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4 de Julho de 1808 - o dia em que “o maneta” passou por Caria

por Lourenço Proença de Moura, em 27.06.20

Versao_final_psp.jpg

Três notas prévias:

- Caria, no concelho de Belmonte, é a minha terra natal, onde mantenho fortes laços.

- Neste caso o leitor poderá confirmar que a cacafonia do título desta publicação se enquadra bem no que se passou.

- A imagem inicial situa-se no ponto mais alto, no largo em frente da denominada Casa da Torre. É o resultado de uma composição feita a partir de duas imagens desse local, uma antiga e outra atual, a que se acrescentaram imagens de elementos do exército francês recolhidas da internet.

 

Contextualizemos um pouco este relato de forma muito simplificada…

Na sequência de uma forte conflituosidade com a Inglaterra, Napoleão ordenou o denominado “Bloqueio continental”, que pretendia isolar e debilitar economicamente o reino inimigo. Devido à nossa bem antiga aliança formalizada em 1386 pelo Tratado de Windsor, recusámos. Perante esta atitude, a 18 de Outubro de 1807 o general Junot ao comando de aproximadamente 25.000 homens, atravessou a fronteira com Espanha e deu início à sua caminhada para a invasão de Portugal, com o apoio do reino espanhol.

A 30 de Novembro chegou a Lisboa, com o exército completamente destroçado pelo cansaço, mas na verdade não teve praticamente nenhuma oposição. Encontrou aliás o reino vazio de poder, pois a família real tinha partido poucos dias antes para o Brasil. Conta-se que ainda viu ao longe os barcos a desaparecer no horizonte…

Junot assentou o seu quartel-general em Lisboa e daí dirigiu todo o processo de ocupação e governação, assegurando que quaisquer veleidades que pudessem surgir para lhe fazer oposição, seriam rapidamente eliminadas.

Mas à medida que o tempo passava, as rebeliões iam-se sucedendo cada vez em maior número um pouco por todo o país, muito promovidas por algumas forças inglesas que procuravam organizar os poucos recursos de combate que possuíamos.

O que a seguir vou descrever tem como base um livro escrito pelo barão Thiébault, lugar-tenente de Junot, que o publicou alguns anos depois, em que relata, em género de diário, as várias vicissitudes por que passaram.

No final de Maio e início de Junho de 1808 os generais das tropas francesas Kellerman e Maransin enfrentaram fortes rebeliões no Alentejo. O general Loison pelo seu lado encaminha-se para o norte e a 5 de Junho está em Almeida. Depois dirige-se para o Porto, passando pela Régua. Nessa altura é informado que os portugueses e ingleses conseguiram reunir uma grande força de combate e desiste de ocupar o Porto, ficando em Lamego. No dia 23 está em Castro Daire. A 28 está em Celorico, 30 em Pinhel, 1 de Julho em Almeida, onde trava forte combate. No dia 4 dirige-se para a Guarda, com quatro batalhões, cada um de 850 homens e ainda 50 dragões, ou seja unidades de cavalaria.

Neste ponto vou tentar descrever mais em detalhe o relato como Thiébault o descreve, possivelmente com algum exagero, mas não deixa de ser impressionante…

Ao aproximar-se da Guarda, Loison esperava ser recebido como amigo, pois muitos portugueses tinham-no contactado e assegurado disso.Qual não foi a sua indignação quando dois oficiais que o precediam foram atacados. Avançou então para o combate, vendo que o inimigo estava disposto em duas linhas, com o centro bem defendido por duas peças de canhão. Ordenou o ataque sobre o centro. As tropas marcharam à sua ordem com sangue frio. Os atiradores dos insurgentes tentaram resistir mas são repelidos com enormes perdas. A artilharia portuguesa foi tomada, a vitória foi completa. O massacre foi terrível. O terror foi geral. Mais de mil mortos cobrem a terra e passando pelos destroços destes desgraçados o general Loison entrou em passo de carga na cidade da Guarda…

Ainda no dia 4 segue para sul e pernoita em Caria.

No dia 5 está na Atalaia, aldeia que se encontrava quase deserta…

Ficamos pois a saber que no final do dia 4 de Julho de 1808, descansou na então pequena aldeia de Caria um exército fortemente armado, de homens sem pruridos em tomar como seu tudo o que lhes aprouvesse, fossem alimentos, bens materiais, mulheres, ou mesmo a vida de quem se lhes opusesse, ou simplesmente tivesse azar em com eles se cruzar na altura errada… E suprema ignomínia para os portugueses de então, os jacobinos não tinham o mínimo respeito pela santa madre igreja!

Podemos imaginar o terror que se viveu nesses dias 4 e 5 e nos que os antecederam. Decerto havia desde há vários dias relatos de que os franceses andavam por perto… Decerto que os relatos eram contraditórios naquele tempo de frágeis formas de comunicar.

Quando se confirmou que estariam mesmo muito perto, um mais corajoso deve ter subido à torre sineira e tocado a rebate, mas não se demorando nessa missão pois não queria fazer sombra aos mártires da Igreja!...

O pânico apoderou-se das gentes. O padre pôs a salvo as melhores alfaias litúrgicas e os livros de registos paroquiais. Os maiores proprietários resguardaram os seus melhores bens e gado, deixando alguns propositadamente para apaziguar a avidez dos invasores. Os mais pobres queriam apenas sobreviver e encontrar refúgio em algum sítio mais recôndito fora da aldeia.

Na verdade, no relato do livro, nada de particular é descrito que se tenha ali passado.

Porém algumas marcas deixaram…

Soldado_gravado_ombreira_porta.jpg

Na ombreira de uma porta de uma casa que se encontra em frente da denominada Casa da Torre, no largo que se situa no ponto mais alto e que foi seguramente um espaço central do acampamento, podemos ver duas figuras picotadas na pedra que têm claramente o perfil do soldado francês. Podemos ainda ver a data 1808 (não surge nesta imagem) para quem tivesse dúvidas…

Numa das fontes de água mais próximas, que se situa a uns 200 metros, denominada Fonte do Carvalho, que na altura ainda poucos anos tinham passado desde que fora renovada e ostentava um brasão real português, vemos que esse brasão foi picado, ato que era feito com frequência, como clássica forma de agrBrasao_Fonte_do_Carvalho_Minha_foto.jpgessão aos símbolos “do inimigo”.

Fonte_do_Carvalho.jpg

Mas a marca mais comovente é a meu ver a que se encontra no livro de óbitos.

Refere então o livro relativamente a este dia…

Obito_Manuel_Joaquim_20200704_obito_Invasoes_Franc

No dia quatro de Julho de mil oitocentos e oito anos, faleceu Manuel Joaquim Grencho(?) do lugar de Peroviseu por causa de um tiro que lhe atirou um Francês, casado que era com Maria Aleixa, tendo de idade quarenta e dois anos, pouco mais ou menos, não recebeu sacramento algum nem fez testamento, e foi sepultado no Adro da Igreja desta freguesia de Caria no dia cinco do dito mês, de que fiz este termo que assino… O Cura José da Costa Carreira

Um homem seguramente simples, vindo de longe (Pêro Viseu fica a cerca de 20 Km a sul), decerto para ganhar o seu fraco sustento, perdeu a vida por qualquer motivo fútil.

Um “pequeno” drama, insignificante à luz da história e de todas os espantosos progressos e tremendas tragédias de que a natureza humana tem sido capaz…

Mas a natureza, que não a da restrita vertente humana, tem uma quase infinita capacidade de regeneração…

Na pequena aldeia de Caria, poucos dias depois, a 10 de Julho, nasce Maria, filha de António Esteves Moucho e Ana de Almeida… e decerto que com ela o ânimo das gentes foi reganhando confiança no futuro.

Por feliz coincidência, o avô paterno de Maria era natural de…

...Pêro Viseu…

Maria_nasceu_28080710_logo_apos_passagem_franceses

Contudo, chegado a este ponto já final do relato, pode o leitor perguntar: Mas então, a que se referia “o maneta”, do título?

Sucede que o general Loison (Louis Henri) não possuía braço esquerdo. Porém o que o tornou mais conhecido em Portugal era a sua frieza e desprezo pelo valor da vida humana. Se capturasse alguém que de alguma forma lhe tivesse feito frente, a morte era certa, muito possivelmente depois de sofrer bastante às suas ordens. Daí surgiu a frase que hoje usamos de forma informal “ir para o maneta”.

Loison_novo.jpgLoison_busto_meia_idade.jpg

(Imagens do general Loison recolhidas da internet)

 

Se tiver curiosidade em ler a parte citada escrita pelo barão Thiébault, pode consultá-la aqui.

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AGRADECIMENTOS

Aos Amigos Mário Tomás e Luís Ribeiro, respetivamente pela disponibilização da fotografia antiga de Caria e pela recolha em tempo record de uma fotografia atual tirada na mesma perspetiva, mas com maior ângulo de visão para poder compor a imagem que ilustra esta publicação;

Ao meu filho João pela ajuda no processamento das imagens.

 

 

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