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Armários sagrados?

por Lourenço Proença de Moura, em 10.03.23

Pedra_Evaristo_furo_saida_detalhe.jpg

Tenho já um percurso de vida algo longo, mas felizmente continuo a ser surpreendido pelo que posso denominar de “descobertas  inesperadas”. O que vou relatar sucedeu há relativamente poucos anos, na minha terra natal, Caria, no concelho de Belmonte. Mostraram-me uma pedra de formato estranho cuja finalidade desconhecia. Nunca tinha vista algo semelhante. E pouco tempo depois soube que afinal haveria mais na minha terra. E bastantes mais, um pouco por todo o país, sobretudo em terras do interior. Mas qual a sua finalidade? Há quem as considere pertencerem a armários sagrados. Fiz algumas pesquisas e…

Se tiver curiosidade em saber o que fui escutando, lido e refletido, venha comigo nesta viagem… No final, poderá mesmo procurar e encontrar alguns exemplares, a partir das indicações que lhe vou dar.

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O episódio inicial que me levou a estas notas, ocorreu como referi, na minha terra, Caria. Estávamos em 2014. Numa ida em férias, o meu amigo Mário Ribeiro, ao fazer-me o ponto de situação do que de mais relevante teria ocorrido desde a minha última visita, conhecendo bem a minha curiosidade por temas que possamos associar à história, disse-me que eu deveria ver uma pedra com forma misteriosa que estava em casa de um outro amigo, o Evaristo (Professor António Manuel Evaristo Duarte).

Como decerto ele já antecipava, poucos minutos depois já lá nos encontrávamos, após um breve passeio pedestre, facilidade permitida nestas pequenas localidades em que quase tudo está por perto.

A pedra estava no jardim. Infelizmente partira-se ao ser retirada do local em que se encontrava, numa casa que ele entretanto vendera.

A imagem com que iniciei esta publicação e esta seguinte foram tiradas nessa altura.

Pedra_Evaristo.jpg

Nunca tinha visto pedras semelhantes. O que me surpreendia, era que claramente estava escavada no meio, tendo um bordo saliente, com o objetivo de não deixar derramar e facilitar a recolha de um líquido. Tal em si mesmo nada tem de estranho. Porém a sua saída não era um mero orifício, tendo um trabalho singelo mas interessante, representando o que me pareceu ser a cabeça de um carneiro.

A associação imediata que me veio à ideia, era de que, com esta representação na saída, seria para fazer um qualquer tipo de sacrifício ritual. Mas não consegui imaginar qual e muito menos “o porquê”, numa terra como Caria.

Mais tarde, na sequência de conversas diversas com outros amigos, fiquei a saber bastante mais sobre este tipo de pedras, que eu então desconhecia. Tal aprendizagem foi sobretudo feita com a minha conterrânea Graça Correia Ribeiro, que tem estudado o tema. Na verdade esta pedra corresponde a uma tipologia conhecida, que ocorre um pouco por todo o país, mas sobretudo nas zonas do interior. Em algumas publicações disponíveis na internéte (ver por exemplo [3]) refere-se que estará associada a práticas religiosas dos cripto-judeus, ou seja, judeus que na sequência das perseguições feitas em Portugal desde o final do século 15, tinham mantido a sua religião e ritos de forma secreta, mantendo na aparência práticas cristãs.

Este tipo de pedra correspondia a uma prateleira, tipicamente a inferior, de uma estrutura normalmente embutida na parede, constituindo um armário quase sempre em pedra, que na configuração mais comum tinha duas prateleiras. Uma delas, mais trabalhada e com o referido formato de recolha de líquido, ficava por baixo. A outra, mais simples, por cima. Segundo as referidas propostas, nestes armários seriam colocados os objetos litúrgicos, tais como uma candeia, uma menorá, ou mesmo a Tora. Mas sobre a exata função da prateleira inferior não encontrei nenhuma certeza. A única explicação até agora encontrada [3] sugere que seria para funcionar como cantareira de água.

Esta possibilidade não me pareceu razoável. Uma cantareira em pedra é pouco lógica – basta um toque inadvertido numa esquina e o cântaro parte-se. Procurei então fazer alguma pesquisa. Consultei descrições dos ritos judaicos, contactei pessoas judias e estudiosos. Não consegui identificar nenhum rito em que fosse utilizado um líquido em que houvesse a necessidade de o mesmo ser recolhido.

Pensei então que poderia não ter a ver com ritos atuais, mas sim antigos. Tal seria plausível. Por exemplo na publicação feita por Samuel Schwarz [1] em 1925, centrada na comunidade judaica de Belmonte, o autor mostra que, fruto de todo o secretismo que era assumido e da passagem essencialmente oral entre gerações, várias das orações recitadas tinham há séculos deixado de ser usadas. Esta comunidade “cristalizou” o que eram práticas muito antigas.

Curiosamente, procurar descrições de práticas antigas foi para mim relativamente fácil, pois na sequência de outras pesquisas já conhecia um livro publicado em Amsterdão em 1645 por um judeu português. Trata-se da obra Thesouro dos Dinim (Tesouro de ritos) [2], escrito por Menasseh Ben Israel, nascido Manuel Dias Soeiro, na ilha da Madeira em 1604. Na internet encontra-se disponível a 2ª edição, do ano judaico de 5470, ou seja de 1710. Trata-se de um tratado das leis judaicas, escrito em português, relativo às práticas a cumprir. Destinou-se naturalmente à comunidade sefardita portuguesa. Inclui por exemplo (referências abreviadas) Tratado de madrugar pela manhã,  Forma de observância de todos os preceitos morais da divina Lei, Das sestas e jejuns de todo o ano, Das Comidas lícitas e ilícitas, com as bençãos e circunstâncias tocantes a esta materia.

Porém, na leitura que fiz, também não consegui identificar a utilização de líquidos que justificasse a necessidade da sua recolha, nem algo que pudesse explicar o formato destas prateleiras.

Uma outra base de estudo foram as obras de David Augusto Canelo, Os últimos cripto-judeus em Portugal [4] e  O resgate dos marranos portugueses [5], que se centra na comunidade judaica de Belmonte, se bem que ofereça uma perspetiva alargada. Não é feita nenhuma referência a estes armários. Contactei entretanto o autor que me confirmou não ter até ao momento conhecimento de nenhuma evidência que sustente a perspetiva de que esses armários poderiam ser de origem judaica ou usados para o culto.

Uma outra ideia de pesquisa que me ocorreu foi a seguinte: Se este tipo de armário era tão divulgado e fosse usado para algum rito, seria decerto citado em algum dos muitos processos de julgamento do Santo Ofício. Fiz nessa sequência alguma pesquisa na internet e encontrei algumas publicações sobre esses processos. Porém e mais uma vez, nelas não encontrei nenhuma referência a este tipo de armário.

Depois de mais este insucesso suspendi as pesquisas, aguardando pela publicação de estudos nesta área.

Sucedeu que, no final de 2020, ao fazer obras de remodelação na minha casa em Caria, acompanhadas à distância por causa da pandemia, fui surpreendido com a informação de que, ao se desmontar um armário – vitrine, se encontrava por trás uma destas estruturas. Fiquei naturalmente agradavelmente supreendido e pedi à minha amiga Angélica Mujeiro que me enviasse imagens.

Mostro de seguida qual era o aspeto anterior e o que ficou à vista.

IMG_6178.JPG

Armário – vitrine como o conhecia

IMG-20210214-WA0006.jpg

Armário tal como ficou agora à vista

O armário tem as seguintes dimensões em centímetros: 140 de altura, 120 de largura, 40 de profundidade.

Por razões óbvias este armário permite-me fazer algumas interpretações pessoais.

Percebe-se que a parte superior rachou num passado distante. Pode ter sido essa a razão para ter sido “forrado de novo”.

Numa parede próxima, ficou à vista uma data, não muito nítida, mas aparentemente 1687.

1687.JPG

Vendo a forma como as paredes estão justapostas, percebe-se que a parede do armário é de construção posterior, possivelmente pouco posterior.

Não possuímos documentação sobre a origem da casa ou a sua aquisição. Sempre assumi que era da família há bastante tempo sem outras preocupações. Sei que com o apelido Proença, o primeiro antepassado a nascer em Caria, foi meu bisavô Agostinho em 1840. O pai dele nascera perto, mas na Quinta da Castanheira. Terá vindo depois viver para Caria e nessa altura comprado a casa que já há muito existia. Também não conheço documentos ou relatos de família que pudessem remeter para a religião judaica.

A localização deste armário levou-me a reforçar a convicção de que não terá nada a ver com funções de cantareira. Encontra-se na sala mais interna da casa. Uma cantareira está tipicamente no ponto de maior atividade, na maioria das vezes na cozinha ou sala anexa à cozinha. Temos aliás uma nessa mesma casa, na saleta junto à “cozinha velha” onde fazíamos as refeições. Era aí, nesse ponto de passagem (e de refeição) que a cantareira prestava o seu inestimável serviço.

Não havendo porém nenhum dado concreto que sustente que possa realmente ter origem judaica, assumi que poderia ser simplesmente um armário utilitário, com a prateleira inferior para um qualquer uso que talvez futuros estudos esclareçam.

Porém, numa conversa informal com a minha esposa, sobre este “mistério”, ela sugeriu uma possível resposta…

Havia e há um ato essencial para os judeus cumprirem os seus preceitos, relacionados com a alimentação. Para lá de haver restrições a se comerem certos animais, mesmo os que se podem comer têm de ser mortos cumprindo um conjunto de regras bem definidas em que o animal é obrigatoriamente sangrado. No já citado livro Thesouro dos Dinim, tal é bem descrito e mais abaixo apresento a respetiva transcrição.

O sangue não pode ser digerido. Em condições normais, o sangue devia / deve ser simplesmente derramado no chão, em areia. Mas em comunidades perseguidas essa abordagem não podia ser feita. Tal deixava evidências que podiam ser constatadas facilmente por qualquer vizinho ou visitante.

A opção por uma base de pedra, onde o pequeno animal era imolado, com o seu sangue a ser de imediato recolhido, sendo a pedra lavada para não deixar vestígios, seria possivelmente uma boa abordagem para estas comunidades.

Claro que isto é apenas uma hipótese. Talvez um dia se possam, quem sabe, fazer análises que permitam validá-la, caso existam técnicas que consigam identificar resíduos mínimos antigos de sangue em algumas destas estruturas.

Saliente-se que esta hipótese parece entrar em oposição com a ideia desta estrutura ser também o local de colocar objetos liturgicos na prateleira superior. O sangue era considerado impuro. Mas naquelas épocas de perseguição não se podiam dar a luxos de cumprir todos os preceitos de forma perfeita. Por isso, quem sabe, até poderia servir para ambos. Após a morte do animal poderia haver um ato de purificação. Mas isto são meras especulações.

Em jeito de resumo...

Em resumo, na sequência da minha análise, considero como possível que estes armários fossem construídos por iniciativa de cripto-judeus para realizar atos de sangramento em pequenos animais para fins alimentares. A hipótese de o armário ser usado como cantareira não é coerente, mas decerto que poderiam neles colocar cântaros para disfarçar o seu real uso. Na pedra que referi no início, em que o orifício de saída tem a forma de uma cabeça de carneiro, terá mesmo havido a ousadia de o denunciar…

Com uma associação simples fonética a denominação de “armários sagrados”, poderia nesta interpretação ser adaptada para “armários de sangrado”...

Por curiosidade, no Anexo 2, apresento a descrição deste ritual, tal como é descrito no referido livro Thesouro dos Dinim.

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Se gosta de desafios e jogos de descoberta, aqui lhe deixo um…

A Bemposta é uma simpática aldeia da Beira Baixa, perto de Monsanto, a leste do Fundão.

A minha conterrânea Graça Correia Ribeiro explicou-me que nesta localidade podem ser facilmente vistas pedras como as que descrevo neste artigo, tendo-me disponibilizado fotos das mesmas. Várias destas pedras trabalhadas, correspondentes à prateleira inferior dos armários, foram adaptadas pela população ao uso como bancos, colocados nos exteriores das casas.

Lembrei-me então de lançar o seguinte jogo-desafio, muito simples: procurar os bancos de pedras trabalhadas. Sugerimos que quando tiver oportunidade visite a localidade e a região, mas mesmo à distância, sem lá se deslocar fisicamente, poderá fazê-lo. A opção do Google Street View, permite fazer um passeio virtual pela aldeia.

O mapa apresentado a seguir mostra a estrutura das ruas. Pode por exemplo começar por aqui, na Rua de São Sebastião, ao lado da capela do mesmo padroeiro, mesmo junto a uma dessas pedras, correspondendo no mapa à estrela verde na zona superior.

Depois, percorra as ruas da aldeia, aprecie o ambiente e tente encontrar outras pedras que tiveram, em tempos idos, idênticas funções. Na minha pesquisa encontrei outras duas.

E não tendo a ver com esta pesquisa, recomendo que passe na Rua dos Balcões. É mesmo muito interessante e fica também muito próxima do ponto de partida! Basta seguir pelo lado direito e logo à saída do largo, seguir pela rua do meio!

Bemposta_Mapa.JPG

 

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Referências

[1] Os cristãos-novos em Portugal no século XX – Samuel Schwarz, 1925

Biografia de Samuel Schwarz: https://pt.wikipedia.org/wiki/Samuel_Schwarz

[2] Thesouro dos Dinim, que o povo de Israel eh obrigado saber, e observar – Menasseh Ben Israel, ano 5470 (1710); Trata-se da 2ª edição – a 1ª edição data de 1645-1647.

Cópia disponível na internet 

Biografia de Mesnasseh Ben Israel: https://pt.wikipedia.org/wiki/Menasseh_ben_Israel

A versão inglesa é bastante mais completa: https://en.wikipedia.org/wiki/Menasseh_Ben_Israel

[3] Os Hekhalot: Vestígios arqueológicos de um criptojudaísmo singular, Pedro Mendes, 2018

http://193.137.34.194/index.php/Port/article/download/5198/4869

[4] Os últimos criptojudeus em Portugal - David Augusto Canelo, Câmara Municipal de Belmonte - 2001

[5] O resgate dos marranos portugueses - David Augusto Canelo, Câmara Municipal de Belmonte, 2004

[6] Jornal Ha-Lapid (O facho) – publicado entre 1927 e 1958 – divulgador de iniciativas da fé judaica http://www.rebordelo.net/cripto-judaismo/halapid/

 

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Anexo 1 – Hábitos que suportavam a denúncia de práticas judaicas [5] (página 26)

Note-se a referência ao ato de degolar, descrito no anexo 2.

Descrição proveniente de O Monitório de 1536

Guardar os sábados, não trabalhando e vestindo-se de festa; fazer comida às sextas-feiras para o sábado, acendendo e mandando acender então candeeiros limpos com mechas novas mais cedo que os outros dias e deixando-os acesos toda a noite até se apagarem; degolar aves, atravessando-lhes a garganta, depois de experimentado o cutelo na unha do dedo da mão, e cobrir o sangue com terra; não comer toucinho, nem lebre, nem coelho, nem aves afogadas, nem enguia, polvo, congro, arraia, pescado que não tivesse escama; jejuar o jejum maior, que cai em Setembro, não comendo em todo o dia até à noite ao nascer das estrelas, e estando no dia de jejum maior descalços, comendo carne e tigeladas e pedindo perdão uns aos outros; jejuar o jejum da rainha Ester, assim como às segundas e quintas-feiras; solenizar a páscoa comendo pão âzimo em bacias e escudelas novas, rezando os salmos sem Gloria Patri, fazendo oração contra a parede, sabbadeando, abaixando a cabeça e levantando-a e usando então dos ataphaliis, isto é de correias atadas nos braços ou postas sobre a cabeça; comer, quando alguém morria, em mesas baixas e só pescado, ovos e azeitonas; estar então detrás da porta; banhar os defuntos; lançar-lhes calções de lenço, amortalhando-os com camisa comprida e pondo-lhes em cima a mortalha dobrada como se fosse capa; enterrá-los em covas fundas e em terra virgem e pondo-lhes na boca um grão de aljôfar ou dinheiro de ouro ou prata, dizendo que é para pagar a primeira pousada; cortar-lhes as unhas e guardá-las; derramar ou mandar derramar a água dos cântaros e potes, dizendo que as almas dos defuntos se vêm banhar ou que o anjo percuciente lavou a espada na água; deitar, nas noites de S. João e Natal, ferros, pão ou vinho, na água dos cântaros e potes, dizendo que naquelas noites a água se torna em sangue; deitar bênção aos filhos, pondo-lhes as mãos sobre a cabeça e abaixando a mão pelo rosto abaixo sem fazer o sinal da cruz; circundar os filhos; depois de os baptizar, rapar-lhes os óleos que lhes puseram. 

 

Anexo 2 – O ritual “de degolar” segundo o livro Thesouro dos Dinim

Folio 119 (página digital 249)

Degoladura_Dinim_Inicio.JPG

...

Transcrição segundo o jornal Jornal Ha-Lapid [6]

Dinim de Degolar

CAPITULO IV

A degoladura para ser válida, consiste em três coisas, a saber: no instrumento, no lugar da degoladura, e sítio em que se faz.

No instrumento convém observar duas coisas, a saber:

Primeira, que seja a faca tão aguda e perfeita, que não tenha no corte alguma mossa; por que se acaso alguém degolar com faca que tenha alguma mossa por pequena que seja a tal degoladura será invalida, e a carne degolada trefá (impura – ver nota no final do texto). E assim para evitar isto, é obrigação olhar curiosamente (atentamente) a faca passando muito devagar a unha, e a carne do dedo pelo corte e lado dela até ao número de 12 vezes.

A segunda circunstância do instrumento é, que tenha a faca de comprimento pelo menos a quantidade de dois pescoços da ave, ou animal que se degola. E para tirar de duvidas, costuma-se trazer para degolar aves, de um dedo de largo, e quatro ou seis de longo, e sem ponta, a fim de não cair em escondedura, de que logo trataremos.

O lugar da degoladura, é justamente no meio do pescoço, cortando todo o cano da respiração e o gasnate (atualmente dizemos gasganete) da comida, e não degolando pontualmente no meio, deve-se advertir, que no cano da respiração para ser válida a degoladura, há-de ser desde o anel grande que está conjunto à cabeça até ao papo. E no gasnate, desde aquela parte que quando a cortam se encolhe, que é um dedo abaixo da cabeça até o mesmo papo. E sendo que se fez acaso a degoladura fora destes lugares, a carne é proibida. E ainda que dizemos, que convém cortar os dois canos por inteiro, se acaso degolando alçou algum a mão e achou haver degolado só a maior parte de algum deles, é valida a degoladura na ave, o que não será, se acaso achar degolado a metade de cada um deles.

Há também umas veias junto a estes dois canos, as quais ou no mesmo tempo em que se degola, ou imediatamente depois, se devem cortar, a fim de que saia todo o sangue; e se acaso algum o não fez, não se pode cozinhar em panela aquela ave inteira, com cabeça e tudo; o que depois de haver degolado, se deve olhar com curiosidade.

O sítio em que se deve degolar, é sobre pó solto, como dizer, areia muito miúda, cinza, terra de onde se pode semear, ou pó de serradores; excetuando areia grossa, farelos, terra molhada, chão feito de tábua ou pedras. Também se pode degolar num vaso que tenha pó. E navegando pelo deserto ou mar, faltando estas coisas, se recolherá o sangue num pano, e chegando à parte donde o pode lavar, recolherá o dito sangue, e o cobrirá sem dizer bênção.

As coisas que fazem inválido o mesmo acto de degoladura, são cinco, a daber: Dilação, Apertadura, Escondedura, Resvaladura e Arrancadura.

Dilação é, quando começando a degolar, levantou a mão, ou sem a levantar parou, antes de haver degolado a quantidade competente a qual degoladura é inválida, e a carne proibida, posto que a dilação fosse dum brevíssimo espaço de tempo.

Apertadura, é apertar o pescoço com a faca, ou cortá-lo de um golpe; porque a degoladura para ser boa, há-de ser, levando e trazendo a faca.

Escondedura, é não fazer a degoladura descoberta, mas oculta, metendo a faca entre os dois canos e cortando; ou entre a pele, aos canos; ou ainda entre a pena, o couro, ou debaixo de alguns pano. E por esta causa se tira primeiro a pena, fazendo-se lugar para a faca; e então descoberto o pescoço se degola.

Resvaladura, é degolar fora do lugar competente, o qual é o que arriba temos declarado.

Arrancadura, é haver-se achado depois de degolar algum dos dois canos de todo arrancado, e fora do lugar donde estão pegados às queixadas.

Sucedendo pois qualquer destas cinco coisas, é a degoladura inválida, e proibida a carne.

 

Da forma e estilo que se observa no degolar

CAPITULO V

Primeiramente olha-se com curiosidade a faca, passando pela unha e carne 12 vezes.

Achando-se sem mossa se prepara o pó e degolando, se diz a bênção seguinte:

 

Bendito tu A.N.D.R. del mundo (Adonai, nosso Deus Rei do Universo) que nos santificou em suas encomendanças (mandamentos), e nos encomendou (ordenou) sobre a degoladura. E adverte-se, que uma bênção, degolando muitas aves serve para todas, com tanto que não fale entre ave a ave, em coisa que não seja do sujeito (assunto) da degoladura. Dita a bênção, se degola no lugar, e quantidade competente.

Depois de degolar, se vê se se observou na degoladura as circunstâncias referidas, ou pecou nalguma delas.

Feita esta diligência, se torna a olhar a faca; e sendo que se acha com alguma mossa, é trefá a carne que se tem degolado. E assim, quem degola muitas aves, é necessário, que entre ave e ave reveja a faca, porque se acaso não fez isto, e olhando-a ultimamente a achar com mossa, todas as aves que houver degolado são trefás.

Finalmente, com a mão, ou cabo da faca, ou qualquer outra coisa, se cobre o sangue e diz a bendição (bênção) seguinte:

Bendito tu A. N. D. R. del mundo, que nos santificou em suas encomendanças, e nos encomendou sobre cobertura do sangue.

E degolando muitas aves, uma vez só se há-de cobrir o sangue com uma só bênção.

Estes são os Dinim suficientes, para poder degolar licitamente; buscando-se primeiro algum Hacham (rabino), a quem se mostre a faca, e o examine, dando-lhe a aprovação, para o poder fazer.

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Ecos de uma longínqua memória judaica?

por Lourenço Proença de Moura, em 05.08.22

Lintel_ao_natural.jpg

A minha terra natal Caria, no concelho de Belmonte, irrigada por duas ribeiras, com solo fértil e água em abundância, possui diversas marcas do seu passado, de terra há muito habitada.

Muitas iniciativas se têm feito para preservar e valorizar o nosso património, como por exemplo a Casa da Roda dos expostos e a Casa Etnográfica. Mas há diversos outros artefactos e espaços que merecerão atenção. Alguns já os referi neste blog como os “Armários sagrados”.

O que agora aqui partilho refere-se a uma gravação discreta mas que considero muitíssimo curiosa, num lintel em granito de uma porta e que surge no início desta publicação. Estava oculta pelo reboco até há cerca de 20 anos, tendo ficado à vista com obras de renovação.

Qual a sua interpretação?

Sugiro que o leitor analise a imagem por uns momentos.

À esquerda surge uma data, que na minha leitura é bastante clara, 1598. Apenas para contextualizar o leitor, segundo o livro “História de Portugal em datas” [1], neste ano estamos sob o domínio filipino que se iniciara em 1580, sucedendo precisamente em 1598 a transição de Filipe I de Portugal para Filipe II seu filho. Decorria uma grave crise agrícola e no ano anterior houve um surto de fome. Para piorar a situação começava uma nova pandemia de peste! Tempos difíceis para todos, mas sobretudo para o povo…

Assumindo que a data é clara, o mesmo não sucede com os símbolos do lado direito, bem mais difíceis de destrinçar. Parecem letras, mas não estão gravadas na habitual norma latina de caracteres maiúsculos. Dir-se-ia que a maioria das letras está em formato de letra minúscula.

A imagem seguinte mostra o que julgo serem as linhas dos sulcos principais.

Lintel_Josefo.jpg

As hipotéticas letras parecem representar Jos…f…

Como poderemos validar esta hipótese?

Felizmente temos uma boa e fácil forma de o fazer! Se analisarmos os livros paroquiais desta época, que se encontram digitalizados e acessíveis na internéte [2] podemos ver registos como o que mostro a seguir.

Registo_nascimento_Joao_filho_de_Baltasar_Gomes.jp

A transcrição pode ler-se como:

Ao derradeiro (último dia) de Agosto de 1601, bautizei João filho de Balthasar Guomes e de Maria Hyeronima (Jerónima) … foi padr. (padrinho) Brás Afonso deste luguar e madrinha Constança de Proença mulher de Francisco Rodrigues da vila da Covilhã. Por verdade…

A transcrição em concreto não é o que mais interessa nesta análise, mas permitir ajudar o leitor a conferir a grande proximidade de aspeto entre as letras “J” maiúsculo, “o”, “s” “f” da gravação.

Parece que quem fez esta gravação foi o pároco de Caria… 😊 com letra manuscrita e depois alguém abriu rasgos a cinzel…

Qual o significado destas letras?

A palavra / nome que de imediato me veio à ideia foi “Josefo”. A letra entre o “s” e o “f”, apesar de estar bastante desgastada pode ter sido de facto um “e”. Depois do “f” por sua vez surge ainda uma marca, mas a uma distância relativamente grande, pelo que presumo não corresponder à letra seguinte. Em qualquer caso “Josefo” será com grande probabilidade o nome representado.

Sucede que esta hipótese levanta uma grande questão…

Trata-se de um apelido judaico!

Ora nesta data tal não deveria suceder. Já tinha decorrido cerca de um século desde o decreto de expulsão dos judeus assinado por D. Manuel I. A alternativa era converterem-se ao cristianismo. Nesse caso adotavam novos nomes de batismo sucedendo o mesmo ao apelido, que seria por exemplo o do padrinho cristão-velho. De facto, se virmos os livros paroquiais desta mesma época, encontramos os muito comuns Álvares, Antunes, Geraldes, Fernandes, Gonçalves, Pires, Martins, etc, mas nunca apelidos que remetam como este para origens judaicas.

Para quem tenha curiosidade por história e em particular pela história judaica, este apelido poderá ser-lhe familiar. Flávio Josefo [3], foi um historiador romano de origem judaica, a quem devemos relatos detalhados sobre o povo judeu e das lutas contra Roma.

Por que razão tal apelido foi assim exposto de forma tão temerária? Naturalmente não sei responder.

Por último, uma possível interpretação para os sinais que surgem entre a data e o nome. Parecem ser duas pequenas marcas, que se fossem letras seriam um “o” por cima e um “J” por baixo. Teriam algum significado?

Bom… seguindo a hipótese de que estamos perante letras com estilo manuscrito, a possível resposta surge de imediato. Escrever a letra “J” maiúscula, com um “o” minúsculo por cima é uma forma simplificada de nesta época se escrever “João”.

Podemos por exemplo ver a imagem seguinte, de um outro registo de batismo que surge no mesmo livro, algumas folhas depois do registo que mostrei antes. Vemos aqui essa escrita abreviada do nome da criança que curiosamente também é "João" como o anterior. Podemos fazer a transcrição do registo para “Aos 25 dias do mês de fevereiro da dita era de 607 (1607) baptizei Jo (João) filho de Gaspar Esteves e Sabina Antunes. Foram padrinhos Manuel Antunes e Susana Domingues. E por verdade assinei aqui mês e era como acima…

Registo_nascimento_Joao.jpg

Em jeito de síntese

Estamos perante uma gravação que não segue um formato convencional com símbolos latinos em maiúsculas e usa uma forma de escrita caligráfica. Assumindo que a interpretação “Josefo” está correta, ela é coerente com a possibilidade de os símbolos do meio corresponderem à abreviatura de “João” pois “Josefo” é normalmente um apelido.

Teríamos assim que nesta casa terá habitado João Josefo, descendente de cristãos-novos, possivelmente cripto-judeu, que detinha a escassa competência de saber ler e escrever e com a sua própria caligrafia assinalou que nesta casa vivia.

Por alguma razão a sua família conseguiu manter o apelido judaico, se bem que o nome de batismo fosse neutro, pois “João” é nome adotado por cristãos e judeus.

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Notas complementares e um jogo de “Caça ao tesouro” que poderá fazer em família…

Tem curiosidade em ver esta epígrafe no seu local?

Se por acaso quiser saber onde este lintel se encontra, pode observá-lo no seu local, acedendo a este endereço do “Google Maps”. É bem no centro da vila na parte mais elevada, na Rua Direita, relativamente perto da igreja e da Casa da Torre.

Trata-se da travessa / lintel da 2ª porta verde.

Uma outra epígrafe muito curiosa a poucos metros desta

Já agora, se gosta de curiosidades do nosso passado, se fizer uma visita a este local, poderá ver muito perto, num outro lintel da porta principal da Casa da Torre, um interessante texto em latim, cuja imagem transcrição e tradução aqui mostro.

Lintel_Casa_da_Torre_epigrafe.jpg

De acordo com Manuel Marques [4] a transcrição é:

Mille Dolos victis domus est haeC Condita quando

X indiCat et major lItera quaeque tibI

 

Segundo o mesmo autor, uma possível tradução é:

Vencidas mil dificuldades esta casa foi construída

quando indica a incógnita X e também as letras maiúsculas

 

Ou seja, as maiúsculas e a incógnita X indicam a data de construção:

MDCCXCII – 1792

 

Já António Borges [5] mantendo o sentido do entendimento da data, propõe uma diferente tradução:

Vencidos mil ardis, foi esta casa fundada quando

X e cada uma das letras maiores te indicam

Esta interpretação também possível à luz dos vários significados das palavras latinas, corresponderia a terem sido ultrapassadas muitas dificuldades, mas que não eram decorrentes dos acasos e sim de oposições intencionais de alguém. António Borges coloca algumas hipóteses para explicar de onde poderiam vir estas oposições, mas esse é um tema já fora do âmbito desta simples publicação.

Note-se que esta é a data de uma reconstrução profunda. Este espaço foi habitado desde tempos bem mais distantes. Ao lado de uma outra porta de formato ogival, situada nas traseiras, podemos ver outra inscrição com a data de 1360.

 

Uma “Caça ao tesouro” que poderá fazer em família numa visita a Caria

Cruciforme.JPG

Um património relativamente pouco divulgado diz respeito a marcas antigas, existentes nas casas, sobretudo nas ombreiras das portas mas também na pedra superior – lintel ou mesmo nas fachadas. Na sua maioria apresentam simbologia cristã, com cruzes em muitas variantes.

Não há certezas quanto à sua origem e significado. São naturalmente invocações cristãs. Poderão ter sido usadas para apelar à proteção divina sem outra pretensão, mas há quem refira a possibilidade de ter sido uma forma de os cristãos-novos mostrarem a sua aceitação da nova fé. Na verdade, os locais de maior concentração destes grafismos correspondem com os espaços onde se presume se situar em maior número a comunidade judaica / cristãos-novos.

No livro Território de Caria - Marcas lutas e gentes, António Borges [5] faz algumas reflexões sobre este tema e mostra o resultado de uma recolha destas marcas, feita inicialmente pela Dra Elisabete Robalo dos serviços de arqueologia da Câmara Municipal de Belmonte, tendo depois a colaboração da Dra Graça Neiva Ribeiro.

Com base nesta informação editei um folheto que pode descarregar aqui.

Contém um mapa antigo de Caria (1957) onde se assinalam as ruas em que se identificaram estas marcas. E mostra os símbolos que cada rua tem, mas não indica onde.

O desafio é simples: Procurar encontrar (caçar) os vários símbolos. Quem mais encontrar ganha…

Note-se que boa parte deles têm uma marca colocada pela autarquia, o que facilita a procura, mas não deixa de ser um bom passatempo para fazer em família.

Se por alguma razão não encontrar algum, ou preferir aceder-lhes de forma mais rápida, neste outro documento tem indicado o endereço exato.

E claro que pode descobrir algum símbolo não catalogado. Seria muito interessante. Nesse caso não hesite em comunicar à Câmara de Belmonte, à Junta de Freguesia de Caria, ou a mim… lmcpm@spo.pt

 

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Agradecimentos

Ao Luís Proença Ribeiro que com a sua enorme disponibilidade e competência fotográfica me obteve uma “fotografia fresquinha” e de boa qualidade do lintel da Casa da Torre

Ao Professor António Borges por me facultar as imagens dos símbolos cruciformes para o folheto do “jogo”

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Referências

[1] História de Portugal em datas – Coordenação de António Simões Rodrigues, Círculo de Leitores 1994

[2] Ver www.tombo.pt – selecionando “Caria” e depois especificamente Caria / Belmonte

Surgem os livros disponíveis. As imagens apresentadas fazem parte do livro mais antigo – Livro misto 1594-1640

[3] Flávio Josefo - https://pt.wikipedia.org/wiki/Fl%C3%A1vio_Josefo

[4] Concelho de Belmonte – Memória e História – Manuel Marques – Edição da Câmara Municipal de Belmonte – 2001

[5] Território de Caria: Marcas lutas e gentes – António Borges – Edição do autor - 2020

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