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Possíveis origens fenícias de topónimos do nosso território

Segunda parte – Ílhavo / Vale de Ílhavo

por Lourenço Proença de Moura, em 02.10.20

IMG_3645.JPGCapela da Ermida - Vale de Ílhavo - LMCPM 2020

Introdução

Na publicação anterior expliquei que, de acordo com estudos feitos por alguns investigadores como Moisés Espírito Santo, se constata que neste nosso território terá havido significativas influências de culturas do próximo oriente, muito possivelmente trazidas por comerciantes fenícios. Mostrei em particular como a dispersão no nosso país do topónimo “Vale” parece desafiar a lógica da orografia, pelo que terá havido outras razões para o mesmo ser adotado.

Agora vou apresentar uma análise que fiz de um caso geograficamente próximo de Aveiro, local onde moro. Nesta análise tento mostrar como o topónimo Ílhavo, ou mais especificamente Vale de Ílhavo pode ter origens fenícias.

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Vale de Ílhavo é uma localidade próxima de Ílhavo, junto a Aveiro, cidade onde resido. Esta reflexão começou um pouco por acaso, ao fazer um passeio de fim-de-semana, pois havia lá uma festa em celebração das tradicionais “Padeiras de Vale de Ílhavo”.

Sucede que esta simpática terra não está propriamente num vale e essa característica ficava bem à vista ao fazer o percurso. Toda esta região tem colinas suaves e nada mais. Não seria muito natural nomear por Vale uma terra assim.

Veio-me nessa altura à memória a hipótese de Moisés Espírito Santo, de o nome poder estar associado a um lugar de culto antigo ao deus fenício Baal.

Fiz nessa sequência uma pesquisa sobre as várias invocações de outros deuses do panteão fenício cuja sonoridade vocal fosse próxima de Ílhavo, tendo como base a grafia mais antiga conhecida, que será do ano 1047 da nossa era, em que surge como "Iliavo" [1] [5].

Identifiquei então o que seria um dos deuses com invocações mais relevantes e que poderá responder à nossa questão. Ilib, deus dos antepassados (Veja-se o anexo 1 em que se faz uma muito breve descrição de alguns dos mais relevantes deuses fenícios). Há documentos da época que mostram ser dos que recebiam mais oferendas dos fiéis [8]. Segundo informação recebida do Dr. Moisés Espírito Santo, podemos entendê-lo como deus da ordem, da boa vizinhança, da família, da fecundidade.

A proximidade fonética com “Ilib” e a sua evolução parecem diretas. Nesta última transição terá ocorrido por aproximação à palavra “Ilha”, tão familiar a estas gentes que do mar tiram o seu sustento.

Algo como: Ilib => Ilibo /Ilivo => Iliavo /Ílhavo

Mas naturalmente pode tratar-se de um curioso acaso. Teria pois que procurar algo mais para consolidar a hipótese.

Note-se que “Baal” e “Ilib” eram deuses distintos. O panteão fenício tinha muitos deuses, não sendo de espantar que os cultos fossem com frequência feitos em conjunto, como hoje também sucede. Apenas como exemplo, a conhecida romaria da Senhora do Almortão, na Beira Baixa, tem um dia dedicado à Senhora Virgem Maria e um outro dedicado a São Romão.

Em qualquer caso, esta hipótese tem implícito um ou mais lugares de culto.

Sucede que os fenícios faziam o seu culto sobretudo em lugares elevados, ou então junto a nascentes de rios, junto a rios ou junto ao mar [2]. Em Vale de Ílhavo propriamente dito não é visível nenhum local desse tipo. Mas bastante perto, num ponto relativamente elevado, temos a Capela da Ermida, junto a uma propriedade murada com casario antigo, conhecido por Paço da Ermida.

IMG_3648.JPGFigura 2 - Capela da Ermida e Paço da Ermida - LMCPM 2020

A Ermida, é referida nas informações paroquiais de 1721 e 1758. Estes e outros detalhes podem ser vistos no excelente blogue Património Religioso de Ílhavo, da autoria de Hugo Cálão [4]. Saliento duas referências:

 - Nas informações de 1721 a Capela da Ermida é referida como sendo do povo, ou seja não pertencia a nenhum senhorio nobre ou clerical;

- Nas informações de 1758 é referido que junto à Ermida ficam “as nobres casas do Senhorio do Prazo”. Ou seja, Senhorio do Prazo, ou Quinta do Prazo, é outra denominação antiga do Paço.

Sucede que este termo "Prazo" é muito relevante quando se procuram topónimos fenícios. Deriva de uma forma praticamente direta de "perazu" (que terá dado nome a muitos outros lugares em Portugal denominados por exemplo ”Paraíso” e "Prazo") [2]. Significa "lugar da convocação dos acordos". De acordo com esta interpretação, os povos que habitavam esta região renovavam os acordos entre si e com os comerciantes da longínqua fenícia e neste caso fariam rituais religiosos a “Baal Ilib” (ou a “Baal” e a “Ilib”), numa forma possivelmente próxima ao que atualmente denominamos romarias. No blogue referido podem-se observar fotografias muito interessantes dessa capela e de romeiros da década de 1950. Não consegui encontrar referências sobre a antiguidade desta romaria. A ser correta a minha interpretação, seria muitíssimo antiga.

Ao longo dos séculos as tradições e os cultos enraízam-se nas comunidades. Evoluem e adaptam-se às “religiões oficiais” mas em muitos casos mantêm a sua essência numa interpretação popular de religiosidade e hábitos que passam de geração em geração. A Ermida manteve-se do povo, fazendo parte da sua identidade, com ritos que de acordo com esta hipótese remontariam há mais de dois mil e quinhentos anos atrás.

Mas identifiquei mais alguns topónimos de grande interesse neste contexto,.

Bastante perto, ligeiramente a poente de vale de Ílhavo, encontramos “Moitas”.

Esta denominação e outras semelhantes, tais como Moita e Mota, podem derivar de Mot (“mout”), deus da morte, rival de Baal.

Saliento a relevância da sua proximidade ao espaço que estaria dedicado a Baal. Não sendo conhecidos detalhes dos ritos a estes deuses, conhecem-se contudo bastante bem os poderes que lhes eram atribuídos e os mitos. Entre Baal e Mot ocorria uma luta eterna. Ambos eram importantes e complementares. Dos seus ciclos de luta anuais dependia a vida no mundo. A associação ao ciclo das estações e daí às colheitas, surge de forma intuitiva, se bem que nos textos conhecidos tal associação não esteja explícita [10].

Nos locais a que estava associado Mot, havia também rituais de enterramento, ou seja cemitérios [2].

Por último realçaria mais um topónimo extremamente interessante pela sua sonoridade peculiar:

- Boco (Rio Boco); Este termo tem como um dos seus significados “oferenda”[9]. Poderia simplesmente ter ganho o nome por estar junto ao espaço de culto onde haveria oferendas aos deuses. Ou poderia mesmo haver algum ritual de oferendas na margem, ou na foz. Note-se que o Rio Boco, naquela época desaguava diretamente no mar como mais adiante explicarei.

Posicionamento geografico Vale de Ilhavo.JPGFigura 3 - Alguns topónimos na zona de Vale de Ílhavo (Google Maps)

Penso ser de interesse ter em conta que esta região passou por grandes mudanças em particular no último milénio decorrente da deposição de areias e assoreamento. No período a que reporta esta análise, não havia praticamente nenhum cordão dunar. O rio Boco desaguava diretamente no mar. A Figura seguinte mostra essa evolução. Note-se que a identificação de localidades atuais não significa que já houvesse ocupação humana na altura, mas apenas pretende ajudar a situar os contornos da costa. No anexo 2 explica-se como se elaborou este mapa.

Localizacao_Vale_Ilhavo_ha_2500_anos.JPGFigura 4 – Como seria o litoral deste espaço geográfico na época analisada

Em jeito de conclusão

Em síntese, a opção que aqui coloco remete a origem do nome Ílhavo, ou mais precisamente Vale de Ílhavo, para uma invocação de dois deuses fenícios, Baal e Ilib, que seriam objeto de adoração no Prazo, local onde em romaria os povos desta região se encontravam, manifestavam a sua fé e estabeleciam acordos entre si e com os fenícios.

Como Senos da Fonseca refere [5], na época em que situo o início deste culto, quase não haveria população residente fixa nestes locais. Na minha perspetiva, eram sobretudo pontos de encontro para as celebrações. Mas à medida que as gentes se foram fixando, nessa altura adotaram esses nomes, Vale de Ílhavo e Ílhavo.

Esta hipótese tem algumas “consequências” curiosas:

- Seria de certa forma Vale de Ílhavo que daria o nome a Ílhavo e não o inverso;

- Poderia a tradição das padeiras ter origens tão remotas como as aqui referidas, em que nessa época de culto preparariam o bodo que constituiria a renovação ritual dos acordos estabelecidos.

 

Por último…

Por último, deixaria aqui uma pergunta que fiz a mim mesmo quando cheguei a este ponto da pesquisa:

Mas se estes deuses eram tão relevantes e se o impacto dos fenícios foi significativo nos povos deste espaço que hoje é Portugal, por que razão não temos mais “Vales de Ílhavo” ou topónimos de sonoridade semelhante?

Pensei um pouco e… penso que encontrei uma resposta, curiosamente perto da minha terra natal, Caria. E depois outras respostas…

É o que irei explicar na próxima publicação.

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Anexo 1 – Algumas referências sobre o panteão de deuses fenícios

Os fenícios não constituíam uma nação no sentido atual do termo. Nem sequer há evidências de que a si mesmos assim se denominassem. Organizavam-se em cidades com gestão autónoma e cada cidade possuía o seu referencial religioso. Naturalmente havia similaridades entre elas, mas não havia um panteão de deuses único. O que se apresenta é a descrição de acordo com os textos de Ugarit  [3] [10]. Desconhecia-se a localização desta cidade até que em 1928 um camponês descobriu uma tumba por acaso. Seguiram-se trabalhos arqueológicos, que encontraram várias bibliotecas de “tábuas de argila”, escritas em diversas línguas e formas de escrita (ex: cuneiforme, hieróglifos). Estes achados foram extraordinariamente relevantes e permitiram termos atualmente uma perspetiva bastante razoável de muitos aspetos da vida dos povos que habitavam e comerciavam nesta região e época (cerca de 1200 AC), tais como os mitos, atos sociais e religião [6] [7].

 

Ilib – o deus dos antepassados; surge em primeiro lugar em listas de deuses, presumindo-se a sua importância. São conhecidas descrições de oferendas a deuses em que as melhores são atribuídas a este deus

EL.jpgEl  - Oriental Institute Museum, University of Chicago, Chicago, Illinois, USA - (Wikipedia)

El – O progenitor dos outros deuses à exceção de Baal; denominado “o criador das criaturas”; se bem que venerado, não surge como ator nos mitos; tem Échira (Ashirah) como esposa

Echira.jpgÉchira – Detalhe de caixa de marfim encontrada em Ugarit – Museu do Louvre - (Britannica)

Échira (em inglês Ashirah) – progenitora com El dos restantes deuses (cerca de 70); deusa da fertilidade; representada como uma árvore (ou figura feminina que simboliza a árvore)

Dagan (ou Dagon) – Deus das boas colheitas dos cereais. Inventor do arado.

Baal.jpgBaal representado com chifres e segurando um raio - Estela encontrada em Ugarit - Wikipedia

Baal – Deus das tempestades; “O que cavalga as nuvens”; Senhor da terra, é o que assegura a sua fertilidade; de acordo com um dos mitos torna-se rei dos deuses depois de derrotar Yam; de acordo com outro mito é derrotado por Mout, deus da morte, mas após ter a ajuda de Anat, sua consorte, renasce e vence Mout; Baal assume-se como o deus mais popular e devocionado

Anat – Esposa de Baal; deusa do amor e da guerra; denominada de “virgem”

Mout – Deus da morte e da seca; Vive nas profundezas da terra; Vence e mata Baal, mas este retorna à vida e consegue derrotá-lo

Yam – Deus do caos e do mar; desafia Baal para se tornar rei dos deuses, mas perde o combate depois de numa primeira fase estar a vencer;

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Anexo 2 – Como se elaborou o mapa da Figura 4

Teve-se como base a representação da esquerda, da figura seguinte, publicada na obra Geografia de Portugal, de Amorim Girão (1941)

Localizacao_geografica_ha_2500_anos.jpgFigura A2.1 – Evolução da costa na zona de Aveiro

Detalhou-se de seguida a península em que se situa esta análise tendo como base a representação usada na obra Ílhavo – Ensaio monográfico – século X ao século XX, de Senos da Fonseca, mostrada na figura seguinte.

Recorte da costa Ilhavo antes da laguna.pngFigura A2.2 – Recorte da costa na zona de Ílhavo antes da formação da laguna

Por último, sobrepôs-se um esquema de posicionamento relativo das localidades referidas, tendo como base o Google Maps.

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Referências

[1] Ferreira, Delfim Bismark - As Terras de Vouga nos Séculos IX a XIV - Território e Nobreza

[2] Espírito Santo, Moisés - Origens orientais da religião popular portuguesa, Assírio e Alvim, 1988

[3] Cassuto, U. (1962). "Baal and Mot in the Ugaritic Texts". Israel Exploration Journal. 12 (2): 81-83 (acessível via Jstor)

[4] Cálão, Hugo - Património Religioso de Ílhavo

[5] Fonseca, Senos da – Ílhavo - Ensaio monográfico – século X ao século XX

[6] Ugarit – Wikipedia

 

[7] Enciclopédia Britanicca / internet

[8] Toorn, Karel van der, Becking, Bob, Horst, Pieter Willem van der - Dictionary of Deities and Demons in the Bible

[9] Espírito Santo, Moisés – Dicionário Fenício – Português – Universidade Nova de Lisboa – 2ª edição

[10] Tsumura, David Toshio - Canaan, Canaanites in Bill T. Arnold & Hugh G. M. Williamson (eds), Dictionary of the Old Testament: The Historical Books. Leicester: InterVarsity Press, 2005.

[11] Girão, Amorim - Geografia de Portugal (1941)

 

 

 

 

 

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Possíveis origens fenícias de topónimos do nosso território

Primeira parte – Por montes e vales, ou talvez não…

por Lourenço Proença de Moura, em 02.10.20

Vista_panoramica_Torre_igreja_Caria_1991.jpg

Panorâmica tirada da torre da igreja de Caria – justaposição de fotografias
Na linha do horizonte, sobre a esquerda, a Serra da Estrela, antigos Montes Hermínios. Sobre a direita, a Serra de Nossa Senhora da Esperança, antigos Montes Crestados [3], vislumbrando-se por trás, sobre o lado direito a vila de Belmonte
LMCPM - 1991

Introdução

Passaram já bastantes anos, desde que numa feira do livro comprei pela primeira vez um livro do Dr. Moisés Espírito Santo. No caso denominava-se Origens orientais da religião popular portuguesa seguido de Ensaio sobre toponímia antiga. O autor descreve de forma bastante detalhada, como muitas tradições populares de cariz religioso, ainda hoje praticadas e enquadradas em cerimoniais da religião católica, apesar de conterem características a ela estranhas, seguem padrões comuns e têm fortes semelhanças com ritos ancestrais vindos do próximo oriente. De forma complementar, explica como muitos topónimos do nosso território surgem de forma agregada, tendo possíveis significados que ganham lógica entendidos também à luz dessa hipotética origem.

Como esses efeitos tão fortes e de origem tão distante aqui chegaram, parece bastante anormal à primeira vista, mas se percebermos o processo histórico, vemos que houve um período de tempo em que tudo se conjugou para que os comerciantes fenícios tenham aqui estabelecido pontos de contacto e conseguido influenciar de forma significativa os povos que aqui habitavam.

Para entender melhor a minha argumentação sobre a forte influência que a cultura fenícia terá tido neste nosso território, sugeria a leitura do Anexo - 1 desta publicação que faz um breve enquadramento histórico-geográfico.

Já há muitos anos que deixei de ser criança, mas desde que "me lembro de ser gente", guardo na memória alguns momentos marcantes em que por razões diversas senti que se “fez luz” de algo que considerei relevante a nível da “compreensão das coisas”. A leitura do livro que referi foi para mim um momento desse tipo, abrindo-me novas janelas para ajudar a compreender este nosso espaço e povo.

Após esse livro adquiri outros do mesmo autor e com base nestas leituras tenho feito análises diversas, por mera curiosidade.

Sucede que, no início de 2019, num passeio casual de fim-de-semana nas imediações de Aveiro (adiante explicarei onde), de forma algo inconsciente surgiu-me uma interrogação, no contexto das referidas leituras, sobre o nome da localidade que estava a visitar. Poderia ter origem fenícia?

Analisei a situação com algum cuidado e fiquei entusiasmado com o resultado. Publiquei mesmo algumas das principais “descobertas” em Maio, no Diário de Aveiro. 

Porém, passado algum tempo mais, surgiu-me uma nova dúvida, que poderei resumir da seguinte forma:

Se na verdade a minha interpretação estava correta e as influências fenícias fossem tão grandes, por que razão em Portugal apenas temos uma terra com o nome em causa?

A dúvida curiosamente demorou poucos dias a encontrar uma resposta. Por uma daquelas coincidências do destino, uma primeira resposta relacionava-se com uma localidade bem perto da minha terra natal, Caria. E a seguir a esta, outras com nomes semelhantes, um pouco por todo o país.

Estas constatações são certamente controversas, pois tanto quanto sei, até ao momento não há provas seguras, sobretudo arqueológicas, de que tenham feito comércio a norte do Tejo. Porém, a confirmarem-se as suposições que aqui coloco, tal realmente aconteceu.

Ficou com curiosidade em conferir estas constatações e suposições?

Venha então comigo nesta viagem…

A localidade junto a Aveiro onde identifiquei topónimos e características que indiciam uma ancestralidade fenícia, denomina-se Vale de Ílhavo.

IMG_3656.JPG

Na próxima publicação relatarei o que encontrei.

Até lá, sugeria a leitura da secção seguinte, que justifica a razão do título desta publicação.

 

Análise à dispersão dos topónimos Vale no atual território de Portugal

O estudo feito tem como ponto de partida uma das dúvidas básicas que o Dr. Moisés Espírito Santo exprime, relativa a topónimos iniciados por “Vale”. Segundo ele, alguns destes poderão ter derivado do teónimo “Baal”, um dos deuses mais venerados do panteão fenício.

A transposição fonética de Baal para Vale é direta.

Esta análise foi feita de uma forma bastante simples, mas que me pareceu esclarecedora. Teve como base a aplicação informática que os CTT disponibilizam na internéte (www.ctt.pt), no caso a pesquisa de códigos postais, acessível ao público.

Fazendo uma pesquisa por distrito, encontramos a seguinte quantidade de topónimos que contêm a dita palavra “Vale” (ex: “Vale”, “Vales”, Quinta do Vale", “Vale de Cambra”).

O leitor pode fazer a pesquisa básica, bastando selecionar o distrito e escrever “*Vale*” (acrescentar um asterisco no início e outro no fim da palavra “Vale”). Saliento que os valores que irá obter serão em princípio ligeiramente diferentes pois terão por exemplo de retirar localidades que correspondem a coincidências de escrita. Exemplo: Macedo de Cavaleiros. A análise que fiz apenas manteve as localidades em que a tónica estivesse na sílaba “Va”.

Quantidade de localidades “Vale” por distrito, por ordem decrescente:

Santarém - 161
Leiria - 141
Coimbra - 132
Castelo Branco - 125
Faro - 115
Beja - 64
Aveiro - 60
Viseu - 54
Setúbal - 52
Lisboa - 45
Portalegre - 30
Bragança - 29
Vila Real - 26
Guarda - 25
Évora - 18
Braga - 9
Viana do Castelo - 6
Porto - 1

Penso que o leitor já constatou algumas curiosidades nestes números, tais como:

Alguns distritos com muitos "Vale" não são claramente dos mais montanhosos. Exemplos: Beja e Santarém, sendo este mesmo o que maior quantidade apresenta.

Pelo contrário, alguns distritos com muito poucos "Vale" terão decerto muitos vales. Exemplos: Bragança, Vila Real, Guarda, Braga e Viana do Castelo.

Penso ser suficiente esta análise para concluir que para lá da orografia, outros fatores terão tido muita relevância na adoção deste topónimo.

 

Anexo 1 – Breve enquadramento histórico-geográfico

O mar mediterrâneo, pelas suas características originais de mar fechado, numa zona temperada, rodeando terras de três continentes tornou-se desde os primeiros tempos um ponto de atração das tribos humanas. Dele retiravam alimento, mas também cedo terão descoberto formas de utilizar esse mar como passagem entre as diversas terras. O engenho humano potenciado pela riqueza resultante da troca de experiências dos povos, resultou em sucessivos aperfeiçoamentos aos mais diversos níveis, técnicos, sociais, etc. O comércio terá ocorrido de forma natural, inicialmente com base em trocas, tudo isto tornando possível o nascimento e desenvolvimento precoces de grandes civilizações. Como sempre sucedeu ao longo da história da humanidade, as épocas de maior progresso ocorreram e tornaram-se mais impressionantes quando os vários povos partilharam ideias, conhecimentos, bens.

A civilização egípcia será a que tem uma história melhor conhecida, mas outras houve também bastante desenvolvidas como a Minóica que terá decorrido entre os séculos XX e XV AC [2].

Estas primeiras grandes civilizações contudo terão influenciado muito pouco os povos que habitavam no espaço em que hoje está Portugal, dada a nossa posição exterior a esse mar inter-terras. Tal situação porém mudou, por volta do que seria o século VIII AC. Na verdade, por essa altura, o povo fenício, que tinha criado no mediterrâneo uma rede comercial bastante dinâmica, sustentada em técnicas de navegação bem consolidadas, ousou ultrapassar aquelas águas relativamente seguras, passando pelas colunas de Hércules / estreito de Gibraltar aventurando-se no bem mais perigoso Atlântico.

Rotas_Fenicias_Map of Phoenicia and its trade rout

Rotas comerciais fenícias [4]

Estas trocas comerciais terão durado vários séculos [2]. Para lá dos bens comerciados muitas outras influências tiveram nesta região, como sejam religiosas e sociais. Neste espaço habitavam várias tribos, vivendo da pastorícia, de alguma agricultura e naturalmente da caça e pesca. O impacto terá sido muito grande, por razões fáceis de entender. A cultura dos povos autóctones era pouco evoluída, a nível de tecnologias, formas sociais, etc. Teriam de passar mais de seis séculos até surgir o império romano e com ele chegar uma nova e grande vaga de conhecimentos técnicos e organização social. Por essa razão é de supor que muitas marcas terão sido aqui deixadas, não apenas físicas, mas também a nível da oralidade, em vocábulos e topónimos, ou de tradições que poderão ter perdurado no tempo se bem que com inevitáveis adaptações.

Os fenícios atribuíam valor a alguns bens que podiam ser recolhidos no nosso território, como por exemplo prata, ouro e sal. Trocavam-nos por bens aqui muito valorizados como cerâmicas, armas, cereais. Criaram entrepostos comerciais. Tinham uma abordagem pacífica pois tal era essencial ao comércio e estabeleciam contratos sociais [1]. Traziam uma tremenda inovação, o uso da escrita, suportada num alfabeto. A sua língua terá passado a ser usada como “língua franca” unificadora do que seriam os vários dialetos tribais, como hoje por exemplo é usado o inglês. Os seus cultos religiosos seriam com toda a probabilidade adotados ou miscigenados com os deuses autóctones, pois vinham de um povo que claramente tinha uma capacidade superior. Barcos impressionantes, armas temíveis. Este povo era decerto tão poderoso pois poderosos seriam também os seus deuses!

Estas influências terão sido consolidadas nas tribos contactadas, que as transportaram nas suas zonas de influência, as quais, como veremos se terão estendido até bem dentro do nosso atual território.

Referências

[1] Espírito Santo, Moisés - Fontes remotas da cultura portuguesa, Assírio e Alvim, 1989

[2] Chaniotis, Angelos - Ancient Crete - Oxford Bibliographies - (https://www.oxfordbibliographies.com/view/document/obo-9780195389661/obo-9780195389661-0071.xml) consultado em 13/5/2020

[3] Concelho de Belmonte Memória e História – Manuel Marques – Edição da Câmara Municipal de Belmonte – 2001

[4] Khan Academy - https://www.khanacademy.org/humanities/whp-origins/era-3-cities-societies-and-empires-6000-bce-to-700-c-e/32-long-distance-trade-betaa/a/read-phoenicians-masters-of-the-sea-beta

 

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Breves reflexões sobre a origem do nome do arquipélago dos Açores

por Lourenço Proença de Moura, em 15.08.20

Mapa_Ilhas_terceiras_Lazaro_Luis_1563_Academia_das

E se o nome deste nosso território se devesse à devoção de um frade e a um simples mal-entendido?

Se o leitor ficou curioso com esta possibilidade, convido-o a acompanhar-me nestas próximas linhas.

Este tema está decerto no grupo de assuntos relacionados com a nossa História, que mais apaixonadamente tem sido alvo de debate, por historiadores ou simples curiosos como eu. Quase tudo terá já sido dito. Poderei dar algum contributo por mais pequeno que seja?

 

Como seria de esperar, há muita documentação coeva sobre “os descobrimentos” boa parte da qual apenas se pode consultar em arquivos de acesso restrito a estudiosos. Mas felizmente há imensa informação disponível na internet, sejam documentos digitalizados ou artigos de estudo. A Wikipedia por exemplo tem páginas interessantes centradas na vertente histórica. Nas referências incluo duas páginas, em português [1] e inglês [2] e que no que respeita à origem do nome curiosamente apresentam perspetivas um pouco diferentes.

Mas no essencial, como se poderá supor e conferir nas páginas citadas:

- há muitas fontes documentais antigas que referem o conhecimento de ilhas – algumas delas com nomes coincidentes com os atuais, antes da sua “descoberta” pelos portugueses;

- estudos recentes a nível da arqueologia indiciam a existência de estruturas de construção anteriores, mas não há ainda consenso sobre esta matéria;

- estudos igualmente recentes, de ADN, realizados em ratos, demonstraram existir ligações a antepassados de países nórdicos, possivelmente chegados em barcos, sendo coerente com a hipótese de terem chegado em embarcações viquingues.

Tal não deve surpreender nem pôr em causa nada de essencial no “nosso” mérito na arte da navegação e neste caso, no de conseguir povoar e tornar habitáveis estas remotas ilhas.

As breves reflexões que vou fazer focam-se em dois aspetos:

- O primeiro, é um singelo contributo para a denominação “Ilhas terceiras” que antecedeu a denominação atual e que durante alguns séculos conviveu com a nova identidade;

- O segundo, é uma proposta que penso ser original na defesa de uma das opções justificativas para o nome atual do arquipélago.

 

A denominação “Ilhas terceiras”

Não existe qualquer dúvida sobre este facto e o significado desta antiga denominação. Nas referidas páginas da Wikipedia tal é bem explicado. Correspondia à ordem de afastamento da costa. As primeiras eram as Canárias, as segundas o arquipélago da Madeira e finalmente as terceiras, os atuais Açores.

O belo mapa do cartógrafo português Lázaro Luís, datado de 1563 [15], de que retirei um detalhe para iniciar este texto e que aqui apresento noutra vista, é um bom exemplo desse posicionamento e da denominação.

Mapa_Ilhas_terceiras_Lazaro_Luis_1563_Academia_das

Mas a questão curiosa que aqui pretendo trazer é sobre o nome das ilhas, em particular da ilha Terceira. A explicação que mais frequentemente tenho ouvido e lido (por exemplo [2]) refere ter sido a terceira ilha a ser descoberta. Não me parece que faça sentido. O grupo central é constituído por 5 ilhas bastante próximas que terão sido “descobertas” praticamente em simultâneo.

Sucede que numa leitura casual, de um livro de ensino que foi publicado em Portugal em diversas edições entre o final do século 18 e o início do 19 – “Atlas moderno para uso da mocidade” [4], fui surpreendido com a leitura da descrição do arquipélago dos Açores. A imagem seguinte mostra essa explicação.

As_ilhas_dos_Acores.jpg

Está escrito num estilo comum na época, na forma de perguntas e respostas. Para a pergunta sobre quantas ilhas são, surge a resposta que logo ao início nos surpreende:

Nove, cujos nomes são:

- As duas Terceiras

- A Graciosa… e por ali continua.

Torna-se fácil de perceber que o Faial ainda não tem nome próprio nesta lista. O Faial é ainda uma “ilha Terceira”.

Note-se que o nome “Faial” já surge referido em descrições e mapas muito anteriores, como o já referido de Lázaro Luís. Mas o que esta descrição parece mostrar é que na verdade as ilhas apenas foram ganhando identidades oficiais à medida das necessidades. O Faial terá sido a última a ganhar a sua “alforria identitária”. A Terceira não precisou de o fazer. Se todas as outras tinham nomes próprios distintos dela, ela já não precisava de mudar. Ficou com o “nome da família”!

 

Vejamos agora o segundo tema - a questão da razão de ser do atual nome do arquipélago.

Nos tempos mais recentes o debate tem sido feito sobre três hipóteses [1]:

  • Dever-se à presença de milhafres identificadas de forma errada pelos marinheiros portugueses como sendo açores. Esta justificação é algo estranha pois há muitas diferenças quer físicas quer na forma de voar e naquela época esse era um conhecimento das gentes do povo; Porém, de facto muitas fontes antigas referem essa justificação.
  • A devoção de Gonçalo Velho a Santa Maria dos Açores, padroeira da freguesia de Açores, em Celorico da Beira, no Distrito da Guarda;
  • Provir do nome Azzurro em italiano ou Azureus em latim, que significa Azul em português, como referência ao céu azul num dia brilhante e claro quando as ilhas se veem ao longe (em [1] consideram esta a possibilidade mais forte).

Pessoalmente, considero mais plausível a segunda opção e vou explicar as razões. O que a seguir refiro é conhecido dos estudiosos, mas será importante para contextualizar o leitor.

Na verdade, na época em que as ilhas foram descobertas, a devoção a Santa Maria dos Açores era muito forte, pelo menos na Beira interior. No final desta publicação, em “Informação anexa” faço uma breve referência aos milagres que terão sido mais famosos.

Penso não existir muita informação disponível sobre este tema, mas irei mostrar um exemplo bastante elucidativo e que está consultável na internet [6] – Trata-se das "Cronicas del Rey Dom João de gloriosa memoria" (Dom João I, fundador da Dinastia de Aviz), escritas por Duarte Nunes do Leão (n.1530 - f.1608).

Se selecionarem a ligação, acedem diretamente ao conteúdo que apresento na imagem seguinte, focado no ponto que quero realçar.

Partindo_se_logo_El_Rei_da_Guarda.jpg

Qual o contexto e o que diz este relato? O reino de Portugal está a atravessar a denominada crise de 1383 – 1385. D. Fernando falecera sem deixar descendência masculina. D. João de Castela, casado com D. Beatriz, filha de D. Fernando, seria quem deteria o direito de reinar. Porém em Portugal havia grande oposição a que tal sucedesse, em particular da parte da burguesia e do povo. Pelo contrário, a maior parte da nobreza defendia a posição do rei de Castela. Em 1384, D. João de Portugal foi aclamado como regente. Este, nomeou Nuno Álvares para fronteiro do Alentejo. Tendo conhecimento destas movimentações, o rei de Castela entrou em Portugal para tentar fazer valer os seus direitos. Não traz ainda o enorme exército que um ano mais tarde batalhará em Aljubarrota, pois nesta fase pretende sobretudo reunir quem lhe fosse favorável.

É neste ponto que se situa o texto da crónica. E o que nos diz ele? Que El Rei de Castela, depois de entrar em Portugal, dirigiu-se à Guarda, fazendo depois romaria a Santa Maria dos Açores seguindo depois para Celorico…

Ou seja, o próprio Rei de Castela conhecia a devoção e atribuía-lhe tanta relevância que mesmo num contexto de tensão e crise – ou até por isso - fez questão de passar naquele local.

Penso que este exemplo é claro da importância deste culto pelo menos nesta região, chegando mesmo ao reino vizinho.

Vejamos agora o que se sabe sobre a “descoberta” das ilhas, mas sobretudo sobre o início do seu povoamento.

Existe algum debate sobre quem “descobriu” os Açores. Há os que defendem que foi Diogo de Silves. Há também quem refira Gonçalo Velho. Mas para o que pretendo salientar esse aspeto não é relevante, mas sim o seu povoamento. E sobre isso não existem dúvidas.

Em 2 de Julho de 1439, por sua lealdade e por sua reconhecida experiência no mar, o Infante Dom Henrique designou-o (Gonçalo Velho) para "povoar e lançar ovelhas nas sete ilhas" do Arquipélago dos Açores. Levou famílias do Alentejo, Estremadura e do Algarve, e gado para as ilhas de Santa Maria, estabelecendo-se na Praia do Lobo. Em 1444 inicia a colonização da Ilha de São Miguel, onde funda a vila de Povoação [9].

Ou seja, a primeira ilha a ser povoada foi Santa Maria. Apenas cerca de 5 anos depois se iniciou o povoamento de São Miguel, ainda por Gonçalo Velho. As outras ilhas naturalmente seguiram-se em datas posteriores com outros donatários.

Sucede que os pais de Gonçalo Velho eram da beira interior. A mãe, Maria Álvares Cabral (Tia bisavó de Pedro Álvares Cabral) era de Belmonte, localidade bastante próxima de Açores.

Ascendencia_Goncalo_Velho.jpg

Árvore genealógica de Gonçalo Velho [10]
Nota: Podemos também situar Fernando Álvares Cabral que foi avô de Pedro Álvares Cabral

Na figura Gonçalo Velho surge aproximadamente no centro. Como se refere também na figura, o pai era alcaide de Veleda (Não consegui situar este castelo - ver nota sobre este tema no final – informação anexa) título dado por el-rei D. Fernando. Foi-lhe também atribuído o Souto da Mercê. Sobre este último território consegui encontrar referências. Ocupava uma área bastante extensa entre a Gardunha e o vale do Zêzere, desde Alcongosta até aos limites do Castelejo, passando pelo Souto da Casa, Aldeia Nova e Aldeia de Joanes, até às povoações de Donas e Alcaide [8]. Ou seja, um território um pouco a sul de Belmonte mas muito próximo.

Não se conhece o local de nascimento, mas terá sido provavelmente nesta região. Significa isto que Gonçalo Velho não podia deixar de conhecer e valorizar este culto. Até porque temos que ter em conta um outro fator… Gonçalo Velho seguiu a via religiosa. Ficou aliás conhecido por Frei Gonçalo Velho.

Estamos finalmente no ponto em que, penso eu, sugiro uma interpretação original sobre o que terá sucedido.

E o que terá sucedido?

Gonçalo Velho denominou a primeira ilha que povoou não simplesmente de “Santa Maria”, mas de “Santa Maria dos Açores”. E assim terá sido chamada nos primeiros anos. Porém esta devoção não era conhecida de todos, mesmo em Portugal, nestes tempos em que o poder e a posse da terra seguiam ainda um modelo feudal e com ele toda uma estrutura social tendencialmente fechada nos domínios dos senhorios. Por exemplo Diogo de Silves, se como se argumenta era algarvio, poderia não a conhecer, à semelhança dos seus companheiros naturais desta região de onde muitas armadas partiram. Por maioria de razão seria desconhecida de navegadores de outras nacionalidades.

Por outro lado, como se refere por exemplo no livro Memórias para a história de Portugal [11], a ilha de Santa Maria juntamente com a de São Miguel eram, naquele tempo de rotas ditadas pelo vento, tipicamente as primeiras a avistar.

Assim, ao se dirigirem para esta ilha recém-povoada, ou mesmo passando ao largo, ouvindo nomear “Santa Maria dos Açores”, terão associado o termo “dos” à comum ideia de pertença. Ou seja, o nome da ilha para esses primeiros visitantes seria simplesmente “Santa Maria” a qual pertencia aos “Açores” que neste contexto só poderia ser o nome do arquipélago.

O nome era simples e foi rapidamente partilhado. Serviu os propósitos da comunicação entre as gentes e foi quanto bastou. Usando uma expressão popular “pegou de estaca”.

Esta hipótese tem uma curiosidade…

Tendo ficado a ilha Terceira com o nome da “antiga família”, a ilha de Santa Maria seria a “ilha madrinha” das suas irmãs no que se refere a lhes ter dado o nome da “ nova família”…

 

Se me permitem terminar em jeito de romance, imaginem então o dedilhar de um alaúde e uma toada como na “Nau Catrineta”…

Era uma vez nove irmãs, filhas da Terra e do Mar.
Da família das “Terceiras”, esse nome partilhavam.
Gonçalo Velho chegou, para duas povoar,
E
 novos nomes lhes deu, melhor assim as chamavam.

Santa Maria dos Açores, chamou à ilha primeira,
Pela devoção que tinha, à sua Senhora da Beira
Os marinheiros de longe, tendo nela aportado
Pensaram “Açores” ser, o arquipélago chamado!

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Referências

[1] Wikipedia – História dos Açores

[2] Wikipedia – History of the Azores

[3] Wikipedia – A ilha Terceira

[4] Atlas moderno para uso da mocidade – Typographia Rollandiana – Lisboa 1812

[5] Wikipedia – Açores / Celorico / Guarda

[6] Cronicas del Rey Dom João de gloriosa memoria o I deste nome… – Duarte Nunes de Leão – Lisboa 1780

[7] Celorico da Beira através da História – Margarida Sobral Neto

[8] O culto a S. Brás e a Misericórdia do Fundão. Devoção, memória e patrimonialização – Pedro Miguel Salvado e Joana Bizarro – Revista online do Museu de Lanifícios da Beira Interior

[9] Sítio da internet – Genearc – Página sobre Fernão Velho

[10] Concelho de Belmonte Memória e História – Manuel Marques – Edição da Câmara Municipal de Belmonte - 2001

[11] Memórias para a história de Portugal que compreendem o governo del rei D. João o I – José Soares da Silva - 1730

[12] Portugal antigo e moderno – Volume segundo – partes 3 e 4 Padre João Batista de Castro – 1763 (página 238)

[13] Corografia portugueza e descripçam topografica do famoso reyno de Portugal – Tomo terceiro – Padre António Carvalho da Costa – 1708 (Páginas 365 e 366)

[14] - Quarta parte da monarquia lusitana – Frei António Brandão – 1632

(El rei D. Sancho primeiro) - Páginas – 6 (verso), 7 (frente e verso), 8 (frente)

[15] Mapa de Lázaro Luís – 1563 – Academia das Ciências

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INFORMAÇÃO ANEXA

Notas sobre o castelo de que Fernão Velho foi alcaide

Fernão Velho, pai de Gonçalo Velho, foi nomeado por D. Fernando alcaide de um castelo. Sucede que, não tendo eu acesso à fonte original, encontrei referências diferentes, como a seguir exponho.

Como se mostrou na árvore de família de Gonçalo Velho, Manuel Marques refere Veleda como o nome do castelo.

Numa outra página de genealogia (ver ligação)surge também como senhor de Veleda.

Encontrei porém uma outra página com outra denominação que me pareceu bem sustentada. Trata-se de um repositório académico, refere a data (1/5/1370) e o lugar (Pontevel) onde foi assinado e onde se encontra o original.

Doação do Castelo de Aveleda a Fernão Velho

Refere o castelo como sendo de Aveleda.

De acordo com os registos de códigos postais temos terras com este nome nos concelhos de Braga, Bragança, Chaves, Cinfães, Lousada, Paredes de Coura, Valpaços, Vila Verde e Vila do Conde.

Mas nenhuma com castelo.

Nesta outra página da Enciclopédia Açoriana referem que o castelo era da Valada…

Depois de alguma pesquisa, encontrei uma referência ao castelo de Santarém como tendo essa denominação (Valada).

Porém fiquei na dúvida, pois parecer-me-ia mais natural que no documento de nomeação fosse identificado pela cidade e não por uma denominação aparentemente local. Além de que no levantamento de alcaides de Santarém não surge Fernão Velho.

Alcaides de Santarém – Wikipedia

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Lendas em torno dos milagres de Santa Maria dos Açores [7] (páginas 105 e 106)

(transcrição do documento referido)

O brasão do concelho de Celorico ostenta como elementos simbólicos um castelo, uma águia com um peixe nas garras, cinco estrelas e uma figura representativa da lua.

Segundo informação dos priores das três freguesias urbanas de Celorico, apresentada nas Memórias. paroquiais de 1758, a figuração referida fazia parte da bandeira da câmara, sendo interpretada da seguinte forma: a águia e a truta reportavam-se a uma estratégia utilizada pelo Alcaide-mor de Celorico para induzir o conde de Bolonha a levantar o cerco ao castelo. Por sua vez, as estrelas e a lua evocariam o milagre ocorrido durante uma batalha (travada num campo próximo de Trancoso) contra um rei de Leão, segundo o qual a lua "parara” até ao desfecho vitorioso das tropas portuguesas. Este milagre foi atribuído a Nossa Senhora dos Açores. Em reconhecimento deste prodígio dos céus, as câmaras da cidade de Guarda e das vilas de Trancoso, Linhares, Algodres e Mesquitela deslocavam-se, todos os anos, em romagem à ermida da milagrosa senhora, em dias diferentes, entre a primeira oitava da Páscoa e o domingo da Santíssima Trindade (Rodrigues, 1992: 139). Esta tradição é referida em vários documentos da época moderna, nomeadamente no foral manuelino de Celorico, no capítulo em que se destina uma parte das receitas do montado aos cavaleiros que participassem no cortejo que anualmente se dirigia a Santa Maria dos Açores, acompanhando, a cavalo, a bandeira do concelho.

Santa Maria dos Açores era uma criatura divina a quem se atribuíam três grandes milagres. O primeiro remonta ao momento do encontro da imagem da Senhora, ocorrido após a mãe de Deus ter salvo do afogamento um pastor e uma vaca que tinham caído numa lagoa; o segundo, manifestou-se através da devolução da vida, e de um corpo são, a um filho de uma rainha, vinda de longe em busca de cura para as deformidades físicas e que entretanto falecera; finalmente, o terceiro realizara-se no mesmo contexto do segundo, no momento em que o rei se preparava para cortar a mão de um dos seus criados que, inadvertidamente, deixara fugir um Açor; por intercessão divina a ave interpusera-se entre a lâmina cortante e o vassalo salvando-lhe a vida.

Celorico da Beira e Linhares - Adriano Vasco Rodrigues - 1992

 

Nota pessoal

Este texto sintetiza as lendas e os milagres desta devoção. Mas se o leitor tem curiosidade em conhecer textos antigos em que o mesmo tema é descrito, sugiro que aceda às ligações das referências [11], [12], [13] e [14], em particular a esta última, mais antiga e mais longa.

Apresento aqui apenas o texto da referência [13] para ilustrar a forma antiga de relatar este tipo de veneração.

Corografia_Portuguesa_1708_1.jpg

Corografia_Portuguesa_1708_2.jpg

Corografia_Portuguesa_1708_3.jpg

 

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Breves referências à localidade dos Açores

Não era minha ideia inicial fazer referência específica a esta localidade, pois presumi que estivesse razoavelmente divulgada. Sendo uma terra muito antiga (uma lápide na igreja remete para a época visigótica) com uma devoção que foi relevante na nossa História, para não falar da possibilidade de ter sido a inspiradora do nome do arquipélago dos Açores, havia razões de sobra para que houvesse bastante informação e imagens na internet.

Pode ter sido minha falha, mas para lá de um breve artigo na Wikipedia, apenas encontrei algumas descrições das lendas. Imagens do interior da igreja não encontrei.

Julgo que esta localidade merece mais reconhecimento e visibilidade, em particular a igreja.

Apesar de se perceber que passou por inúmeras "obras" desde a sua construção original que terá sido gótica, ainda tem motivos de interesse. Por exemplo a imagem de Santa Maria dos Açores com um dessas aves aos pés, os quadros descrevendo os milagres e a epígrafe visigótica.

Não tendo encontrado imagens melhores, aqui mostro algumas fotos que tirei há cerca de seis anos, apesar da fraca qualidade pois foram tiradas sem "flash" por um telemóvel com baixa sensibilidade à luz.

Nota: A sua localização, mesmo sem utilizar GPS é bastante fácil. Se por exemplo estiver a percorrer a A25, no sentido Aveiro => Guarda, já relativamente perto da Guarda, mas ainda sem iniciar a subida da serra, passa por Celorico da Beira à sua esquerda. Fique então atento, pois cerca de 7 Kilómetros depois terá a saída para a aldeia dos Açores, a qual está logo ali muito perto. Boa viagem. Boa visita.

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O famoso Godinho

por Lourenço Proença de Moura, em 01.08.20

Godinho_quadro.jpg

O leitor vai perceber no final, a razão por que começo esta publicação com uma anedota. Penso que é bastante conhecida e por isso vou tentar contá-la numa versão abreviada com umas simples adaptações aos tempos atuais…

              Naquele dia de fim-de-semana, o trânsito estava ainda mais confuso que o habitual. O nosso presidente Marcelo Rebelo de Sousa fazia-nos uma nova visita. Já não me recordo da razão. Pode ter sido para celebrar algo, para partilhar o seu pesar por algum infortúnio, ou por outro qualquer motivo… Razões não faltam para distribuir abraços e beijos fraternos por todo o país.

              O facto é que estava previsto que percorresse a avenida principal e eu, depois de estacionar o carro bem longe para evitar mais transtornos, lá fui apressado à zona em que a população se juntava, aguardando a sua passagem.

              Estava ainda a procurar o melhor local para assistir ao cortejo, quando um toque no ombro me fez dirigir a atenção para o autor do gesto. Era o meu amigo "Zé dos plásticos", que já não via há muito. Fizemos alguma conversa de circunstância. Pelos vistos a vida estava a correr-lhe bem. Muitos negócios, muitos contactos, muito sucesso. Em determinada altura fiz um comentário qualquer sobre o facto do nosso presidente ser tão conhecido de todos. E não é que o Zé ripostou? Disse que conhecia muito bem o presidente, era amigo da família e possivelmente ele, Zé, já seria mais famoso que o Marcelo!...

              Como ele sempre foi bastante gabarolas sorri. Mas na verdade o Zé despediu-se apressado dizendo qualquer coisa que não percebi e desapareceu na multidão.

              Passados alguns minutos, finalmente, começou a aparecer ao longe o que parecia ser a comitiva do presidente. O povo começou a aglomerar-se ainda mais e a acenar.

              Eis que, no carro descapotável que vinha à frente, em ritmo lento, vejo duas figuras de pé. Uma era o Marcelo. A outra, não conseguia reconhecer. Curiosamente tinha algumas semelhanças com o meu amigo de quem me despedira havia poucos minutos.

              Não podia ser… Mas cheio de curiosidade, perguntei a uma outra pessoa ao meu lado, que estava mais à frente em melhor posição:

              - Por favor, sabe-me dizer quem vem no carro descapotável?

              A pessoa virou-se para mim e perguntou-me:

              - Quer saber quem está ao lado do Zé dos plásticos?

 

Posta esta introdução, vamos ao assunto da publicação…

Moro no centro da "antiga vila de Esgueira", que atualmente constitui uma freguesia urbana de Aveiro.

Sendo uma terra antiga, como é comum nestes casos, o centro corresponde à zona também mais antiga da localidade. A minha casa dá para uma rua, atualmente sem tráfego automóvel, denominada Rua do Godinho.

Rua_do_Godinho.jpg

 

Durante muitos anos não tive curiosidade em descobrir quem teria sido este Godinho. Mas ao ler o livro “Fontes remotas da cultura portuguesa” [1], do Dr. Moisés Espírito Santo, em que sustenta a argumentação de que muitos topónimos portugueses têm origens fenícias, achei curiosa a explicação que ele dava, no caso, referente à denominação de um monte - "Monte Godinho". Este monte situa-se na beira interior, mais especificamente junto à localidade de Enxabarda, a cerca de 10Km a oeste do Fundão. Refere esse autor (página 371) que "Godinho" pode significar "gad 'yny" sendo nesse caso um título de chefe.

Note-se que num outro livro, “Origens orientais da religião popular portuguesa” [2], o mesmo autor, perante topónimos semelhantes, tais como o Bairro do Godim, no Porto (pág 283), Porto Godinho na zona de Soure (pág 297), Godinho na zona de Góis (pág 298), apresenta uma outra hipótese - a de derivarem do termo "godel" que também era um título com o significado de "Grande", igualmente associado a um líder. Sublinho que nestes trabalhos, este autor focou-se em topónimos de locais e não de ruas.

Foneticamente a primeira interpretação será mais plausível, mas em qualquer caso a interpretação seria equivalente. No caso da minha curiosidade – Rua do Godinho, denominaria um percurso associado a alguém com estatuto de liderança da comunidade.

Tentei saber se havia alguma explicação para o nome da “minha Rua do Godinho” mas não encontrei nenhuma razoável. Daí que decidi fazer as minhas próprias pesquisas. Achei que seria interessante averiguar até que ponto esta denominação é comum. Qual seria a sua distribuição geográfica?

Seria uma tarefa quase impossível se não dispuséssemos de uma ferramenta adequada. Sucede que hoje em dia temos uma, curiosamente acessível a qualquer cidadão. Trata-se da aplicação de pesquisa de códigos postais dos CTT, disponível na internet [3]!

Venho pois partilhar convosco o que desta forma encontrei.

Para não maçar o leitor, vou desde já mostrar a distribuição geográfica de ruas, travessas, quelhas… do Godinho, Gondinho, Godinhos…

Surgem no mapa com marcas de fundo branco.

Entretanto como o Dr. Moisés Espírito Santo comenta nos livros citados, há uma outra denominação que terá a mesma raiz. Trata-se de “Godim”.

Fiz por isso a mesma pesquisa para esta outra denominação. Correspondem às marcas com fundo laranja.

Se o leitor tiver curiosidade em saber as correspondências, elas estão ao fundo deste artigo, numa zona que denominei “Informação anexa”.

Localizacao_Ruas_Godinho_Godim.jpg

Localização de ruas com denominação “Godinho” (marcas brancas) e “Godim” (marcas laranja) [4]

O que podemos constatar?

  • A localização do termo “Godim” situa-se no mesmo espaço de “Godinho” e terá muito provavelmente a mesma origem.
  • A concentração junto ao litoral é compatível com a possível origem fenícia proposta pelo Dr. Moisés Espírito Santo. Seria contudo de esperar situações mais a sul, por exemplo no Algarve.
  • Há uma muito grande concentração na região entre Viana do Castelo e Aveiro. Não será possível numa análise tão simples dar justificações, mas apenas por curiosidade, partilho com o leitor o seguinte. Segundo o mesmo autor [2] (pág. 352), de acordo com a Bíblia, vinha de Ofir o ouro dos fenícios, sendo Ofir a fonte do ouro mais puro. Como ele explica, há bastante debate sobre onde este lugar se situava. Mas segundo afirma, terras com esse nome apenas existem em Portugal e uma é precisamente nesta região, junto a Fão. Será coincidência que o Minho tenha tanta tradição no trabalho do ouro? Esta concentração de ruas do Godinho / Godim podia ter a ver com um maior fluxo de interações comerciais.

Em conclusão, tudo leva a crer que esta denominação Rua do Godinho / Godim, decorra de uma associação muito antiga, possivelmente semelhante à que ocorreu em muitas terras, de terem a sua "Rua direita". Há várias explicações para esta denominação, mas partilho da opinião dos que argumentam que deriva de ser a rua que dirigia (rua direta) ao centro de poder da localidade.

À semelhança da “Rua direita”, a grande maioria das “Ruas do Godinho”, situa-se em espaços centrais das terras.

A localização concentrada junto ao litoral, é compatível com a hipótese fenícia, mas como sempre digo nestes casos, trata-se apenas de uma hipótese.

A ser um personagem real, sem dúvida que era famosíssimo.

O Godinho seria quase tão conhecido como o Zé dos plásticos!

E tendo em conta o atual espaço geográfico de Portugal, seria um “homem do norte!”…

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Referências

[1] Moisés Espírito Santo - Fontes remotas da cultura portuguesa - Assírio e Alvim - 1989

[2] Moisés Espírito Santo - Origens orientais da religião popular portuguesa seguido de Ensaio sobre toponímia antiga - Assírio e Alvim – 1988

[3] www.ctt.pt - opção “Ferramentas” / “Encontrar códigos postais”

Nota: Fiz esta pesquisa em Julho de 2017. Atualmente o sistema obriga a indicar o distrito / concelho. Na altura apenas exigia o distrito o que facilitou muito.

[4] Note-se que a localização pode não estar absolutamente exata, pois as ferramentas que usei não mo permitiam. Também em alguns casos as localizações eram muito próximas e levariam à sobreposição de marcadores. Preferi separar os marcadores o suficiente para se conseguirem identificar. Tais condicionantes porém não alteram em nada a análise.

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Informação anexa

De acordo com o sistema de informação dos códigos postais, temos “Rua do Godinho” / “Rua Godinho”, nas seguintes localidades:

1 –Matosinhos; 2 -Maceda, Ovar; 3 - Leça da Palmeira; 4 – Esgueira;

5 - Mosteiró (Vila do Conde); 6 - Castro Daire ; 7 – Valadares (Baião)

8 – Gião (Santa Maria da Feira); 9 – Lage (Vila Verde)

 

Com variantes que claramente se enquadram nesta fonética temos ainda:

10 - Vila Franca de Xira [Beco do Godinho] ; 11 – Queijas (Oeiras) [Travessa Godinho]

12 - Vila Cova (Barcelos) [Travessa de Dom Godinho e Rua de Godinhos]

13 - Maiorca (Figueira da Foz) [Rua Godinhos]

14 - Sobradelo da Goma (Póvoa de Lanhoso) [Caminho dos Godinhos]

15 – Negreiros (Barcelos) [Rua de Gondinho e Travessa de Gondinho]

 

Considerando “Godim” como equivalente, temos ainda:

Rua de Godim nas seguintes terras:

16 - Maia; 17 - Bonfim (Porto); 18 - Campanhã (Porto); 19 - Fregim (Amarante)

Rua do Picoto de Godim:

20 - Jugueiros (Felgueiras)

 

 

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Algumas curiosidades sobre a capela de São Bartolomeu em Aveiro

por Lourenço Proença de Moura, em 10.07.20

A capela de São Bartolomeu é bem menos conhecida do que a capela de São Gonçalinho, referida numa publicação anterior deste blog. Curiosamente encontra-se relativamente perto da sua “irmã”, a poucas centenas de metros. Mas vários aspetos contribuem para esta sua reduzida visibilidade, quer de quem mora em Aveiro, quer de quem a visita. Está num local algo escondido, fora dos circuitos turísticos mais comuns, raramente é aberta ao público e atualmente não tem nenhuma confraria que dinamize a devoção do seu atual padroeiro.

E contudo… não lhe faltam história e características que justificam ser melhor conhecida e mais visitada.

Img_8676.jpg

Esta capela situa-se no bairro da Beira-Mar em Aveiro, na rua com o nome do mesmo santo, junto ao quartel dos Bombeiros Novos. Fica precisamente no ponto em que é feita a confluência com a Rua Manuel Luiz Nogueira.

Existem muitas descrições desta capela na internet e também em livros. Não me vou alongar na sua descrição. Salientarei apenas que, como é visível na imagem, é de planta circular, bastante singela, de dimensão reduzida. O seu interior é completamente coberto a azulejo. Na opinião do Dr. Amaro Neves (1), os azulejos do altar são de estilo hispano-árabe, possivelmente do tempo da fundação, ou seja de meados do século XVI, enquanto o revestimento do seu interior é feito com azulejos do século XVII, provenientes de uma obra posterior. Em Aveiro poderem-se apreciar azulejos com esta antiguidade é uma oportunidade única segundo este historiador.

Tem a particularidade de sabermos exatamente o nome de quem a mandou fazer, André Dias Caldeira, e em que data, 1568, informação que está bem visível na pedra do friso da porta de entrada.

Img_8680.jpg

Refere o texto: Esta caza mandou fazer Andre Dyas Caldeira Ano 1568

Vivia o reino de Portugal um período de grande desenvolvimento e poder económico, sendo rei D. Sebastião, na altura com 14 anos, longe de imaginar que passados outros 14 anos tudo se esfumaria em Alcácer Quibir…

Se bem que eu, pessoalmente, não seja estudioso de história, penso que até ao momento em que fiz esta pesquisa há cerca de quatro anos, não eram conhecidos dados concretos sobre André Dias Caldeira. Existia uma presunção de que pudesse ser um André Dias, referido como arcipreste, ou seja um clérigo, numa descrição de um assento de batismo datado de 2 de Setembro de 1571.

Como a seguir irei mostrar, esta suposição não será correta.

Ao consultar por mera curiosidade geral alguns livros paroquiais antigos que o Arquivo Distrital de Aveiro disponibiliza na internet, no livro mais antigo disponível relativamente à paróquia de Vera Cruz, fiquei surpreendido ao ler nas folhas relativas a óbitos, a seguinte referência, cuja imagem aqui apresento.

obito_andre_dias_caldeira.jpg

Adaptando as palavras ao português atual teremos algo como:

Aos 4 do mesmo mês (Fevereiro de 1574 – referido no registo de óbito anterior) faleceu André Dias Caldeira está sepultado na capela de Nossa Senhora da Esperança que ele mesmo fez e fez testamento Sua mulher e sua sogra são herdeiras e testamenteiras. Segue-se a assinatura do pároco.

Temos pois dois aspetos curiosos neste assento:

- Era casado; não seria clérigo em princípio …

-A invocação inicial da capela não era de São Bartolomeu, mas Nossa Senhora da Esperança; tanto quanto sei esta informação era também desconhecida.

Após estas duas surpresas, procurei averiguar se haveria outros registos relativos a André Dias e se bem que não trouxessem muita mais informação, de facto aqui partilho mais algumas “descobertas”:

- Na folha 51, correspondente a casamentos, ano de 1572, André Dias Caldeira surge como testemunha de casamento. Infelizmente sem outra informação.

- A 4 de Julho de 1574, é batizada uma filha sua, Maria. A imagem seguinte apresenta esse registo. É curiosa a forma como foi redigido “filha que foi de…”. Repare o leitor que a filha nasce cerca de 5 meses após a sua morte. E ficamos a saber o nome da esposa, Cecília de Mariz (2).

1574_Maria_filha_de_Andre_Dias_Caldeira_Vera_Cruz.

 

- Na folha 63, relativa a casamentos, ano de 1579, surge uma curiosa referência a uma testemunha, citada como “criada da mulher que foi de André Dias Caldeira”. Saliente-se que o ter sido criada é relevado como sendo uma referência, de onde se presume a importância da família.

No que respeita a registos paroquiais, foi tudo quanto encontrei.

Acrescentaria agora alguns breves comentários à questão da invocação da capela. Presumo que não seja possível saber quando a invocação passou para a atual.

Na descrição que o Dr. António Christo faz desta capela num artigo que foi originalmente publicado possivelmente na década de 1950 (António Christo faleceu em 1963), e republicado em 1989 num simples mas muito interessante livro com o título Capelas de Aveiro, é referido que teria três imagens: Uma Senhora do Ó, São Bartolomeu e São João Batista.

O que podemos observar atualmente e que se mostra na imagem, é coerente com a descrição do Dr. António Christo.

IMG_8686_2.jpg

Na verdade, a Senhora está grávida nesta representação. Confirmou-me o Dr. Amaro Neves que de facto a imagem corresponde a essa invocação e que será da época da construção. Explicou-me também que essa imagem tem sinais de que o seu ventre terá em tempos idos sido alvo de algum desbaste, para que a gravidez não fosse demasiado evidente...

Contingências de outros tempos e outras mentalidades…

A imagem da Virgem grávida tem várias denominações, como por exemplo Senhora do Ó, Senhora da Expectação, mas também Senhora da Esperança. Ora é com esta última denominação que surge no registo de óbito de André Dias Caldeira. Sendo esta imagem dessa época, com muito forte probabilidade terá sido a imagem original a quem a capela foi dedicada. Não será fruto do acaso que possua melhor qualidade que as restantes e que ainda hoje ocupe a parte central do altar.

A razão da mudança de invocação, será quase impossível de saber. A forte tradição de devoção a São Bartolomeu por parte das gentes do mar, é uma causa provável.

Mas sobre isso penso que será curioso partilhar convosco mais alguns pormenores, numa próxima publicação, ainda dedicada a esta capela.

Por último, deixo ao leitor uma imagem do interior, em que se percebe melhor o ambiente que sente o visitante. Poderá ser apenas uma perceção pessoal, mas diria que transmite uma intensa experiência de recolhimento, como se estivéssemos no ventre de uma mãe espiritual.

Img_8686.jpg

Nota 1 - Amaro Neves - Aveiro História e Arte (1984); Amaro Neves - Azulejaria antiga em Aveiro (1985)

Nota 2 - Quando publiquei o artigo não consegui identificar o nome da esposa; Num artigo publicado mais tarde também no Diário de Aveiro por Francisco Messias Trindade Ferreira, essa leitura foi apresentada.

 

Este artigo com ligeiras adaptações foi publicado inicialmente no Diário de Aveiro – edição de 27 de Julho de 2016

Se quiser procurar na internet num sistema de coordenadas, esta capela situa-se no seguinte local:

40.643568, -8.652482

 

 

 

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Tempos sobrepostos - Metáfora da memória

por Lourenço Proença de Moura, em 03.07.20

teste1.jpg

 

Quando estivemos a preparar a publicação anterior, foi necessário fazer um processamento gráfico que resultou na imagem inicial.

Nessa fase, o meu filho João mostrou-me uma composição que fez, que achei muito interessante e que aqui partilho.

Nela, os personagens, o tempo e o espaço, a cor e as sombras interpenetram-se.

Como se nos visitassem e às nossas memórias…

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4 de Julho de 1808 - o dia em que “o maneta” passou por Caria

por Lourenço Proença de Moura, em 27.06.20

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Três notas prévias:

- Caria, no concelho de Belmonte, é a minha terra natal, onde mantenho fortes laços.

- Neste caso o leitor poderá confirmar que a cacafonia do título desta publicação se enquadra bem no que se passou.

- A imagem inicial situa-se no ponto mais alto, no largo em frente da denominada Casa da Torre. É o resultado de uma composição feita a partir de duas imagens desse local, uma antiga e outra atual, a que se acrescentaram imagens de elementos do exército francês recolhidas da internet.

 

Contextualizemos um pouco este relato de forma muito simplificada…

Na sequência de uma forte conflituosidade com a Inglaterra, Napoleão ordenou o denominado “Bloqueio continental”, que pretendia isolar e debilitar economicamente o reino inimigo. Devido à nossa bem antiga aliança formalizada em 1386 pelo Tratado de Windsor, recusámos. Perante esta atitude, a 18 de Outubro de 1807 o general Junot ao comando de aproximadamente 25.000 homens, atravessou a fronteira com Espanha e deu início à sua caminhada para a invasão de Portugal, com o apoio do reino espanhol.

A 30 de Novembro chegou a Lisboa, com o exército completamente destroçado pelo cansaço, mas na verdade não teve praticamente nenhuma oposição. Encontrou aliás o reino vazio de poder, pois a família real tinha partido poucos dias antes para o Brasil. Conta-se que ainda viu ao longe os barcos a desaparecer no horizonte…

Junot assentou o seu quartel-general em Lisboa e daí dirigiu todo o processo de ocupação e governação, assegurando que quaisquer veleidades que pudessem surgir para lhe fazer oposição, seriam rapidamente eliminadas.

Mas à medida que o tempo passava, as rebeliões iam-se sucedendo cada vez em maior número um pouco por todo o país, muito promovidas por algumas forças inglesas que procuravam organizar os poucos recursos de combate que possuíamos.

O que a seguir vou descrever tem como base um livro escrito pelo barão Thiébault, lugar-tenente de Junot, que o publicou alguns anos depois, em que relata, em género de diário, as várias vicissitudes por que passaram.

No final de Maio e início de Junho de 1808 os generais das tropas francesas Kellerman e Maransin enfrentaram fortes rebeliões no Alentejo. O general Loison pelo seu lado encaminha-se para o norte e a 5 de Junho está em Almeida. Depois dirige-se para o Porto, passando pela Régua. Nessa altura é informado que os portugueses e ingleses conseguiram reunir uma grande força de combate e desiste de ocupar o Porto, ficando em Lamego. No dia 23 está em Castro Daire. A 28 está em Celorico, 30 em Pinhel, 1 de Julho em Almeida, onde trava forte combate. No dia 4 dirige-se para a Guarda, com quatro batalhões, cada um de 850 homens e ainda 50 dragões, ou seja unidades de cavalaria.

Neste ponto vou tentar descrever mais em detalhe o relato como Thiébault o descreve, possivelmente com algum exagero, mas não deixa de ser impressionante…

Ao aproximar-se da Guarda, Loison esperava ser recebido como amigo, pois muitos portugueses tinham-no contactado e assegurado disso.Qual não foi a sua indignação quando dois oficiais que o precediam foram atacados. Avançou então para o combate, vendo que o inimigo estava disposto em duas linhas, com o centro bem defendido por duas peças de canhão. Ordenou o ataque sobre o centro. As tropas marcharam à sua ordem com sangue frio. Os atiradores dos insurgentes tentaram resistir mas são repelidos com enormes perdas. A artilharia portuguesa foi tomada, a vitória foi completa. O massacre foi terrível. O terror foi geral. Mais de mil mortos cobrem a terra e passando pelos destroços destes desgraçados o general Loison entrou em passo de carga na cidade da Guarda…

Ainda no dia 4 segue para sul e pernoita em Caria.

No dia 5 está na Atalaia, aldeia que se encontrava quase deserta…

Ficamos pois a saber que no final do dia 4 de Julho de 1808, descansou na então pequena aldeia de Caria um exército fortemente armado, de homens sem pruridos em tomar como seu tudo o que lhes aprouvesse, fossem alimentos, bens materiais, mulheres, ou mesmo a vida de quem se lhes opusesse, ou simplesmente tivesse azar em com eles se cruzar na altura errada… E suprema ignomínia para os portugueses de então, os jacobinos não tinham o mínimo respeito pela santa madre igreja!

Podemos imaginar o terror que se viveu nesses dias 4 e 5 e nos que os antecederam. Decerto havia desde há vários dias relatos de que os franceses andavam por perto… Decerto que os relatos eram contraditórios naquele tempo de frágeis formas de comunicar.

Quando se confirmou que estariam mesmo muito perto, um mais corajoso deve ter subido à torre sineira e tocado a rebate, mas não se demorando nessa missão pois não queria fazer sombra aos mártires da Igreja!...

O pânico apoderou-se das gentes. O padre pôs a salvo as melhores alfaias litúrgicas e os livros de registos paroquiais. Os maiores proprietários resguardaram os seus melhores bens e gado, deixando alguns propositadamente para apaziguar a avidez dos invasores. Os mais pobres queriam apenas sobreviver e encontrar refúgio em algum sítio mais recôndito fora da aldeia.

Na verdade, no relato do livro, nada de particular é descrito que se tenha ali passado.

Porém algumas marcas deixaram…

Soldado_gravado_ombreira_porta.jpg

Na ombreira de uma porta de uma casa que se encontra em frente da denominada Casa da Torre, no largo que se situa no ponto mais alto e que foi seguramente um espaço central do acampamento, podemos ver duas figuras picotadas na pedra que têm claramente o perfil do soldado francês. Podemos ainda ver a data 1808 (não surge nesta imagem) para quem tivesse dúvidas…

Numa das fontes de água mais próximas, que se situa a uns 200 metros, denominada Fonte do Carvalho, que na altura ainda poucos anos tinham passado desde que fora renovada e ostentava um brasão real português, vemos que esse brasão foi picado, ato que era feito com frequência, como clássica forma de agrBrasao_Fonte_do_Carvalho_Minha_foto.jpgessão aos símbolos “do inimigo”.

Fonte_do_Carvalho.jpg

Mas a marca mais comovente é a meu ver a que se encontra no livro de óbitos.

Refere então o livro relativamente a este dia…

Obito_Manuel_Joaquim_20200704_obito_Invasoes_Franc

No dia quatro de Julho de mil oitocentos e oito anos, faleceu Manuel Joaquim Grencho(?) do lugar de Peroviseu por causa de um tiro que lhe atirou um Francês, casado que era com Maria Aleixa, tendo de idade quarenta e dois anos, pouco mais ou menos, não recebeu sacramento algum nem fez testamento, e foi sepultado no Adro da Igreja desta freguesia de Caria no dia cinco do dito mês, de que fiz este termo que assino… O Cura José da Costa Carreira

Um homem seguramente simples, vindo de longe (Pêro Viseu fica a cerca de 20 Km a sul), decerto para ganhar o seu fraco sustento, perdeu a vida por qualquer motivo fútil.

Um “pequeno” drama, insignificante à luz da história e de todas os espantosos progressos e tremendas tragédias de que a natureza humana tem sido capaz…

Mas a natureza, que não a da restrita vertente humana, tem uma quase infinita capacidade de regeneração…

Na pequena aldeia de Caria, poucos dias depois, a 10 de Julho, nasce Maria, filha de António Esteves Moucho e Ana de Almeida… e decerto que com ela o ânimo das gentes foi reganhando confiança no futuro.

Por feliz coincidência, o avô paterno de Maria era natural de…

...Pêro Viseu…

Maria_nasceu_28080710_logo_apos_passagem_franceses

Contudo, chegado a este ponto já final do relato, pode o leitor perguntar: Mas então, a que se referia “o maneta”, do título?

Sucede que o general Loison (Louis Henri) não possuía braço esquerdo. Porém o que o tornou mais conhecido em Portugal era a sua frieza e desprezo pelo valor da vida humana. Se capturasse alguém que de alguma forma lhe tivesse feito frente, a morte era certa, muito possivelmente depois de sofrer bastante às suas ordens. Daí surgiu a frase que hoje usamos de forma informal “ir para o maneta”.

Loison_novo.jpgLoison_busto_meia_idade.jpg

(Imagens do general Loison recolhidas da internet)

 

Se tiver curiosidade em ler a parte citada escrita pelo barão Thiébault, pode consultá-la aqui.

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AGRADECIMENTOS

Aos Amigos Mário Tomás e Luís Ribeiro, respetivamente pela disponibilização da fotografia antiga de Caria e pela recolha em tempo record de uma fotografia atual tirada na mesma perspetiva, mas com maior ângulo de visão para poder compor a imagem que ilustra esta publicação;

Ao meu filho João pela ajuda no processamento das imagens.

 

 

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Sao_Goncalinho_adro_pequena.jpg

A capela de São Gonçalo é seguramente dos edifícios religiosos mais visitados de Aveiro, mesmo que apenas no seu exterior. Localizada na zona denominada “da beira-mar”, torna-se um local de passagem quase obrigatório para quem visite a cidade, se dispuser de pelo menos um par de horas para calcorrear a pé estes espaços bem perto do Rossio, um dos pontos centrais dos itinerários turísticos.

Se bem que seja uma construção graciosa, não é pela sua beleza, nem imponência ou especial riqueza que ela é conhecida, mas sobretudo pela forte ligação popular ao “santo casamenteiro”, que se tornou patrono das gentes da beira-mar e em devoção do qual se realizam desde há muito cerimónias e festas com grande participação do povo.

Para quem como eu mora por perto, possivelmente perderá a conta ao número de vezes que por ali se passeia e saboreia o espaço, naquele adro singelo circundado pelo casario típico.

Foi num destes passeios que já há alguns anos reparei num memorial em pedra, encrustado na parede que fica por trás da capela, a uma altura de cerca de três metros e que se reproduz na imagem seguinte.

Sob uma cruz também gravada na pedra pode ler-se a seguinte legenda:

DELLA ALMA DO HOMEN QUE FAZENDOSSE ESTA OBRA MORREO NELLA – Pter Nter Ae Ma (1) – 1712

Capela_sao_goncalo_traseiras.jpg

É curioso este memorial. Penso não ser comum homenagear-se assim a memória de alguém, em princípio alguém do povo. O que terá justificado tal opção? Diria que, ou a pessoa em causa era importante para a obra, ou o evento que terá levado à morte teve grande impacto na então vila de Aveiro.

Lembrei-me entretanto que talvez fosse possível saber um pouco mais sobre a pessoa que faleceu. Naquela época quase todos os enterramentos eram feitos no local da morte, pois não era possível transportar os cadáveres em pouco tempo para outras localidades.

Fiz então uma pesquisa nos livros paroquiais daquela época. E para minha surpresa, no livro de óbitos da paróquia da Senhora da Apresentação que cobre o referido ano de 1712, encontrei o que procurava. Curiosamente é um registo escrito numa caligrafia bonita e facilmente legível. A imagem seguinte mostra-o. O que nele consta, com ligeiras adaptações à nossa linguagem atual é o seguinte:

Obito_Manuel_Simoens.jpg

Aos treze dias do mês de Abril de mil setecentos e doze anos faleceu de um desastre nas obras de S. Gonçalo um homem a quem me disseram se chamava Manuel Simões viúvo, que era da Taipa ou junto a ela. Não recebeu mais que o sacramento debaixo de condição (1) por morrer muito apressadamente. Foi sepultado nesta igreja de Nossa Senhora da Apresentação e para constar se fez este termo que o Reverendo Vigário assinou era ut supra (2).

Percebe-se desta descrição que a pessoa falecida não teria um papel social especial nem na construção propriamente dita. Mas por outro lado o termo “desastre” indicia que terá ocorrido um problema muito relevante na obra, possivelmente um desmoronamento de boa parte da construção, o qual causou a referida morte.

A pesquisa estaria concluída, mas ao reler a transcrição, reparei que poderia saber um pouco mais desta pessoa. Na verdade, referia ser viúvo e que moraria na Taipa ou perto da Taipa, localidade da paróquia de Requeixo, perto de Aveiro. Será que se conseguiria encontrar o óbito da esposa? Com um pouco mais de pesquisa encontrei-o e mostro-o na imagem seguinte.

Obito_Maria_Joao.jpg

Refere então: Em os 21 dias do mês de Dezembro de 1703 faleceu da vida presente Maria João mulher de Manuel Simões da Taipa. Seu corpo foi sepultado no adro desta igreja de S. Paio de Requeixo e por ser verdade fiz este assento em que me assinei dia mês e ano ut supra.

Ou seja, o “nosso” Manuel Simões esteve viúvo mais de oito anos tendo o trágico fim que já conhecemos.

Depois deste passo na pesquisa outros se poderiam seguir, como seja saber em que ano teriam casado e se teriam tido filhos. Porém nada descobri nos registos de Requeixo. Nem casamento nem filhos. Poderei não ter visto bem, mas outra hipótese é terem casado noutra paróquia, passando depois a morar na Taipa.

Note-se que a frontaria da capela ostenta a data 1714, que corresponderá à data de conclusão da obra.

E foi tudo o que consegui averiguar… Retirando por instantes da poeira do tempo o nome de pessoas simples que ajudaram a construir este espaço em que vivemos…

1 - Pter Nter Ae Ma – Abreviaturas de Pater Noster Ave Maria, ou seja Pai Nosso Ave Maria

2 – Debaixo de condição – Frase que significava que não fora possível seguir os preceitos previstos: confissão, comunhão, sagrado viático, extrema-unção

3 - Era ut supra – Data acima assinalada

 

Este artigo foi publicado no Diário de Aveiro - edição de 22 de Dezembro de 2019, tendo esta versão do blog algumas ligeiras adaptações.

 

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