Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Ecos de uma longínqua memória judaica?

por Lourenço Proença de Moura, em 05.08.22

Lintel_ao_natural.jpg

A minha terra natal Caria, no concelho de Belmonte, irrigada por duas ribeiras, com solo fértil e água em abundância, possui diversas marcas do seu passado, de terra há muito habitada.

Muitas iniciativas se têm feito para preservar e valorizar o nosso património, como por exemplo a Casa da Roda dos expostos e a Casa Etnográfica. Mas há diversos outros artefactos e espaços que merecerão atenção. Alguns já os referi neste blog como os “Armários sagrados”.

O que agora aqui partilho refere-se a uma gravação discreta mas que considero muitíssimo curiosa, num lintel em granito de uma porta e que surge no início desta publicação. Estava oculta pelo reboco até há cerca de 20 anos, tendo ficado à vista com obras de renovação.

Qual a sua interpretação?

Sugiro que o leitor analise a imagem por uns momentos.

À esquerda surge uma data, que na minha leitura é bastante clara, 1598. Apenas para contextualizar o leitor, segundo o livro “História de Portugal em datas” [1], neste ano estamos sob o domínio filipino que se iniciara em 1580, sucedendo precisamente em 1598 a transição de Filipe I de Portugal para Filipe II seu filho. Decorria uma grave crise agrícola e no ano anterior houve um surto de fome. Para piorar a situação começava uma nova pandemia de peste! Tempos difíceis para todos, mas sobretudo para o povo…

Assumindo que a data é clara, o mesmo não sucede com os símbolos do lado direito, bem mais difíceis de destrinçar. Parecem letras, mas não estão gravadas na habitual norma latina de caracteres maiúsculos. Dir-se-ia que a maioria das letras está em formato de letra minúscula.

A imagem seguinte mostra o que julgo serem as linhas dos sulcos principais.

Lintel_Josefo.jpg

As hipotéticas letras parecem representar Jos…f…

Como poderemos validar esta hipótese?

Felizmente temos uma boa e fácil forma de o fazer! Se analisarmos os livros paroquiais desta época, que se encontram digitalizados e acessíveis na internéte [2] podemos ver registos como o que mostro a seguir.

Registo_nascimento_Joao_filho_de_Baltasar_Gomes.jp

A transcrição pode ler-se como:

Ao derradeiro (último dia) de Agosto de 1601, bautizei João filho de Balthasar Guomes e de Maria Hyeronima (Jerónima) … foi padr. (padrinho) Brás Afonso deste luguar e madrinha Constança de Proença mulher de Francisco Rodrigues da vila da Covilhã. Por verdade…

A transcrição em concreto não é o que mais interessa nesta análise, mas permitir ajudar o leitor a conferir a grande proximidade de aspeto entre as letras “J” maiúsculo, “o”, “s” “f” da gravação.

Parece que quem fez esta gravação foi o pároco de Caria… 😊 com letra manuscrita e depois alguém abriu rasgos a cinzel…

Qual o significado destas letras?

A palavra / nome que de imediato me veio à ideia foi “Josefo”. A letra entre o “s” e o “f”, apesar de estar bastante desgastada pode ter sido de facto um “e”. Depois do “f” por sua vez surge ainda uma marca, mas a uma distância relativamente grande, pelo que presumo não corresponder à letra seguinte. Em qualquer caso “Josefo” será com grande probabilidade o nome representado.

Sucede que esta hipótese levanta uma grande questão…

Trata-se de um apelido judaico!

Ora nesta data tal não deveria suceder. Já tinha decorrido cerca de um século desde o decreto de expulsão dos judeus assinado por D. Manuel I. A alternativa era converterem-se ao cristianismo. Nesse caso adotavam novos nomes de batismo sucedendo o mesmo ao apelido, que seria por exemplo o do padrinho cristão-velho. De facto, se virmos os livros paroquiais desta mesma época, encontramos os muito comuns Álvares, Antunes, Geraldes, Fernandes, Gonçalves, Pires, Martins, etc, mas nunca apelidos que remetam como este para origens judaicas.

Para quem tenha curiosidade por história e em particular pela história judaica, este apelido poderá ser-lhe familiar. Flávio Josefo [3], foi um historiador romano de origem judaica, a quem devemos relatos detalhados sobre o povo judeu e das lutas contra Roma.

Por que razão tal apelido foi assim exposto de forma tão temerária? Naturalmente não sei responder.

Por último, uma possível interpretação para os sinais que surgem entre a data e o nome. Parecem ser duas pequenas marcas, que se fossem letras seriam um “o” por cima e um “J” por baixo. Teriam algum significado?

Bom… seguindo a hipótese de que estamos perante letras com estilo manuscrito, a possível resposta surge de imediato. Escrever a letra “J” maiúscula, com um “o” minúsculo por cima é uma forma simplificada de nesta época se escrever “João”.

Podemos por exemplo ver a imagem seguinte, de um outro registo de batismo que surge no mesmo livro, algumas folhas depois do registo que mostrei antes. Vemos aqui essa escrita abreviada do nome da criança que curiosamente também é "João" como o anterior. Podemos fazer a transcrição do registo para “Aos 25 dias do mês de fevereiro da dita era de 607 (1607) baptizei Jo (João) filho de Gaspar Esteves e Sabina Antunes. Foram padrinhos Manuel Antunes e Susana Domingues. E por verdade assinei aqui mês e era como acima…

Registo_nascimento_Joao.jpg

Em jeito de síntese

Estamos perante uma gravação que não segue um formato convencional com símbolos latinos em maiúsculas e usa uma forma de escrita caligráfica. Assumindo que a interpretação “Josefo” está correta, ela é coerente com a possibilidade de os símbolos do meio corresponderem à abreviatura de “João” pois “Josefo” é normalmente um apelido.

Teríamos assim que nesta casa terá habitado João Josefo, descendente de cristãos-novos, possivelmente cripto-judeu, que detinha a escassa competência de saber ler e escrever e com a sua própria caligrafia assinalou que nesta casa vivia.

Por alguma razão a sua família conseguiu manter o apelido judaico, se bem que o nome de batismo fosse neutro, pois “João” é nome adotado por cristãos e judeus.

---oOo---

Notas complementares e um jogo de “Caça ao tesouro” que poderá fazer em família…

Tem curiosidade em ver esta epígrafe no seu local?

Se por acaso quiser saber onde este lintel se encontra, pode observá-lo no seu local, acedendo a este endereço do “Google Maps”. É bem no centro da vila na parte mais elevada, na Rua Direita, relativamente perto da igreja e da Casa da Torre.

Trata-se da travessa / lintel da 2ª porta verde.

Uma outra epígrafe muito curiosa a poucos metros desta

Já agora, se gosta de curiosidades do nosso passado, se fizer uma visita a este local, poderá ver muito perto, num outro lintel da porta principal da Casa da Torre, um interessante texto em latim, cuja imagem transcrição e tradução aqui mostro.

Lintel_Casa_da_Torre_epigrafe.jpg

De acordo com Manuel Marques [4] a transcrição é:

Mille Dolos victis domus est haeC Condita quando

X indiCat et major lItera quaeque tibI

 

Segundo o mesmo autor, uma possível tradução é:

Vencidas mil dificuldades esta casa foi construída

quando indica a incógnita X e também as letras maiúsculas

 

Ou seja, as maiúsculas e a incógnita X indicam a data de construção:

MDCCXCII – 1792

 

Já António Borges [5] mantendo o sentido do entendimento da data, propõe uma diferente tradução:

Vencidos mil ardis, foi esta casa fundada quando

X e cada uma das letras maiores te indicam

Esta interpretação também possível à luz dos vários significados das palavras latinas, corresponderia a terem sido ultrapassadas muitas dificuldades, mas que não eram decorrentes dos acasos e sim de oposições intencionais de alguém. António Borges coloca algumas hipóteses para explicar de onde poderiam vir estas oposições, mas esse é um tema já fora do âmbito desta simples publicação.

Note-se que esta é a data de uma reconstrução profunda. Este espaço foi habitado desde tempos bem mais distantes. Ao lado de uma outra porta de formato ogival, situada nas traseiras, podemos ver outra inscrição com a data de 1360.

 

Uma “Caça ao tesouro” que poderá fazer em família numa visita a Caria

Cruciforme.JPG

Um património relativamente pouco divulgado diz respeito a marcas antigas, existentes nas casas, sobretudo nas ombreiras das portas mas também na pedra superior – lintel ou mesmo nas fachadas. Na sua maioria apresentam simbologia cristã, com cruzes em muitas variantes.

Não há certezas quanto à sua origem e significado. São naturalmente invocações cristãs. Poderão ter sido usadas para apelar à proteção divina sem outra pretensão, mas há quem refira a possibilidade de ter sido uma forma de os cristãos-novos mostrarem a sua aceitação da nova fé. Na verdade, os locais de maior concentração destes grafismos correspondem com os espaços onde se presume se situar em maior número a comunidade judaica / cristãos-novos.

No livro Território de Caria - Marcas lutas e gentes, António Borges [5] faz algumas reflexões sobre este tema e mostra o resultado de uma recolha destas marcas, feita inicialmente pela Dra Elisabete Robalo dos serviços de arqueologia da Câmara Municipal de Belmonte, tendo depois a colaboração da Dra Graça Neiva Ribeiro.

Com base nesta informação editei um folheto que pode descarregar aqui.

Contém um mapa antigo de Caria (1957) onde se assinalam as ruas em que se identificaram estas marcas. E mostra os símbolos que cada rua tem, mas não indica onde.

O desafio é simples: Procurar encontrar (caçar) os vários símbolos. Quem mais encontrar ganha…

Note-se que boa parte deles têm uma marca colocada pela autarquia, o que facilita a procura, mas não deixa de ser um bom passatempo para fazer em família.

Se por alguma razão não encontrar algum, ou preferir aceder-lhes de forma mais rápida, neste outro documento tem indicado o endereço exato.

E claro que pode descobrir algum símbolo não catalogado. Seria muito interessante. Nesse caso não hesite em comunicar à Câmara de Belmonte, à Junta de Freguesia de Caria, ou a mim… lmcpm@spo.pt

 

---oOo---

Agradecimentos

Ao Luís Proença Ribeiro que com a sua enorme disponibilidade e competência fotográfica me obteve uma “fotografia fresquinha” e de boa qualidade do lintel da Casa da Torre

Ao Professor António Borges por me facultar as imagens dos símbolos cruciformes para o folheto do “jogo”

---oOo---

Referências

[1] História de Portugal em datas – Coordenação de António Simões Rodrigues, Círculo de Leitores 1994

[2] Ver www.tombo.pt – selecionando “Caria” e depois especificamente Caria / Belmonte

Surgem os livros disponíveis. As imagens apresentadas fazem parte do livro mais antigo – Livro misto 1594-1640

[3] Flávio Josefo - https://pt.wikipedia.org/wiki/Fl%C3%A1vio_Josefo

[4] Concelho de Belmonte – Memória e História – Manuel Marques – Edição da Câmara Municipal de Belmonte – 2001

[5] Território de Caria: Marcas lutas e gentes – António Borges – Edição do autor - 2020

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Torre de Centum Cellas - qual a sua função?

Breves notas de leitura e de reflexão pessoal

por Lourenço Proença de Moura, em 29.01.22

CentumCelas_1_detalhe.jpg

Notas introdutórias – que temas procurei abordar

A Torre de Centum Cellas, também denominada Torre de São Cornélio, é decerto um dos monumentos mais icónicos e reconhecidos do nosso património. Situa-se no concelho de Belmonte, numa fértil planície percorrida pelo rio Zêzere. A Serra da Estrela é sua companheira próxima pelo lado poente, desaparecendo ao fundo no horizonte. Perto, pelo lado sul, a colina onde se situa a vila sede de concelho parece protegê-la.

CentumCelas_vendo_Belmonte.jpgVista de Belmonte a partir de Centum Cellas - LPM1987

É uma estrutura em granito com um carácter e imponência que ainda hoje induz respeito e admiração pelos muitos séculos que venceu. Sobre qual seria a sua finalidade, muitas lendas foram contadas, muitas hipóteses têm sido colocadas, muitos estudos têm sido feitos.

CentumCelas_1.jpg

Torre de Centum Cellas - LPM1987

Procurarei fazer uma síntese sobre o que até ao momento se conseguiu averiguar e referir um estudo que considero particularmente curioso, que para lá de abordar a torre em si, coloca uma hipótese muito interessante sobre o que pode ter sido uma povoação entretanto desaparecida. Por último, no que respeita a essa povoação, colocarei algumas hipóteses resultantes de observações e consultas pessoais.

 

Síntese do estado atual de averiguações arqueológicas

Têm sido colocadas ao longo do tempo várias hipóteses quanto à sua natureza, como por exemplo [1] ser um templo, uma prisão (pela associação ao termo “celas”), um acampamento romano, um mansio / estação de muda de animais de tiro (puxar veículos), um mutatio (albergaria para descanso dos viajantes), ou uma villa romana.

As escavações realizadas pelo IPPAR, entre 1993 e 1998, se bem que tenham coberto apenas uma pequena parte do que se veio a constatar ser um muito maior espaço de interesse arqueológico, mostraram que a Torre não se encontrava isolada, mas inserida num conjunto amplo e complexo. Seria a parte central e melhor conservada de uma villa.

O seu início de construção terá sido no 1º século da nossa era. Foi parcialmente incendiado e destruído em finais do 3º século. Nessa altura terá sofrido alterações. Bastante mais tarde, na denominada Alta Idade Média, ou seja, sensivelmente entre os anos 476 e 1000, terá incorporado uma capela dedicada a São Cornélio, a qual terá deixado de ser usada e “desapareceu” fisicamente no século XVIII mas permaneceu na memória das gentes.

 

Era uma vez… os Lancienses…

Para tentar saber mais informações sobre a possível origem desta estrutura, temos naturalmente que nos socorrer dos estudos feitos por especialistas no âmbito da arqueologia. Felizmente nos tempos que vivemos há muitas publicações disponíveis na internete, permitindo que alguém como eu, simples curioso, possa ter uma ideia razoável sobre alguns dos cenários que esses especialistas colocam.

Uma visão geral dos povos que habitavam na península pode ser facilmente encontrada, por exemplo na Wikipedia [2], de onde o seguinte mapa foi retirado.

Povos_pre_romanos.jpg

Povos Ibéricos pré-romanos / Wikipedia [2]

Nota: O mapa refere “...antes das conquistas fenícias”, mas será lapso. Deve ser “...antes das conquistas romanas”.

Há bastante debate sobre as localizações dos espaços de influência desses povos. Sobre a região em causa nesta publicação, na denominada Cova da Beira, há contudo razoável consenso de que os Lusitanos ocupariam esta região, integrando aliás os espaços atualmente nomeados como Beira-Alta e Beira-Baixa. Mas os Lusitanos, como a generalidade dos outros povos, subdividiam-se em tribos. Como seria de prever, existe ainda maior dificuldade em localizar o espaço geográfico de cada tribo. No mapa anterior, surge nesta localização a tribo dos Lancienses Transcudanos. Mas até que ponto esta localização gera consenso?

Foi por isso com muita satisfação que li o artigo de Amílcar Guerra, “Sobre o território e a sede dos Lancienses e outras questões conexas” [3], em que aborda precisamente esta questão dos espaços de ocupação de algumas tribos lusitanas nesta região.

Vou aqui fazer um brevíssimo resumo, mas o leitor poderá fazer a leitura completa no apontador que abaixo indico nas referências.

Amílcar Guerra começa por explicar que a primeira citação escrita dos Lancienses, surge na obra História Natural de Plínio [4], estudioso romano que viveu entre os anos 23 e 79 da nossa era. Sucede que essa citação tem dado azo a alguma polémica entre estudiosos, pois na verdade os Lancienses, ao contrário das outras tribos surge referida duas vezes, sendo que numa delas associada a “Ocelenses”. Explica de seguida as várias hipóteses que têm sido colocadas para que tal ocorresse, entre as quais o poder tratar-se de um lapso de transcrição. Mas assume que possa não ser o caso. Ou seja, Lancienses e Ocelenses Lancienses, poderiam indicado tribos distintas.

Esclarece depois que a descrição de Plínio parece divergir dos registos epigráficos conhecidos, ou seja registos em pedras, por exemplo em aras votivas dedicadas a deuses, ou assinalando eventos, como um conhecido texto gravado numa placa em pedra na ponte romana de Alcântara (Alcântara / Cáceres) em que se descrevem os povos que contribuíram para a sua construção.

A imagem seguinte mostra o desenho feito da placa original pelo português Francisco de Holanda (1517 – 1585) e que se encontra na sua obra Da fábrica que falece à cidade de Lisboa. No Anexo 3 apresenta-se a versão restaurada da placa e a sua transcrição.

Placa_ponte_Alcantara._Francisco_de_Holandajpg.JPGDesenho da placa original feito por Francisco de Holanda

Segundo o levantamento que Amílcar Guerra apresenta, à data deste seu estudo, eram conhecidas várias descrições epigráficas em que surge a denominação simples “Lancienses”, outras como “Lancienses Oppidani” e ainda “Lancienses Transcudani” (estes dois últimos surgem na já referida placa da ponte de Alcântara). Acrescenta ainda que na mesma região da Cova da Beira surgem textos epigráficos referindo “Ocelenses”, termo semelhante ao citado por Plínio.

Em síntese, Lancienses e Ocelenses Lancienses surgem citados por Plínio; Lancienses Oppidani, Lancienses Transcudani e Ocelenses, aparecem nos textos epigráficos.

Explica depois o autor, citando outros estudiosos, que há um aspeto muito relevante nesta questão. O termo latino “oppidum”, equivale ao termo proto celta “*okelo-“ (ocelum), significando colina, forte, ou similar [8]. Esta constatação permite assumir que os Ocelenses Lancienses referidos por Plínio possam corresponder aos Lancienses Oppidani das epigrafias.

Sobre a localização geográfica dos respetivos territórios, Amílcar Guerra refere hipóteses já antes colocadas e apresenta a sua perspetiva. São análises complexas, com base sobretudo em epigrafia e na rede viária romana conhecida. Mas para o efeito desta publicação salientaria apenas as duas propostas quanto às capitais dos dois territórios.

Argumenta o autor que na sua opinião a capital dos Lancienses Transcudani estaria situada no Mileu, junto à cidade da Guarda.

Quanto aos Lancienses Oppidani, que equivaleriam aos Ocelenses, considera que a sua capital estaria precisamente no local de Centum Cellas.

Mapa_artigo_Amilcar_Guerra.jpg

Mapa da região em análise, com os principais eixos viários. – Extraído do artigo [2] de Amílcar Guerra

A região ocupada por estes, corresponderia aproximadamente à Cova da Beira. Para justificar esta localização da capital, tem em conta as importantes descobertas feitas nas campanhas arqueológicas em Centum Cellas já referidas, em que se constata a relevância dos achados, compatíveis com um fórum romano. Tal implicaria estarmos numa localidade muito relevante na sua época de construção. Nessa sequência faz diversas referências a informações de outros autores quanto a achados ou notícias de que haveria estruturas diversas nas imediações que em vários casos terão desaparecido.

Por último chama a atenção para uma curiosidade que provavelmente não será fruto de um qualquer acaso e que o leitor possivelmente já intuiu. Trata-se da denominação comum da estrutura…

Centum Cellas ao longo das épocas surge referida em textos sob diversas formas. Por exemplo Centum Cellæ, Centum Celli, Centumcellas. O povo associou os fonemas à ideia do que seria Centocelas / Cento (de) celas. Mas é algo espantoso constatar que ao longo de 20 séculos se pode ter mantido o que, de acordo com Amílcar Guerra, terá sido a raiz da denominação base deste povo: ocellas!

 

Colmeal da Torre

O Colmeal é a localidade mais próxima da Torre de Centum Cellas.

De acordo com a Wikipedia, o nome Colmeal [5] pode derivar de ter ali havido uma área de colmeias ou ter ali existido colmo em abundância. São hipóteses óbvias, mas irei colocar uma outra.

Mas antes de abordar a questão do topónimo, vou abordar um outro aspeto curioso desta localidade que tem a ver com a topologia, em particular a sua rede de ruas. É fácil observá-la através do Google Maps. A imagem seguinte apresenta-a.

Ruas_Colmeal.jpg

Colmeal da Torre – rede de ruas - Fonte: Google Maps

O que podemos constatar?

Algo muito básico, mas pouco comum em localidades, antigas. A maioria das ruas é bastante reta, com cruzamentos na perpendicular.

O que seria de esperar era observar ruas organizadas na sua grande maioria de forma casual, “torta”, com curvas frequentes, adaptando-se às características do terreno e de acordo com a vontade das gentes que não se preocupavam em delinear ruas retilíneas. Os entroncamentos deviam ocorrer nos ângulos mais diversos. Também se percebe onde se localizaria o ponto inicial / os pontos inicias onde a localidade nasceu, de onde irradiam boa parte das ruas.

Podemos ver a seguir um exemplo de uma localidade próximas, Vale Formoso, onde essas características normais, “desorganizadas” estão patentes. No anexo 1 mostram-se outras localidades igualmente próximas e com características idênticas nos aspetos que salientei.

Ruas_Vale_Formoso.jpg

Vale Formoso – rede de ruas - Fonte: Google Maps

O que estou a sugerir, é que, como refere aliás Amílcar Guerra no seu artigo, muito possivelmente todo o espaço entre a Torre de Centum Cellas e o Colmeal da Torre, incluindo esta localidade, estão implantados sobre as ruínas de uma antiga e importante cidade, a qual se organizou pelo menos em parte de acordo com princípios urbanísticos romanos.

 

Mas irei ainda colocar outra hipótese. A de o Colmeal da Torre, estar implantado no espaço de uma antiga Villa.

O termo Colmeal pode derivar das justificações descritas atrás. Mas pode ter outra origem. Um lugar de casas de colmo não se distinguiria especialmente. Casas de colmo seriam comuns. Porquê denominar assim? A opção de ser um espaço de colmeias, para justificar ter ganho nome próprio por esse motivo, deveria ter algum realce de dimensão ou impacto económico e estar associada a qualquer referência histórica em que essa atividade fosse referida. Mas nada encontrei que tal mencionasse.

 

Faço aqui uma passagem para outra “descoberta” que ocorreu por mero acaso. Não sendo de todo demonstrativa dessa hipótese, não deixa de ser curiosa.

Tenho feito algumas leituras nos registos paroquiais da minha terra natal Caria. Casualmente, constatei situações estranhas com este topónimo. Em duas épocas distintas, nos registos de batismo, a referência a pessoas naturais do Colmeal, pais e avós da criança batizada, foi escrita de forma peculiar, não exatamente a que esperaríamos.

Encontrei duas redações diferentes, sendo que em dois dos registos (total de cinco) surge de ambas as formas:

  • Colomial (três)
  • Colomeal (quatro)

A forma de escrita é clara. Não será erro, pois ocorrem cinco vezes. As duas grafias podemos considerá-las foneticamente equivalentes sobretudo na linguagem comum. Pode não parecer muito, mas registos paroquiais de Caria, com pessoas naturais do Colmeal, são muito escassos. A minha hipótese para o aparecimento daquele “o” estranho aos nossos dias, é de que as gentes assim o pronunciariam e os padres dessa forma o registavam.

Estes registos situam-se entre 1793 e 1858. Foram feitos por dois padres diferentes. Será relevante referir que Caria era uma localidade com grande influência e intervenção por partes dos bispos da Guarda. Aí tinham residência e decerto tomariam as necessárias providências para que os párocos tivessem boa formação. A qualidade da caligrafia também indicia isso. Na imagem seguinte mostro um desses registos (no Anexo 2 apresentam-se todos). Neste caso, é o registo de batismo de Maria, nascida a 26 de Janeiro de 1846, filha legítima de Manoel Esteves Mouxo natural da Quinta do Colomeal.

Registo_Maria.jpg

Início do registo de batismo de Maria - Fonte: Registos paroquiais de Caria [9]

Não é plausível que os padres desconhecessem a existência de uma terra tão próxima e da forma como seria correto escrevê-la. Ora não sendo fruto do acaso ou de erro de escrita, tal poderá significar que aquela forma de pronunciar era comum. Poderia derivar de uma denominação mais antiga, mais próxima do original. Mas que denominação original teríamos que pudesse justificar aquela forma de ser pronunciada?

Se temos próximo um edifício romano e foram encontradas estruturas e objetos romanos nas proximidades, talvez um nome romano, porque não? Na minha mente fizeram-se vários tipos de associações fonéticas. Cheguei a uma hipótese que considero particularmente interessante. Existiu uma família romana na península ibérica de apelido “Columela”. Um elemento dessa família, de nome Lucius Junius Moderatus[6] assumia com orgulho esse outro apelido de família: Columela. Tornou-se conhecido pelos seus escritos sobre técnicas agrícolas. As suas obras são das mais relevantes para se conhecerem as técnicas agrícolas do seu tempo.

No livro A Companion to the Neronian Age [7] refere-se que este autor considerava o seu tio Marcus Columela como uma autoridade em trabalhos agrícolas. O tema da agricultura era pois do interesse de ambos.

Claro que esta hipótese de origem do topónimo “Colmeal” é especulativa, mas penso que é interessante e com alguma probabilidade de ser correta. O nome de família ter-se-á mantido associado ao lugar, evoluindo esse nome de Columela para Colomeal e agora Colmeal.

 

 

Referências

[1] – Informação sobre o monumento “Torre de Centum-Cellas” publicada no sítio da Direção Geral do Património Cultural

http://www.patrimoniocultural.gov.pt/pt/patrimonio/patrimonio-imovel/pesquisa-do-patrimonio/classificado-ou-em-vias-de-classificacao/geral/view/70345/

[2]

https://pt.wikipedia.org/wiki/Povos_ib%C3%A9ricos_pr%C3%A9-romanos

[3] – Guerra, Amílcar - Sobre o território e a sede dos Lancienses (Oppidani e Transcudani) e outras questões conexas – Revista Conimbriga nº 46, 2007

https://repositorio.ul.pt/handle/10451/10615

(A página tem um ponteiro para o documento)

[4] Plínio o Velho – referência biográficas

https://pt.wikipedia.org/wiki/Pl%C3%ADnio,_o_Velho

[5] Wikipedia – Colmeal da Torre

https://pt.wikipedia.org/wiki/Colmeal_da_Torre

[6] Wikipedia – Columela

https://pt.wikipedia.org/wiki/Columela

[7] Buckley, Emma e Dinter, Martin editaram , A Companion to the Neronian Age, John Wiley & Sons, 2013

[8] Os Os Gallaeci - Wikimedia

https://artigos.wiki/blog/en/Gallaeci

[9] Registos paroquiais de Caria – Digitalizados

https://tombo.pt/f/bmt02

[10] – Arlindo Correia – A Lusitânia no tempo dos romanos

http://arlindo-correia.com/021208.html

 

Anexo 1 – Estrutura de ruas de localidades próximas do Colmeal da Torre

Fonte: Google Maps - https://www.google.pt/maps/

Ruas_Vale_Formoso.jpgVale Formoso

 

Ruas_Aldeia_do_Soito.jpg
Aldeia do Soito

 

Ruas_Goncalo.jpg
Gonçalo

 

Ruas_Caria_centro_historico.jpgCaria / Centro histórico

 

Anexo 2 – Registos de batismos realizados em Caria com a referência Colomeal / Colomial

Fonte: Registos paroquiais de Caria – Digitalizados [9]

Apresentam-se apenas as descrições iniciais onde surgem as referências abordadas nesta publicação.

Registo_Jose.jpgJosé – 1793 – Colomeal

Registo_Bonifacio.jpg
Bonifácio – 1843 – Colomial


Registo_Maria.jpg
Maria – 1846 – Colomeal


Registo_Joaquim.jpg
Joaquim – 1848 – Colomeal e Colomial


Registo_Ludovina.jpg
Ludovina 1858 – Colomeal e Colomial

 

 

Anexo 3 – Descrição dos povos que contribuíram para a construção da ponte romana de Alcântara / Cáceres

Ponte de Alcântara Google Maps.JPGVisão atual da ponte – imagem obtida via Google Maps

 

O conteúdo seguinte foi extraído de [10] – Publicação de Arlindo Correia

Placa_ponte_Alcantara.jpg

Placa descrevendo os povos / tribos que participaram

A placa actual é do sec. XIX, feita na sequência de obras de restauro promovidas pela Rainha Isabel II de Borbón em 1859.

Terá sido reposta a partir de autores que tinham transcrito a antiga placa, como sucedeu com o português Francisco de Holanda na obra “Da Fábrica que falece à cidade de Lisboa”. Por mera curiosidade refira-se que este título pode ser ajustado para o português corrente como “Das obras que fazem falta à cidade de Lisboa”.

Nota: O jornal “Público” tem à venda, à data desta publicação, uma edição fac-similada desta obra de Francisco de Holanda a um preço acessível ( http://loja.publico.pt/categories.php?category=Livros/Colec%C3%A7%C3%A3o-Tesouros-das-Bibliotecas )

 

Transcrição:

MUNICIPIA
PROVINCIAE
LUSITANIAE STIPE
CONLATA QUAE OPUS
PONTIS PERFECERUNT
IGAEDITANI
LANCIENSES OPPIDANI
TALORES
INTERAMNIENSES
COLARNI
LANCIENSES TRANSCUDANI
ARAVI
MEIDUBRIGENSES
ARABRICENSES 
BANIENSES
PAESURES

ELIZABETH REGINA
TITULUM ET MEMORIAM RESTITUIT

Tradução:
Municípios da província da Lusitania que, com o dinheiro obtido por subscrição, completaram a obra desta ponte: Igaeditanos, Lancienses Opidanos, Toloros, Interamnienses, Colarnos, Lancienses Transcudanos, Aravos, Meidubrigenses, Arabrigenses, Banienses, Paesures.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Manuel_Proenca_Rebelo_arar_terra_1984_possivelment

Foto: O senhor Manuel Proença Rebelo lavrando a sua terra
LMCPM - 1982

Até um tempo relativamente recente, a grande maioria das pessoas cumpria o seu ciclo de vida quase sem sair da sua terra natal. Em Caria, como em todas as localidades do interior de Portugal, o dia-a-dia seguia as rotinas do tratamento da terra e do cuidar do gado. Se Deus Nosso Senhor assim o determinasse, recolheriam os frutos do seu esforço e assim sustentavam a sua família. As palavras ajustavam-se às necessidades e a fonética era o resultado de uma combinação de um caldo de cultura que veio de tempos remotos, recombinando-se em cada geração com o que de novo a sociedade ia propondo.

“As novidades”, sempre ocorreram em todas as épocas, mas o ritmo era muitíssimo menor do que atualmente. Com o evoluir dos tempos, sobretudo desde o final do século 19, tudo se alterou de forma progressivamente mais acelerada. A chegada do comboio, a abertura de estradas, o telefone, a rádio, a televisão, a mobilidade das pessoas para centros urbanos ou como emigrantes para “outros mundos” e, claro, as profundas mudanças sociais decorrentes da revolução de 1974, trouxeram uma avalanche de novos hábitos, novas práticas, tornando obsoletas e desnecessárias muitas das palavras que antigamente eram comuns.

Quem como eu nasceu e viveu a juventude numa pequena localidade como Caria até ao início da década de 1980, guarda na memória um mosaico único de palavras que constituía uma espécie de “impressão digital” da terra. Algumas das palavras são conhecidas um pouco por todo o país. Outras são mais específicas, em particular desta região da Beira Baixa. Não houve preocupação em distinguir quanto a esse aspeto, mas tão só registar os termos de uso comum - gíria da minha terra natal, até há cerca de 50 anos atrás.

Este levantamento teve como ponto de partida, para lá da memória pessoal, outros levantamentos disponíveis na internet, em particular dois que são identificados no final desta publicação.

 

Ti Maria

Numa gravação áudio de 1991, “Cantadeiras de Caria”, na altura vendida no suporte de fita das “velhinhas cassetes” hoje em desuso, Maria Alcina (ver breve nota biográfica no final desta publicação) assume a personagem “Ti Maria”, onde num delicioso monólogo com o ouvinte vai explicando como lhe está a correr dia. Usa como seria de esperar muitos dos termos deste glossário.

Pode escutá-la aqui.
Selecione "Download" na página que surge.

 

Sugestões

Todas as sugestões de revisão são bem-vindas. Agradeço que para tornar mais eficaz a comunicação, as sugestões sejam encaminhadas para o meu mail pessoal: lmcpm@sapo.pt

 

Glossário de termos regionais de Caria / Belmonte

 

A

Abalar - Partir, ir embora

Abano - Utensílio para atear a fogueira

Acagaçado – Com medo

Acartar – Carregar, transportar

Achanatar - Fazer à pressa

Acunapado - Mal remendado

Acusa-Cristos - Denunciante

Aforrar (as mangas) - Arregaçar

Alancar (com o saco às costas) – Aguentar o peso

Alacrário – Lacrau, escorpião

Alapado – Agachado, à espera, parado

Albarda - Sela rústica para animal de carga

Aldraba – Argola que fica do lado de fora da porta e que rodando faz abrir o trinco interno

Aldravada - Aldrabice

Amainar – Acalmar (muito usado referindo-se ao vento)

Amanhar (a terra) – Preparar a terra para o cultivo

Amargoso – Amargo

Amigar-se – Ir viver com a amante

Amochar – Aguentar um peso com resignação (com frequência associado a cargas físicas)

Amodorrado – Encolhido (por vezes associado a doença febril)

Amolancar / amolancado – Amolgar / Amolgado

Arreado – Vestido (possivelmente por associação jocoso aos arreios dos animais)

Arrelampado – Confuso, zonzo

Arreganhar (os dentes) – Atemorizar mostrando os dentes

Arreganhar (de frio) – estar a tiritar de frio

Arreliar - Provocar outro com o sentido de o irritar

Arremedar – Gozar com o outro, repetindo o que ele diz

Arrenegar – Esconjurar; Amaldiçoar

Arrocho – Pau curvo onde se penduravam os animais para ser desmanchado depois de morto

Arteiro – Vivaço (ex: Veio todo arteiro…)

Artolas – Mariola, armado em esperto

Atão – Então

Atazanar – Espicaçar / Enervar

Atiradeira – Fisga

Atoleimado – Tolo

Aventar – Deitar abaixo, deitar fora

Avesar / avesada (com isto) – Habituar / habituada (com isto); Ex: Avezamo-nos – Habituamo-nos

Asado – Ajeitado; Ter jeito

 

B

Bácoro – Porco

Badagaio (dar-lhe o) – Desmaiar, ir-se abaixo…

Badameco – Zé ninguém

Bandulho – Barriga (estômago)

Baraço – Novelo de corda

Barbeiro (estar um) – Estar frio

Barda (em) – Em grande quantidade

Bardamerda – (Mandar à) Merda

Barguilha – Abertura das calças

Barroco = Rochedo de granito de grandes dimensões (referido normalmente na sua localização natural)

Bate-cu – Cair de rabo no chão

Bedum - Sabor e cheiro do sebo na carne de borrego ou carneiro

Bento / Benta – Curandeiro, alguém que tem poderes de curar os males do espírito

Bica - Pão comprido e espalmado que se come pelos Santos feito com farinha triga e azeite; Servia de presente dos padrinhos aos afilhados. Fonte com água a escorrer por um tubo, telha, ou uma qualquer conduta que a faz sair da parede, muro ou tanque de onde a água provém.

Bichas – Lombrigas; verme parasita que por vezes se aloja no estômago e intestinos

Bisca – Jogo de cartas; “Bisca lambida” era um termo que derivaria da forma popular em que os jogadores humedeciam os dedos (lambiam) com saliva para melhor manusear as cartas, que se tornavam sujas e pouco higiénicas. Mas antigamente a higiene era um luxo e preocupação de poucos…

Bispo (entrou o) – A comida esturrou

Boa-vai-ela (andar na…) – Divertir-se, vadiar, sem grandes preocupações.

Bocachinho – Poucochinho, Bocadinho

Bôcho – Nome genérico para chamar um cão

Bodega – Coisa imunda

Boer – Corrupção de beber

Bofatada - corrupção de "bofetada"

Bofes – Pulmões

Bolacha / (andar à bolachada) - Sopapo / (andar à bulha dando sopapos)

Bolandas (andar em) – Andar em voltas complicadas

Bolir – (Mexer, incomodar)

Bonda (bem bonda) – Basta, já bem basta

Borco (de) – De barriga para baixo

Bordoada – Pancada com um pau (bordão)

Bornal - Saco em que se levam pertences ou a merenda. Saco com ração que se enfia no pescoço dos burros

Borra-botas – Pessoa sem posses a quem se pretende retirar qualquer valor

Borracho / Borrachana / Borrachão – Bêbado

Borralho – Braseiro na lareira

Borrega – Bolha de água na mão ou no pé

Botar – Deitar algo em algum lugar ou recipiente

Botelha - Cabaça, tipo de abóbora

Botica - Farmácia

Botifarra – Bota grosseira e grande

Braguilha – Abertura da frente da calça dos homens; equivale a “portinhola”

Braveira / apanhar uma... - Estar irritado e barafustar

Bromelho – Corrupção de Vermelho

Brusco (tempo…) – Tempo nublado, escuro, desagradável

Bucha – Bocado de pão com conduto

Bucho - estômago do animal (o termo pode ser aplicado ao nosso estômago - ex: enchi o bucho)

Bufa – Peido

Bulha – Zaragata

Búzio (o tempo estar... os olhos estarem...) - cinzento / enevoado

 

C

Cabeça de alho chôcho – Pessoa com pouco juízo

Cabo dos trabalhos – Expressão que se refere a algo que foi ou será muito difícil de fazer

Cachaporra – Pancada muito forte

Cachimónia – Cabeça (com o sentido de cérebro – pensar)

Cachopa / cachopo - Rapariga / rapaz

Caco (menino do…) – Menino mimado

Cagaço – Medo, susto

Caga-lume - Pirilampo

Cagança – Gabarolice

Caganeira - Diarreia

Caganeirento – Vaidoso

Caganito – Pequena quantidade de algo

Caguinchas - Medroso

Cagulo (de) – Estar cheio ao máximo (comida tipicamente – não se aplica a líquidos)

Calhoada – Pedrada

Calmeirão – Homem corpulento

Caluda! – Expressão para exigir silêncio

Cambada – Corja; Gente de má índole (aplica-se a um conjunto de pessoas e não individualmente)

Canalha – Crianças pequenas

Cantareira - Armário ou estrutura montada numa parede para colocar os cântaros, sobretudo os cântaros de água (quando a água era recolhida de fontes públicas ou naturais), mas também pratos e copos.

Cantilena - Cantiga

Caracho – Expressão de admiração; Equivale a Carago

Carago - Expressão de admiração; Equivale a Catancho e a um termo ainda hoje em uso com as mesmas duas sílabas iniciais.

Caramelo – Camada de gelo; frio intenso

Cardina - Bebedeira

Carrapato (=Encarrapato) – Carraça de pele lisa; Também se refere a alguém nú

Carrapicha (ir à) – Ir aos ombros (sentado nos ombros) de outro; Normalmente uma criança às carrapichas de um adulto

Carrapito – Arranjo de cabelo das senhoras em que o cabelo fica apanhado por trás e por cima (zona da coroa / occipital) formando um pequeno novelo

Carraspana – Bebedeira

Carrego (Um…) – Carga que seguia um padrão. Podia referir-se a um homem “levar um carrego às costas”, ou um animal, como por exemplo um burro

Carumba - Corrupção de "caruma", agulhas de pinheiro secas depois de cairem ao chão

Cascar (cascar em) - Bater em alguém

Castada - Corrupção de cacetada (pancada)

Casulo (do milho) - Interior da maçaroca

Catano – Expressão de admiração; Equivale a Carago

Catancho – Expressão de admiração; Equivale a Carago

Catita – Bem arranjado; Bonito

Catraio – Garoto

Catrapiscar – Piscar o olho a alguém

Catrefa – Grande quantidade (tipicamente quantidade de gente)

Cavalitas (andar às) – Andar às costas de alguém; tipicamente crianças

Catrino (ai o) – Desabafo; equivale a “Mas que raio!”; Equivale a Catano e Catancho

Chanato - Sapato

Chão – Pequena horta

Chambaril - Pau ou ferro para pendurar o porco após ser morto, para se proceder ao ato de o "desmanchar"; Equivale a arrocho

Chiba – corcunda

Chicha – febra

Chincar – Espetar

Chinfrim - Barulheira /algazarra

Chita - Ficar a zero, por exemplo num jogo / ter um péssimo resultado; "Não ser chita" corresponde por exemplo a não ficar a zero, não ter o péssimo resultado

Côca – Entidade perigosa que se nomeava para assustar as crianças com medo, para não fazerem algo ou não ir a determinado sítio (pois podia vir a côca)

Corricho - Porco

Cravelha – Lingueta (trinco) da porta

Conduto – Pedaço de comida de origem animal (carne, chouriço…) para comer

Cunapa – Remendo

 

D

Danado (estar) - Estar furioso;

Derrancado – Extenuado; De rastos

Desandador – Chave de fendas

Desenculatrado – Escangalhado

Desenxabido – Sem gosto

Desobriga – Confissão anual pela Quaresma (para cumprir o preceito – pelo menos uma vez por ano…)

Destrocar (dinheiro) – Trocar tipicamente uma nota de valor elevado por notas ou moedas de menor valor.

Diacho - Forma popular de referir o diabo; Exemplo: "Arre diacho!"; Segundo a tradição não se devem nomear de forma direta os "maus espíritos" pois eles podem acorrer ao nosso chamamento. Por essa razão foram criados diversas outras denominações para que "ele" não vir ao nosso encontro...

Doidana (estar numa) - Estar a comporatar-se de forma irracional

Doidivanas – Pessoa de vida desregrada

 

E

Emborcar – Beber de forma sôfrega

Empancar – Bater em algo que não deixa avançar ou não deixa abrir da forma normal (por exemplo uma gaveta)

Empanturrado – Cheio de comida até ao limite

Empanzinado – semelhante a empanturrado, mas mais associado a pão

Empata (um…) – Alguém que não se desenvencilha no que devia fazer e atrasa os outros

Empenado – Torcido, torto; Diz-se também de uma mesa ou banco em que as pernas não estão à altura correta, e fica a abanar facilmente

Empinar (bebida) - Beber até à última gota; Termo possivelmente derivado do gesto que será comum fazer de colocar o recipiente na vertical para que tal se faça

Empranhar – Corrupção de emprenhar; Ficar prenhe, grávida

Encafuado – Escondido, oculto; Aplica-se também na simples situação de estar na cama todo coberto com o lençol ou manta (encafuado na cama)

Encalacrado – Estar numa situação comprometedora, difícil de sair

Encarrapato – Nú

Encarrapitar – Colocar / colocar-se por cima, tipicamente numa posição não muito estável. Exemplo:  O senhor encarrapitou a criança aos ombros.

Enfarruscar / enfuscar - Sujar com cinza ou pó de carvão

Engonhar - Perder tempo

Enjorcado (mal) - Mal enjorcado = mal arranjado, normalmente referente a "mal vestido"

Enjorcar – Engolir de forma sôfrega

Ensertado – Já aberto (um invólucro que esteve fechado com alguma coisa – tipicamente comida, mas que entretanto alguém já abriu e gastou parte)

Entornado - Bêbedo

Esborralhar – Desmanchar (em partes pequenas)

Esbugalhar os olhos – Abrir muito os olhos (como bugalhos?)

Escanchar – Abrir, alargar, rachar (frase comum “escanchar as pernas” – estar de pé com os pés / pernas afastados

Escarafunchar - Revolver; Esgravatar

Escarcéu – Ruído; tipicamente gritaria

Escarranchado; Estar sentado de pernas abertas (por exemplo montado num animal)

Escarrapachado – Equivalente a escarranchado; Mas também se aplica a um texto, por exemplo de um edital, que se queira dizer que está bem à vista (possivelmente por associação malandra de quando uma mulher de saias está assim deixará algo bem à vista…)

Escava-terra (uma… feminino) – Toupeira

Escápulas – Cápsulas de medicamentos

Escorropichar – Beber até à última gota, deixando o líquido escorrer

Esgalhar – Cortar os galhos (ramos mais pequenos); Também se aplica com o significado de andar de depressa (andar a esgalhar, andar na esgalha)

Esgana – Doença dos cães que lhes afeta a respiração (Nota: Este termo é o usado pelos veterinários)

Esganar – Matar por asfixia; Estrangular

Esgolaimada – Mulher com camisa aberta à frente de forma exagerada tendo em conta as convenções (nos anos 1960 podia ser algo extremamente discreto aos olhos de hoje…)

Esgróviado – Tolo

Esguedelhado – Cabelo desgrenhado

Esmifrar (alguém) – Explorar alguém de forma abusiva; Ex: conseguir obter muitos bens / dinheiro dessa pessoa

Esmoer – Fazer a digestão

Estortegar – Torcer e danificar um membro – Ex: “Estorteguei um tornozelo” equivalendo a “torci / desloquei um tornozelo”

Espichar – Esguichar; Líquido que sai sob pressão de um orifício pequeno

Espinhaço / espinhela – Coluna dorsal

Espojar-se – Rebolar-se no chão e encher-se de pó / areia

Esquecido – Tipo de bolo regional achatado e redondo, com massa parecida com o pão de ló, mas seco

Estafermo – Pessoa de má índole

 

F

Farrusco - Estar enfarruscado; aplica-se também ao tempo atmofésrico com o sentido de nublado (equivale a "estar búzio")

Fedelho – Criança / miúdo (pejorativo)

Fraldisqueiro – Mal vestido

Fressura - Vísceras

Fumaceira – Fumarada / Muito fumo

Funda – Quantidade de azeite que se teve por uma quantidade de referência de azeitona (Ex: Um alqueire)

 

G

Gacho (de uvas) - Corrupção de "cacho"

Gadanha - Concha da sopa

Ganas – (dar nas ganas) Decidir-me a … (ter ganas) Ter vontade muito forte de…

Garruço - Gorro, caparuço

Gasganete – Goela / garganta

Gola – Goela / Garganta

Gosma (estar com a) – Estar com catarro

 

J

Jaja – Fato / Roupa

Javardo – Porco

Jeira - Parcela de terra que se consegue lavrar num dia pelos bois

 

L

Ladroeira - Ato de roubar (pode não ser o roubo de objetos, mas o de se vender a preço excessivo)

Lanho – Golpe / ferida

Lamúria – Choramingueira

Laréu (estar no) – Conversar (estar a)

Lavarinto (andar num) – Andar em grandes trabalhos e pressas, de um lado para o outro

 

M

Madeiro - Um único grande tronco de árvore, ou vários troncos de menor dimensão mas constituindo um volume igualmente considerável de madeira, o qual é ritualmente colocado a arder na véspera de Natal, numa praça central da localidade, procurando-se que a chama continue acesa até ao ano novo. Constitui um ponto de encontro das gentes da terra, sobretudo no final do dia, reconfortando-as da habitualmente gélida temperatura ambiente.

Mal-amanhado – Feito à pressa

Mal – enjorcado – Mal vestido

Malha (Levar uma) – Levar uma sova

Malina – Doença mortal epidémica (nos animais); muito frequente nos coelhos

Malmandado – Indivíduo desobediente

Malmurcho – Doença que murcha as plantas

Marrafa – Franja de cabelo comprida sobre a testa

Marrano - Porco

Matacão – Alguém corpulento e sem modos / abrutalhado

Matação – Matança do porco

Marreco – Corcunda

Mecha – Pedaço de pano que se põe a arder (exemplo: a tira que está embebida no petróleo – candeeiro de petróleo)

Medrar – Crescer

Melindrosa – Sensível / que fica facilmente afetada (por exemplo com doenças)

Mijinhas (às) – Aos poucos

Miminho do caco – Pessoa mimada

Mocho – Banco baixo e pequeno

Monca – Ranho (a pingar do nariz, ficando dependurado)

Mono – Amuado

Mordiscar – Pequena mordidela; Comer um pequeno pedaço de algo, tipicamente pão, cortando apenas com os dentes incisivos

Mosca-morta – Pessoa com pouca iniciativa

 

N

Nagalho – Pedaço de cordel

Nalgas – Nádegas

Nesga - Parte pequena de algo - exemplo: Uma nesga de terreno;
              "De nesga" - Estar de lado, estar de viés;
              "Bater de nesga" - Bater de raspão.

 

O

Ódespois / Osdespois – Equivale a “e depois…”

 

P

Panada – Pancada ; Exemplo: andar à panada – andar à pancada

Pantanas (ir de) - Cair

Pantominas – Trapalhão

Papo-seco - Pequeno pão de trigo, com uma forma peculiar, em que o padeiro batia com a mão no meio, em jeito de cutelo e puxava os extremos originando o que se denominava as "maminhas"

Pecarricho / Pequerricho - Pequeno

Pedrisco - Granizo

Pelainudo – Alguém com mau aspeto, mal vestido, desleixado

Peneiras / Peneirento – Vaidade / Vaidoso

Penicada - Fezes humanas

Penico - Esterco, estrume (para lá do habitual significado de recipiente próprio para se urinar e defecar)

Pentem – Corrupção de Pente

Pertelinho – Pertinho

Pincho – Trinco

Pindericalho – Algo pendente de pouco valor; Por exemplo uma bugiganga a fazer de colar

Pingarelho (armar ao) – Basófia

Pinoco – Marcador / pino (por exemplo um marco da estrada, ou um pino de um jogo da malha)

Pirisca – Parte final do cigarro, quase todo já fumado (os pobres apanhavam as piriscas dos outros e fumavam-nas)

Pita – Galinha

Pitrol – Petróleo

Poldras – Pedras que se colocavam nas ribeiras, afastadas um pouco umas das outras, mas permitindo passar a pé sobre elas sem se molhar

Portelo – Entrada da quinta

Portinhola – O mesmo que braguilha

Prantar – Colocar algo num sítio de forma muito exposta / que incomoda; Exemplos: “Prantaram-me aqui isto à porta!”; “Estás aí prantado a olhar para mim?”

 

Q

Quêdo – Quieto; Sossegado

Quelha – Viela estreita

Queimoso – Sabor do queijo picante

Quilhado – Prejudicado

 

R

Rabicho – Cabelo a fazer… “rabo de cavalo”

Ralado – Preocupado

Raimoso – Picante (ex: queijo)

Rebatinha (deitar à) – Deitar tudo de uma vez para quem quiser apanhar (quando alguém tinha por exemplo cromos de jogadores a mais que já não lhe interessavam, gerava alguma “festa” para os outros deitando-os ao ar e os outros corriam a apanhar)

Recusa (fazer) - Acusação, denúncia

Respigo – Pequena parte de um cacho de uvas

Roçar (o chão da casa) - Esfregar o chão da casa

 

S

Salvação (dar a) – Cumprimentar (quando se cruza com alguém)

Salta-roscas - Osga

Saraiva - Granizo

Sêmea - Pão de formato médio / grande, arredondado, com uma côr algo escura pois é / era feito com farinha de trigo pouco refinada (dizia-se ser de "farinha de 2ª")

Sobrado – Sótão

Soltura – Diarreia (= Caganeira…)

Somítico – avarento

Sopapo / andar à sopapada - bofetada / andar à bofetada

Sorna (ser um) – Preguiçoso

Sortes (ir às) – Ir fazer exame militar

Sumiço – Desaparecimento

Sucapa (à) - De forma a tentar passar despercebido

Sustância – Comida de maior riqueza proteica (ex: carne, peixe, ovos)

 

T

Tapada – Terreno agrícola com muro à volta

Tartulho – Tipo de cogumelo

Testo - Tampa da panela

Tinhoso – Nojento

Tomata - Corrupção de tomate

Topadela – Pancada imprevista com os dedos dos pés, a andar, tipicamente bastante dolorosa

Trambalazana – Brutamontes

Trambelho – Juízo

Trampa – Fezes

Trombas (andar de…) – Andar com cara de desagrado

Trouxe-mouxe – Feito rápido sem cuidado

Tuta e meia – Barato

 

U

Unto – Banha de porco

Úrsula – Corrupção de úlcera

 

V

Venda (a) – Pequeno comércio / mercearia

Veneta – Fúria

Vianda – Preparo de comida para dar aos porcos, tipicamente uma “sopa” com bastante água, legumes cortados e restos diversos de comida humana;

Vivo (O…) – Animais que se tratam. “Ir dar de comer ao vivo”, significa ir dar de comer aos animais. Porcos, coelhos, galinhas…

Vraveira (estar numa) – Estar bravo, irado – corrupção de “braveira”

 

X

Xé-xé – maluco

----- <> -----

Foram incluídas sugestões de:

Graça Neiva Correia Ribeiro
Dulce Pinheiro
José Joaquim Pinto de Almeida
Adozinda Pereirinha

 

----- <> -----

Breves notas biográficas da D. Maria Alcina.

Maria Alcina Cameira Franco Patrício (Caria 1920 – Lisboa 2012), dedicou boa parte dos seus estudos à música e às artes (Conservatório Nacional de Música; Escola de Artes António Arroio). Exerceu diversas atividades sobretudo relacionadas com o ensino de arte e desporto. Escreveu poesia. Teve intervenção política.

Manteve sempre um grande dinamismo demonstrando uma enorme alegria de viver, dinamizando ações na sua terra natal.

Criou o grupo Cantadeiras de Caria, o qual participou em eventos e festivais nacionais e internacionais.

Recebeu da câmara municipal de Belmonte a medalha de mérito municipal.

1985_Cantadeiras_2.jpg

Foto: Cantadeiras de Caria, cantando as Janeiras, em 1985
Maria Alcina surge com as mãos juntas, sensívelmente ao centro mas um pouco sobre o lado esquerdo
LMCPM - 1985

 

Agradeço aos filhos Albertina e António a concordância na divulgação da gravação aqui disponibilizada.

 

----- <> -----

Este levantamento consultou as seguintes páginas da internet. Aos seus autores, manifesto o meu reconhecimento.

Paulo Jesus - pj1966@sapo.pthttp://cidadedacovilha.blogs.sapo.pt/1820.html

Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa» - leitaobatista@gmail.com - https://capeiaarraiana.wordpress.com/category/o-falar-de-riba-coa/

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Posts mais comentados


Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D