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A Fonte (que não é fonte) da Fonte Nova (que já não é fonte nem era nova)

As desventuras e (a)venturas de uma estátua…

por Lourenço Proença de Moura, em 05.02.21

Quando no já distante ano de 1981, terminei a minha formação académica em Coimbra e comecei o meu percurso profissional em Aveiro, a cidade era muitíssimo diferente de hoje, tanto a nível do espaço físico, como social. A vida universitária, por exemplo, estava ainda numa fase muito inicial. O campus tinha apenas um edifício… E recordo a sensação estranha, quando ao passear nos finais de dia se percebia uma quase desertificação das ruas e mesmo da avenida Lourenço Peixinho à hora da telenovela.

Quem visite hoje esta cidade tão cosmopolita, pode encontrar na parte central da zona mais antiga, a Praça Marquês de Pombal, com uma forma retangular alongada. É atualmente um espaço de lazer, sem trânsito, com alguns serviços, cafés e esplanadas. Naquela época o ambiente era completamente distinto. Havia circulação automóvel criando frequentes situações de congestionamento pois a generalidade das ruas que aí confluíam eram / são estreitas e de sentido único e toda essa zona tinha muitos comércios e serviços. Num dos extremos da praça existia uma estrutura redonda, tendo uns seis metros de diâmetro, com uns repuxos a toda a volta, normalmente desligados, apontando para o centro, onde estavam umas esculturas com forma semelhante a grandes folhas em bronze, na vertical. Na imagem deste postal antigo [1], podemos ver o seu aspeto. Lembro-me que na altura apenas achava que esta fonte esteticamente era pouco feliz.

Praca_Marques_Pombal_Fonte_1.jpg

Também por essa altura em que procurava conhecer a cidade, constatei que no Parque Municipal, num recanto bastante escondido e sombrio pelo efeito das árvores e arbustos, sobre um pequeno repuxo, estava uma estátua com uma dimensão grande demais para espaço tão exíguo.

Esta outra imagem permite perceber como ela se encontrava [2].

Fonte_2.jpg

Alguns anos mais tarde soube que havia uma ligação entre estas duas situações e pesquisei um pouco mais sobre o que sucedera.

Entretanto, como resultado da renovação urbana recente, esta estátua foi reposicionada, estando atualmente num espaço totalmente diferente, de horizontes amplos, sobre as águas do “lago” do Cais da Fonte Nova, junto à antiga Fábrica Cerâmica Jerónimo Pereira Campos. A imagem seguinte mostra essa localização.

Fonte_3.jpg

Sucede que, pelo que eu tinha estudado, a colocação neste local, que julgo casual, tinha em si algumas coincidências curiosas.

Quer acompanhar-me nesta viagem?

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Recuemos então até ao início da década de 1960. Amândio de Sousa (no Anexo 2 apresentam-se umas breves notas biográficas), jovem estudante da Escola de Belas Artes do Porto, estagiava na fábrica de cerâmica Jerónimo Pereira Campos Filhos, única que na altura trabalhava em grés, material com que estava a produzir alguns trabalhos.

Dos contactos feitos com o arquiteto José Semide, urbanista da Câmara Municipal de Aveiro, resultou a encomenda de uma escultura... uma escultura para uma fonte que iria ficar numa das praças centrais de Aveiro.

O jovem Amândio deslocava-se nessa altura com grande frequência a esta terra de espaços amplos e abertos, com horizontes luminosos de Ria, mar, sol e sal. Estava longe da sua tão diferente terra natal, o Funchal, de declives acentuados, em que o mar é em simultâneo muralha e caminho.

Concebe então uma figura feminina, inclinada, de braços cruzados em frente ao peito, a cabeça erguida. Foi esta figura que apresentou como projeto de final de curso, obtendo a avaliação máxima. Uma figura de mulher, pairando sobre as águas. Banha-se e recatada esconde o peito, contemplando o céu.

O seu lugar, será bem no meio de um “mar de humanas gentes”, numa fonte de água, luminosa, no centro desta cidade, no centro dos olhares.

Estamos em 1964, num tempo em que os conceitos de estética e de liberdade de opinião estão confinados às malhas de uma ditadura. As ideias são cinzentas, a cor com que vemos o mundo quando temos apenas direito a dar valor às verdades oficiais.

Ela é apenas uma forma estilizada, lufada de ar fresco, liberta das linhas habituais deste tipo de arte. Mas o comum cidadão imerso na cultura do tempo, poucos exemplos reconhece de mulher símbolo. A Mãe de Jesus, a mulher mãe de família, dona de casa, doméstica e cuidadora dos seus filhos, ou quando muito uma estrela de cinema ou “misse” de beleza estereotipada. Ela não representa nem vagamente nenhuma dessas representações.

Surgem vozes de escárnio em tom cada vez mais alto. Era feia, disforme, indigna de por todos ser olhada em espaço tão nobre.

Mamarracho, desancada, cochuda!

Foi alcunhada então de “Maria da Fonte”, por uma simples associação ao nome que em mulher é o mais comum e ao título com reminiscências históricas que o comum cidadão reconhecia e à fonte em que ela se banhava.

Sob uma chuva de críticas, os responsáveis municipais cederam e em 1971 foi levada para longe desses olhares, para um outro espaço, como prisioneira degredada. Ficou então como já referi, junto a uma fonte bem mais simples, por entre arbustos e vegetação que a resguardavam. Note-se que foi ali colocada com respeito, nesse espaço, belo apesar de tudo.

Entretanto a cidade cresceu. No que se tornou o final do canal da ribeira das Azenhas aberto em 1874 segundo informação do Doutor Francisco Messias Trindade, foi criada uma nova lagoa tendo à sua volta um parque, aberto, luminoso, que nos convida a saborear a sensação de liberdade.

Passados trinta e três anos de exílio, em 2004, alguém nela pensou. Colocaram-na então nesse novo e renovado espaço, sobre as águas, junto à margem dessa lagoa.

A frontaria do edifício da antiga fábrica de cerâmica ergue-se bem ali, à sua frente.

Naquele mesmo espaço, naquela fábrica, em que o seu criador o escultor Amândio de Sousa, possivelmente a terá começado a idealizar…

Banha-se agora sem receio. Olha o céu amplo lá no alto. Flutua e desafia as nuvens.

As águas do tempo lavaram os antigos preconceitos...

 

Chegados ao fim deste relato, poderá o leitor comentar:

“Não estou bem a entender o título desta publicação!

A Fonte (que não é fonte) da Fonte Nova (que já não é fonte nem era nova)”

Pois passo a explicar…

O nome que Amândio de Sousa deu a esta escultura, foi tão só “Fonte”. É assim que consta do seu processo individual de aluno, informação que me foi prestada pelos serviços da universidade.

Fonte Nova, por seu lado é o atual nome daquele espaço em Aveiro. Decorre do nome de uma fonte, atualmente inexistente, mas que se situava perto, junto a uma esquina da antiga muralha. Foi-lhe dado esse nome… há mais de 200 anos! No anexo 1 explico melhor, para quem tenha curiosidade, onde era a sua localização.

E já agora, para terminar, vejamos qual era o aspeto original desta fonte.

Praca_Marques_Pombal_Fonte_4.jpg

Imagem retirada de: https://retratosdeportugal.blogspot.com/

Referências

[1] – Imagem recolhida de http://ww3.aeje.pt/avcultur/avcultur/Postais/Aveipostais15.htm

[2] - Imagem recolhida de http://ww3.aeje.pt/avcultur/hjco/Texturas/Pg000004.htm

[3] – Islenha (revista) – Direção Regional dos Assuntos Culturais - número 49 – Julho / Dezembro de 2011

[4] – As artes plásticas na Madeira (1910 – 1990) –Tese de Mestrado -  António Carlos Jardim Valente https://digituma.uma.pt/bitstream/10400.13/251/1/MestradoCarlosValente.pdf

[5] – Evolução urbana de Aveiro – Maria José Curado - Sana editora - 2019

[6] – Breve vídeo com um resumo biográfico de Amândio de Sousa - https://www.youtube.com/watch?v=v7gsBF4AmfA&ab_channel=600anosMadeiraePortoSanto

[7] Página Facebook - Uma escultura na cidade, dinamizada por Danilo Matos
https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

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Anexo 1 – Localização da “Fonte Nova”

Como Maria José Curado explica na sua obra [5], sabe-se que já em 1571 existia no lugar indicado, na zona central da imagem seguinte, uma fonte denominada “Fonte da Macieira”. Por volta de 1680 passou a denominar-se Fonte Nova.

Temos pois uma “Fonte Nova” com cerca de 240 anos, e que já teria mais de um século quando lhe atribuíram esse nome…

Fontes_antigas_e_estatua_Amandio_de_Sousa.JPG

Imagem retirada do livro Evolução Urbana de Aveiro [5] mostrando entre outros aspetos as fontes antigas de Aveiro.

Acrescentei a localização do espelho de água / Cais da Fonte Nova / Centro de congressos e da estátua que é objeto desta publicação, para ajudar a situar o leitor.

 

Anexo 2 – Breves notas biográficas do escultor Amândio de Sousa e alguns exemplos dos seus trabalhos [3] [4] 

Amandio_de_Sousa_1.jpg

Imagem recolhida de um vídeo publicado no Youtube, o qual apresenta um resumo biográfico [6]

Amândio Manuel Abreu de Sousa nasceu a 22 de Setembro de 1934, no Funchal, sendo o segundo de três filhos de Joaquim Carlos João de Sousa e Henriqueta Ivone de França Abreu.

A sua sensibilidade leva-o de forma natural em busca de desenvolver os seus conhecimentos e competências artísticas.

Em meados da década de 50, na sua ilha da Madeira, sente-se o sopro de algumas brisas de mudança que ali como no continente levam a refletir sobre a forma de abordar a arte e a cultura. Conscientes desta necessidade, em 1956, alguns responsáveis dinamizam as primeiras estruturas que virão a dispor de condições para a promoção de produção artística naquele espaço insular.

Criaram-se nesse ano, na Academia de Música da Madeira, cursos de pintura e escultura, à semelhança dos cursos já disponíveis nas escolas continentais. Passou então a escola a denominar-se Academia de Música e Belas Artes da Madeira. Teve como primeiro diretor o pintor Vasco de Lucena, sucedendo-lhe nestes primeiros anos o pintor Louro de Almeida e o escultor Anjos Teixeira.

No primeiro ano letivo matricularam-se vinte e dois alunos nos cursos de Pintura e Escultura. Alguns dos primeiros alunos vieram a ser percursores, nas décadas seguintes, de movimentos dinamizadores da arte a nível regional e nacional, destacando-se os escultores Franco Fernandes e Amândio de Sousa, a pintora Patrícia Morris e o pintor Danilo Gouveia.

Desejoso de potenciar mais os seus conhecimentos, sobretudo a partir do contacto com outros mestres e experiências culturais, Amândio de Sousa em 1959 inscreve-se na Escola Superior de Belas Artes da Universidade do Porto onde foi aluno de Barata Feyo e Lagoa Henriques, concluindo o curso com a nota máxima.

Conviveu nesse período com os elementos do grupo “os quatro vintes” (o nome era uma paródia a uma marca de tabaco da época – os três vintes), constituído por Ângelo de Sousa, Armando Alves, Jorge Pinheiro, José Rodrigues, assim conhecidos por terem terminado com essa nota de curso. Naturalmente participou na dinâmica própria dessa geração e da “Escola do Porto”.

Ainda como aluno participou em 1960 e 1961 em exposições magnas da Escola, bem como em diversas exposições extra-curriculares da iniciativa dos alunos. Estagiou na fábrica de cerâmica Jerónimo Pereira Campos Filhos, única que na altura trabalhava em grés. Aí teve oportunidade de fazer os relevos colocados na Clínica de Santa Catarina no Funchal.

Dos contactos feitos com o arquiteto José Semide, urbanista da Câmara Municipal de Aveiro, resultou a encomenda de uma escultura para uma fonte que iria ficar numa das praças centrais de Aveiro. Concebeu então uma figura feminina, longilínea, pairando, a que deu o nome “Fonte” e que apresentou como projeto de final de curso obtendo a avaliação máxima.

De regresso ao Funchal, em 1964 abriu com o arquiteto Rui Goes Ferreira a Galeria de Artes Decorativas “Tempo”, sendo uma iniciativa pioneira para a época. O ambiente cultural então incipiente do Funchal, foi surpreendido. A exposição inaugural, denominada Sete Pintores Portugueses, apresentou trabalhos de Manuel Mouga, Jorge Pinheiro, Espiga Pinto, Manuel Pinto, José Rodrigues, Ângelo Sousa e Júlio Resende.

A década de 60 decorreu com enormes transformações a nível mundial, incluindo a nível social e artístico. Apesar do caráter ditatorial e fechado, era impossível evitar que muitas dessas influências se produzissem ocorrendo mesmo alguma abertura a novas tendências a nível oficial. Surgiram então obras escultóricas de características contemporâneas, inclusivamente na Região da Madeira. Amândio de Sousa acompanhou sempre estes projetos de cariz inovador na arquitetura e escultura.

Produziu nessa época diversos trabalhos tais como um friso para a entrada oeste do Edifício da Caixa de Previdência do Funchal, painéis de cimento com relevos vegetalistas estilizados a duas cores, funcionando como esculturas de parede para o átrio da Clínica Santa Catarina e uma outra escultura parietal, uma “maternidade” (mostram-se imagens adiante). Em 1969 concebeu uma escultura em bronze, a primeira obra abstrata ao ar livre, fora do Funchal, com planos e curvas representados de forma simétrica tendo motivado críticas, pela completa abstração do tema. Tal reação era já familiar ao autor, de certa forma semelhante às críticas que a escultura “Fonte” teve em Aveiro.

Amândio de Sousa assumiu-se sempre como alguém preocupado pelo trabalho de fundo, estruturante, rejeitando projetos de ostentação. Segundo ele, a arte deve estar ao serviço do cidadão comum e com ele deve dialogar. Porém tal não significa que a sua abordagem seja básica. A arte deve questionar o observador, para que por adesão ou oposição ocorra um desenvolvimento como ser humano.

«Será sempre de maior dificuldade usarem-se termos de cultura quando se pressupõem ainda no seu estado verdejante, problemas de infraestrutura um dos quais, gravíssimo — o do analfabetismo»
Amândio de Sousa, 3/9/1967

Amândio de Sousa ao longo da sua vida complementou a sua atividade de escultor com a de professor. Foi professor de desenho no Liceu Nacional do Funchal, onde abordou a arte de forma criativa, bem diferente da tradicional.

Foi professor de desenho e marcenaria na Escola Salesiana de Artes e Ofícios. Colaborou no Design de móveis para lojas de mobiliário e decoração.

Foi assessor para os assuntos culturais entre 1976 e 1978 colaborando na elaboração do Guia Básico da Educação Cultural.

Foi diretor do Museu da Quinta das Cruzes de 1977 a 2001. Entre outras evoluções introduzidas, deu-lhe uma consistência orgânica, em que interiores e exteriores se conjugavam, nos espaços da casa, jardins e capela, incluindo um núcleo bibliográfico sobre artes decorativas.

A sua arte tem abordagens bastante diversas, por vezes figurativa, outras vezes totalmente abstrata. Ora seguiu padrões de realização relativamente clássicos, ora “experimentais” através de novas técnicas e materiais.

Mostram-se a seguir algumas imagens ilustrativas das suas obras.

Tem sido também um cidadão permanentemente empenhado na intervenção cívica, tendo feito parte de vários movimentos e petições, tendo sempre em vista a valorização da cultura, património e o seu usufruto por todos, sem discriminação.

É casado com a também escultora Luíza Helena Claude.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Luiza_Clode

Amandio_de_Sousa_2.jpg

Amândio de Sousa

Foto retirada de https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

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Exemplos de obras de Amândio de Sousa

Maternidade.jpg

Maternidade

Local: Clínica de Santa Catarina, Funchal

Data: 1963

Material: Gesso

Foto de Danilo Matos retirada de [7] https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/ 

 

Paineis_Clinica_Santa_Catarina.jpg

Paineis_Clinica_Santa_Catarina_2.jpg

Painéis do átrio da clínica de Santa Catarina

Local: Clínica de Santa Catarina, Funchal

Data: 1963

Material: Cimento e Grés

Fotos de Danilo Matos retiradas de [7] https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

 

 

Senhora_dos_Caminhos_1.jpg

Senhora_dos_Caminhos_2.jpg

Senhora dos Bons Caminhos

Local: Casais d`Além, freguesia da Camacha

Data: 1965

Material: Cantaria e betão

Fotos de Amândio de Sousa, retiradas de [7] https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

 

 

Comemoracao_1o_jogo_Futebol.jpg

Foto que consta do Inventário de José de Sainz-Trueva e Nelson Veríssimo, DRAC 1996, obtida de [7]: https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

Segundo Danilo Matos o autor desta página do Facebook, “Inicialmente a escultura assentava no solo, depois é que a colocaram dentro daquele "pocinho". Agora, depois do roubo em 2016, foi colocada numa base de cantaria cinzenta.”

Escultura comemorativa do 1º jogo de futebol na Madeira em 1875;
(Nota pessoal: Na minha interpretação, a parede por trás será a metáfora do campo de jogo. A bola movimenta-se com o sol, como “esfera de luz”)

Local: Largo da Achada, Camacha

Data: 1969

Material: Latão

 

 

Manuel_Alvares.jpg

Padre jesuíta Manuel Álvares

Local: Ribeira Brava

Data: 1972

Material: Bronze

Foto de Danilo Matos retirada de [7] https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

 

 

Virgem_com_o_menino.jpg

Virgem com o menino

Local: Igreja do Carmo, Câmara de Lobos

Data: 1985

Material: Folha de prata sobre bronze

Foto de Amândio de Sousa, retirada de [7] https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

 

 

Trilogia_dos_poderes.jpg

Trilogia dos poderes – Legislativo, Executivo, Judicial

Local: Pátio da Assembleia Regional da Madeira, Funchal

Data: 1990

Material: Bronze

Foto retirada de http://estatuasmadeirenses.blogspot.com/

 

 

Justica.jpg

Justiça

Local: Tribunal da comarca da Ponta do Sol

Data: 1994

Material: Bronze

Foto retirada de http://estatuasmadeirenses.blogspot.com/

 

 

500_anos_Ponta_do_Sol.jpg

Monumento comemorativo dos 500 anos do concelho da Ponta do Sol

(nota pessoal: Cada século está representado por um nível da cascata)

Local: Ponta do Sol

Data: 2001

Material: Betão

Foto de Danilo Matos retirada de [7] https://www.facebook.com/Uma-escultura-na-cidade-174719353239639/

 

 

Homenagem_diaspora.jpg

Homenagem à diáspora madeirense

Local: Parque Temático, Santana.

Data: 2004

Material: Muro de cantaria com intervenção em cobre

Foto retirada de: https://nim.pt/parque-tematico-da-madeira-onde-a-nossa-essencia-se-une/

 

 

 

 

 

 

 

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1900_Balcoes_de_Esgueira.jpgBalcões de Esgueira (já demolidos)
~1900 – Aveiro Antigo – Câmara Municipal de Aveiro - 1985

Como mostrei em anteriores publicações, com base na análise de conjuntos de topónimos geograficamente próximos e da associação a ritos religiosos que ainda hoje têm grande expressão, há fortes indícios de naqueles casos ter havido influência fenícia quer dos nomes quer da origem desses ritos.

Mostrei também como essas influências eram particularmente significativas na zona Aveiro / Coimbra e se terão propagado pela Beira, para o seu interior. Vale de Ílhavo, junto a Aveiro / Ílhavo e Vale da Senhora da Póvoa, na Beira Baixa, foram os espaços principais de análise.

Vou agora fazer um outro exercício que na minha opinião reforça o anterior. Mais uma vez, por algo que denominaria “acasos do destino”, constatei uma curiosa coincidência entre a possível origem do nome da localidade em que habito, Esgueira, atual freguesia de Aveiro, com outra localidade bem próxima de Caria, próxima também do já referido Vale da Senhora da Póvoa. Guardarei porém esta última explicação para uma publicação futura.

Nas publicações anteriores expliquei como esta situação à primeira vista estranha pode ter ocorrido, pelo que não vou maçar o leitor, mas não deixa de ser impressionante assumir que as influências culturais terão sido tão intensas para tal suceder. Um povo de origem tão distante, essencialmente comerciante e navegador, que não terá ocupado o território, pode ter influenciado topónimos no interior do espaço que hoje é Portugal. 

Recordo apenas um aspeto muito relevante aí referido, de que no período em que as influências terão ocorrido o mar entrava mais pelo interior do que atualmente, possivelmente até Eirol e o rio Vouga era mais navegável. A laguna da atual Pateira de Fermentelos estava ligada ao mar.

A imagem seguinte ilustra de forma aproximada qual seria o perfil da costa e do encontro de rios desta região (A forma como este mapa foi elaborado é explicada na publicação anterior a que pode aceder aqui). Sublinhe-se que os nomes das localidades que se representam são sobretudo para o leitor situar a atual geografia do que era a linha de costa antiga. Não significa que já tivessem ocupação humana residente nessa época.

Mapa_Regiao_Aveiro_Esgueira_ha_dois_mil_anos.JPG

Antes de abordar a situação específica de Esgueira, irei referir outros topónimos próximos que podem reforçar a minha “tese”. Alguns são o resultado da minha pesquisa pessoal, tendo por base o dicionário Fenício – Português do Dr. Moisés Espírito Santo [3]. Outros são exemplos de muitas outras propostas deste estudioso na sua obra Origens orientais da religião popular portuguesa [1] na página 300 e seguintes. Estes últimos marco-os com um asterisco (*).

Seguirei em linhas gerais a direção Eirol => Esgueira. Corresponde a uma distância menor que 10 quilómetros.

Os mapas apresentado são obtidos via Google Maps [9].

Sublinho que, como referi nas publicações anteriores, este tipo de reflexões não permite assumir certezas, a menos que sejam corroboradas por outros estudos, por exemplo arqueológicos. Porém, em alguns casos os indícios da toponímia são tão específicos que nos levam a ter uma grande convicção nestas hipóteses.

Mapa_Regiao_Aveiro_Google_Eixo_Carcavelos_Requeixo

- Carcavelos (*) - Lugar, junto a Eirol; Seria a conjunção de duas palavras fenícias "Carca" e "Belus". A primeira significa "chão", ou "domínio". A segunda significa "senhor". Teria o significado de "proprietário". A junção das duas denominaria pois o espaço onde viveria o senhor que teria a jurisdição deste domínio. Possivelmente o encarregado do entreposto comercial. No livro citado, o autor identifica este topónimo em quarenta (!) localizações em Portugal, a maioria perto da costa. Mostra também como em seu redor surgem outros nomes de locais com um padrão muito semelhante e que indiciam a origem fenícia. Como curiosidade, para contextualizar o leitor e se bem que neste “nosso caso” tal não se verifique, o topónimo “Parede” ou “Paredes” ou “Parada” que derivariam de “Pardess”, significando “palácio”, surge próximo na maioria das vezes. Seria outro nome, equivalente a “Carca Belus”.

- Sardinha (*) (Cilha da Sardinha) significa "carreiro"

Taipa.jpg

- Taipa (*); Significa "subir" / inclinação, o que está de acordo com o terreno.

- Rua do Paraíso (na Taipa / Requeixo) – "Paraíso", poderá derivar de "perazu" (que terá dado muitos outros lugares em Portugal denominados ”Paraíso”, mas também "Prazo"), o qual significa "lugar da convocação dos acordos". Seriam locais onde os povos que habitavam esta região se reuniam e renovavam os acordos entre si mas e com os comerciantes fenícios. Tipicamente seriam próximos de locais de culto.

- Ponte da Rata (*); Segundo Moisés Espírito Santo “rata” pode derivar de "Hat"(ate), em fenício, significando "forja". Ao longo do tempo sucederia a evolução "Ate" - Ata - Rata. Uma forja, local em que os metais eram fundidos, era um dos recursos importantes junto a este tipo de entrepostos. Eu coloco uma outra hipótese. Segundo o referido dicionário, a palavra “rataq” significa “ligar”. Este mesmo local poderia já nessa época ser um ponto de passagem, por barcas, ou mesmo uma ponte primitiva. Em qualquer caso será muito pouco provável que um simples bicho (rata) desse o nome a um local.

Eixo.jpg

- Eixo; Pode derivar de “Erêsu” (pronuncia-se Erêchu); significa semear, agricultura, ou seja local de terras aráveis. Segundo Manuel Carvalho [5] as referências mais antigas conhecidas para esta localidade denominam-na Exso (1050), Exu (1081), Exo (1095). Pela minha proposta a evolução seria quase direta, correspondendo à síncope do “r” intervocálico, fenómeno comum de simplificação na evolução das línguas.

- Balsa (Parque da Balsa); Pode ter a mesma origem do que a conhecida cidade do mesmo nome, da época fenícia e romana, localizada junto a Tavira. O nome Balsa decorreria de ser dedicada a Baal. Baal tem dois epítetos que podem fazer esta correspondência: Baal Safon (Baal da montanha sagrada) ou Baal Xamã (Baal Sol, que terá dado nome a outras terras como Balsemão) [4].

- Outeiro; A Rua do Outeiro é essencialmente plana e quase nada inclinada. Não seria a meu ver muito lógico este nome. No seu final do lado do Vouga tem algum declive, mas bastante curto. Por outro lado, a palavra fenícia “Oter” corresponde a lugar de oração. Esta hipótese ganha significado por estar junto ao topónimo “Balsa”.

Neste ponto da sequência de nomes, será de interesse fazer uma breve incursão na direção sudoeste. Muito próximo, a cerca de três quilómetros, com ligação praticamente direta, temos Oliveirinha. Podemos aqui observar topónimos relevantes.

Moita.jpg

Mais uma vez surge o binómio de deuses que já se identificaram em Vale de Ílhavo e Vale da Senhora da Póvoa: O local “Moita”, que decorrerá de Mout, o deus fenício da morte. E “Vale”, de “Baal”, deus fenício da energia e da vida, surgindo em diversos nomes à volta, entre Ruas e Travessas. Por curiosidade, “Vale Diogo” pode decorrer de “Baal Dagon”, em que Dagon era o deus fenício da agricultura. Tal seria coerente com a interpretação do significado dado a Eixo. Seria este o “santuário” associado a Carcavelos.

Chegamos então a Esgueira. Numa publicação anterior, denominada “O famoso Godinho”, mostrei que a Rua do Godinho, situada no centro da antiga localidade, poderá ter o mesmo tipo de origem. Sugeria a sua leitura. Mas neste momento vou focar a argumentação no próprio nome da localidade.

Segundo averiguei, a mais antiga referência atualmente conhecida encontra-se representada no seu antigo selo, onde surge como Isgarie.

Selo_Esgueira.jpg

No dicionário, podemos identificar uma palavra foneticamente próxima: "iskaru", o qual tem como possível tradução "tarefa / material de trabalho". Como referi, este local encontrava-se na linha de costa e assim continuou, embora com assoreamento até por volta do século XV [6] Era possível a embarcações de grande calado ancorarem em Esgueira. Uma grande embarcação figura no brasão da vila.

Antes de Aveiro se desenvolver nos últimos séculos, mas muito provavelmente desde esses tempos mais remotos Esgueira seria um importante ponto de atividade económica, próximo da foz do Vouga, bem como porto de acesso por terra "de" e "para" o interior, de todo o tipo de bens, pescado, exploração de sal, bens agrícolas, etc.

"Terra do trabalho" seria pois um nome perfeitamente adequado.

Curiosamente, depois de ver esta possibilidade, encontrei duas outras referências interessantes.

- Num artigo sobre a vila de Esgueira [7] Monsenhor João Gaspar refere que tem memória de que o termo “esgueira” se utilizava com o significado de jorna / dia de trabalho.

- Se consultarmos por exemplo o dicionário da Infopedia / Porto Editora, este inclui o termo “esgueira” com o mesmo significado: pagamento do dia de trabalho ao jornaleiro.

Coincidências?

 

Na próxima publicação vou procurar mostrar como este mesmo termo fenício "iskaru" terá dado lugar a outros topónimos no nosso território, estando um deles, curiosamente muito perto da minha terra natal, Caria, no concelho de Belmonte.

 

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Referências

Nota: Todas as obras do Dr. Moisés Espírito Santo foram colocadas pelo autor no domínio público e podem ser descarregadas do seguinte endereço:

https://sites.google.com/site/obrasmoisesespiritosanto/

 

[1] Espírito Santo, Moisés - Fontes remotas da cultura portuguesa, Assírio e Alvim, 1989

[2] Espírito Santo, Moisés -Origens orientais da religião popular portuguesa, seguido de Ensaio sobre toponímia antiga - Assírio e Alvim, 1988

[3] Espírito Santo, Moisés – Dicionário Fenício – Português – Universidade Nova de Lisboa – 2ª edição (sem data)

[4] Balsa / Wikipedia https://pt.wikipedia.org/wiki/Balsa_(Lusit%C3%A2nia).

[5] Carvalho, Manuel José Gonçalves de - Povoamento e vida material no concelho de Aveiro: apontamentos para um estudo histórico-toponímico

http://ww3.aeje.pt/avcultur/Avcultur/ManJGCarv/PDFs/MJGC_Mestrado.pdf

[6] Girão, Amorim - Geografia de Portugal (1941)

[7] Gaspar, Monsenhor João – A vila de Esgueira - Notas proferidas num serão informal; Publicado no nº 25/26 do Boletim Municipal de Aveiro.

[8] Infopedia – Porto Editora

https://www.infopedia.pt/

[9] Google Maps

https://www.google.pt/maps/

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Possíveis origens fenícias de topónimos do nosso território

Primeira parte – Por montes e vales, ou talvez não…

por Lourenço Proença de Moura, em 02.10.20

Vista_panoramica_Torre_igreja_Caria_1991.jpg

Panorâmica tirada da torre da igreja de Caria – justaposição de fotografias
Na linha do horizonte, sobre a esquerda, a Serra da Estrela, antigos Montes Hermínios. Sobre a direita, a Serra de Nossa Senhora da Esperança, antigos Montes Crestados [3], vislumbrando-se por trás, sobre o lado direito a vila de Belmonte
LMCPM - 1991

Introdução

Passaram já bastantes anos, desde que numa feira do livro comprei pela primeira vez um livro do Dr. Moisés Espírito Santo. No caso denominava-se Origens orientais da religião popular portuguesa seguido de Ensaio sobre toponímia antiga. O autor descreve de forma bastante detalhada, como muitas tradições populares de cariz religioso, ainda hoje praticadas e enquadradas em cerimoniais da religião católica, apesar de conterem características a ela estranhas, seguem padrões comuns e têm fortes semelhanças com ritos ancestrais vindos do próximo oriente. De forma complementar, explica como muitos topónimos do nosso território surgem de forma agregada, tendo possíveis significados que ganham lógica entendidos também à luz dessa hipotética origem.

Como esses efeitos tão fortes e de origem tão distante aqui chegaram, parece bastante anormal à primeira vista, mas se percebermos o processo histórico, vemos que houve um período de tempo em que tudo se conjugou para que os comerciantes fenícios tenham aqui estabelecido pontos de contacto e conseguido influenciar de forma significativa os povos que aqui habitavam.

Para entender melhor a minha argumentação sobre a forte influência que a cultura fenícia terá tido neste nosso território, sugeria a leitura do Anexo - 1 desta publicação que faz um breve enquadramento histórico-geográfico.

Já há muitos anos que deixei de ser criança, mas desde que "me lembro de ser gente", guardo na memória alguns momentos marcantes em que por razões diversas senti que se “fez luz” de algo que considerei relevante a nível da “compreensão das coisas”. A leitura do livro que referi foi para mim um momento desse tipo, abrindo-me novas janelas para ajudar a compreender este nosso espaço e povo.

Após esse livro adquiri outros do mesmo autor e com base nestas leituras tenho feito análises diversas, por mera curiosidade.

Sucede que, no início de 2019, num passeio casual de fim-de-semana nas imediações de Aveiro (adiante explicarei onde), de forma algo inconsciente surgiu-me uma interrogação, no contexto das referidas leituras, sobre o nome da localidade que estava a visitar. Poderia ter origem fenícia?

Analisei a situação com algum cuidado e fiquei entusiasmado com o resultado. Publiquei mesmo algumas das principais “descobertas” em Maio, no Diário de Aveiro. 

Porém, passado algum tempo mais, surgiu-me uma nova dúvida, que poderei resumir da seguinte forma:

Se na verdade a minha interpretação estava correta e as influências fenícias fossem tão grandes, por que razão em Portugal apenas temos uma terra com o nome em causa?

A dúvida curiosamente demorou poucos dias a encontrar uma resposta. Por uma daquelas coincidências do destino, uma primeira resposta relacionava-se com uma localidade bem perto da minha terra natal, Caria. E a seguir a esta, outras com nomes semelhantes, um pouco por todo o país.

Estas constatações são certamente controversas, pois tanto quanto sei, até ao momento não há provas seguras, sobretudo arqueológicas, de que tenham feito comércio a norte do Tejo. Porém, a confirmarem-se as suposições que aqui coloco, tal realmente aconteceu.

Ficou com curiosidade em conferir estas constatações e suposições?

Venha então comigo nesta viagem…

A localidade junto a Aveiro onde identifiquei topónimos e características que indiciam uma ancestralidade fenícia, denomina-se Vale de Ílhavo.

IMG_3656.JPG

Na próxima publicação relatarei o que encontrei.

Até lá, sugeria a leitura da secção seguinte, que justifica a razão do título desta publicação.

 

Análise à dispersão dos topónimos Vale no atual território de Portugal

O estudo feito tem como ponto de partida uma das dúvidas básicas que o Dr. Moisés Espírito Santo exprime, relativa a topónimos iniciados por “Vale”. Segundo ele, alguns destes poderão ter derivado do teónimo “Baal”, um dos deuses mais venerados do panteão fenício.

A transposição fonética de Baal para Vale é direta.

Esta análise foi feita de uma forma bastante simples, mas que me pareceu esclarecedora. Teve como base a aplicação informática que os CTT disponibilizam na internéte (www.ctt.pt), no caso a pesquisa de códigos postais, acessível ao público.

Fazendo uma pesquisa por distrito, encontramos a seguinte quantidade de topónimos que contêm a dita palavra “Vale” (ex: “Vale”, “Vales”, Quinta do Vale", “Vale de Cambra”).

O leitor pode fazer a pesquisa básica, bastando selecionar o distrito e escrever “*Vale*” (acrescentar um asterisco no início e outro no fim da palavra “Vale”). Saliento que os valores que irá obter serão em princípio ligeiramente diferentes pois terão por exemplo de retirar localidades que correspondem a coincidências de escrita. Exemplo: Macedo de Cavaleiros. A análise que fiz apenas manteve as localidades em que a tónica estivesse na sílaba “Va”.

Quantidade de localidades “Vale” por distrito, por ordem decrescente:

Santarém - 161
Leiria - 141
Coimbra - 132
Castelo Branco - 125
Faro - 115
Beja - 64
Aveiro - 60
Viseu - 54
Setúbal - 52
Lisboa - 45
Portalegre - 30
Bragança - 29
Vila Real - 26
Guarda - 25
Évora - 18
Braga - 9
Viana do Castelo - 6
Porto - 1

Penso que o leitor já constatou algumas curiosidades nestes números, tais como:

Alguns distritos com muitos "Vale" não são claramente dos mais montanhosos. Exemplos: Beja e Santarém, sendo este mesmo o que maior quantidade apresenta.

Pelo contrário, alguns distritos com muito poucos "Vale" terão decerto muitos vales. Exemplos: Bragança, Vila Real, Guarda, Braga e Viana do Castelo.

Penso ser suficiente esta análise para concluir que para lá da orografia, outros fatores terão tido muita relevância na adoção deste topónimo.

 

Anexo 1 – Breve enquadramento histórico-geográfico

O mar mediterrâneo, pelas suas características originais de mar fechado, numa zona temperada, rodeando terras de três continentes tornou-se desde os primeiros tempos um ponto de atração das tribos humanas. Dele retiravam alimento, mas também cedo terão descoberto formas de utilizar esse mar como passagem entre as diversas terras. O engenho humano potenciado pela riqueza resultante da troca de experiências dos povos, resultou em sucessivos aperfeiçoamentos aos mais diversos níveis, técnicos, sociais, etc. O comércio terá ocorrido de forma natural, inicialmente com base em trocas, tudo isto tornando possível o nascimento e desenvolvimento precoces de grandes civilizações. Como sempre sucedeu ao longo da história da humanidade, as épocas de maior progresso ocorreram e tornaram-se mais impressionantes quando os vários povos partilharam ideias, conhecimentos, bens.

A civilização egípcia será a que tem uma história melhor conhecida, mas outras houve também bastante desenvolvidas como a Minóica que terá decorrido entre os séculos XX e XV AC [2].

Estas primeiras grandes civilizações contudo terão influenciado muito pouco os povos que habitavam no espaço em que hoje está Portugal, dada a nossa posição exterior a esse mar inter-terras. Tal situação porém mudou, por volta do que seria o século VIII AC. Na verdade, por essa altura, o povo fenício, que tinha criado no mediterrâneo uma rede comercial bastante dinâmica, sustentada em técnicas de navegação bem consolidadas, ousou ultrapassar aquelas águas relativamente seguras, passando pelas colunas de Hércules / estreito de Gibraltar aventurando-se no bem mais perigoso Atlântico.

Rotas_Fenicias_Map of Phoenicia and its trade rout

Rotas comerciais fenícias [4]

Estas trocas comerciais terão durado vários séculos [2]. Para lá dos bens comerciados muitas outras influências tiveram nesta região, como sejam religiosas e sociais. Neste espaço habitavam várias tribos, vivendo da pastorícia, de alguma agricultura e naturalmente da caça e pesca. O impacto terá sido muito grande, por razões fáceis de entender. A cultura dos povos autóctones era pouco evoluída, a nível de tecnologias, formas sociais, etc. Teriam de passar mais de seis séculos até surgir o império romano e com ele chegar uma nova e grande vaga de conhecimentos técnicos e organização social. Por essa razão é de supor que muitas marcas terão sido aqui deixadas, não apenas físicas, mas também a nível da oralidade, em vocábulos e topónimos, ou de tradições que poderão ter perdurado no tempo se bem que com inevitáveis adaptações.

Os fenícios atribuíam valor a alguns bens que podiam ser recolhidos no nosso território, como por exemplo prata, ouro e sal. Trocavam-nos por bens aqui muito valorizados como cerâmicas, armas, cereais. Criaram entrepostos comerciais. Tinham uma abordagem pacífica pois tal era essencial ao comércio e estabeleciam contratos sociais [1]. Traziam uma tremenda inovação, o uso da escrita, suportada num alfabeto. A sua língua terá passado a ser usada como “língua franca” unificadora do que seriam os vários dialetos tribais, como hoje por exemplo é usado o inglês. Os seus cultos religiosos seriam com toda a probabilidade adotados ou miscigenados com os deuses autóctones, pois vinham de um povo que claramente tinha uma capacidade superior. Barcos impressionantes, armas temíveis. Este povo era decerto tão poderoso pois poderosos seriam também os seus deuses!

Estas influências terão sido consolidadas nas tribos contactadas, que as transportaram nas suas zonas de influência, as quais, como veremos se terão estendido até bem dentro do nosso atual território.

Referências

[1] Espírito Santo, Moisés - Fontes remotas da cultura portuguesa, Assírio e Alvim, 1989

[2] Chaniotis, Angelos - Ancient Crete - Oxford Bibliographies - (https://www.oxfordbibliographies.com/view/document/obo-9780195389661/obo-9780195389661-0071.xml) consultado em 13/5/2020

[3] Concelho de Belmonte Memória e História – Manuel Marques – Edição da Câmara Municipal de Belmonte – 2001

[4] Khan Academy - https://www.khanacademy.org/humanities/whp-origins/era-3-cities-societies-and-empires-6000-bce-to-700-c-e/32-long-distance-trade-betaa/a/read-phoenicians-masters-of-the-sea-beta

 

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Algumas curiosidades sobre a devoção a São Bartolomeu em Aveiro

por Lourenço Proença de Moura, em 18.07.20

IMG_8731b.jpgAltar da capela de São Bartolomeu no dia 24 de Agosto de 2018, dia dedicado a este santo

 

Na publicação anterior fiz uma contextualização da origem desta capela e da sua invocação original, que era diferente da atual. No final comentei que gostaria de partilhar com o leitor algumas curiosidades sobre esta devoção a São Bartolomeu.

A formação das devoções aos “nossos santos”, tem sido alvo de muitos estudos sobretudo nos tempos mais recentes. Importa desde logo distinguir a perspetiva da Igreja - a qual também varia, por exemplo nas vertentes católicas, ortodoxas, coptas, etc - da perspetiva do homem comum, havendo em muitos casos uma enorme distância na valorização dos ritos e dos seus significados.

Há bastante consenso entre os estudiosos de que os atuais cultos decorrem de cultos anteriores, a deuses de panteões mais antigos, que por sua vez os reinterpretaram de outros...

Com o passar do tempo os cultos evoluem, adaptando-se à medida que as culturas dominantes vão instituindo os novos modelos, mas ficando tipicamente alguns sinais das devoções precedentes.

A Igreja procura expurgar naturalmente os vestígios dessas crenças ditas primitivas. O cidadão comum, por sua vez é tendencialmente apegado às tradições que os seus pais e os pais deles lhes passaram…

Resulta daqui um jogo de forças em que por vezes há alguma conflituosidade, mas chega-se normalmente a uma situação de compromisso em que ocorre um convívio entre “o sagrado” e “o profano”.

Sabemos que, com o império romano, chegaram os seus deuses ao território que hoje é Portugal. Mas antes dos romanos, muito provavelmente outras influências religiosas tiveram os povos que aqui habitaram. É por exemplo minha convicção de que neste nosso espaço houve uma grande influência cultural fenícia. Espero numa próxima publicação abordar esse tema.

Nesta publicação farei apenas de forma muito breve algumas notas sobre esta devoção a São Bartolomeu.

Não possuímos muita informação sobre este santo. Foi um dos apóstolos de Jesus Cristo (1). Nos evangelhos, com esse nome, é referido apenas nas listas dos apóstolos. Existe porém a tradição de o fazer corresponder a Natanael, que surge em algumas passagens.  Mesmo a origem do seu nome não é consensual. Virá do aramaico, havendo duas explicações mais prováveis para o seu significado. O prefixo “Bar” significará “filho de”. Podendo o patronímico ser Talmay (Bartalmay) ou Ptolomeu (Barptolomeu).

Para lá dos evangelhos, há relatos de tradição e lendas, mas sem certeza histórica. Terá pregado o cristianismo para oriente, pela Arábia, pela Índia… Terá enfrentado oráculos que foram associados a demónios, ganhando fama de exorcista. Terá sido martirizado e esfolado e é com esse símbolo de sofrimento que é muitas vezes retratado. Por este seu martírio torna-se padroeiro dos que trabalham com peles, como os curtidores.

Como é que um santo com este perfil se torna tão devocionado numa terra como Aveiro e de uma forma geral em todo o litoral (veja-se por exemplo a tradição do "banho santo" em São Bartolomeu do Mar), se bem que também seja muito devocionado no interior do país? Possivelmente nunca saberemos, mas considero muito curiosa a perspetiva de Moisés Espírito Santo (2).

Segundo ele, a representação popular de São Bartolomeu, tem claras influências orientais. E a “nossa” representação de Aveiro é das que melhor transmite essa influência, em particular através do tridente. Nas palavras deste antropólogo, este santo reinterpreta as capacidades e símbolos associadas ao deus grego Poséidon, o qual por sua vez os terá adotado a partir do deus fenício Yam, deus do mar e dos rios. Como Poséidon que tradicionalmente é representado com um golfinho, o qual segundo o mito o servia, São Bartolomeu tem uma relação com “o diabo” que na verdade não é de ódio, como seria normal se essa fosse a natureza efetivamente atribuída.

Neptuno_Poseidon_Sao_Bartolomeu.jpg

Representação de Neptuno / Poséidon - estatueta romana do século 2º/3º DC (3) e a imagem de São Bartolomeu desta capela

O diabo tem com o santo boas relações e serve o santo. Por essa razão, quando é conseguida uma graça ao crente, o pagamento ao santo passa por dar também uma parte ao diabo.

Como curiosidade, refira-se que para lá do nome comum “diabo”, o “ajudante” em algumas terras é denominado de “búgio”. Em Aveiro chamam-lhe “o moço”.

Tudo isto, em conclusão, são suposições que muito dificilmente alguma vez se poderão provar ou desmentir. Mas não deixa de ser uma hipótese interessante, de termos nesta pequena capela de Aveiro uma representação de um poderoso deus de povos antigos, que cruzou panteões, mares e gerações, sobrevivendo agora na forma de São Bartolomeu.

IMG_8737.JPG

Junto uma última foto tirada no mesmo dia da imagem inicial. Nos bancos, sentadas, senhoras que moram no bairro cumprem a tradição de vigília. A D. Luísa Fortes, mais à direita, mordoma desta devoção, assegura a limpeza e a preparação da capela.

À noite, velas são acesas. Por volta da meia-noite, o olhar das pessoas presentes foca-se nessas velas, procurando ver alguma ondulação na sua chama, sinal claro, para quem tem fé, de que o diabo regressou à sua prisão e submissão ao santo e o mundo seguirá o seu rumo normal.

Isso dá-lhes um sentimento de alívio, pois naquele dia findo, no dia de São Bartolomeu, o diabo teve uma hora de seu!

 

 

Referências no texto:

  1. Wikipedia - https://pt.wikipedia.org/wiki/Bartolomeu,_o_Ap%C3%B3stolo
  2. Moisés Espírito Santo – Origens orientais da religião popular portuguesa – Assírio e Alvim - 1988
  3. Museum of Fine Arts of Boston - https://collections.mfa.org/objects/152757

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Algumas curiosidades sobre a capela de São Bartolomeu em Aveiro

por Lourenço Proença de Moura, em 10.07.20

A capela de São Bartolomeu é bem menos conhecida do que a capela de São Gonçalinho, referida numa publicação anterior deste blog. Curiosamente encontra-se relativamente perto da sua “irmã”, a poucas centenas de metros. Mas vários aspetos contribuem para esta sua reduzida visibilidade, quer de quem mora em Aveiro, quer de quem a visita. Está num local algo escondido, fora dos circuitos turísticos mais comuns, raramente é aberta ao público e atualmente não tem nenhuma confraria que dinamize a devoção do seu atual padroeiro.

E contudo… não lhe faltam história e características que justificam ser melhor conhecida e mais visitada.

Img_8676.jpg

Esta capela situa-se no bairro da Beira-Mar em Aveiro, na rua com o nome do mesmo santo, junto ao quartel dos Bombeiros Novos. Fica precisamente no ponto em que é feita a confluência com a Rua Manuel Luiz Nogueira.

Existem muitas descrições desta capela na internet e também em livros. Não me vou alongar na sua descrição. Salientarei apenas que, como é visível na imagem, é de planta circular, bastante singela, de dimensão reduzida. O seu interior é completamente coberto a azulejo. Na opinião do Dr. Amaro Neves (1), os azulejos do altar são de estilo hispano-árabe, possivelmente do tempo da fundação, ou seja de meados do século XVI, enquanto o revestimento do seu interior é feito com azulejos do século XVII, provenientes de uma obra posterior. Em Aveiro poderem-se apreciar azulejos com esta antiguidade é uma oportunidade única segundo este historiador.

Tem a particularidade de sabermos exatamente o nome de quem a mandou fazer, André Dias Caldeira, e em que data, 1568, informação que está bem visível na pedra do friso da porta de entrada.

Img_8680.jpg

Refere o texto: Esta caza mandou fazer Andre Dyas Caldeira Ano 1568

Vivia o reino de Portugal um período de grande desenvolvimento e poder económico, sendo rei D. Sebastião, na altura com 14 anos, longe de imaginar que passados outros 14 anos tudo se esfumaria em Alcácer Quibir…

Se bem que eu, pessoalmente, não seja estudioso de história, penso que até ao momento em que fiz esta pesquisa há cerca de quatro anos, não eram conhecidos dados concretos sobre André Dias Caldeira. Existia uma presunção de que pudesse ser um André Dias, referido como arcipreste, ou seja um clérigo, numa descrição de um assento de batismo datado de 2 de Setembro de 1571.

Como a seguir irei mostrar, esta suposição não será correta.

Ao consultar por mera curiosidade geral alguns livros paroquiais antigos que o Arquivo Distrital de Aveiro disponibiliza na internet, no livro mais antigo disponível relativamente à paróquia de Vera Cruz, fiquei surpreendido ao ler nas folhas relativas a óbitos, a seguinte referência, cuja imagem aqui apresento.

obito_andre_dias_caldeira.jpg

Adaptando as palavras ao português atual teremos algo como:

Aos 4 do mesmo mês (Fevereiro de 1574 – referido no registo de óbito anterior) faleceu André Dias Caldeira está sepultado na capela de Nossa Senhora da Esperança que ele mesmo fez e fez testamento Sua mulher e sua sogra são herdeiras e testamenteiras. Segue-se a assinatura do pároco.

Temos pois dois aspetos curiosos neste assento:

- Era casado; não seria clérigo em princípio …

-A invocação inicial da capela não era de São Bartolomeu, mas Nossa Senhora da Esperança; tanto quanto sei esta informação era também desconhecida.

Após estas duas surpresas, procurei averiguar se haveria outros registos relativos a André Dias e se bem que não trouxessem muita mais informação, de facto aqui partilho mais algumas “descobertas”:

- Na folha 51, correspondente a casamentos, ano de 1572, André Dias Caldeira surge como testemunha de casamento. Infelizmente sem outra informação.

- A 4 de Julho de 1574, é batizada uma filha sua, Maria. A imagem seguinte apresenta esse registo. É curiosa a forma como foi redigido “filha que foi de…”. Repare o leitor que a filha nasce cerca de 5 meses após a sua morte. E ficamos a saber o nome da esposa, Cecília de Mariz (2).

1574_Maria_filha_de_Andre_Dias_Caldeira_Vera_Cruz.

 

- Na folha 63, relativa a casamentos, ano de 1579, surge uma curiosa referência a uma testemunha, citada como “criada da mulher que foi de André Dias Caldeira”. Saliente-se que o ter sido criada é relevado como sendo uma referência, de onde se presume a importância da família.

No que respeita a registos paroquiais, foi tudo quanto encontrei.

Acrescentaria agora alguns breves comentários à questão da invocação da capela. Presumo que não seja possível saber quando a invocação passou para a atual.

Na descrição que o Dr. António Christo faz desta capela num artigo que foi originalmente publicado possivelmente na década de 1950 (António Christo faleceu em 1963), e republicado em 1989 num simples mas muito interessante livro com o título Capelas de Aveiro, é referido que teria três imagens: Uma Senhora do Ó, São Bartolomeu e São João Batista.

O que podemos observar atualmente e que se mostra na imagem, é coerente com a descrição do Dr. António Christo.

IMG_8686_2.jpg

Na verdade, a Senhora está grávida nesta representação. Confirmou-me o Dr. Amaro Neves que de facto a imagem corresponde a essa invocação e que será da época da construção. Explicou-me também que essa imagem tem sinais de que o seu ventre terá em tempos idos sido alvo de algum desbaste, para que a gravidez não fosse demasiado evidente...

Contingências de outros tempos e outras mentalidades…

A imagem da Virgem grávida tem várias denominações, como por exemplo Senhora do Ó, Senhora da Expectação, mas também Senhora da Esperança. Ora é com esta última denominação que surge no registo de óbito de André Dias Caldeira. Sendo esta imagem dessa época, com muito forte probabilidade terá sido a imagem original a quem a capela foi dedicada. Não será fruto do acaso que possua melhor qualidade que as restantes e que ainda hoje ocupe a parte central do altar.

A razão da mudança de invocação, será quase impossível de saber. A forte tradição de devoção a São Bartolomeu por parte das gentes do mar, é uma causa provável.

Mas sobre isso penso que será curioso partilhar convosco mais alguns pormenores, numa próxima publicação, ainda dedicada a esta capela.

Por último, deixo ao leitor uma imagem do interior, em que se percebe melhor o ambiente que sente o visitante. Poderá ser apenas uma perceção pessoal, mas diria que transmite uma intensa experiência de recolhimento, como se estivéssemos no ventre de uma mãe espiritual.

Img_8686.jpg

Nota 1 - Amaro Neves - Aveiro História e Arte (1984); Amaro Neves - Azulejaria antiga em Aveiro (1985)

Nota 2 - Quando publiquei o artigo não consegui identificar o nome da esposa; Num artigo publicado mais tarde também no Diário de Aveiro por Francisco Messias Trindade Ferreira, essa leitura foi apresentada.

 

Este artigo com ligeiras adaptações foi publicado inicialmente no Diário de Aveiro – edição de 27 de Julho de 2016

Se quiser procurar na internet num sistema de coordenadas, esta capela situa-se no seguinte local:

40.643568, -8.652482

 

 

 

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Sao_Goncalinho_adro_pequena.jpg

A capela de São Gonçalo é seguramente dos edifícios religiosos mais visitados de Aveiro, mesmo que apenas no seu exterior. Localizada na zona denominada “da beira-mar”, torna-se um local de passagem quase obrigatório para quem visite a cidade, se dispuser de pelo menos um par de horas para calcorrear a pé estes espaços bem perto do Rossio, um dos pontos centrais dos itinerários turísticos.

Se bem que seja uma construção graciosa, não é pela sua beleza, nem imponência ou especial riqueza que ela é conhecida, mas sobretudo pela forte ligação popular ao “santo casamenteiro”, que se tornou patrono das gentes da beira-mar e em devoção do qual se realizam desde há muito cerimónias e festas com grande participação do povo.

Para quem como eu mora por perto, possivelmente perderá a conta ao número de vezes que por ali se passeia e saboreia o espaço, naquele adro singelo circundado pelo casario típico.

Foi num destes passeios que já há alguns anos reparei num memorial em pedra, encrustado na parede que fica por trás da capela, a uma altura de cerca de três metros e que se reproduz na imagem seguinte.

Sob uma cruz também gravada na pedra pode ler-se a seguinte legenda:

DELLA ALMA DO HOMEN QUE FAZENDOSSE ESTA OBRA MORREO NELLA – Pter Nter Ae Ma (1) – 1712

Capela_sao_goncalo_traseiras.jpg

É curioso este memorial. Penso não ser comum homenagear-se assim a memória de alguém, em princípio alguém do povo. O que terá justificado tal opção? Diria que, ou a pessoa em causa era importante para a obra, ou o evento que terá levado à morte teve grande impacto na então vila de Aveiro.

Lembrei-me entretanto que talvez fosse possível saber um pouco mais sobre a pessoa que faleceu. Naquela época quase todos os enterramentos eram feitos no local da morte, pois não era possível transportar os cadáveres em pouco tempo para outras localidades.

Fiz então uma pesquisa nos livros paroquiais daquela época. E para minha surpresa, no livro de óbitos da paróquia da Senhora da Apresentação que cobre o referido ano de 1712, encontrei o que procurava. Curiosamente é um registo escrito numa caligrafia bonita e facilmente legível. A imagem seguinte mostra-o. O que nele consta, com ligeiras adaptações à nossa linguagem atual é o seguinte:

Obito_Manuel_Simoens.jpg

Aos treze dias do mês de Abril de mil setecentos e doze anos faleceu de um desastre nas obras de S. Gonçalo um homem a quem me disseram se chamava Manuel Simões viúvo, que era da Taipa ou junto a ela. Não recebeu mais que o sacramento debaixo de condição (1) por morrer muito apressadamente. Foi sepultado nesta igreja de Nossa Senhora da Apresentação e para constar se fez este termo que o Reverendo Vigário assinou era ut supra (2).

Percebe-se desta descrição que a pessoa falecida não teria um papel social especial nem na construção propriamente dita. Mas por outro lado o termo “desastre” indicia que terá ocorrido um problema muito relevante na obra, possivelmente um desmoronamento de boa parte da construção, o qual causou a referida morte.

A pesquisa estaria concluída, mas ao reler a transcrição, reparei que poderia saber um pouco mais desta pessoa. Na verdade, referia ser viúvo e que moraria na Taipa ou perto da Taipa, localidade da paróquia de Requeixo, perto de Aveiro. Será que se conseguiria encontrar o óbito da esposa? Com um pouco mais de pesquisa encontrei-o e mostro-o na imagem seguinte.

Obito_Maria_Joao.jpg

Refere então: Em os 21 dias do mês de Dezembro de 1703 faleceu da vida presente Maria João mulher de Manuel Simões da Taipa. Seu corpo foi sepultado no adro desta igreja de S. Paio de Requeixo e por ser verdade fiz este assento em que me assinei dia mês e ano ut supra.

Ou seja, o “nosso” Manuel Simões esteve viúvo mais de oito anos tendo o trágico fim que já conhecemos.

Depois deste passo na pesquisa outros se poderiam seguir, como seja saber em que ano teriam casado e se teriam tido filhos. Porém nada descobri nos registos de Requeixo. Nem casamento nem filhos. Poderei não ter visto bem, mas outra hipótese é terem casado noutra paróquia, passando depois a morar na Taipa.

Note-se que a frontaria da capela ostenta a data 1714, que corresponderá à data de conclusão da obra.

E foi tudo o que consegui averiguar… Retirando por instantes da poeira do tempo o nome de pessoas simples que ajudaram a construir este espaço em que vivemos…

1 - Pter Nter Ae Ma – Abreviaturas de Pater Noster Ave Maria, ou seja Pai Nosso Ave Maria

2 – Debaixo de condição – Frase que significava que não fora possível seguir os preceitos previstos: confissão, comunhão, sagrado viático, extrema-unção

3 - Era ut supra – Data acima assinalada

 

Este artigo foi publicado no Diário de Aveiro - edição de 22 de Dezembro de 2019, tendo esta versão do blog algumas ligeiras adaptações.

 

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