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Armários sagrados?

por Lourenço Proença de Moura, em 02.04.21

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Tenho já um percurso de vida algo longo, mas felizmente continuo a ser surpreendido pelo que posso denominar de “descobertas  inesperadas”. O que vou relatar sucedeu há relativamente poucos anos, na minha terra natal, Caria, no concelho de Belmonte. Mostraram-me uma pedra de formato estranho cuja finalidade desconhecia. Nunca tinha vista algo semelhante. E pouco tempo depois soube que afinal haveria mais na minha terra. E bastantes mais, um pouco por todo o país, sobretudo em terras do interior. Mas qual a sua finalidade? Há quem as considere pertencerem a armários sagrados. Fiz algumas pesquisas e…

Se tiver curiosidade em saber o que fui escutando, lido e refletido, venha comigo nesta viagem… No final, poderá mesmo procurar e encontrar alguns exemplares, a partir das indicações que lhe vou dar.

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O episódio inicial que me levou a estas notas, ocorreu como referi, na minha terra, Caria. Estávamos em 2014. Numa ida em férias, o meu amigo Mário Ribeiro, ao fazer-me o ponto de situação do que de mais relevante teria ocorrido desde a minha última visita, conhecendo bem a minha curiosidade por temas que possamos associar à história, disse-me que eu deveria ver uma pedra com forma misteriosa que estava em casa de um outro amigo, o Evaristo (Professor António Manuel Evaristo Duarte).

Como decerto ele já antecipava, poucos minutos depois já lá nos encontrávamos, após um breve passeio pedestre, facilidade permitida nestas pequenas localidades em que quase tudo está por perto.

A pedra estava no jardim. Infelizmente partira-se ao ser retirada do local em que se encontrava, numa casa que ele entretanto vendera.

A imagem com que iniciei esta publicação e esta seguinte foram tiradas nessa altura.

Pedra_Evaristo.jpg

Nunca tinha visto pedras semelhantes. O que me surpreendia, era que claramente estava escavada no meio, tendo um bordo saliente, com o objetivo de não deixar derramar e facilitar a recolha de um líquido. Tal em si mesmo nada tem de estranho. Porém a sua saída não era um mero orifício, tendo um trabalho singelo mas interessante, representando o que me pareceu ser a cabeça de um carneiro.

A associação imediata que me veio à ideia, era de que, com esta representação na saída, seria para fazer um qualquer tipo de sacrifício ritual. Mas não consegui imaginar qual e muito menos “o porquê”, numa terra como Caria.

Mais tarde, na sequência de conversas diversas com outros amigos, fiquei a saber bastante mais sobre este tipo de pedras, que eu então desconhecia. Tal aprendizagem foi sobretudo feita com a minha conterrânea Graça Correia Ribeiro, que tem estudado o tema. Na verdade esta pedra corresponde a uma tipologia conhecida, que ocorre um pouco por todo o país, mas sobretudo nas zonas do interior. Em algumas publicações disponíveis na internéte (ver por exemplo [3]) refere-se que estará associada a práticas religiosas dos cripto-judeus, ou seja, judeus que na sequência das perseguições feitas em Portugal desde o final do século 15, tinham mantido a sua religião e ritos de forma secreta, mantendo na aparência práticas cristãs.

Este tipo de pedra correspondia a uma prateleira, tipicamente a inferior, de uma estrutura normalmente embutida na parede, constituindo um armário quase sempre em pedra, que na configuração mais comum tinha duas prateleiras. Uma delas, mais trabalhada e com o referido formato de recolha de líquido, ficava por baixo. A outra, mais simples, por cima. Segundo as referidas propostas, nestes armários seriam colocados os objetos litúrgicos, tais como uma candeia, uma menorá, ou mesmo a Tora. Mas sobre a exata função da prateleira inferior não encontrei nenhuma certeza. A única explicação até agora encontrada [3] sugere que seria para funcionar como cantareira de água.

Esta possibilidade não me pareceu razoável. Uma cantareira em pedra é pouco lógica – basta um toque inadvertido numa esquina e o cântaro parte-se. Procurei então fazer alguma pesquisa. Consultei descrições dos ritos judaicos, contactei pessoas judias e estudiosos. Não consegui identificar nenhum rito em que fosse utilizado um líquido em que houvesse a necessidade de o mesmo ser recolhido.

Pensei então que poderia não ter a ver com ritos atuais, mas sim antigos. Tal seria plausível. Por exemplo na publicação feita por Samuel Schwarz [1] em 1925, centrada na comunidade judaica de Belmonte, o autor mostra que, fruto de todo o secretismo que era assumido e da passagem essencialmente oral entre gerações, várias das orações recitadas tinham há séculos deixado de ser usadas. Esta comunidade “cristalizou” o que eram práticas muito antigas.

Curiosamente, procurar descrições de práticas antigas foi para mim relativamente fácil, pois na sequência de outras pesquisas já conhecia um livro publicado em Amsterdão em 1645 por um judeu português. Trata-se da obra Thesouro dos Dinim (Tesouro de ritos) [2], escrito por Menasseh Ben Israel, nascido Manuel Dias Soeiro, na ilha da Madeira em 1604. Na internet encontra-se disponível a 2ª edição, do ano judaico de 5470, ou seja de 1710. Trata-se de um tratado das leis judaicas, escrito em português, relativo às práticas a cumprir. Destinou-se naturalmente à comunidade sefardita portuguesa. Inclui por exemplo (referências abreviadas) Tratado de madrugar pela manhã,  Forma de observância de todos os preceitos morais da divina Lei, Das sestas e jejuns de todo o ano, Das Comidas lícitas e ilícitas, com as bençãos e circunstâncias tocantes a esta materia.

Porém, na leitura que fiz, também não consegui identificar a utilização de líquidos que justificasse a necessidade da sua recolha, nem algo que pudesse explicar o formato destas prateleiras.

Uma outra base de estudo foram as obras de David Augusto Canelo, Os últimos cripto-judeus em Portugal [4] e  O resgate dos marranos portugueses [5], que se centra na comunidade judaica de Belmonte, se bem que ofereça uma perspetiva alargada. Não é feita nenhuma referência a estes armários. Contactei entretanto o autor que me confirmou não ter até ao momento conhecimento de nenhuma evidência que sustente a perspetiva de que esses armários poderiam ser de origem judaica ou usados para o culto.

Uma outra ideia de pesquisa que me ocorreu foi a seguinte: Se este tipo de armário era tão divulgado e fosse usado para algum rito, seria decerto citado em algum dos muitos processos de julgamento do Santo Ofício. Fiz nessa sequência alguma pesquisa na internet e encontrei algumas publicações sobre esses processos. Porém e mais uma vez, nelas não encontrei nenhuma referência a este tipo de armário.

Depois de mais este insucesso suspendi as pesquisas, aguardando pela publicação de estudos nesta área.

Sucedeu que, no final de 2020, ao fazer obras de remodelação na minha casa em Caria, acompanhadas à distância por causa da pandemia, fui surpreendido com a informação de que, ao se desmontar um armário – vitrine, se encontrava por trás uma destas estruturas. Fiquei naturalmente agradavelmente supreendido e pedi à minha amiga Angélica Mujeiro que me enviasse imagens.

Mostro de seguida qual era o aspeto anterior e o que ficou à vista.

IMG_6178.JPG

Armário – vitrine como o conhecia

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Armário tal como ficou agora à vista

O armário tem as seguintes dimensões em centímetros: 140 de altura, 120 de largura, 40 de profundidade.

Por razões óbvias este armário permite-me fazer algumas interpretações pessoais.

Percebe-se que a parte superior rachou num passado distante. Pode ter sido essa a razão para ter sido “forrado de novo”.

Numa parede próxima, ficou à vista uma data, não muito nítida, mas aparentemente 1687.

1687.JPG

Vendo a forma como as paredes estão justapostas, percebe-se que a parede do armário é de construção posterior, possivelmente pouco posterior.

Não possuímos documentação sobre a origem da casa ou a sua aquisição. Sempre assumi que era da família há bastante tempo sem outras preocupações. Sei que com o apelido Proença, o primeiro antepassado a nascer em Caria, foi meu bisavô Agostinho em 1840. O pai dele nascera perto, mas na Quinta da Castanheira. Terá vindo depois viver para Caria e nessa altura comprado a casa que já há muito existia. Também não conheço documentos ou relatos de família que pudessem remeter para a religião judaica.

A localização deste armário levou-me a reforçar a convicção de que não terá nada a ver com funções de cantareira. Encontra-se na sala mais interna da casa. Uma cantareira está tipicamente no ponto de maior atividade, na maioria das vezes na cozinha ou sala anexa à cozinha. Temos aliás uma nessa mesma casa, na saleta junto à “cozinha velha” onde fazíamos as refeições. Era aí, nesse ponto de passagem (e de refeição) que a cantareira prestava o seu inestimável serviço.

Não havendo porém nenhum dado concreto que sustente que possa realmente ter origem judaica, assumi que poderia ser simplesmente um armário utilitário, com a prateleira inferior para um qualquer uso que talvez futuros estudos esclareçam.

Porém, numa conversa informal com a minha esposa, sobre este “mistério”, ela sugeriu uma possível resposta…

Havia e há um ato essencial para os judeus cumprirem os seus preceitos, relacionados com a alimentação. Para lá de haver restrições a se comerem certos animais, mesmo os que se podeam comer têm de ser mortos cumprindo um conjunto de regras bem definidas em que o animal é obrigatoriamente sangrado. No já citado livro Thesouro dos Dinim, tal é bem descrito e mais abaixo apresento a respetiva transcrição.

O sangue não pode ser digerido. Em condições normais, o sangue devia / deve ser simplesmente derramado no chão, em areia. Mas em comunidades perseguidas essa abordagem não podia ser feita. Tal deixava evidências que podiam ser constatadas facilmente por qualquer vizinho ou visitante.

A opção por uma base de pedra, onde o pequeno animal era imolado, com o seu sangue a ser de imediato recolhido, sendo a pedra lavada para não deixar vestígios, seria possivelmente uma boa abordagem para estas comunidades.

Claro que isto é apenas uma hipótese. Talvez um dia se possam, quem sabe, fazer análises que permitam validá-la, caso existam técnicas que consigam identificar resíduos mínimos antigos de sangue em algumas destas estruturas.

Saliente-se que esta hipótese parece entrar em oposição com a ideia desta estrutura ser também o local de colocar objetos liturgicos na prateleira superior. O sangue era considerado impuro. Mas naquelas épocas de perseguição não se podiam dar a luxos de cumprir todos os preceitos de forma perfeita. Por isso, quem sabe, até poderia servir para ambos. Após a morte do animal poderia haver um ato de purificação. Mas isto são meras especulações.

Em jeito de resumo...

Em resumo, na sequência da minha análise, considero como possível que estes armários fossem construídos por iniciativa de cripto-judeus para realizar atos de sangramento em pequenos animais para fins alimentares. A hipótese de o armário ser usado como cantareira não é coerente, mas decerto que poderiam neles colocar cântaros para disfarçar o seu real uso. Na pedra que referi no início, em que o orifício de saída tem a forma de uma cabeça de carneiro, terá mesmo havido a ousadia de o denunciar…

Com uma associação simples fonética a denominação de “armários sagrados”, poderia nesta interpretação ser adaptada para “armários de sangrado”...

Por curiosidade, no Anexo 2, apresento a descrição deste ritual, tal como é descrito no referido livro Thesouro dos Dinim.

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Se gosta de desafios e jogos de descoberta, aqui lhe deixo um…

A Bemposta é uma simpática aldeia da Beira Baixa, perto de Monsanto, a leste do Fundão.

A minha conterrânea Graça Correia Ribeiro explicou-me que nesta localidade podem ser facilmente vistas pedras como as que descrevo neste artigo, tendo-me disponibilizado fotos das mesmas. Várias destas pedras trabalhadas, correspondentes à prateleira inferior dos armários, foram adaptadas pela população ao uso como bancos, colocados nos exteriores das casas.

Lembrei-me então de lançar o seguinte jogo-desafio, muito simples: procurar os bancos de pedras trabalhadas. Sugerimos que quando tiver oportunidade visite a localidade e a região, mas mesmo à distância, sem lá se deslocar fisicamente, poderá fazê-lo. A opção do Google Street View, permite fazer um passeio virtual pela aldeia.

O mapa apresentado a seguir mostra a estrutura das ruas. Pode por exemplo começar por aqui, na Rua de São Sebastião, ao lado da capela do mesmo padroeiro, mesmo junto a uma dessas pedras, correspondendo no mapa à estrela verde na zona superior.

Depois, percorra as ruas da aldeia, aprecie o ambiente e tente encontrar outras pedras que tiveram, em tempos idos, idênticas funções. Na minha pesquisa encontrei outras duas.

E não tendo a ver com esta pesquisa, recomendo que passe na Rua dos Balcões. É mesmo muito interessante e fica também muito próxima do ponto de partida! Basta seguir pelo lado direito e logo à saída do largo, seguir pela rua do meio!

Bemposta_Mapa.JPG

 

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Referências

[1] Os cristãos-novos em Portugal no século XX – Samuel Schwarz, 1925

Biografia de Samuel Schwarz: https://pt.wikipedia.org/wiki/Samuel_Schwarz

[2] Thesouro dos Dinim, que o povo de Israel eh obrigado saber, e observar – Menasseh Ben Israel, ano 5470 (1710); Trata-se da 2ª edição – a 1ª edição data de 1645-1647.

Cópia disponível na internet 

Biografia de Mesnasseh Ben Israel: https://pt.wikipedia.org/wiki/Menasseh_ben_Israel

A versão inglesa é bastante mais completa: https://en.wikipedia.org/wiki/Menasseh_Ben_Israel

[3] Os Hekhalot: Vestígios arqueológicos de um criptojudaísmo singular, Pedro Mendes, 2018

http://193.137.34.194/index.php/Port/article/download/5198/4869

[4] Os últimos criptojudeus em Portugal - David Augusto Canelo, Câmara Municipal de Belmonte - 2001

[5] O resgate dos marranos portugueses - David Augusto Canelo, Câmara Municipal de Belmonte, 2004

[6] Jornal Ha-Lapid (O facho) – publicado entre 1927 e 1958 – divulgador de iniciativas da fé judaica http://www.rebordelo.net/cripto-judaismo/halapid/

 

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Anexo 1 – Hábitos que suportavam a denúncia de práticas judaicas [5] (página 26)

Note-se a referência ao ato de degolar, descrito no anexo 2.

Descrição proveniente de O Monitório de 1536

Guardar os sábados, não trabalhando e vestindo-se de festa; fazer comida às sextas-feiras para o sábado, acendendo e mandando acender então candeeiros limpos com mechas novas mais cedo que os outros dias e deixando-os acesos toda a noite até se apagarem; degolar aves, atravessando-lhes a garganta, depois de experimentado o cutelo na unha do dedo da mão, e cobrir o sangue com terra; não comer toucinho, nem lebre, nem coelho, nem aves afogadas, nem enguia, polvo, congro, arraia, pescado que não tivesse escama; jejuar o jejum maior, que cai em Setembro, não comendo em todo o dia até à noite ao nascer das estrelas, e estando no dia de jejum maior descalços, comendo carne e tigeladas e pedindo perdão uns aos outros; jejuar o jejum da rainha Ester, assim como às segundas e quintas-feiras; solenizar a páscoa comendo pão âzimo em bacias e escudelas novas, rezando os salmos sem Gloria Patri, fazendo oração contra a parede, sabbadeando, abaixando a cabeça e levantando-a e usando então dos ataphaliis, isto é de correias atadas nos braços ou postas sobre a cabeça; comer, quando alguém morria, em mesas baixas e só pescado, ovos e azeitonas; estar então detrás da porta; banhar os defuntos; lançar-lhes calções de lenço, amortalhando-os com camisa comprida e pondo-lhes em cima a mortalha dobrada como se fosse capa; enterrá-los em covas fundas e em terra virgem e pondo-lhes na boca um grão de aljôfar ou dinheiro de ouro ou prata, dizendo que é para pagar a primeira pousada; cortar-lhes as unhas e guardá-las; derramar ou mandar derramar a água dos cântaros e potes, dizendo que as almas dos defuntos se vêm banhar ou que o anjo percuciente lavou a espada na água; deitar, nas noites de S. João e Natal, ferros, pão ou vinho, na água dos cântaros e potes, dizendo que naquelas noites a água se torna em sangue; deitar bênção aos filhos, pondo-lhes as mãos sobre a cabeça e abaixando a mão pelo rosto abaixo sem fazer o sinal da cruz; circundar os filhos; depois de os baptizar, rapar-lhes os óleos que lhes puseram. 

 

Anexo 2 – O ritual “de degolar” segundo o livro Thesouro dos Dinim

Folio 119 (página digital 249)

Degoladura_Dinim_Inicio.JPG

...

Transcrição segundo o jornal Jornal Ha-Lapid [6]

Dinim de Degolar

CAPITULO IV

A degoladura para ser válida, consiste em três coisas, a saber: no instrumento, no lugar da degoladura, e sítio em que se faz.

No instrumento convém observar duas coisas, a saber:

Primeira, que seja a faca tão aguda e perfeita, que não tenha no corte alguma mossa; por que se acaso alguém degolar com faca que tenha alguma mossa por pequena que seja a tal degoladura será invalida, e a carne degolada trefá (impura – ver nota no final do texto). E assim para evitar isto, é obrigação olhar curiosamente (atentamente) a faca passando muito devagar a unha, e a carne do dedo pelo corte e lado dela até ao número de 12 vezes.

A segunda circunstância do instrumento é, que tenha a faca de comprimento pelo menos a quantidade de dois pescoços da ave, ou animal que se degola. E para tirar de duvidas, costuma-se trazer para degolar aves, de um dedo de largo, e quatro ou seis de longo, e sem ponta, a fim de não cair em escondedura, de que logo trataremos.

O lugar da degoladura, é justamente no meio do pescoço, cortando todo o cano da respiração e o gasnate (atualmente dizemos gasganete) da comida, e não degolando pontualmente no meio, deve-se advertir, que no cano da respiração para ser válida a degoladura, há-de ser desde o anel grande que está conjunto à cabeça até ao papo. E no gasnate, desde aquela parte que quando a cortam se encolhe, que é um dedo abaixo da cabeça até o mesmo papo. E sendo que se fez acaso a degoladura fora destes lugares, a carne é proibida. E ainda que dizemos, que convém cortar os dois canos por inteiro, se acaso degolando alçou algum a mão e achou haver degolado só a maior parte de algum deles, é valida a degoladura na ave, o que não será, se acaso achar degolado a metade de cada um deles.

Há também umas veias junto a estes dois canos, as quais ou no mesmo tempo em que se degola, ou imediatamente depois, se devem cortar, a fim de que saia todo o sangue; e se acaso algum o não fez, não se pode cozinhar em panela aquela ave inteira, com cabeça e tudo; o que depois de haver degolado, se deve olhar com curiosidade.

O sítio em que se deve degolar, é sobre pó solto, como dizer, areia muito miúda, cinza, terra de onde se pode semear, ou pó de serradores; excetuando areia grossa, farelos, terra molhada, chão feito de tábua ou pedras. Também se pode degolar num vaso que tenha pó. E navegando pelo deserto ou mar, faltando estas coisas, se recolherá o sangue num pano, e chegando à parte donde o pode lavar, recolherá o dito sangue, e o cobrirá sem dizer bênção.

As coisas que fazem inválido o mesmo acto de degoladura, são cinco, a daber: Dilação, Apertadura, Escondedura, Resvaladura e Arrancadura.

Dilação é, quando começando a degolar, levantou a mão, ou sem a levantar parou, antes de haver degolado a quantidade competente a qual degoladura é inválida, e a carne proibida, posto que a dilação fosse dum brevíssimo espaço de tempo.

Apertadura, é apertar o pescoço com a faca, ou cortá-lo de um golpe; porque a degoladura para ser boa, há-de ser, levando e trazendo a faca.

Escondedura, é não fazer a degoladura descoberta, mas oculta, metendo a faca entre os dois canos e cortando; ou entre a pele, aos canos; ou ainda entre a pena, o couro, ou debaixo de alguns pano. E por esta causa se tira primeiro a pena, fazendo-se lugar para a faca; e então descoberto o pescoço se degola.

Resvaladura, é degolar fora do lugar competente, o qual é o que arriba temos declarado.

Arrancadura, é haver-se achado depois de degolar algum dos dois canos de todo arrancado, e fora do lugar donde estão pegados às queixadas.

Sucedendo pois qualquer destas cinco coisas, é a degoladura inválida, e proibida a carne.

 

Da forma e estilo que se observa no degolar

CAPITULO V

Primeiramente olha-se com curiosidade a faca, passando pela unha e carne 12 vezes.

Achando-se sem mossa se prepara o pó e degolando, se diz a bênção seguinte:

 

Bendito tu A.N.D.R. del mundo (Adonai, nosso Deus Rei do Universo) que nos santificou em suas encomendanças (mandamentos), e nos encomendou (ordenou) sobre a degoladura. E adverte-se, que uma bênção, degolando muitas aves serve para todas, com tanto que não fale entre ave a ave, em coisa que não seja do sujeito (assunto) da degoladura. Dita a bênção, se degola no lugar, e quantidade competente.

Depois de degolar, se vê se se observou na degoladura as circunstâncias referidas, ou pecou nalguma delas.

Feita esta diligência, se torna a olhar a faca; e sendo que se acha com alguma mossa, é trefá a carne que se tem degolado. E assim, quem degola muitas aves, é necessário, que entre ave e ave reveja a faca, porque se acaso não fez isto, e olhando-a ultimamente a achar com mossa, todas as aves que houver degolado são trefás.

Finalmente, com a mão, ou cabo da faca, ou qualquer outra coisa, se cobre o sangue e diz a bendição (bênção) seguinte:

Bendito tu A. N. D. R. del mundo, que nos santificou em suas encomendanças, e nos encomendou sobre cobertura do sangue.

E degolando muitas aves, uma vez só se há-de cobrir o sangue com uma só bênção.

Estes são os Dinim suficientes, para poder degolar licitamente; buscando-se primeiro algum Hacham (rabino), a quem se mostre a faca, e o examine, dando-lhe a aprovação, para o poder fazer.

Autoria e outros dados (tags, etc)

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Foto: O senhor Manuel Proença Rebelo lavrando a sua terra
LMCPM - 1982

Até um tempo relativamente recente, a grande maioria das pessoas cumpria o seu ciclo de vida quase sem sair da sua terra natal. Em Caria, como em todas as localidades do interior de Portugal, o dia-a-dia seguia as rotinas do tratamento da terra e do cuidar do gado. Se Deus Nosso Senhor assim o determinasse, recolheriam os frutos do seu esforço e assim sustentavam a sua família. As palavras ajustavam-se às necessidades e a fonética era o resultado de uma combinação de um caldo de cultura que veio de tempos remotos, recombinando-se em cada geração com o que de novo a sociedade ia propondo.

“As novidades”, sempre ocorreram em todas as épocas, mas o ritmo era muitíssimo menor do que atualmente. Com o evoluir dos tempos, sobretudo desde o final do século 19, tudo se alterou de forma progressivamente mais acelerada. A chegada do comboio, a abertura de estradas, o telefone, a rádio, a televisão, a mobilidade das pessoas para centros urbanos ou como emigrantes para “outros mundos” e, claro, as profundas mudanças sociais decorrentes da revolução de 1974, trouxeram uma avalanche de novos hábitos, novas práticas, tornando obsoletas e desnecessárias muitas das palavras que antigamente eram comuns.

Quem como eu nasceu e viveu a juventude numa pequena localidade como Caria até ao início da década de 1980, guarda na memória um mosaico único de palavras que constituía uma espécie de “impressão digital” da terra. Algumas das palavras são conhecidas um pouco por todo o país. Outras são mais específicas. Não houve preocupação em distinguir quanto a esse aspeto, mas tão só registar os termos de uso comum da minha terra natal, até há cerca de 50 anos atrás.

Este levantamento teve como ponto de partida, para lá da memória pessoal, outros levantamentos disponíveis na internet, em particular dois que são identificados no final desta publicação.

 

Ti Maria

Numa gravação áudio de 1991, “Cantadeiras de Caria”, na altura vendida no suporte de fita das “velhinhas cassetes” hoje em desuso, Maria Alcina (ver breve nota biográfica no final desta publicação) assume a personagem “Ti Maria”, onde num delicioso monólogo com o ouvinte vai explicando como lhe está a correr dia. Usa como seria de esperar muitos dos termos deste glossário.

Pode escutá-la aqui.
Selecione "Download" na página que surge.

 

Sugestões

Todas as sugestões de revisão são bem-vindas. Agradeço que para tornar mais eficaz a comunicação, as sugestões sejam encaminhadas para o meu mail pessoal: lmcpm@sapo.pt

 

Glossário de termos regionais de Caria / Belmonte

 

A

Abalar - Partir, ir embora

Abano - Utensílio para atear a fogueira

Acagaçado – Com medo

Acartar – Carregar, transportar

Achanatar - Fazer à pressa

Acunapado - Mal remendado

Acusa-Cristos - Denunciante

Aforrar (as mangas) - Arregaçar

Alancar (com o saco às costas) – Aguentar o peso

Alacrário – Lacrau

Alapado – Agachado, à espera, parado

Albarda - Sela rústica para animal de carga

Aldraba – Argola que fica do lado de fora da porta e que rodando faz abrir o trinco interno

Aldravada - Aldrabice

Amainar – Acalmar (muito usado referindo-se ao vento)

Amanhar (a terra) – Preparar a terra para o cultivo

Amargoso – Amargo

Amigar-se – Ir viver com a amante

Amochar – Aguentar um peso com resignação (com frequência associado a cargas físicas)

Amodorrado – Encolhido (por vezes associado a doença febril)

Amolancar / amolancado – Amolgar / Amolgado

Arreado – Vestido (possivelmente por associação jocoso aos arreios dos animais)

Arrelampado – Confuso, zonzo

Arreganhar (os dentes) – Atemorizar mostrando os dentes

Arreganhar (de frio) – estar a tiritar de frio

Arreliar - Provocar outro com o sentido de o irritar

Arremedar – Gozar com o outro, repetindo o que ele diz

Arrenegar – Esconjurar; Amaldiçoar

Arrocho – Pau curvo onde se penduravam os animais para ser desmanchado depois de morto

Arteiro – Vivaço (ex: Veio todo arteiro…)

Artolas – Mariola, armado em esperto

Atão – Então

Atazanar – Espicaçar / Enervar

Atiradeira – Fisga

Atoleimado – Tolo

Aventar – Deitar abaixo, deitar fora

Avesar / avesada (com isto) – Habituar / habituada (com isto); Ex: Avezamo-nos – Habituamo-nos

Asado – Ajeitado; Ter jeito

 

B

Bácoro – Porco

Badagaio (dar-lhe o) – Desmaiar, ir-se abaixo…

Badameco – Zé ninguém

Bandulho – Barriga (estômago)

Baraço – Novelo de corda

Barbeiro (estar um) – Estar frio

Barda (em) – Em grande quantidade

Bardamerda – (Mandar à) Merda

Barguilha – Abertura das calças

Barroco = Rochedo de granito de grandes dimensões (referido normalmente na sua localização natural)

Bate-cu – Cair de rabo no chão

Bedum - Sabor e cheiro do sebo na carne de borrego ou carneiro

Bento / Benta – Curandeiro, alguém que tem poderes de curar os males do espírito

Bica - Pão comprido e espalmado que se come pelos Santos feito com farinha triga e azeite; Servia de presente dos padrinhos aos afilhados. Fonte com água a escorrer por um tubo, telha, ou uma qualquer conduta que a faz sair da parede, muro ou tanque de onde a água provém.

Bichas – Lombrigas; verme parasita que por vezes se aloja no estômago e intestinos

Bisca – Jogo de cartas; “Bisca lambida” era um termo que derivaria da forma popular em que os jogadores humedeciam os dedos (lambiam) com saliva para melhor manusear as cartas, que se tornavam sujas e pouco higiénicas. Mas antigamente a higiene era um luxo e preocupação de poucos…

Bispo (entrou o) – A comida esturrou

Boa-vai-ela (andar na…) – Divertir-se, vadiar, sem grandes preocupações.

Bocachinho – Poucochinho, Bocadinho

Bôcho – Nome genérico para chamar um cão

Bodega – Coisa imunda

Boer – Corrupção de beber

Bofatada - corrupção de "bofetada"

Bofes – Pulmões

Bolacha / (andar à bolachada) - Sopapo / (andar à bulha dando sopapos)

Bolandas (andar em) – Andar em voltas complicadas

Bolir – (Mexer, incomodar)

Bonda (bem bonda) – Basta, já bem basta

Borco (de) – De barriga para baixo

Bordoada – Pancada com um pau (bordão)

Bornal - Saco em que se levam pertences ou a merenda. Saco com ração que se enfia no pescoço dos burros

Borra-botas – Pessoa sem posses a quem se pretende retirar qualquer valor

Borracho / Borrachana / Borrachão – Bêbado

Borralho – Braseiro na lareira

Borrega – Bolha de água na mão ou no pé

Botar – Deitar algo em algum lugar ou recipiente

Botelha - Cabaça, tipo de abóbora

Botica - Farmácia

Botifarra – Bota grosseira e grande

Braguilha – Abertura da frente da calça dos homens; equivale a “portinhola”

Braveira / apanhar uma... - Estar irritado e barafustar

Bromelho – Corrupção de Vermelho

Brusco (tempo…) – Tempo nublado, escuro, desagradável

Bucha – Bocado de pão com conduto

Bucho - estômago do animal (o termo pode ser aplicado ao nosso estômago - ex: enchi o bucho)

Bufa – Peido

Bulha – Zaragata

Búzio (o tempo estar... os olhos estarem...) - cinzento / enevoado

 

C

Cabeça de alho chôcho – Pessoa com pouco juízo

Cabo dos trabalhos – Expressão que se refere a algo que foi ou será muito difícil de fazer

Cachaporra – Pancada muito forte

Cachimónia – Cabeça (com o sentido de cérebro – pensar)

Cachopa / cachopo - Rapariga / rapaz

Caco (menino do…) – Menino mimado

Cagaço – Medo, susto

Caga-lume - Pirilampo

Cagança – Gabarolice

Caganeira - Diarreia

Caganeirento – Vaidoso

Caganito – Pequena quantidade de algo

Caguinchas - Medroso

Cagulo (de) – Estar cheio ao máximo (comida tipicamente – não se aplica a líquidos)

Calhoada – Pedrada

Calmeirão – Homem corpulento

Caluda! – Expressão para exigir silêncio

Cambada – Corja; Gente de má índole (aplica-se a um conjunto de pessoas e não individualmente)

Canalha – Crianças pequenas

Cantareira - Armário ou estrutura montada numa parede para colocar os cântaros, sobretudo os cântaros de água (quando a água era recolhida de fontes públicas ou naturais), mas também pratos e copos.

Cantilena - Cantiga

Caracho – Expressão de admiração; Equivale a Carago

Carago - Expressão de admiração; Equivale a Catancho e a um termo ainda hoje em uso com as mesmas duas sílabas iniciais.

Caramelo – Camada de gelo; frio intenso

Cardina - Bebedeira

Carrapato (=Encarrapato) – Carraça de pele lisa; Também se refere a alguém nú

Carrapicha (ir à) – Ir aos ombros (sentado nos ombros) de outro; Normalmente uma criança às carrapichas de um adulto

Carrapito – Arranjo de cabelo das senhoras em que o cabelo fica apanhado por trás e por cima (zona da coroa / occipital) formando um pequeno novelo

Carraspana – Bebedeira

Carrego (Um…) – Carga que seguia um padrão. Podia referir-se a um homem “levar um carrego às costas”, ou um animal, como por exemplo um burro

Carumba - Corrupção de "caruma", agulhas de pinheiro secas depois de cairem ao chão

Cascar (cascar em) - Bater em alguém

Castada - Corrupção de cacetada (pancada)

Casulo (do milho) - Interior da maçaroca

Catano – Expressão de admiração; Equivale a Carago

Catancho – Expressão de admiração; Equivale a Carago

Catita – Bem arranjado; Bonito

Catraio – Garoto

Catrapiscar – Piscar o olho a alguém

Catrefa – Grande quantidade (tipicamente quantidade de gente)

Cavalitas (andar às) – Andar às costas de alguém; tipicamente crianças

Catrino (ai o) – Desabafo; equivale a “Mas que raio!”; Equivale a Catano e Catancho

Chanato - Sapato

Chão – Pequena horta

Chambaril - Pau ou ferro para pendurar o porco após ser morto, para se proceder ao ato de o "desmanchar"; Equivale a arrocho

Chiba – corcunda

Chicha – febra

Chincar – Espetar

Chinfrim - Barulheira /algazarra

Chita - Ficar a zero, por exemplo num jogo / ter um péssimo resultado; "Não ser chita" corresponde por exemplo a não ficar a zero, não ter o péssimo resultado

Côca – Entidade perigosa que se nomeava para assustar as crianças com medo, para não fazerem algo ou não ir a determinado sítio (pois podia vir a côca)

Corricho - Porco

Cravelha – Lingueta (trinco) da porta

Conduto – Pedaço de comida de origem animal (carne, chouriço…) para comer

Cunapa – Remendo

 

D

Danado (estar) - Estar furioso;

Derrancado – Extenuado; De rastos

Desandador – Chave de fendas

Desenculatrado – Escangalhado

Desenxabido – Sem gosto

Desobriga – Confissão anual pela Quaresma (para cumprir o preceito – pelo menos uma vez por ano…)

Destrocar (dinheiro) – Trocar tipicamente uma nota de valor elevado por notas ou moedas de menor valor.

Doidana (estar numa) - Estar a comporatar-se de forma irracional

Doidivanas – Pessoa de vida desregrada

 

E

Emborcar – Beber de forma sôfrega

Empancar – Bater em algo que não deixa avançar ou não deixa abrir da forma normal (por exemplo uma gaveta)

Empanturrado – Cheio de comida até ao limite

Empanzinado – semelhante a empanturrado, mas mais associado a pão

Empata (um…) – Alguém que não se desenvencilha no que devia fazer e atrasa os outros

Empenado – Torcido, torto; Diz-se também de uma mesa ou banco em que as pernas não estão à altura correta, e fica a abanar facilmente

Empinar (bebida) - Beber até à última gota; Termo possivelmente derivado do gesto que será comum fazer de colocar o recipiente na vertical para que tal se faça

Empranhar – Corrupção de emprenhar; Ficar prenhe, grávida

Encafuado – Escondido, oculto; Aplica-se também na simples situação de estar na cama todo coberto com o lençol ou manta (encafuado na cama)

Encalacrado – Estar numa situação comprometedora, difícil de sair

Encarrapato – Nú

Encarrapitar – Colocar / colocar-se por cima, tipicamente numa posição não muito estável. Exemplo:  O senhor encarrapitou a criança aos ombros.

Enfarruscar / enfuscar - Sujar com cinza ou pó de carvão

Engonhar - Perder tempo

Enjorcado (mal) - Mal enjorcado = mal arranjado, normalmente referente a "mal vestido"

Enjorcar – Engolir de forma sôfrega

Ensertado – Já aberto (um invólucro que esteve fechado com alguma coisa – tipicamente comida, mas que entretanto alguém já abriu e gastou parte)

Entornado - Bêbedo

Esborralhar – Desmanchar (em partes pequenas)

Esbugalhar os olhos – Abrir muito os olhos (como bugalhos?)

Escanchar – Abrir, alargar, rachar (frase comum “escanchar as pernas” – estar de pé com os pés / pernas afastados

Escarafunchar - Revolver; Esgravatar

Escarcéu – Ruído; tipicamente gritaria

Escarranchado; Estar sentado de pernas abertas (por exemplo montado num animal)

Escarrapachado – Equivalente a escarranchado; Mas também se aplica a um texto, por exemplo de um edital, que se queira dizer que está bem à vista (possivelmente por associação malandra de quando uma mulher de saias está assim deixará algo bem à vista…)

Escava-terra (uma… feminino) – Toupeira

Escápulas – Cápsulas de medicamentos

Escorropichar – Beber até à última gota, deixando o líquido escorrer

Esgalhar – Cortar os galhos (ramos mais pequenos); Também se aplica com o significado de andar de depressa (andar a esgalhar, andar na esgalha)

Esgana – Doença dos cães que lhes afeta a respiração (Nota: Este termo é o usado pelos veterinários)

Esganar – Matar por asfixia; Estrangular

Esgolaimada – Mulher com camisa aberta à frente de forma exagerada tendo em conta as convenções (nos anos 1960 podia ser algo extremamente discreto aos olhos de hoje…)

Esgróviado – Tolo

Esguedelhado – Cabelo desgrenhado

Esmifrar (alguém) – Explorar alguém de forma abusiva; Ex: conseguir obter muitos bens / dinheiro dessa pessoa

Esmoer – Fazer a digestão

Estortegar – Torcer e danificar um membro – Ex: “Estorteguei um tornozelo” equivalendo a “torci / desloquei um tornozelo”

Espichar – Esguichar; Líquido que sai sob pressão de um orifício pequeno

Espinhaço / espinhela – Coluna dorsal

Espojar-se – Rebolar-se no chão e encher-se de pó / areia

Esquecido – Tipo de bolo regional achatado e redondo, com massa parecida com o pão de ló, mas seco

Estafermo – Pessoa de má índole

 

F

Farrusco - Estar enfarruscado; aplica-se também ao tempo atmofésrico com o sentido de nublado (equivale a "estar búzio")

Fedelho – Criança / miúdo (pejorativo)

Fraldisqueiro – Mal vestido

Fumaceira – Fumarada / Muito fumo

Funda – Quantidade de azeite que se teve por uma quantidade de referência de azeitona (Ex: Um alqueire)

 

G

Gacho (de uvas) - Corrupção de "cacho"

Gadanha - Concha da sopa

Ganas – (dar nas ganas) Decidir-me a … (ter ganas) Ter vontade muito forte de…

Gasganete – Goela / garganta

Gola – Goela / Garganta

Gosma (estar com a) – Estar com catarro

 

J

Jaja – Fato / Roupa

Javardo – Porco

Jeira - Parcela de terra que se consegue lavrar num dia pelos bois

 

L

Ladroeira - Ato de roubar (pode não ser o roubo de objetos, mas o de se vender a preço excessivo)

Lanho – Golpe / ferida

Lamúria – Choramingueira

Laréu (estar no) – Conversar (estar a)

Lavarinto (andar num) – Andar em grandes trabalhos e pressas, de um lado para o outro

 

M

Madeiro - Um único grande tronco de árvore, ou vários troncos de menor dimensão mas constituindo um volume igualmente considerável de madeira, o qual é ritualmente colocado a arder na véspera de Natal, numa praça central da localidade, procurando-se que a chama continue acesa até ao ano novo. Constitui um ponto de encontro das gentes da terra, sobretudo no final do dia, reconfortando-as da habitualmente gélida temperatura ambiente.

Mal-amanhado – Feito à pressa

Mal – enjorcado – Mal vestido

Malha (Levar uma) – Levar uma sova

Malina – Doença mortal epidémica (nos animais); muito frequente nos coelhos

Malmandado – Indivíduo desobediente

Malmurcho – Doença que murcha as plantas

Marrafa – Franja de cabelo comprida sobre a testa

Marrano - Porco

Matacão – Alguém corpulento e sem modos / abrutalhado

Matação – Matança do porco

Marreco – Corcunda

Mecha – Pedaço de pano que se põe a arder (exemplo: a tira que está embebida no petróleo – candeeiro de petróleo)

Medrar – Crescer

Melindrosa – Sensível / que fica facilmente afetada (por exemplo com doenças)

Mijinhas (às) – Aos poucos

Miminho do caco – Pessoa mimada

Mocho – Banco baixo e pequeno

Monca – Ranho (a pingar do nariz, ficando dependurado)

Mono – Amuado

Mordiscar – Pequena mordidela; Comer um pequeno pedaço de algo, tipicamente pão, cortando apenas com os dentes incisivos

Mosca-morta – Pessoa com pouca iniciativa

 

N

Nagalho – Pedaço de cordel

Nalgas – Nádegas

 

O

Ódespois / Osdespois – Equivale a “e depois…”

 

P

Panada – Pancada ; Exemplo: andar à panada – andar à pancada

Pantanas (ir de) - Cair

Pantominas – Trapalhão

Papo-seco - Pequeno pão de trigo, com uma forma peculiar, em que o padeiro batia com a mão no meio, em jeito de cutelo e puxava os extremos originando o que se denominava as "maminhas"

Pecarricho / Pequerricho - Pequeno

Pedrisco - Granizo

Pelainudo – Alguém com mau aspeto, mal vestido, desleixado

Peneiras / Peneirento – Vaidade / Vaidoso

Penicada - Fezes humanas

Penico - Esterco, estrume (para lá do habitual significado de recipiente próprio para se urinar e defecar)

Pentem – Corrupção de Pente

Pertelinho – Pertinho

Pincho – Trinco

Pindericalho – Algo pendente de pouco valor; Por exemplo uma bugiganga a fazer de colar

Pingarelho (armar ao) – Basófia

Pinoco – Marcador / pino (por exemplo um marco da estrada, ou um pino de um jogo da malha)

Pirisca – Parte final do cigarro, quase todo já fumado (os pobres apanhavam as piriscas dos outros e fumavam-nas)

Pita – Galinha

Pitrol – Petróleo

Poldras – Pedras que se colocavam nas ribeiras, afastadas um pouco umas das outras, mas permitindo passar a pé sobre elas sem se molhar

Portelo – Entrada da quinta

Portinhola – O mesmo que braguilha

Prantar – Colocar algo num sítio de forma muito exposta / que incomoda; Exemplos: “Prantaram-me aqui isto à porta!”; “Estás aí prantado a olhar para mim?”

 

Q

Quêdo – Quieto; Sossegado

Quelha – Viela estreita

Queimoso – Sabor do queijo picante

Quilhado – Prejudicado

 

R

Rabicho – Cabelo a fazer… “rabo de cavalo”

Ralado – Preocupado

Raimoso – Picante (ex: queijo)

Rebatinha (deitar à) – Deitar tudo de uma vez para quem quiser apanhar (quando alguém tinha por exemplo cromos de jogadores a mais que já não lhe interessavam, gerava alguma “festa” para os outros deitando-os ao ar e os outros corriam a apanhar)

Recusa (fazer) - Acusação, denúncia

Respigo – Pequena parte de um cacho de uvas

Roçar (o chão da casa) - Esfregar o chão da casa

 

S

Salvação (dar a) – Cumprimentar (quando se cruza com alguém)

Salta-roscas - Osga

Sobrado – Sótão

Soltura – Diarreia (= Caganeira…)

Somítico – avarento

Sopapo / andar à sopapada - bofetada / andar à bofetada

Sorna (ser um) – Preguiçoso

Sortes (ir às) – Ir fazer exame militar

Sumiço – Desaparecimento

Sucapa (à) - De forma a tentar passar despercebido

Sustância – Comida de maior riqueza proteica (ex: carne, peixe, ovos)

 

T

Tapada – Terreno agrícola com muro à volta

Tartulho – Tipo de cogumelo

Tinhoso – Nojento

Tomata - Corrupção de tomate

Topadela – Pancada imprevista com os dedos dos pés, a andar, tipicamente bastante dolorosa

Trambalazana – Brutamontes

Trambelho – Juízo

Trampa – Fezes

Trombas (andar de…) – Andar com cara de desagrado

Trouxe-mouxe – Feito rápido sem cuidado

Tuta e meia – Barato

 

U

Unto – Banha de porco

Úrsula – Corrupção de úlcera

 

V

Venda (a) – Pequeno comércio / mercearia

Veneta – Fúria

Vianda – Preparo de comida para dar aos porcos, tipicamente uma “sopa” com bastante água, legumes cortados e restos diversos de comida humana;

Vivo (O…) – Animais que se tratam. “Ir dar de comer ao vivo”, significa ir dar de comer aos animais. Porcos, coelhos, galinhas…

Vraveira (estar numa) – Estar bravo, irado – corrupção de “braveira”

 

X

Xé-xé – maluco

----- <> -----

Foram incluídas sugestões de:

Graça Neiva Correia Ribeiro
Dulce Pinheiro
José Joaquim Pinto de Almeida
Adozinda Pereirinha

 

----- <> -----

Breves notas biográficas da D. Maria Alcina.

Maria Alcina Cameira Franco Patrício (Caria 1920 – Lisboa 2012), dedicou boa parte dos seus estudos à música e às artes (Conservatório Nacional de Música; Escola de Artes António Arroio). Exerceu diversas atividades sobretudo relacionadas com o ensino de arte e desporto. Escreveu poesia. Teve intervenção política.

Manteve sempre um grande dinamismo demonstrando uma enorme alegria de viver, dinamizando ações na sua terra natal.

Criou o grupo Cantadeiras de Caria, o qual participou em eventos e festivais nacionais e internacionais.

Recebeu da câmara municipal de Belmonte a medalha de mérito municipal.

1985_Cantadeiras_2.jpg

Foto: Cantadeiras de Caria, cantando as Janeiras, em 1985
Maria Alcina surge com as mãos juntas, sensívelmente ao centro mas um pouco sobre o lado esquerdo
LMCPM - 1985

 

Agradeço aos filhos Albertina e António a concordância na divulgação da gravação aqui disponibilizada.

 

----- <> -----

Este levantamento consultou as seguintes páginas da internet. Aos seus autores, manifesto o meu reconhecimento.

Paulo Jesus - pj1966@sapo.pthttp://cidadedacovilha.blogs.sapo.pt/1820.html

Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa» - leitaobatista@gmail.com - https://capeiaarraiana.wordpress.com/category/o-falar-de-riba-coa/

 

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Tempos sobrepostos - Metáfora da memória

por Lourenço Proença de Moura, em 03.07.20

teste1.jpg

 

Quando estivemos a preparar a publicação anterior, foi necessário fazer um processamento gráfico que resultou na imagem inicial.

Nessa fase, o meu filho João mostrou-me uma composição que fez, que achei muito interessante e que aqui partilho.

Nela, os personagens, o tempo e o espaço, a cor e as sombras interpenetram-se.

Como se nos visitassem e às nossas memórias…

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4 de Julho de 1808 - o dia em que “o maneta” passou por Caria

por Lourenço Proença de Moura, em 27.06.20

Versao_final_psp.jpg

Três notas prévias:

- Caria, no concelho de Belmonte, é a minha terra natal, onde mantenho fortes laços.

- Neste caso o leitor poderá confirmar que a cacafonia do título desta publicação se enquadra bem no que se passou.

- A imagem inicial situa-se no ponto mais alto, no largo em frente da denominada Casa da Torre. É o resultado de uma composição feita a partir de duas imagens desse local, uma antiga e outra atual, a que se acrescentaram imagens de elementos do exército francês recolhidas da internet.

 

Contextualizemos um pouco este relato de forma muito simplificada…

Na sequência de uma forte conflituosidade com a Inglaterra, Napoleão ordenou o denominado “Bloqueio continental”, que pretendia isolar e debilitar economicamente o reino inimigo. Devido à nossa bem antiga aliança formalizada em 1386 pelo Tratado de Windsor, recusámos. Perante esta atitude, a 18 de Outubro de 1807 o general Junot ao comando de aproximadamente 25.000 homens, atravessou a fronteira com Espanha e deu início à sua caminhada para a invasão de Portugal, com o apoio do reino espanhol.

A 30 de Novembro chegou a Lisboa, com o exército completamente destroçado pelo cansaço, mas na verdade não teve praticamente nenhuma oposição. Encontrou aliás o reino vazio de poder, pois a família real tinha partido poucos dias antes para o Brasil. Conta-se que ainda viu ao longe os barcos a desaparecer no horizonte…

Junot assentou o seu quartel-general em Lisboa e daí dirigiu todo o processo de ocupação e governação, assegurando que quaisquer veleidades que pudessem surgir para lhe fazer oposição, seriam rapidamente eliminadas.

Mas à medida que o tempo passava, as rebeliões iam-se sucedendo cada vez em maior número um pouco por todo o país, muito promovidas por algumas forças inglesas que procuravam organizar os poucos recursos de combate que possuíamos.

O que a seguir vou descrever tem como base um livro escrito pelo barão Thiébault, lugar-tenente de Junot, que o publicou alguns anos depois, em que relata, em género de diário, as várias vicissitudes por que passaram.

No final de Maio e início de Junho de 1808 os generais das tropas francesas Kellerman e Maransin enfrentaram fortes rebeliões no Alentejo. O general Loison pelo seu lado encaminha-se para o norte e a 5 de Junho está em Almeida. Depois dirige-se para o Porto, passando pela Régua. Nessa altura é informado que os portugueses e ingleses conseguiram reunir uma grande força de combate e desiste de ocupar o Porto, ficando em Lamego. No dia 23 está em Castro Daire. A 28 está em Celorico, 30 em Pinhel, 1 de Julho em Almeida, onde trava forte combate. No dia 4 dirige-se para a Guarda, com quatro batalhões, cada um de 850 homens e ainda 50 dragões, ou seja unidades de cavalaria.

Neste ponto vou tentar descrever mais em detalhe o relato como Thiébault o descreve, possivelmente com algum exagero, mas não deixa de ser impressionante…

Ao aproximar-se da Guarda, Loison esperava ser recebido como amigo, pois muitos portugueses tinham-no contactado e assegurado disso.Qual não foi a sua indignação quando dois oficiais que o precediam foram atacados. Avançou então para o combate, vendo que o inimigo estava disposto em duas linhas, com o centro bem defendido por duas peças de canhão. Ordenou o ataque sobre o centro. As tropas marcharam à sua ordem com sangue frio. Os atiradores dos insurgentes tentaram resistir mas são repelidos com enormes perdas. A artilharia portuguesa foi tomada, a vitória foi completa. O massacre foi terrível. O terror foi geral. Mais de mil mortos cobrem a terra e passando pelos destroços destes desgraçados o general Loison entrou em passo de carga na cidade da Guarda…

Ainda no dia 4 segue para sul e pernoita em Caria.

No dia 5 está na Atalaia, aldeia que se encontrava quase deserta…

Ficamos pois a saber que no final do dia 4 de Julho de 1808, descansou na então pequena aldeia de Caria um exército fortemente armado, de homens sem pruridos em tomar como seu tudo o que lhes aprouvesse, fossem alimentos, bens materiais, mulheres, ou mesmo a vida de quem se lhes opusesse, ou simplesmente tivesse azar em com eles se cruzar na altura errada… E suprema ignomínia para os portugueses de então, os jacobinos não tinham o mínimo respeito pela santa madre igreja!

Podemos imaginar o terror que se viveu nesses dias 4 e 5 e nos que os antecederam. Decerto havia desde há vários dias relatos de que os franceses andavam por perto… Decerto que os relatos eram contraditórios naquele tempo de frágeis formas de comunicar.

Quando se confirmou que estariam mesmo muito perto, um mais corajoso deve ter subido à torre sineira e tocado a rebate, mas não se demorando nessa missão pois não queria fazer sombra aos mártires da Igreja!...

O pânico apoderou-se das gentes. O padre pôs a salvo as melhores alfaias litúrgicas e os livros de registos paroquiais. Os maiores proprietários resguardaram os seus melhores bens e gado, deixando alguns propositadamente para apaziguar a avidez dos invasores. Os mais pobres queriam apenas sobreviver e encontrar refúgio em algum sítio mais recôndito fora da aldeia.

Na verdade, no relato do livro, nada de particular é descrito que se tenha ali passado.

Porém algumas marcas deixaram…

Soldado_gravado_ombreira_porta.jpg

Na ombreira de uma porta de uma casa que se encontra em frente da denominada Casa da Torre, no largo que se situa no ponto mais alto e que foi seguramente um espaço central do acampamento, podemos ver duas figuras picotadas na pedra que têm claramente o perfil do soldado francês. Podemos ainda ver a data 1808 (não surge nesta imagem) para quem tivesse dúvidas…

Numa das fontes de água mais próximas, que se situa a uns 200 metros, denominada Fonte do Carvalho, que na altura ainda poucos anos tinham passado desde que fora renovada e ostentava um brasão real português, vemos que esse brasão foi picado, ato que era feito com frequência, como clássica forma de agrBrasao_Fonte_do_Carvalho_Minha_foto.jpgessão aos símbolos “do inimigo”.

Fonte_do_Carvalho.jpg

Mas a marca mais comovente é a meu ver a que se encontra no livro de óbitos.

Refere então o livro relativamente a este dia…

Obito_Manuel_Joaquim_20200704_obito_Invasoes_Franc

No dia quatro de Julho de mil oitocentos e oito anos, faleceu Manuel Joaquim Grencho(?) do lugar de Peroviseu por causa de um tiro que lhe atirou um Francês, casado que era com Maria Aleixa, tendo de idade quarenta e dois anos, pouco mais ou menos, não recebeu sacramento algum nem fez testamento, e foi sepultado no Adro da Igreja desta freguesia de Caria no dia cinco do dito mês, de que fiz este termo que assino… O Cura José da Costa Carreira

Um homem seguramente simples, vindo de longe (Pêro Viseu fica a cerca de 20 Km a sul), decerto para ganhar o seu fraco sustento, perdeu a vida por qualquer motivo fútil.

Um “pequeno” drama, insignificante à luz da história e de todas os espantosos progressos e tremendas tragédias de que a natureza humana tem sido capaz…

Mas a natureza, que não a da restrita vertente humana, tem uma quase infinita capacidade de regeneração…

Na pequena aldeia de Caria, poucos dias depois, a 10 de Julho, nasce Maria, filha de António Esteves Moucho e Ana de Almeida… e decerto que com ela o ânimo das gentes foi reganhando confiança no futuro.

Por feliz coincidência, o avô paterno de Maria era natural de…

...Pêro Viseu…

Maria_nasceu_28080710_logo_apos_passagem_franceses

Contudo, chegado a este ponto já final do relato, pode o leitor perguntar: Mas então, a que se referia “o maneta”, do título?

Sucede que o general Loison (Louis Henri) não possuía braço esquerdo. Porém o que o tornou mais conhecido em Portugal era a sua frieza e desprezo pelo valor da vida humana. Se capturasse alguém que de alguma forma lhe tivesse feito frente, a morte era certa, muito possivelmente depois de sofrer bastante às suas ordens. Daí surgiu a frase que hoje usamos de forma informal “ir para o maneta”.

Loison_novo.jpgLoison_busto_meia_idade.jpg

(Imagens do general Loison recolhidas da internet)

 

Se tiver curiosidade em ler a parte citada escrita pelo barão Thiébault, pode consultá-la aqui.

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AGRADECIMENTOS

Aos Amigos Mário Tomás e Luís Ribeiro, respetivamente pela disponibilização da fotografia antiga de Caria e pela recolha em tempo record de uma fotografia atual tirada na mesma perspetiva, mas com maior ângulo de visão para poder compor a imagem que ilustra esta publicação;

Ao meu filho João pela ajuda no processamento das imagens.

 

 

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