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O trilho do bezerro... (Sam Walter Foss -1858-1911)

por Lourenço Proença de Moura, em 05.06.20

Bezerro.jpg

O título original deste poema é "The calf-path", o seu autor foi Walter Foss (1858 - 1911). É uma parábola sobre a natureza humana no que respeita a criar hábitos e não questionar a razão das coisas.

Acho o poema muito interessante e tentei fazer uma transposição para português. Não é uma tradução perfeita, se bem que tenha procurado manter o sentido geral.

Privilegiei a rima e a musicalidade da nossa língua.

 

The Calf-Path

 

One day, through the primeval wood,

A calf walked home, as good calves should;

But made a trail all bent askew,

A crooked trail, as all calves do.

 

Since then three hundred years have fled,

And, I infer, the calf is dead.

But still he left behind his trail,

And thereby hangs my moral tale.

 

The trail was taken up next day

By a lone dog that passed that way;

And then a wise bellwether sheep

Pursued the trail o’er vale and steep,

 

And drew the flock behind him, too,

As good bellwethers always do.

And from that day, o’er hill and glade,

Through those old woods a path was made,

 

And many men wound in and out,

And dodged and turned and bent about,

And uttered words of righteous wrath

Because ’twas such a crooked path;

 

But still they followed — do not laugh —

The first migrations of that calf,

And through this winding wood-way stalked

Because he wobbled when he walked.

 

This forest path became a lane,

That bent, and turned, and turned again.

This crooked lane became a road,

Where many a poor horse with his load

 

Toiled on beneath the burning sun,

And traveled some three miles in one.

And thus a century and a half

They trod the footsteps of that calf.

 

The years passed on in swiftness fleet.

The road became a village street,

And this, before men were aware,

A city’s crowded thoroughfare,

 

And soon the central street was this

Of a renowned metropolis;

And men two centuries and a half

Trod in the footsteps of that calf.

 

Each day a hundred thousand rout

Followed that zigzag calf about,

And o’er his crooked journey went

The traffic of a continent.

 

A hundred thousand men were led

By one calf near three centuries dead.

They follow still his crooked way,

And lose one hundred years a day,

 

For thus such reverence is lent

To well-established precedent.

A moral lesson this might teach

Were I ordained and called to preach;

 

For men are prone to go it blind

Along the calf-paths of the mind,

And work away from sun to sun

To do what other men have done.

 

They follow in the beaten track,

And out and in, and forth and back,

And still their devious course pursue,

To keep the path that others do.

 

They keep the path a sacred groove,

Along which all their lives they move;

But how the wise old wood-gods laugh,

Who saw the first primeval calf!

 

Ah, many things this tale might teach —

But I am not ordained to preach.

O trilho do Bezerro

 

Um dia, através do bosque cerrado

Um bezerro ao curral voltava apressado;

Seguindo ao acaso por instinto,

Criando pelo mato um labirinto

 

Desde então, 300 anos decorridos,

Presumo que o bezerro tenha morrido.

Mas deixou o seu trilho afinal,

E com ele a base do meu conto moral.

 

O trilho no dia a seguir foi usado

Por um cão perdido escanzelado;

Então um manso carneiro em viagem

Por lá seguiu para a pastagem,

 

O rebanho seguiu-o em procissão,

Como grandes líderes fazem à multidão.

A partir de então nesses montes de estevas

No velho bosque surgiu uma vereda,

 

E muitos homens já a calcorreavam

Mas com muito esforço quando passavam

E praguejavam em voz furiosa

Por a vereda ser tão tortuosa;

 

Mas ainda assim lá seguiam – que sarilho!

Daquele bezerro o primeiro trilho

Que no bosque fez quando lá passava

Porque ao caminhar ziguezagueava

 

E esta vereda tornou-se um caminho

Com curva após curva em desalinho

O torto caminho tornou-se estrada,

Em que pobres cavalos levavam carga

 

Sob o sol escaldante andavam sem jeito,

Três léguas para fazer uma a direito

E assim, século e meio, se não erro

Trilharam os passos daquele bezerro.

 

Os anos passaram como no vento a areia.

A estrada tornou-se em rua de aldeia,

E sem que alguém notasse a novidade,

Foi rua agitada de uma cidade,

 

E logo se tornou a rua central

De uma bem conhecida capital

E as gentes dois séculos e meio passando

O trilho de um bezerro seguiam pisando.

 

Cada dia cem mil almas – Deus as guarde!

Vão como o bezerro em ziguezague

E no torto percurso segue essa gente

O tráfego de quase um continente.

 

Cem mil homens por percurso torto

De um bezerro, há séculos morto

Seguem ainda a tortuosa via,

E perdem quase cem anos por dia,

 

Pois toda a reverência é prestada

Quando a tradição está bem instalada.

Uma lição este conto vem ensinar

Se me permitem que vo-lo possa pregar;

 

Os homens por vezes seguem cegos em frente

por caminhos do bezerro da nossa mente,

Trabalham de sol a sol todos os dias

Fazendo o mesmo que outros faziam.

 

Seguem o percurso que sempre se fez,

Por fora por dentro, para a frente e para trás,

Esse curso tortuoso prosseguem,

Para manter o que os outros repetem.


Mantêm o caminho como via sagrada,

Ao longo do qual toda a vida é formada;

Mas ouçam os deuses do bosque gozar,

Pois viram o primeiro bezerro passar!

 

Ah, muito este conto poderia ensinar -

Mas ninguém mo pediu para pregar.

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