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Ecos de uma longínqua memória judaica?

por Lourenço Proença de Moura, em 05.08.22

Lintel_ao_natural.jpg

A minha terra natal Caria, no concelho de Belmonte, irrigada por duas ribeiras, com solo fértil e água em abundância, possui diversas marcas do seu passado, de terra há muito habitada.

Muitas iniciativas se têm feito para preservar e valorizar o nosso património, como por exemplo a Casa da Roda dos expostos e a Casa Etnográfica. Mas há diversos outros artefactos e espaços que merecerão atenção. Alguns já os referi neste blog como os “Armários sagrados”.

O que agora aqui partilho refere-se a uma gravação discreta mas que considero muitíssimo curiosa, num lintel em granito de uma porta e que surge no início desta publicação. Estava oculta pelo reboco até há cerca de 20 anos, tendo ficado à vista com obras de renovação.

Qual a sua interpretação?

Sugiro que o leitor analise a imagem por uns momentos.

À esquerda surge uma data, que na minha leitura é bastante clara, 1598. Apenas para contextualizar o leitor, segundo o livro “História de Portugal em datas” [1], neste ano estamos sob o domínio filipino que se iniciara em 1580, sucedendo precisamente em 1598 a transição de Filipe I de Portugal para Filipe II seu filho. Decorria uma grave crise agrícola e no ano anterior houve um surto de fome. Para piorar a situação começava uma nova pandemia de peste! Tempos difíceis para todos, mas sobretudo para o povo…

Assumindo que a data é clara, o mesmo não sucede com os símbolos do lado direito, bem mais difíceis de destrinçar. Parecem letras, mas não estão gravadas na habitual norma latina de caracteres maiúsculos. Dir-se-ia que a maioria das letras está em formato de letra minúscula.

A imagem seguinte mostra o que julgo serem as linhas dos sulcos principais.

Lintel_Josefo.jpg

As hipotéticas letras parecem representar Jos…f…

Como poderemos validar esta hipótese?

Felizmente temos uma boa e fácil forma de o fazer! Se analisarmos os livros paroquiais desta época, que se encontram digitalizados e acessíveis na internéte [2] podemos ver registos como o que mostro a seguir.

Registo_nascimento_Joao_filho_de_Baltasar_Gomes.jp

A transcrição pode ler-se como:

Ao derradeiro (último dia) de Agosto de 1601, bautizei João filho de Balthasar Guomes e de Maria Hyeronima (Jerónima) … foi padr. (padrinho) Brás Afonso deste luguar e madrinha Constança de Proença mulher de Francisco Rodrigues da vila da Covilhã. Por verdade…

A transcrição em concreto não é o que mais interessa nesta análise, mas permitir ajudar o leitor a conferir a grande proximidade de aspeto entre as letras “J” maiúsculo, “o”, “s” “f” da gravação.

Parece que quem fez esta gravação foi o pároco de Caria… 😊 com letra manuscrita e depois alguém abriu rasgos a cinzel…

Qual o significado destas letras?

A palavra / nome que de imediato me veio à ideia foi “Josefo”. A letra entre o “s” e o “f”, apesar de estar bastante desgastada pode ter sido de facto um “e”. Depois do “f” por sua vez surge ainda uma marca, mas a uma distância relativamente grande, pelo que presumo não corresponder à letra seguinte. Em qualquer caso “Josefo” será com grande probabilidade o nome representado.

Sucede que esta hipótese levanta uma grande questão…

Trata-se de um apelido judaico!

Ora nesta data tal não deveria suceder. Já tinha decorrido cerca de um século desde o decreto de expulsão dos judeus assinado por D. Manuel I. A alternativa era converterem-se ao cristianismo. Nesse caso adotavam novos nomes de batismo sucedendo o mesmo ao apelido, que seria por exemplo o do padrinho cristão-velho. De facto, se virmos os livros paroquiais desta mesma época, encontramos os muito comuns Álvares, Antunes, Geraldes, Fernandes, Gonçalves, Pires, Martins, etc, mas nunca apelidos que remetam como este para origens judaicas.

Para quem tenha curiosidade por história e em particular pela história judaica, este apelido poderá ser-lhe familiar. Flávio Josefo [3], foi um historiador romano de origem judaica, a quem devemos relatos detalhados sobre o povo judeu e das lutas contra Roma.

Por que razão tal apelido foi assim exposto de forma tão temerária? Naturalmente não sei responder.

Por último, uma possível interpretação para os sinais que surgem entre a data e o nome. Parecem ser duas pequenas marcas, que se fossem letras seriam um “o” por cima e um “J” por baixo. Teriam algum significado?

Bom… seguindo a hipótese de que estamos perante letras com estilo manuscrito, a possível resposta surge de imediato. Escrever a letra “J” maiúscula, com um “o” minúsculo por cima é uma forma simplificada de nesta época se escrever “João”.

Podemos por exemplo ver a imagem seguinte, de um outro registo de batismo que surge no mesmo livro, algumas folhas depois do registo que mostrei antes. Vemos aqui essa escrita abreviada do nome da criança que curiosamente também é "João" como o anterior. Podemos fazer a transcrição do registo para “Aos 25 dias do mês de fevereiro da dita era de 607 (1607) baptizei Jo (João) filho de Gaspar Esteves e Sabina Antunes. Foram padrinhos Manuel Antunes e Susana Domingues. E por verdade assinei aqui mês e era como acima…

Registo_nascimento_Joao.jpg

Em jeito de síntese

Estamos perante uma gravação que não segue um formato convencional com símbolos latinos em maiúsculas e usa uma forma de escrita caligráfica. Assumindo que a interpretação “Josefo” está correta, ela é coerente com a possibilidade de os símbolos do meio corresponderem à abreviatura de “João” pois “Josefo” é normalmente um apelido.

Teríamos assim que nesta casa terá habitado João Josefo, descendente de cristãos-novos, possivelmente cripto-judeu, que detinha a escassa competência de saber ler e escrever e com a sua própria caligrafia assinalou que nesta casa vivia.

Por alguma razão a sua família conseguiu manter o apelido judaico, se bem que o nome de batismo fosse neutro, pois “João” é nome adotado por cristãos e judeus.

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Notas complementares e um jogo de “Caça ao tesouro” que poderá fazer em família…

Tem curiosidade em ver esta epígrafe no seu local?

Se por acaso quiser saber onde este lintel se encontra, pode observá-lo no seu local, acedendo a este endereço do “Google Maps”. É bem no centro da vila na parte mais elevada, na Rua Direita, relativamente perto da igreja e da Casa da Torre.

Trata-se da travessa / lintel da 2ª porta verde.

Uma outra epígrafe muito curiosa a poucos metros desta

Já agora, se gosta de curiosidades do nosso passado, se fizer uma visita a este local, poderá ver muito perto, num outro lintel da porta principal da Casa da Torre, um interessante texto em latim, cuja imagem transcrição e tradução aqui mostro.

Lintel_Casa_da_Torre_epigrafe.jpg

De acordo com Manuel Marques [4] a transcrição é:

Mille Dolos victis domus est haeC Condita quando

X indiCat et major lItera quaeque tibI

 

Segundo o mesmo autor, uma possível tradução é:

Vencidas mil dificuldades esta casa foi construída

quando indica a incógnita X e também as letras maiúsculas

 

Ou seja, as maiúsculas e a incógnita X indicam a data de construção:

MDCCXCII – 1792

 

Já António Borges [5] mantendo o sentido do entendimento da data, propõe uma diferente tradução:

Vencidos mil ardis, foi esta casa fundada quando

X e cada uma das letras maiores te indicam

Esta interpretação também possível à luz dos vários significados das palavras latinas, corresponderia a terem sido ultrapassadas muitas dificuldades, mas que não eram decorrentes dos acasos e sim de oposições intencionais de alguém. António Borges coloca algumas hipóteses para explicar de onde poderiam vir estas oposições, mas esse é um tema já fora do âmbito desta simples publicação.

Note-se que esta é a data de uma reconstrução profunda. Este espaço foi habitado desde tempos bem mais distantes. Ao lado de uma outra porta de formato ogival, situada nas traseiras, podemos ver outra inscrição com a data de 1360.

 

Uma “Caça ao tesouro” que poderá fazer em família numa visita a Caria

Cruciforme.JPG

Um património relativamente pouco divulgado diz respeito a marcas antigas, existentes nas casas, sobretudo nas ombreiras das portas mas também na pedra superior – lintel ou mesmo nas fachadas. Na sua maioria apresentam simbologia cristã, com cruzes em muitas variantes.

Não há certezas quanto à sua origem e significado. São naturalmente invocações cristãs. Poderão ter sido usadas para apelar à proteção divina sem outra pretensão, mas há quem refira a possibilidade de ter sido uma forma de os cristãos-novos mostrarem a sua aceitação da nova fé. Na verdade, os locais de maior concentração destes grafismos correspondem com os espaços onde se presume se situar em maior número a comunidade judaica / cristãos-novos.

No livro Território de Caria - Marcas lutas e gentes, António Borges [5] faz algumas reflexões sobre este tema e mostra o resultado de uma recolha destas marcas, feita inicialmente pela Dra Elisabete Robalo dos serviços de arqueologia da Câmara Municipal de Belmonte, tendo depois a colaboração da Dra Graça Neiva Ribeiro.

Com base nesta informação editei um folheto que pode descarregar aqui.

Contém um mapa antigo de Caria (1957) onde se assinalam as ruas em que se identificaram estas marcas. E mostra os símbolos que cada rua tem, mas não indica onde.

O desafio é simples: Procurar encontrar (caçar) os vários símbolos. Quem mais encontrar ganha…

Note-se que boa parte deles têm uma marca colocada pela autarquia, o que facilita a procura, mas não deixa de ser um bom passatempo para fazer em família.

Se por alguma razão não encontrar algum, ou preferir aceder-lhes de forma mais rápida, neste outro documento tem indicado o endereço exato.

E claro que pode descobrir algum símbolo não catalogado. Seria muito interessante. Nesse caso não hesite em comunicar à Câmara de Belmonte, à Junta de Freguesia de Caria, ou a mim… lmcpm@spo.pt

 

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Agradecimentos

Ao Luís Proença Ribeiro que com a sua enorme disponibilidade e competência fotográfica me obteve uma “fotografia fresquinha” e de boa qualidade do lintel da Casa da Torre

Ao Professor António Borges por me facultar as imagens dos símbolos cruciformes para o folheto do “jogo”

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Referências

[1] História de Portugal em datas – Coordenação de António Simões Rodrigues, Círculo de Leitores 1994

[2] Ver www.tombo.pt – selecionando “Caria” e depois especificamente Caria / Belmonte

Surgem os livros disponíveis. As imagens apresentadas fazem parte do livro mais antigo – Livro misto 1594-1640

[3] Flávio Josefo - https://pt.wikipedia.org/wiki/Fl%C3%A1vio_Josefo

[4] Concelho de Belmonte – Memória e História – Manuel Marques – Edição da Câmara Municipal de Belmonte – 2001

[5] Território de Caria: Marcas lutas e gentes – António Borges – Edição do autor - 2020

Autoria e outros dados (tags, etc)

Manuel_Proenca_Rebelo_arar_terra_1984_possivelment

Foto: O senhor Manuel Proença Rebelo lavrando a sua terra
LMCPM - 1982

Até um tempo relativamente recente, a grande maioria das pessoas cumpria o seu ciclo de vida quase sem sair da sua terra natal. Em Caria, como em todas as localidades do interior de Portugal, o dia-a-dia seguia as rotinas do tratamento da terra e do cuidar do gado. Se Deus Nosso Senhor assim o determinasse, recolheriam os frutos do seu esforço e assim sustentavam a sua família. As palavras ajustavam-se às necessidades e a fonética era o resultado de uma combinação de um caldo de cultura que veio de tempos remotos, recombinando-se em cada geração com o que de novo a sociedade ia propondo.

“As novidades”, sempre ocorreram em todas as épocas, mas o ritmo era muitíssimo menor do que atualmente. Com o evoluir dos tempos, sobretudo desde o final do século 19, tudo se alterou de forma progressivamente mais acelerada. A chegada do comboio, a abertura de estradas, o telefone, a rádio, a televisão, a mobilidade das pessoas para centros urbanos ou como emigrantes para “outros mundos” e, claro, as profundas mudanças sociais decorrentes da revolução de 1974, trouxeram uma avalanche de novos hábitos, novas práticas, tornando obsoletas e desnecessárias muitas das palavras que antigamente eram comuns.

Quem como eu nasceu e viveu a juventude numa pequena localidade como Caria até ao início da década de 1980, guarda na memória um mosaico único de palavras que constituía uma espécie de “impressão digital” da terra. Algumas das palavras são conhecidas um pouco por todo o país. Outras são mais específicas, em particular desta região da Beira Baixa. Não houve preocupação em distinguir quanto a esse aspeto, mas tão só registar os termos de uso comum - gíria da minha terra natal, até há cerca de 50 anos atrás.

Este levantamento teve como ponto de partida, para lá da memória pessoal, outros levantamentos disponíveis na internet, em particular dois que são identificados no final desta publicação.

 

Ti Maria

Numa gravação áudio de 1991, “Cantadeiras de Caria”, na altura vendida no suporte de fita das “velhinhas cassetes” hoje em desuso, Maria Alcina (ver breve nota biográfica no final desta publicação) assume a personagem “Ti Maria”, onde num delicioso monólogo com o ouvinte vai explicando como lhe está a correr dia. Usa como seria de esperar muitos dos termos deste glossário.

Pode escutá-la aqui.
Selecione "Download" na página que surge.

 

Sugestões

Todas as sugestões de revisão são bem-vindas. Agradeço que para tornar mais eficaz a comunicação, as sugestões sejam encaminhadas para o meu mail pessoal: lmcpm@sapo.pt

 

Glossário de termos regionais de Caria / Belmonte

 

A

Abalar - Partir, ir embora

Abano - Utensílio para atear a fogueira

Acagaçado – Com medo

Acartar – Carregar, transportar

Achanatar - Fazer à pressa

Acunapado - Mal remendado

Acusa-Cristos - Denunciante

Aforrar (as mangas) - Arregaçar

Alancar (com o saco às costas) – Aguentar o peso

Alacrário – Lacrau, escorpião

Alapado – Agachado, à espera, parado

Albarda - Sela rústica para animal de carga

Aldraba – Argola que fica do lado de fora da porta e que rodando faz abrir o trinco interno

Aldravada - Aldrabice

Amainar – Acalmar (muito usado referindo-se ao vento)

Amanhar (a terra) – Preparar a terra para o cultivo

Amargoso – Amargo

Amigar-se – Ir viver com a amante

Amochar – Aguentar um peso com resignação (com frequência associado a cargas físicas)

Amodorrado – Encolhido (por vezes associado a doença febril)

Amolancar / amolancado – Amolgar / Amolgado

Arreado – Vestido (possivelmente por associação jocoso aos arreios dos animais)

Arrelampado – Confuso, zonzo

Arreganhar (os dentes) – Atemorizar mostrando os dentes

Arreganhar (de frio) – estar a tiritar de frio

Arreliar - Provocar outro com o sentido de o irritar

Arremedar – Gozar com o outro, repetindo o que ele diz

Arrenegar – Esconjurar; Amaldiçoar

Arrocho – Pau curvo onde se penduravam os animais para ser desmanchado depois de morto

Arteiro – Vivaço (ex: Veio todo arteiro…)

Artolas – Mariola, armado em esperto

Atão – Então

Atazanar – Espicaçar / Enervar

Atiradeira – Fisga

Atoleimado – Tolo

Aventar – Deitar abaixo, deitar fora

Avesar / avesada (com isto) – Habituar / habituada (com isto); Ex: Avezamo-nos – Habituamo-nos

Asado – Ajeitado; Ter jeito

 

B

Bácoro – Porco

Badagaio (dar-lhe o) – Desmaiar, ir-se abaixo…

Badameco – Zé ninguém

Bandulho – Barriga (estômago)

Baraço – Novelo de corda

Barbeiro (estar um) – Estar frio

Barda (em) – Em grande quantidade

Bardamerda – (Mandar à) Merda

Barguilha – Abertura das calças

Barroco = Rochedo de granito de grandes dimensões (referido normalmente na sua localização natural)

Bate-cu – Cair de rabo no chão

Bedum - Sabor e cheiro do sebo na carne de borrego ou carneiro

Bento / Benta – Curandeiro, alguém que tem poderes de curar os males do espírito

Bica - Pão comprido e espalmado que se come pelos Santos feito com farinha triga e azeite; Servia de presente dos padrinhos aos afilhados. Fonte com água a escorrer por um tubo, telha, ou uma qualquer conduta que a faz sair da parede, muro ou tanque de onde a água provém.

Bichas – Lombrigas; verme parasita que por vezes se aloja no estômago e intestinos

Bisca – Jogo de cartas; “Bisca lambida” era um termo que derivaria da forma popular em que os jogadores humedeciam os dedos (lambiam) com saliva para melhor manusear as cartas, que se tornavam sujas e pouco higiénicas. Mas antigamente a higiene era um luxo e preocupação de poucos…

Bispo (entrou o) – A comida esturrou

Boa-vai-ela (andar na…) – Divertir-se, vadiar, sem grandes preocupações.

Bocachinho – Poucochinho, Bocadinho

Bôcho – Nome genérico para chamar um cão

Bodega – Coisa imunda

Boer – Corrupção de beber

Bofatada - corrupção de "bofetada"

Bofes – Pulmões

Bolacha / (andar à bolachada) - Sopapo / (andar à bulha dando sopapos)

Bolandas (andar em) – Andar em voltas complicadas

Bolir – (Mexer, incomodar)

Bonda (bem bonda) – Basta, já bem basta

Borco (de) – De barriga para baixo

Bordoada – Pancada com um pau (bordão)

Bornal - Saco em que se levam pertences ou a merenda. Saco com ração que se enfia no pescoço dos burros

Borra-botas – Pessoa sem posses a quem se pretende retirar qualquer valor

Borracho / Borrachana / Borrachão – Bêbado

Borralho – Braseiro na lareira

Borrega – Bolha de água na mão ou no pé

Botar – Deitar algo em algum lugar ou recipiente

Botelha - Cabaça, tipo de abóbora

Botica - Farmácia

Botifarra – Bota grosseira e grande

Braguilha – Abertura da frente da calça dos homens; equivale a “portinhola”

Braveira / apanhar uma... - Estar irritado e barafustar

Bromelho – Corrupção de Vermelho

Brusco (tempo…) – Tempo nublado, escuro, desagradável

Bucha – Bocado de pão com conduto

Bucho - estômago do animal (o termo pode ser aplicado ao nosso estômago - ex: enchi o bucho)

Bufa – Peido

Bulha – Zaragata

Búzio (o tempo estar... os olhos estarem...) - cinzento / enevoado

 

C

Cabeça de alho chôcho – Pessoa com pouco juízo

Cabo dos trabalhos – Expressão que se refere a algo que foi ou será muito difícil de fazer

Cachaporra – Pancada muito forte

Cachimónia – Cabeça (com o sentido de cérebro – pensar)

Cachopa / cachopo - Rapariga / rapaz

Caco (menino do…) – Menino mimado

Cagaço – Medo, susto

Caga-lume - Pirilampo

Cagança – Gabarolice

Caganeira - Diarreia

Caganeirento – Vaidoso

Caganito – Pequena quantidade de algo

Caguinchas - Medroso

Cagulo (de) – Estar cheio ao máximo (comida tipicamente – não se aplica a líquidos)

Calhoada – Pedrada

Calmeirão – Homem corpulento

Caluda! – Expressão para exigir silêncio

Cambada – Corja; Gente de má índole (aplica-se a um conjunto de pessoas e não individualmente)

Canalha – Crianças pequenas

Cantareira - Armário ou estrutura montada numa parede para colocar os cântaros, sobretudo os cântaros de água (quando a água era recolhida de fontes públicas ou naturais), mas também pratos e copos.

Cantilena - Cantiga

Caracho – Expressão de admiração; Equivale a Carago

Carago - Expressão de admiração; Equivale a Catancho e a um termo ainda hoje em uso com as mesmas duas sílabas iniciais.

Caramelo – Camada de gelo; frio intenso

Cardina - Bebedeira

Carrapato (=Encarrapato) – Carraça de pele lisa; Também se refere a alguém nú

Carrapicha (ir à) – Ir aos ombros (sentado nos ombros) de outro; Normalmente uma criança às carrapichas de um adulto

Carrapito – Arranjo de cabelo das senhoras em que o cabelo fica apanhado por trás e por cima (zona da coroa / occipital) formando um pequeno novelo

Carraspana – Bebedeira

Carrego (Um…) – Carga que seguia um padrão. Podia referir-se a um homem “levar um carrego às costas”, ou um animal, como por exemplo um burro

Carumba - Corrupção de "caruma", agulhas de pinheiro secas depois de cairem ao chão

Cascar (cascar em) - Bater em alguém

Castada - Corrupção de cacetada (pancada)

Casulo (do milho) - Interior da maçaroca

Catano – Expressão de admiração; Equivale a Carago

Catancho – Expressão de admiração; Equivale a Carago

Catita – Bem arranjado; Bonito

Catraio – Garoto

Catrapiscar – Piscar o olho a alguém

Catrefa – Grande quantidade (tipicamente quantidade de gente)

Cavalitas (andar às) – Andar às costas de alguém; tipicamente crianças

Catrino (ai o) – Desabafo; equivale a “Mas que raio!”; Equivale a Catano e Catancho

Chanato - Sapato

Chão – Pequena horta

Chambaril - Pau ou ferro para pendurar o porco após ser morto, para se proceder ao ato de o "desmanchar"; Equivale a arrocho

Chiba – corcunda

Chicha – febra

Chincar – Espetar

Chinfrim - Barulheira /algazarra

Chita - Ficar a zero, por exemplo num jogo / ter um péssimo resultado; "Não ser chita" corresponde por exemplo a não ficar a zero, não ter o péssimo resultado

Côca – Entidade perigosa que se nomeava para assustar as crianças com medo, para não fazerem algo ou não ir a determinado sítio (pois podia vir a côca)

Corricho - Porco

Cravelha – Lingueta (trinco) da porta

Conduto – Pedaço de comida de origem animal (carne, chouriço…) para comer

Cunapa – Remendo

 

D

Danado (estar) - Estar furioso;

Derrancado – Extenuado; De rastos

Desandador – Chave de fendas

Desenculatrado – Escangalhado

Desenxabido – Sem gosto

Desobriga – Confissão anual pela Quaresma (para cumprir o preceito – pelo menos uma vez por ano…)

Destrocar (dinheiro) – Trocar tipicamente uma nota de valor elevado por notas ou moedas de menor valor.

Diacho - Forma popular de referir o diabo; Exemplo: "Arre diacho!"; Segundo a tradição não se devem nomear de forma direta os "maus espíritos" pois eles podem acorrer ao nosso chamamento. Por essa razão foram criados diversas outras denominações para que "ele" não vir ao nosso encontro...

Doidana (estar numa) - Estar a comporatar-se de forma irracional

Doidivanas – Pessoa de vida desregrada

 

E

Emborcar – Beber de forma sôfrega

Empancar – Bater em algo que não deixa avançar ou não deixa abrir da forma normal (por exemplo uma gaveta)

Empanturrado – Cheio de comida até ao limite

Empanzinado – semelhante a empanturrado, mas mais associado a pão

Empata (um…) – Alguém que não se desenvencilha no que devia fazer e atrasa os outros

Empenado – Torcido, torto; Diz-se também de uma mesa ou banco em que as pernas não estão à altura correta, e fica a abanar facilmente

Empinar (bebida) - Beber até à última gota; Termo possivelmente derivado do gesto que será comum fazer de colocar o recipiente na vertical para que tal se faça

Empranhar – Corrupção de emprenhar; Ficar prenhe, grávida

Encafuado – Escondido, oculto; Aplica-se também na simples situação de estar na cama todo coberto com o lençol ou manta (encafuado na cama)

Encalacrado – Estar numa situação comprometedora, difícil de sair

Encarrapato – Nú

Encarrapitar – Colocar / colocar-se por cima, tipicamente numa posição não muito estável. Exemplo:  O senhor encarrapitou a criança aos ombros.

Enfarruscar / enfuscar - Sujar com cinza ou pó de carvão

Engonhar - Perder tempo

Enjorcado (mal) - Mal enjorcado = mal arranjado, normalmente referente a "mal vestido"

Enjorcar – Engolir de forma sôfrega

Ensertado – Já aberto (um invólucro que esteve fechado com alguma coisa – tipicamente comida, mas que entretanto alguém já abriu e gastou parte)

Entornado - Bêbedo

Esborralhar – Desmanchar (em partes pequenas)

Esbugalhar os olhos – Abrir muito os olhos (como bugalhos?)

Escanchar – Abrir, alargar, rachar (frase comum “escanchar as pernas” – estar de pé com os pés / pernas afastados

Escarafunchar - Revolver; Esgravatar

Escarcéu – Ruído; tipicamente gritaria

Escarranchado; Estar sentado de pernas abertas (por exemplo montado num animal)

Escarrapachado – Equivalente a escarranchado; Mas também se aplica a um texto, por exemplo de um edital, que se queira dizer que está bem à vista (possivelmente por associação malandra de quando uma mulher de saias está assim deixará algo bem à vista…)

Escava-terra (uma… feminino) – Toupeira

Escápulas – Cápsulas de medicamentos

Escorropichar – Beber até à última gota, deixando o líquido escorrer

Esgalhar – Cortar os galhos (ramos mais pequenos); Também se aplica com o significado de andar de depressa (andar a esgalhar, andar na esgalha)

Esgana – Doença dos cães que lhes afeta a respiração (Nota: Este termo é o usado pelos veterinários)

Esganar – Matar por asfixia; Estrangular

Esgolaimada – Mulher com camisa aberta à frente de forma exagerada tendo em conta as convenções (nos anos 1960 podia ser algo extremamente discreto aos olhos de hoje…)

Esgróviado – Tolo

Esguedelhado – Cabelo desgrenhado

Esmifrar (alguém) – Explorar alguém de forma abusiva; Ex: conseguir obter muitos bens / dinheiro dessa pessoa

Esmoer – Fazer a digestão

Estortegar – Torcer e danificar um membro – Ex: “Estorteguei um tornozelo” equivalendo a “torci / desloquei um tornozelo”

Espichar – Esguichar; Líquido que sai sob pressão de um orifício pequeno

Espinhaço / espinhela – Coluna dorsal

Espojar-se – Rebolar-se no chão e encher-se de pó / areia

Esquecido – Tipo de bolo regional achatado e redondo, com massa parecida com o pão de ló, mas seco

Estafermo – Pessoa de má índole

 

F

Farrusco - Estar enfarruscado; aplica-se também ao tempo atmofésrico com o sentido de nublado (equivale a "estar búzio")

Fedelho – Criança / miúdo (pejorativo)

Fraldisqueiro – Mal vestido

Fressura - Vísceras

Fumaceira – Fumarada / Muito fumo

Funda – Quantidade de azeite que se teve por uma quantidade de referência de azeitona (Ex: Um alqueire)

 

G

Gacho (de uvas) - Corrupção de "cacho"

Gadanha - Concha da sopa

Ganas – (dar nas ganas) Decidir-me a … (ter ganas) Ter vontade muito forte de…

Garruço - Gorro, caparuço

Gasganete – Goela / garganta

Gola – Goela / Garganta

Gosma (estar com a) – Estar com catarro

 

J

Jaja – Fato / Roupa

Javardo – Porco

Jeira - Parcela de terra que se consegue lavrar num dia pelos bois

 

L

Ladroeira - Ato de roubar (pode não ser o roubo de objetos, mas o de se vender a preço excessivo)

Lanho – Golpe / ferida

Lamúria – Choramingueira

Laréu (estar no) – Conversar (estar a)

Lavarinto (andar num) – Andar em grandes trabalhos e pressas, de um lado para o outro

 

M

Madeiro - Um único grande tronco de árvore, ou vários troncos de menor dimensão mas constituindo um volume igualmente considerável de madeira, o qual é ritualmente colocado a arder na véspera de Natal, numa praça central da localidade, procurando-se que a chama continue acesa até ao ano novo. Constitui um ponto de encontro das gentes da terra, sobretudo no final do dia, reconfortando-as da habitualmente gélida temperatura ambiente.

Mal-amanhado – Feito à pressa

Mal – enjorcado – Mal vestido

Malha (Levar uma) – Levar uma sova

Malina – Doença mortal epidémica (nos animais); muito frequente nos coelhos

Malmandado – Indivíduo desobediente

Malmurcho – Doença que murcha as plantas

Marrafa – Franja de cabelo comprida sobre a testa

Marrano - Porco

Matacão – Alguém corpulento e sem modos / abrutalhado

Matação – Matança do porco

Marreco – Corcunda

Mecha – Pedaço de pano que se põe a arder (exemplo: a tira que está embebida no petróleo – candeeiro de petróleo)

Medrar – Crescer

Melindrosa – Sensível / que fica facilmente afetada (por exemplo com doenças)

Mijinhas (às) – Aos poucos

Miminho do caco – Pessoa mimada

Mocho – Banco baixo e pequeno

Monca – Ranho (a pingar do nariz, ficando dependurado)

Mono – Amuado

Mordiscar – Pequena mordidela; Comer um pequeno pedaço de algo, tipicamente pão, cortando apenas com os dentes incisivos

Mosca-morta – Pessoa com pouca iniciativa

 

N

Nagalho – Pedaço de cordel

Nalgas – Nádegas

Nesga - Parte pequena de algo - exemplo: Uma nesga de terreno;
              "De nesga" - Estar de lado, estar de viés;
              "Bater de nesga" - Bater de raspão.

 

O

Ódespois / Osdespois – Equivale a “e depois…”

 

P

Panada – Pancada ; Exemplo: andar à panada – andar à pancada

Pantanas (ir de) - Cair

Pantominas – Trapalhão

Papo-seco - Pequeno pão de trigo, com uma forma peculiar, em que o padeiro batia com a mão no meio, em jeito de cutelo e puxava os extremos originando o que se denominava as "maminhas"

Pecarricho / Pequerricho - Pequeno

Pedrisco - Granizo

Pelainudo – Alguém com mau aspeto, mal vestido, desleixado

Peneiras / Peneirento – Vaidade / Vaidoso

Penicada - Fezes humanas

Penico - Esterco, estrume (para lá do habitual significado de recipiente próprio para se urinar e defecar)

Pentem – Corrupção de Pente

Pertelinho – Pertinho

Pincho – Trinco

Pindericalho – Algo pendente de pouco valor; Por exemplo uma bugiganga a fazer de colar

Pingarelho (armar ao) – Basófia

Pinoco – Marcador / pino (por exemplo um marco da estrada, ou um pino de um jogo da malha)

Pirisca – Parte final do cigarro, quase todo já fumado (os pobres apanhavam as piriscas dos outros e fumavam-nas)

Pita – Galinha

Pitrol – Petróleo

Poldras – Pedras que se colocavam nas ribeiras, afastadas um pouco umas das outras, mas permitindo passar a pé sobre elas sem se molhar

Portelo – Entrada da quinta

Portinhola – O mesmo que braguilha

Prantar – Colocar algo num sítio de forma muito exposta / que incomoda; Exemplos: “Prantaram-me aqui isto à porta!”; “Estás aí prantado a olhar para mim?”

 

Q

Quêdo – Quieto; Sossegado

Quelha – Viela estreita

Queimoso – Sabor do queijo picante

Quilhado – Prejudicado

 

R

Rabicho – Cabelo a fazer… “rabo de cavalo”

Ralado – Preocupado

Raimoso – Picante (ex: queijo)

Rebatinha (deitar à) – Deitar tudo de uma vez para quem quiser apanhar (quando alguém tinha por exemplo cromos de jogadores a mais que já não lhe interessavam, gerava alguma “festa” para os outros deitando-os ao ar e os outros corriam a apanhar)

Recusa (fazer) - Acusação, denúncia

Respigo – Pequena parte de um cacho de uvas

Roçar (o chão da casa) - Esfregar o chão da casa

 

S

Salvação (dar a) – Cumprimentar (quando se cruza com alguém)

Salta-roscas - Osga

Saraiva - Granizo

Sêmea - Pão de formato médio / grande, arredondado, com uma côr algo escura pois é / era feito com farinha de trigo pouco refinada (dizia-se ser de "farinha de 2ª")

Sobrado – Sótão

Soltura – Diarreia (= Caganeira…)

Somítico – avarento

Sopapo / andar à sopapada - bofetada / andar à bofetada

Sorna (ser um) – Preguiçoso

Sortes (ir às) – Ir fazer exame militar

Sumiço – Desaparecimento

Sucapa (à) - De forma a tentar passar despercebido

Sustância – Comida de maior riqueza proteica (ex: carne, peixe, ovos)

 

T

Tapada – Terreno agrícola com muro à volta

Tartulho – Tipo de cogumelo

Testo - Tampa da panela

Tinhoso – Nojento

Tomata - Corrupção de tomate

Topadela – Pancada imprevista com os dedos dos pés, a andar, tipicamente bastante dolorosa

Trambalazana – Brutamontes

Trambelho – Juízo

Trampa – Fezes

Trombas (andar de…) – Andar com cara de desagrado

Trouxe-mouxe – Feito rápido sem cuidado

Tuta e meia – Barato

 

U

Unto – Banha de porco

Úrsula – Corrupção de úlcera

 

V

Venda (a) – Pequeno comércio / mercearia

Veneta – Fúria

Vianda – Preparo de comida para dar aos porcos, tipicamente uma “sopa” com bastante água, legumes cortados e restos diversos de comida humana;

Vivo (O…) – Animais que se tratam. “Ir dar de comer ao vivo”, significa ir dar de comer aos animais. Porcos, coelhos, galinhas…

Vraveira (estar numa) – Estar bravo, irado – corrupção de “braveira”

 

X

Xé-xé – maluco

----- <> -----

Foram incluídas sugestões de:

Graça Neiva Correia Ribeiro
Dulce Pinheiro
José Joaquim Pinto de Almeida
Adozinda Pereirinha

 

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Breves notas biográficas da D. Maria Alcina.

Maria Alcina Cameira Franco Patrício (Caria 1920 – Lisboa 2012), dedicou boa parte dos seus estudos à música e às artes (Conservatório Nacional de Música; Escola de Artes António Arroio). Exerceu diversas atividades sobretudo relacionadas com o ensino de arte e desporto. Escreveu poesia. Teve intervenção política.

Manteve sempre um grande dinamismo demonstrando uma enorme alegria de viver, dinamizando ações na sua terra natal.

Criou o grupo Cantadeiras de Caria, o qual participou em eventos e festivais nacionais e internacionais.

Recebeu da câmara municipal de Belmonte a medalha de mérito municipal.

1985_Cantadeiras_2.jpg

Foto: Cantadeiras de Caria, cantando as Janeiras, em 1985
Maria Alcina surge com as mãos juntas, sensívelmente ao centro mas um pouco sobre o lado esquerdo
LMCPM - 1985

 

Agradeço aos filhos Albertina e António a concordância na divulgação da gravação aqui disponibilizada.

 

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Este levantamento consultou as seguintes páginas da internet. Aos seus autores, manifesto o meu reconhecimento.

Paulo Jesus - pj1966@sapo.pthttp://cidadedacovilha.blogs.sapo.pt/1820.html

Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa» - leitaobatista@gmail.com - https://capeiaarraiana.wordpress.com/category/o-falar-de-riba-coa/

 

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Tempos sobrepostos - Metáfora da memória

por Lourenço Proença de Moura, em 03.07.20

teste1.jpg

 

Quando estivemos a preparar a publicação anterior, foi necessário fazer um processamento gráfico que resultou na imagem inicial.

Nessa fase, o meu filho João mostrou-me uma composição que fez, que achei muito interessante e que aqui partilho.

Nela, os personagens, o tempo e o espaço, a cor e as sombras interpenetram-se.

Como se nos visitassem e às nossas memórias…

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4 de Julho de 1808 - o dia em que “o maneta” passou por Caria

por Lourenço Proença de Moura, em 27.06.20

Versao_final_psp.jpg

Três notas prévias:

- Caria, no concelho de Belmonte, é a minha terra natal, onde mantenho fortes laços.

- Neste caso o leitor poderá confirmar que a cacafonia do título desta publicação se enquadra bem no que se passou.

- A imagem inicial situa-se no ponto mais alto, no largo em frente da denominada Casa da Torre. É o resultado de uma composição feita a partir de duas imagens desse local, uma antiga e outra atual, a que se acrescentaram imagens de elementos do exército francês recolhidas da internet.

 

Contextualizemos um pouco este relato de forma muito simplificada…

Na sequência de uma forte conflituosidade com a Inglaterra, Napoleão ordenou o denominado “Bloqueio continental”, que pretendia isolar e debilitar economicamente o reino inimigo. Devido à nossa bem antiga aliança formalizada em 1386 pelo Tratado de Windsor, recusámos. Perante esta atitude, a 18 de Outubro de 1807 o general Junot ao comando de aproximadamente 25.000 homens, atravessou a fronteira com Espanha e deu início à sua caminhada para a invasão de Portugal, com o apoio do reino espanhol.

A 30 de Novembro chegou a Lisboa, com o exército completamente destroçado pelo cansaço, mas na verdade não teve praticamente nenhuma oposição. Encontrou aliás o reino vazio de poder, pois a família real tinha partido poucos dias antes para o Brasil. Conta-se que ainda viu ao longe os barcos a desaparecer no horizonte…

Junot assentou o seu quartel-general em Lisboa e daí dirigiu todo o processo de ocupação e governação, assegurando que quaisquer veleidades que pudessem surgir para lhe fazer oposição, seriam rapidamente eliminadas.

Mas à medida que o tempo passava, as rebeliões iam-se sucedendo cada vez em maior número um pouco por todo o país, muito promovidas por algumas forças inglesas que procuravam organizar os poucos recursos de combate que possuíamos.

O que a seguir vou descrever tem como base um livro escrito pelo barão Thiébault, lugar-tenente de Junot, que o publicou alguns anos depois, em que relata, em género de diário, as várias vicissitudes por que passaram.

No final de Maio e início de Junho de 1808 os generais das tropas francesas Kellerman e Maransin enfrentaram fortes rebeliões no Alentejo. O general Loison pelo seu lado encaminha-se para o norte e a 5 de Junho está em Almeida. Depois dirige-se para o Porto, passando pela Régua. Nessa altura é informado que os portugueses e ingleses conseguiram reunir uma grande força de combate e desiste de ocupar o Porto, ficando em Lamego. No dia 23 está em Castro Daire. A 28 está em Celorico, 30 em Pinhel, 1 de Julho em Almeida, onde trava forte combate. No dia 4 dirige-se para a Guarda, com quatro batalhões, cada um de 850 homens e ainda 50 dragões, ou seja unidades de cavalaria.

Neste ponto vou tentar descrever mais em detalhe o relato como Thiébault o descreve, possivelmente com algum exagero, mas não deixa de ser impressionante…

Ao aproximar-se da Guarda, Loison esperava ser recebido como amigo, pois muitos portugueses tinham-no contactado e assegurado disso.Qual não foi a sua indignação quando dois oficiais que o precediam foram atacados. Avançou então para o combate, vendo que o inimigo estava disposto em duas linhas, com o centro bem defendido por duas peças de canhão. Ordenou o ataque sobre o centro. As tropas marcharam à sua ordem com sangue frio. Os atiradores dos insurgentes tentaram resistir mas são repelidos com enormes perdas. A artilharia portuguesa foi tomada, a vitória foi completa. O massacre foi terrível. O terror foi geral. Mais de mil mortos cobrem a terra e passando pelos destroços destes desgraçados o general Loison entrou em passo de carga na cidade da Guarda…

Ainda no dia 4 segue para sul e pernoita em Caria.

No dia 5 está na Atalaia, aldeia que se encontrava quase deserta…

Ficamos pois a saber que no final do dia 4 de Julho de 1808, descansou na então pequena aldeia de Caria um exército fortemente armado, de homens sem pruridos em tomar como seu tudo o que lhes aprouvesse, fossem alimentos, bens materiais, mulheres, ou mesmo a vida de quem se lhes opusesse, ou simplesmente tivesse azar em com eles se cruzar na altura errada… E suprema ignomínia para os portugueses de então, os jacobinos não tinham o mínimo respeito pela santa madre igreja!

Podemos imaginar o terror que se viveu nesses dias 4 e 5 e nos que os antecederam. Decerto havia desde há vários dias relatos de que os franceses andavam por perto… Decerto que os relatos eram contraditórios naquele tempo de frágeis formas de comunicar.

Quando se confirmou que estariam mesmo muito perto, um mais corajoso deve ter subido à torre sineira e tocado a rebate, mas não se demorando nessa missão pois não queria fazer sombra aos mártires da Igreja!...

O pânico apoderou-se das gentes. O padre pôs a salvo as melhores alfaias litúrgicas e os livros de registos paroquiais. Os maiores proprietários resguardaram os seus melhores bens e gado, deixando alguns propositadamente para apaziguar a avidez dos invasores. Os mais pobres queriam apenas sobreviver e encontrar refúgio em algum sítio mais recôndito fora da aldeia.

Na verdade, no relato do livro, nada de particular é descrito que se tenha ali passado.

Porém algumas marcas deixaram…

Soldado_gravado_ombreira_porta.jpg

Na ombreira de uma porta de uma casa que se encontra em frente da denominada Casa da Torre, no largo que se situa no ponto mais alto e que foi seguramente um espaço central do acampamento, podemos ver duas figuras picotadas na pedra que têm claramente o perfil do soldado francês. Podemos ainda ver a data 1808 (não surge nesta imagem) para quem tivesse dúvidas…

Numa das fontes de água mais próximas, que se situa a uns 200 metros, denominada Fonte do Carvalho, que na altura ainda poucos anos tinham passado desde que fora renovada e ostentava um brasão real português, vemos que esse brasão foi picado, ato que era feito com frequência, como clássica forma de agrBrasao_Fonte_do_Carvalho_Minha_foto.jpgessão aos símbolos “do inimigo”.

Fonte_do_Carvalho.jpg

Mas a marca mais comovente é a meu ver a que se encontra no livro de óbitos.

Refere então o livro relativamente a este dia…

Obito_Manuel_Joaquim_20200704_obito_Invasoes_Franc

No dia quatro de Julho de mil oitocentos e oito anos, faleceu Manuel Joaquim Grencho(?) do lugar de Peroviseu por causa de um tiro que lhe atirou um Francês, casado que era com Maria Aleixa, tendo de idade quarenta e dois anos, pouco mais ou menos, não recebeu sacramento algum nem fez testamento, e foi sepultado no Adro da Igreja desta freguesia de Caria no dia cinco do dito mês, de que fiz este termo que assino… O Cura José da Costa Carreira

Um homem seguramente simples, vindo de longe (Pêro Viseu fica a cerca de 20 Km a sul), decerto para ganhar o seu fraco sustento, perdeu a vida por qualquer motivo fútil.

Um “pequeno” drama, insignificante à luz da história e de todas os espantosos progressos e tremendas tragédias de que a natureza humana tem sido capaz…

Mas a natureza, que não a da restrita vertente humana, tem uma quase infinita capacidade de regeneração…

Na pequena aldeia de Caria, poucos dias depois, a 10 de Julho, nasce Maria, filha de António Esteves Moucho e Ana de Almeida… e decerto que com ela o ânimo das gentes foi reganhando confiança no futuro.

Por feliz coincidência, o avô paterno de Maria era natural de…

...Pêro Viseu…

Maria_nasceu_28080710_logo_apos_passagem_franceses

Contudo, chegado a este ponto já final do relato, pode o leitor perguntar: Mas então, a que se referia “o maneta”, do título?

Sucede que o general Loison (Louis Henri) não possuía braço esquerdo. Porém o que o tornou mais conhecido em Portugal era a sua frieza e desprezo pelo valor da vida humana. Se capturasse alguém que de alguma forma lhe tivesse feito frente, a morte era certa, muito possivelmente depois de sofrer bastante às suas ordens. Daí surgiu a frase que hoje usamos de forma informal “ir para o maneta”.

Loison_novo.jpgLoison_busto_meia_idade.jpg

(Imagens do general Loison recolhidas da internet)

 

Se tiver curiosidade em ler a parte citada escrita pelo barão Thiébault, pode consultá-la aqui.

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AGRADECIMENTOS

Aos Amigos Mário Tomás e Luís Ribeiro, respetivamente pela disponibilização da fotografia antiga de Caria e pela recolha em tempo record de uma fotografia atual tirada na mesma perspetiva, mas com maior ângulo de visão para poder compor a imagem que ilustra esta publicação;

Ao meu filho João pela ajuda no processamento das imagens.

 

 

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