curiosa coincidência entre a possível origem do nome da localidade em que habito, Esgueira, atual freguesia de Aveiro, com outra localidade bem próxima de Caria, próxima também do já referido Vale da Senhora da Póvoa. Guardarei porém esta última explicação para uma publicação futura.

Nas publicações anteriores expliquei como esta situação à primeira vista estranha pode ter ocorrido, pelo que não vou maçar o leitor, mas não deixa de ser impressionante assumir que as influências culturais terão sido tão intensas para tal suceder. Um povo de origem tão distante, essencialmente comerciante e navegador, que não terá ocupado o território, pode ter influenciado topónimos no interior do espaço que hoje é Portugal. 

Recordo apenas um aspeto muito relevante aí referido, de que no período em que as influências terão ocorrido o mar entrava mais pelo interior do que atualmente, possivelmente até Eirol e o rio Vouga era mais navegável. A laguna da atual Pateira de Fermentelos estava ligada ao mar.

A imagem seguinte ilustra de forma aproximada qual seria o perfil da costa e do encontro de rios desta região (A forma como este mapa foi elaborado é explicada na publicação anterior a que pode aceder aqui). Sublinhe-se que os nomes das localidades que se representam são sobretudo para o leitor situar a atual geografia do que era a linha de costa antiga. Não significa que já tivessem ocupação humana residente nessa época.

Mapa_Regiao_Aveiro_Esgueira_ha_dois_mil_anos.JPG

Antes de abordar a situação específica de Esgueira, irei referir outros topónimos próximos que podem reforçar a minha “tese”. Alguns são o resultado da minha pesquisa pessoal, tendo por base o dicionário Fenício – Português do Dr. Moisés Espírito Santo [3]. Outros são exemplos de muitas outras propostas deste estudioso na sua obra Origens orientais da religião popular portuguesa [1] na página 300 e seguintes. Estes últimos marco-os com um asterisco (*).

Seguirei em linhas gerais a direção Eirol => Esgueira. Corresponde a uma distância menor que 10 quilómetros.

Os mapas apresentado são obtidos via Google Maps [9].

Sublinho que, como referi nas publicações anteriores, este tipo de reflexões não permite assumir certezas, a menos que sejam corroboradas por outros estudos, por exemplo arqueológicos. Porém, em alguns casos os indícios da toponímia são tão específicos que nos levam a ter uma grande convicção nestas hipóteses.

Mapa_Regiao_Aveiro_Google_Eixo_Carcavelos_Requeixo

- Carcavelos (*) - Lugar, junto a Eirol; Seria a conjunção de duas palavras fenícias "Carca" e "Belus". A primeira significa "chão", ou "domínio". A segunda significa "senhor". Teria o significado de "proprietário". A junção das duas denominaria pois o espaço onde viveria o senhor que teria a jurisdição deste domínio. Possivelmente o encarregado do entreposto comercial. No livro citado, o autor identifica este topónimo em quarenta (!) localizações em Portugal, a maioria perto da costa. Mostra também como em seu redor surgem outros nomes de locais com um padrão muito semelhante e que indiciam a origem fenícia. Como curiosidade, para contextualizar o leitor e se bem que neste “nosso caso” tal não se verifique, o topónimo “Parede” ou “Paredes” ou “Parada” que derivariam de “Pardess”, significando “palácio”, surge próximo na maioria das vezes. Seria outro nome, equivalente a “Carca Belus”.

- Sardinha (*) (Cilha da Sardinha) significa "carreiro"

Taipa.jpg

- Taipa (*); Significa "subir" / inclinação, o que está de acordo com o terreno.

- Rua do Paraíso (na Taipa / Requeixo) – "Paraíso", poderá derivar de "perazu" (que terá dado muitos outros lugares em Portugal denominados ”Paraíso”, mas também "Prazo"), o qual significa "lugar da convocação dos acordos". Seriam locais onde os povos que habitavam esta região se reuniam e renovavam os acordos entre si mas e com os comerciantes fenícios. Tipicamente seriam próximos de locais de culto.

- Ponte da Rata (*); Segundo Moisés Espírito Santo “rata” pode derivar de "Hat"(ate), em fenício, significando "forja". Ao longo do tempo sucederia a evolução "Ate" - Ata - Rata. Uma forja, local em que os metais eram fundidos, era um dos recursos importantes junto a este tipo de entrepostos. Eu coloco uma outra hipótese. Segundo o referido dicionário, a palavra “rataq” significa “ligar”. Este mesmo local poderia já nessa época ser um ponto de passagem, por barcas, ou mesmo uma ponte primitiva. Em qualquer caso será muito pouco provável que um simples bicho (rata) desse o nome a um local.

Eixo.jpg

- Eixo; Pode derivar de “Erêsu” (pronuncia-se Erêchu); significa semear, agricultura, ou seja local de terras aráveis. Segundo Manuel Carvalho [5] as referências mais antigas conhecidas para esta localidade denominam-na Exso (1050), Exu (1081), Exo (1095). Pela minha proposta a evolução seria quase direta, correspondendo à síncope do “r” intervocálico, fenómeno comum de simplificação na evolução das línguas.

- Balsa (Parque da Balsa); Pode ter a mesma origem do que a conhecida cidade do mesmo nome, da época fenícia e romana, localizada junto a Tavira. O nome Balsa decorreria de ser dedicada a Baal. Baal tem dois epítetos que podem fazer esta correspondência: Baal Safon (Baal da montanha sagrada) ou Baal Xamã (Baal Sol, que terá dado nome a outras terras como Balsemão) [4].

- Outeiro; A Rua do Outeiro é essencialmente plana e quase nada inclinada. Não seria a meu ver muito lógico este nome. No seu final do lado do Vouga tem algum declive, mas bastante curto. Por outro lado, a palavra fenícia “Oter” corresponde a lugar de oração. Esta hipótese ganha significado por estar junto ao topónimo “Balsa”.

Neste ponto da sequência de nomes, será de interesse fazer uma breve incursão na direção sudoeste. Muito próximo, a cerca de três quilómetros, com ligação praticamente direta, temos Oliveirinha. Podemos aqui observar topónimos relevantes.

Moita.jpg

Mais uma vez surge o binómio de deuses que já se identificaram em Vale de Ílhavo e Vale da Senhora da Póvoa: O local “Moita”, que decorrerá de Mout, o deus fenício da morte. E “Vale”, de “Baal”, deus fenício da energia e da vida, surgindo em diversos nomes à volta, entre Ruas e Travessas. Por curiosidade, “Vale Diogo” pode decorrer de “Baal Dagon”, em que Dagon era o deus fenício da agricultura. Tal seria coerente com a interpretação do significado dado a Eixo. Seria este o “santuário” associado a Carcavelos.

Chegamos então a Esgueira. Numa publicação anterior, denominada “O famoso Godinho”, mostrei que a Rua do Godinho, situada no centro da antiga localidade, poderá ter o mesmo tipo de origem. Sugeria a sua leitura. Mas neste momento vou focar a argumentação no próprio nome da localidade.

Segundo averiguei, a mais antiga referência atualmente conhecida encontra-se representada no seu antigo selo, onde surge como Isgarie.

Selo_Esgueira.jpg

No dicionário, podemos identificar uma palavra foneticamente próxima: "iskaru", o qual tem como possível tradução "tarefa / material de trabalho". Como referi, este local encontrava-se na linha de costa e assim continuou, embora com assoreamento até por volta do século XV [6] Era possível a embarcações de grande calado ancorarem em Esgueira. Uma grande embarcação figura no brasão da vila.

Antes de Aveiro se desenvolver nos últimos séculos, mas muito provavelmente desde esses tempos mais remotos Esgueira seria um importante ponto de atividade económica, próximo da foz do Vouga, bem como porto de acesso por terra "de" e "para" o interior, de todo o tipo de bens, pescado, exploração de sal, bens agrícolas, etc.

"Terra do trabalho" seria pois um nome perfeitamente adequado.

Curiosamente, depois de ver esta possibilidade, encontrei duas outras referências interessantes.

- Num artigo sobre a vila de Esgueira [7] Monsenhor João Gaspar refere que tem memória de que o termo “esgueira” se utilizava com o significado de jorna / dia de trabalho.

- Se consultarmos por exemplo o dicionário da Infopedia / Porto Editora, este inclui o termo “esgueira” com o mesmo significado: pagamento do dia de trabalho ao jornaleiro.

Coincidências?

 

Na próxima publicação vou procurar mostrar como este mesmo termo fenício "iskaru" terá dado lugar a outros topónimos no nosso território, estando um deles, curiosamente muito perto da minha terra natal, Caria, no concelho de Belmonte.

 

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Referências

Nota: Todas as obras do Dr. Moisés Espírito Santo foram colocadas pelo autor no domínio público e podem ser descarregadas do seguinte endereço:

https://sites.google.com/site/obrasmoisesespiritosanto/

 

[1] Espírito Santo, Moisés - Fontes remotas da cultura portuguesa, Assírio e Alvim, 1989

[2] Espírito Santo, Moisés -Origens orientais da religião popular portuguesa, seguido de Ensaio sobre toponímia antiga - Assírio e Alvim, 1988

[3] Espírito Santo, Moisés – Dicionário Fenício – Português – Universidade Nova de Lisboa – 2ª edição (sem data)

[4] Balsa / Wikipedia https://pt.wikipedia.org/wiki/Balsa_(Lusit%C3%A2nia).

[5] Carvalho, Manuel José Gonçalves de - Povoamento e vida material no concelho de Aveiro: apontamentos para um estudo histórico-toponímico

http://ww3.aeje.pt/avcultur/Avcultur/ManJGCarv/PDFs/MJGC_Mestrado.pdf

[6] Girão, Amorim - Geografia de Portugal (1941)

[7] Gaspar, Monsenhor João – A vila de Esgueira - Notas proferidas num serão informal; Publicado no nº 25/26 do Boletim Municipal de Aveiro.

[8] Infopedia – Porto Editora

https://www.infopedia.pt/

[9] Google Maps

https://www.google.pt/maps/

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Possíveis origens fenícias de topónimos do nosso território

Primeira parte – Por montes e vales, ou talvez não…

por Lourenço Proença de Moura, em 02.10.20

Vista_panoramica_Torre_igreja_Caria_1991.jpg

Panorâmica tirada da torre da igreja de Caria – justaposição de fotografias
Na linha do horizonte, sobre a esquerda, a Serra da Estrela, antigos Montes Hermínios. Sobre a direita, a Serra de Nossa Senhora da Esperança, antigos Montes Crestados [3], vislumbrando-se por trás, sobre o lado direito a vila de Belmonte
LMCPM - 1991

Introdução

Passaram já bastantes anos, desde que numa feira do livro comprei pela primeira vez um livro do Dr. Moisés Espírito Santo. No caso denominava-se Origens orientais da religião popular portuguesa seguido de Ensaio sobre toponímia antiga. O autor descreve de forma bastante detalhada, como muitas tradições populares de cariz religioso, ainda hoje praticadas e enquadradas em cerimoniais da religião católica, apesar de conterem características a ela estranhas, seguem padrões comuns e têm fortes semelhanças com ritos ancestrais vindos do próximo oriente. De forma complementar, explica como muitos topónimos do nosso território surgem de forma agregada, tendo possíveis significados que ganham lógica entendidos também à luz dessa hipotética origem.

Como esses efeitos tão fortes e de origem tão distante aqui chegaram, parece bastante anormal à primeira vista, mas se percebermos o processo histórico, vemos que houve um período de tempo em que tudo se conjugou para que os comerciantes fenícios tenham aqui estabelecido pontos de contacto e conseguido influenciar de forma significativa os povos que aqui habitavam.

Para entender melhor a minha argumentação sobre a forte influência que a cultura fenícia terá tido neste nosso território, sugeria a leitura do Anexo - 1 desta publicação que faz um breve enquadramento histórico-geográfico.

Já há muitos anos que deixei de ser criança, mas desde que "me lembro de ser gente", guardo na memória alguns momentos marcantes em que por razões diversas senti que se “fez luz” de algo que considerei relevante a nível da “compreensão das coisas”. A leitura do livro que referi foi para mim um momento desse tipo, abrindo-me novas janelas para ajudar a compreender este nosso espaço e povo.

Após esse livro adquiri outros do mesmo autor e com base nestas leituras tenho feito análises diversas, por mera curiosidade.

Sucede que, no início de 2019, num passeio casual de fim-de-semana nas imediações de Aveiro (adiante explicarei onde), de forma algo inconsciente surgiu-me uma interrogação, no contexto das referidas leituras, sobre o nome da localidade que estava a visitar. Poderia ter origem fenícia?

Analisei a situação com algum cuidado e fiquei entusiasmado com o resultado. Publiquei mesmo algumas das principais “descobertas” em Maio, no Diário de Aveiro. 

Porém, passado algum tempo mais, surgiu-me uma nova dúvida, que poderei resumir da seguinte forma:

Se na verdade a minha interpretação estava correta e as influências fenícias fossem tão grandes, por que razão em Portugal apenas temos uma terra com o nome em causa?

A dúvida curiosamente demorou poucos dias a encontrar uma resposta. Por uma daquelas coincidências do destino, uma primeira resposta relacionava-se com uma localidade bem perto da minha terra natal, Caria. E a seguir a esta, outras com nomes semelhantes, um pouco por todo o país.

Estas constatações são certamente controversas, pois tanto quanto sei, até ao momento não há provas seguras, sobretudo arqueológicas, de que tenham feito comércio a norte do Tejo. Porém, a confirmarem-se as suposições que aqui coloco, tal realmente aconteceu.

Ficou com curiosidade em conferir estas constatações e suposições?

Venha então comigo nesta viagem…

A localidade junto a Aveiro onde identifiquei topónimos e características que indiciam uma ancestralidade fenícia, denomina-se Vale de Ílhavo.

IMG_3656.JPG

Na próxima publicação relatarei o que encontrei.

Até lá, sugeria a leitura da secção seguinte, que justifica a razão do título desta publicação.

 

Análise à dispersão dos topónimos Vale no atual território de Portugal

O estudo feito tem como ponto de partida uma das dúvidas básicas que o Dr. Moisés Espírito Santo exprime, relativa a topónimos iniciados por “Vale”. Segundo ele, alguns destes poderão ter derivado do teónimo “Baal”, um dos deuses mais venerados do panteão fenício.

A transposição fonética de Baal para Vale é direta.

Esta análise foi feita de uma forma bastante simples, mas que me pareceu esclarecedora. Teve como base a aplicação informática que os CTT disponibilizam na internéte (www.ctt.pt), no caso a pesquisa de códigos postais, acessível ao público.

Fazendo uma pesquisa por distrito, encontramos a seguinte quantidade de topónimos que contêm a dita palavra “Vale” (ex: “Vale”, “Vales”, Quinta do Vale", “Vale de Cambra”).

O leitor pode fazer a pesquisa básica, bastando selecionar o distrito e escrever “*Vale*” (acrescentar um asterisco no início e outro no fim da palavra “Vale”). Saliento que os valores que irá obter serão em princípio ligeiramente diferentes pois terão por exemplo de retirar localidades que correspondem a coincidências de escrita. Exemplo: Macedo de Cavaleiros. A análise que fiz apenas manteve as localidades em que a tónica estivesse na sílaba “Va”.

Quantidade de localidades “Vale” por distrito, por ordem decrescente:

Santarém - 161
Leiria - 141
Coimbra - 132
Castelo Branco - 125
Faro - 115
Beja - 64
Aveiro - 60
Viseu - 54
Setúbal - 52
Lisboa - 45
Portalegre - 30
Bragança - 29
Vila Real - 26
Guarda - 25
Évora - 18
Braga - 9
Viana do Castelo - 6
Porto - 1

Penso que o leitor já constatou algumas curiosidades nestes números, tais como:

Alguns distritos com muitos "Vale" não são claramente dos mais montanhosos. Exemplos: Beja e Santarém, sendo este mesmo o que maior quantidade apresenta.

Pelo contrário, alguns distritos com muito poucos "Vale" terão decerto muitos vales. Exemplos: Bragança, Vila Real, Guarda, Braga e Viana do Castelo.

Penso ser suficiente esta análise para concluir que para lá da orografia, outros fatores terão tido muita relevância na adoção deste topónimo.

 

Anexo 1 – Breve enquadramento histórico-geográfico

O mar mediterrâneo, pelas suas características originais de mar fechado, numa zona temperada, rodeando terras de três continentes tornou-se desde os primeiros tempos um ponto de atração das tribos humanas. Dele retiravam alimento, mas também cedo terão descoberto formas de utilizar esse mar como passagem entre as diversas terras. O engenho humano potenciado pela riqueza resultante da troca de experiências dos povos, resultou em sucessivos aperfeiçoamentos aos mais diversos níveis, técnicos, sociais, etc. O comércio terá ocorrido de forma natural, inicialmente com base em trocas, tudo isto tornando possível o nascimento e desenvolvimento precoces de grandes civilizações. Como sempre sucedeu ao longo da história da humanidade, as épocas de maior progresso ocorreram e tornaram-se mais impressionantes quando os vários povos partilharam ideias, conhecimentos, bens.

A civilização egípcia será a que tem uma história melhor conhecida, mas outras houve também bastante desenvolvidas como a Minóica que terá decorrido entre os séculos XX e XV AC [2].

Estas primeiras grandes civilizações contudo terão influenciado muito pouco os povos que habitavam no espaço em que hoje está Portugal, dada a nossa posição exterior a esse mar inter-terras. Tal situação porém mudou, por volta do que seria o século VIII AC. Na verdade, por essa altura, o povo fenício, que tinha criado no mediterrâneo uma rede comercial bastante dinâmica, sustentada em técnicas de navegação bem consolidadas, ousou ultrapassar aquelas águas relativamente seguras, passando pelas colunas de Hércules / estreito de Gibraltar aventurando-se no bem mais perigoso Atlântico.

Rotas_Fenicias_Map of Phoenicia and its trade rout

Rotas comerciais fenícias [4]

Estas trocas comerciais terão durado vários séculos [2]. Para lá dos bens comerciados muitas outras influências tiveram nesta região, como sejam religiosas e sociais. Neste espaço habitavam várias tribos, vivendo da pastorícia, de alguma agricultura e naturalmente da caça e pesca. O impacto terá sido muito grande, por razões fáceis de entender. A cultura dos povos autóctones era pouco evoluída, a nível de tecnologias, formas sociais, etc. Teriam de passar mais de seis séculos até surgir o império romano e com ele chegar uma nova e grande vaga de conhecimentos técnicos e organização social. Por essa razão é de supor que muitas marcas terão sido aqui deixadas, não apenas físicas, mas também a nível da oralidade, em vocábulos e topónimos, ou de tradições que poderão ter perdurado no tempo se bem que com inevitáveis adaptações.

Os fenícios atribuíam valor a alguns bens que podiam ser recolhidos no nosso território, como por exemplo prata, ouro e sal. Trocavam-nos por bens aqui muito valorizados como cerâmicas, armas, cereais. Criaram entrepostos comerciais. Tinham uma abordagem pacífica pois tal era essencial ao comércio e estabeleciam contratos sociais [1]. Traziam uma tremenda inovação, o uso da escrita, suportada num alfabeto. A sua língua terá passado a ser usada como “língua franca” unificadora do que seriam os vários dialetos tribais, como hoje por exemplo é usado o inglês. Os seus cultos religiosos seriam com toda a probabilidade adotados ou miscigenados com os deuses autóctones, pois vinham de um povo que claramente tinha uma capacidade superior. Barcos impressionantes, armas temíveis. Este povo era decerto tão poderoso pois poderosos seriam também os seus deuses!

Estas influências terão sido consolidadas nas tribos contactadas, que as transportaram nas suas zonas de influência, as quais, como veremos se terão estendido até bem dentro do nosso atual território.

Referências

[1] Espírito Santo, Moisés - Fontes remotas da cultura portuguesa, Assírio e Alvim, 1989

[2] Chaniotis, Angelos - Ancient Crete - Oxford Bibliographies - (https://www.oxfordbibliographies.com/view/document/obo-9780195389661/obo-9780195389661-0071.xml) consultado em 13/5/2020

[3] Concelho de Belmonte Memória e História – Manuel Marques – Edição da Câmara Municipal de Belmonte – 2001

[4] Khan Academy - https://www.khanacademy.org/humanities/whp-origins/era-3-cities-societies-and-empires-6000-bce-to-700-c-e/32-long-distance-trade-betaa/a/read-phoenicians-masters-of-the-sea-beta

 

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Algumas curiosidades sobre a devoção a São Bartolomeu em Aveiro

por Lourenço Proença de Moura, em 18.07.20

IMG_8731b.jpgAltar da capela de São Bartolomeu no dia 24 de Agosto de 2018, dia dedicado a este santo

 

Na publicação anterior fiz uma contextualização da origem desta capela e da sua invocação original, que era diferente da atual. No final comentei que gostaria de partilhar com o leitor algumas curiosidades sobre esta devoção a São Bartolomeu.

A formação das devoções aos “nossos santos”, tem sido alvo de muitos estudos sobretudo nos tempos mais recentes. Importa desde logo distinguir a perspetiva da Igreja - a qual também varia, por exemplo nas vertentes católicas, ortodoxas, coptas, etc - da perspetiva do homem comum, havendo em muitos casos uma enorme distância na valorização dos ritos e dos seus significados.

Há bastante consenso entre os estudiosos de que os atuais cultos decorrem de cultos anteriores, a deuses de panteões mais antigos, que por sua vez os reinterpretaram de outros...

Com o passar do tempo os cultos evoluem, adaptando-se à medida que as culturas dominantes vão instituindo os novos modelos, mas ficando tipicamente alguns sinais das devoções precedentes.

A Igreja procura expurgar naturalmente os vestígios dessas crenças ditas primitivas. O cidadão comum, por sua vez é tendencialmente apegado às tradições que os seus pais e os pais deles lhes passaram…

Resulta daqui um jogo de forças em que por vezes há alguma conflituosidade, mas chega-se normalmente a uma situação de compromisso em que ocorre um convívio entre “o sagrado” e “o profano”.

Sabemos que, com o império romano, chegaram os seus deuses ao território que hoje é Portugal. Mas antes dos romanos, muito provavelmente outras influências religiosas tiveram os povos que aqui habitaram. É por exemplo minha convicção de que neste nosso espaço houve uma grande influência cultural fenícia. Espero numa próxima publicação abordar esse tema.

Nesta publicação farei apenas de forma muito breve algumas notas sobre esta devoção a São Bartolomeu.

Não possuímos muita informação sobre este santo. Foi um dos apóstolos de Jesus Cristo (1). Nos evangelhos, com esse nome, é referido apenas nas listas dos apóstolos. Existe porém a tradição de o fazer corresponder a Natanael, que surge em algumas passagens.  Mesmo a origem do seu nome não é consensual. Virá do aramaico, havendo duas explicações mais prováveis para o seu significado. O prefixo “Bar” significará “filho de”. Podendo o patronímico ser Talmay (Bartalmay) ou Ptolomeu (Barptolomeu).

Para lá dos evangelhos, há relatos de tradição e lendas, mas sem certeza histórica. Terá pregado o cristianismo para oriente, pela Arábia, pela Índia… Terá enfrentado oráculos que foram associados a demónios, ganhando fama de exorcista. Terá sido martirizado e esfolado e é com esse símbolo de sofrimento que é muitas vezes retratado. Por este seu martírio torna-se padroeiro dos que trabalham com peles, como os curtidores.

Como é que um santo com este perfil se torna tão devocionado numa terra como Aveiro e de uma forma geral em todo o litoral (veja-se por exemplo a tradição do "banho santo" em São Bartolomeu do Mar), se bem que também seja muito devocionado no interior do país? Possivelmente nunca saberemos, mas considero muito curiosa a perspetiva de Moisés Espírito Santo (2).

Segundo ele, a representação popular de São Bartolomeu, tem claras influências orientais. E a “nossa” representação de Aveiro é das que melhor transmite essa influência, em particular através do tridente. Nas palavras deste antropólogo, este santo reinterpreta as capacidades e símbolos associadas ao deus grego Poséidon, o qual por sua vez os terá adotado a partir do deus fenício Yam, deus do mar e dos rios. Como Poséidon que tradicionalmente é representado com um golfinho, o qual segundo o mito o servia, São Bartolomeu tem uma relação com “o diabo” que na verdade não é de ódio, como seria normal se essa fosse a natureza efetivamente atribuída.

Neptuno_Poseidon_Sao_Bartolomeu.jpg

Representação de Neptuno / Poséidon - estatueta romana do século 2º/3º DC (3) e a imagem de São Bartolomeu desta capela

O diabo tem com o santo boas relações e serve o santo. Por essa razão, quando é conseguida uma graça ao crente, o pagamento ao santo passa por dar também uma parte ao diabo.

Como curiosidade, refira-se que para lá do nome comum “diabo”, o “ajudante” em algumas terras é denominado de “búgio”. Em Aveiro chamam-lhe “o moço”.

Tudo isto, em conclusão, são suposições que muito dificilmente alguma vez se poderão provar ou desmentir. Mas não deixa de ser uma hipótese interessante, de termos nesta pequena capela de Aveiro uma representação de um poderoso deus de povos antigos, que cruzou panteões, mares e gerações, sobrevivendo agora na forma de São Bartolomeu.

IMG_8737.JPG

Junto uma última foto tirada no mesmo dia da imagem inicial. Nos bancos, sentadas, senhoras que moram no bairro cumprem a tradição de vigília. A D. Luísa Fortes, mais à direita, mordoma desta devoção, assegura a limpeza e a preparação da capela.

À noite, velas são acesas. Por volta da meia-noite, o olhar das pessoas presentes foca-se nessas velas, procurando ver alguma ondulação na sua chama, sinal claro, para quem tem fé, de que o diabo regressou à sua prisão e submissão ao santo e o mundo seguirá o seu rumo normal.

Isso dá-lhes um sentimento de alívio, pois naquele dia findo, no dia de São Bartolomeu, o diabo teve uma hora de seu!

 

 

Referências no texto:

  1. Wikipedia - https://pt.wikipedia.org/wiki/Bartolomeu,_o_Ap%C3%B3stolo
  2. Moisés Espírito Santo – Origens orientais da religião popular portuguesa – Assírio e Alvim - 1988
  3. Museum of Fine Arts of Boston - https://collections.mfa.org/objects/152757

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Algumas curiosidades sobre a capela de São Bartolomeu em Aveiro

por Lourenço Proença de Moura, em 10.07.20

A capela de São Bartolomeu é bem menos conhecida do que a capela de São Gonçalinho, referida numa publicação anterior deste blog. Curiosamente encontra-se relativamente perto da sua “irmã”, a poucas centenas de metros. Mas vários aspetos contribuem para esta sua reduzida visibilidade, quer de quem mora em Aveiro, quer de quem a visita. Está num local algo escondido, fora dos circuitos turísticos mais comuns, raramente é aberta ao público e atualmente não tem nenhuma confraria que dinamize a devoção do seu atual padroeiro.

E contudo… não lhe faltam história e características que justificam ser melhor conhecida e mais visitada.

Img_8676.jpg

Esta capela situa-se no bairro da Beira-Mar em Aveiro, na rua com o nome do mesmo santo, junto ao quartel dos Bombeiros Novos. Fica precisamente no ponto em que é feita a confluência com a Rua Manuel Luiz Nogueira.

Existem muitas descrições desta capela na internet e também em livros. Não me vou alongar na sua descrição. Salientarei apenas que, como é visível na imagem, é de planta circular, bastante singela, de dimensão reduzida. O seu interior é completamente coberto a azulejo. Na opinião do Dr. Amaro Neves (1), os azulejos do altar são de estilo hispano-árabe, possivelmente do tempo da fundação, ou seja de meados do século XVI, enquanto o revestimento do seu interior é feito com azulejos do século XVII, provenientes de uma obra posterior. Em Aveiro poderem-se apreciar azulejos com esta antiguidade é uma oportunidade única segundo este historiador.

Tem a particularidade de sabermos exatamente o nome de quem a mandou fazer, André Dias Caldeira, e em que data, 1568, informação que está bem visível na pedra do friso da porta de entrada.

Img_8680.jpg

Refere o texto: Esta caza mandou fazer Andre Dyas Caldeira Ano 1568

Vivia o reino de Portugal um período de grande desenvolvimento e poder económico, sendo rei D. Sebastião, na altura com 14 anos, longe de imaginar que passados 10 anos tudo se esfumaria em Alcácer Quibir…

Se bem que eu, pessoalmente, não seja estudioso de história, penso que até ao momento em que fiz esta pesquisa há cerca de quatro anos, não eram conhecidos dados concretos sobre André Dias Caldeira. Existia uma presunção de que pudesse ser um André Dias, referido como arcipreste, ou seja um clérigo, numa descrição de um assento de batismo datado de 2 de Setembro de 1571.

Como a seguir irei mostrar, esta suposição não será correta.

Ao consultar por mera curiosidade geral alguns livros paroquiais antigos que o Arquivo Distrital de Aveiro disponibiliza na internet, no livro mais antigo disponível relativamente à paróquia de Vera Cruz, fiquei surpreendido ao ler nas folhas relativas a óbitos, a seguinte referência, cuja imagem aqui apresento.

obito_andre_dias_caldeira.jpg

Adaptando as palavras ao português atual teremos algo como:

Aos 4 do mesmo mês (Fevereiro de 1574 – referido no registo de óbito anterior) faleceu André Dias Caldeira está sepultado na capela de Nossa Senhora da Esperança que ele mesmo fez e fez testamento Sua mulher e sua sogra são herdeiras e testamenteiras. Segue-se a assinatura do pároco.

Temos pois dois aspetos curiosos neste assento:

- Era casado; não seria clérigo em princípio …

-A invocação inicial da capela não era de São Bartolomeu, mas Nossa Senhora da Esperança; tanto quanto sei esta informação era também desconhecida.

Após estas duas surpresas, procurei averiguar se haveria outros registos relativos a André Dias e se bem que não trouxessem muita mais informação, de facto aqui partilho mais algumas “descobertas”:

- Na folha 51, correspondente a casamentos, ano de 1572, André Dias Caldeira surge como testemunha de casamento. Infelizmente sem outra informação.

- A 4 de Julho de 1574, é batizada uma filha sua, Maria. A imagem seguinte apresenta esse registo. É curiosa a forma como foi redigido “filha que foi de…”. Repare o leitor que a filha nasce cerca de 5 meses após a sua morte. E ficamos a saber o nome da esposa, Cecília de Mariz (2).

1574_Maria_filha_de_Andre_Dias_Caldeira_Vera_Cruz.

 

- Na folha 63, relativa a casamentos, ano de 1579, surge uma curiosa referência a uma testemunha, citada como “criada da mulher que foi de André Dias Caldeira”. Saliente-se que o ter sido criada é relevado como sendo uma referência, de onde se presume a importância da família.

No que respeita a registos paroquiais, foi tudo quanto encontrei.

Acrescentaria agora alguns breves comentários à questão da invocação da capela. Presumo que não seja possível saber quando a invocação passou para a atual.

Na descrição que o Dr. António Christo faz desta capela num artigo que foi originalmente publicado possivelmente na década de 1950 (António Christo faleceu em 1963), e republicado em 1989 num simples mas muito interessante livro com o título Capelas de Aveiro, é referido que teria três imagens: Uma Senhora do Ó, São Bartolomeu e São João Batista.

O que podemos observar atualmente e que se mostra na imagem, é coerente com a descrição do Dr. António Christo.

IMG_8686_2.jpg

Na verdade, a Senhora está grávida nesta representação. Confirmou-me o Dr. Amaro Neves que de facto a imagem corresponde a essa invocação e que será da época da construção. Explicou-me também que essa imagem tem sinais de que o seu ventre terá em tempos idos sido alvo de algum desbaste, para que a gravidez não fosse demasiado evidente...

Contingências de outros tempos e outras mentalidades…

A imagem da Virgem grávida tem várias denominações, como por exemplo Senhora do Ó, Senhora da Expectação, mas também Senhora da Esperança. Ora é com esta última denominação que surge no registo de óbito de André Dias Caldeira. Sendo esta imagem dessa época, com muito forte probabilidade terá sido a imagem original a quem a capela foi dedicada. Não será fruto do acaso que possua melhor qualidade que as restantes e que ainda hoje ocupe a parte central do altar.

A razão da mudança de invocação, será quase impossível de saber. A forte tradição de devoção a São Bartolomeu por parte das gentes do mar, é uma causa provável.

Mas sobre isso penso que será curioso partilhar convosco mais alguns pormenores, numa próxima publicação, ainda dedicada a esta capela.

Por último, deixo ao leitor uma imagem do interior, em que se percebe melhor o ambiente que sente o visitante. Poderá ser apenas uma perceção pessoal, mas diria que transmite uma intensa experiência de recolhimento, como se estivéssemos no ventre de uma mãe espiritual.

Img_8686.jpg

Nota 1 - Amaro Neves - Aveiro História e Arte (1984); Amaro Neves - Azulejaria antiga em Aveiro (1985)

Nota 2 - Quando publiquei o artigo não consegui identificar o nome da esposa; Num artigo publicado mais tarde também no Diário de Aveiro por Francisco Messias Trindade Ferreira, essa leitura foi apresentada.

 

Este artigo com ligeiras adaptações foi publicado inicialmente no Diário de Aveiro – edição de 27 de Julho de 2016

Se quiser procurar na internet num sistema de coordenadas, esta capela situa-se no seguinte local:

40.643568, -8.652482

 

 

 

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Sao_Goncalinho_adro_pequena.jpg

A capela de São Gonçalo é seguramente dos edifícios religiosos mais visitados de Aveiro, mesmo que apenas no seu exterior. Localizada na zona denominada “da beira-mar”, torna-se um local de passagem quase obrigatório para quem visite a cidade, se dispuser de pelo menos um par de horas para calcorrear a pé estes espaços bem perto do Rossio, um dos pontos centrais dos itinerários turísticos.

Se bem que seja uma construção graciosa, não é pela sua beleza, nem imponência ou especial riqueza que ela é conhecida, mas sobretudo pela forte ligação popular ao “santo casamenteiro”, que se tornou patrono das gentes da beira-mar e em devoção do qual se realizam desde há muito cerimónias e festas com grande participação do povo.

Para quem como eu mora por perto, possivelmente perderá a conta ao número de vezes que por ali se passeia e saboreia o espaço, naquele adro singelo circundado pelo casario típico.

Foi num destes passeios que já há alguns anos reparei num memorial em pedra, encrustado na parede que fica por trás da capela, a uma altura de cerca de três metros e que se reproduz na imagem seguinte.

Sob uma cruz também gravada na pedra pode ler-se a seguinte legenda:

DELLA ALMA DO HOMEN QUE FAZENDOSSE ESTA OBRA MORREO NELLA – Pter Nter Ae Ma (1) – 1712

Capela_sao_goncalo_traseiras.jpg

É curioso este memorial. Penso não ser comum homenagear-se assim a memória de alguém, em princípio alguém do povo. O que terá justificado tal opção? Diria que, ou a pessoa em causa era importante para a obra, ou o evento que terá levado à morte teve grande impacto na então vila de Aveiro.

Lembrei-me entretanto que talvez fosse possível saber um pouco mais sobre a pessoa que faleceu. Naquela época quase todos os enterramentos eram feitos no local da morte, pois não era possível transportar os cadáveres em pouco tempo para outras localidades.

Fiz então uma pesquisa nos livros paroquiais daquela época. E para minha surpresa, no livro de óbitos da paróquia da Senhora da Apresentação que cobre o referido ano de 1712, encontrei o que procurava. Curiosamente é um registo escrito numa caligrafia bonita e facilmente legível. A imagem seguinte mostra-o. O que nele consta, com ligeiras adaptações à nossa linguagem atual é o seguinte:

Obito_Manuel_Simoens.jpg

Aos treze dias do mês de Abril de mil setecentos e doze anos faleceu de um desastre nas obras de S. Gonçalo um homem a quem me disseram se chamava Manuel Simões viúvo, que era da Taipa ou junto a ela. Não recebeu mais que o sacramento debaixo de condição (1) por morrer muito apressadamente. Foi sepultado nesta igreja de Nossa Senhora da Apresentação e para constar se fez este termo que o Reverendo Vigário assinou era ut supra (2).

Percebe-se desta descrição que a pessoa falecida não teria um papel social especial nem na construção propriamente dita. Mas por outro lado o termo “desastre” indicia que terá ocorrido um problema muito relevante na obra, possivelmente um desmoronamento de boa parte da construção, o qual causou a referida morte.

A pesquisa estaria concluída, mas ao reler a transcrição, reparei que poderia saber um pouco mais desta pessoa. Na verdade, referia ser viúvo e que moraria na Taipa ou perto da Taipa, localidade da paróquia de Requeixo, perto de Aveiro. Será que se conseguiria encontrar o óbito da esposa? Com um pouco mais de pesquisa encontrei-o e mostro-o na imagem seguinte.

Obito_Maria_Joao.jpg

Refere então: Em os 21 dias do mês de Dezembro de 1703 faleceu da vida presente Maria João mulher de Manuel Simões da Taipa. Seu corpo foi sepultado no adro desta igreja de S. Paio de Requeixo e por ser verdade fiz este assento em que me assinei dia mês e ano ut supra.

Ou seja, o “nosso” Manuel Simões esteve viúvo mais de oito anos tendo o trágico fim que já conhecemos.

Depois deste passo na pesquisa outros se poderiam seguir, como seja saber em que ano teriam casado e se teriam tido filhos. Porém nada descobri nos registos de Requeixo. Nem casamento nem filhos. Poderei não ter visto bem, mas outra hipótese é terem casado noutra paróquia, passando depois a morar na Taipa.

Note-se que a frontaria da capela ostenta a data 1714, que corresponderá à data de conclusão da obra.

E foi tudo o que consegui averiguar… Retirando por instantes da poeira do tempo o nome de pessoas simples que ajudaram a construir este espaço em que vivemos…

1 - Pter Nter Ae Ma – Abreviaturas de Pater Noster Ave Maria, ou seja Pai Nosso Ave Maria

2 – Debaixo de condição – Frase que significava que não fora possível seguir os preceitos previstos: confissão, comunhão, sagrado viático, extrema-unção

3 - Era ut supra – Data acima assinalada

 

Este artigo foi publicado no Diário de Aveiro - edição de 22 de Dezembro de 2019, tendo esta versão do blog algumas ligeiras adaptações.

 

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