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Sao_Goncalinho_adro_pequena.jpg

A capela de São Gonçalo é seguramente dos edifícios religiosos mais visitados de Aveiro, mesmo que apenas no seu exterior. Localizada na zona denominada “da beira-mar”, torna-se um local de passagem quase obrigatório para quem visite a cidade, se dispuser de pelo menos um par de horas para calcorrear a pé estes espaços bem perto do Rossio, um dos pontos centrais dos itinerários turísticos.

Se bem que seja uma construção graciosa, não é pela sua beleza, nem imponência ou especial riqueza que ela é conhecida, mas sobretudo pela forte ligação popular ao “santo casamenteiro”, que se tornou patrono das gentes da beira-mar e em devoção do qual se realizam desde há muito cerimónias e festas com grande participação do povo.

Para quem como eu mora por perto, possivelmente perderá a conta ao número de vezes que por ali se passeia e saboreia o espaço, naquele adro singelo circundado pelo casario típico.

Foi num destes passeios que já há alguns anos reparei num memorial em pedra, encrustado na parede que fica por trás da capela, a uma altura de cerca de três metros e que se reproduz na imagem seguinte.

Sob uma cruz também gravada na pedra pode ler-se a seguinte legenda:

DELLA ALMA DO HOMEN QUE FAZENDOSSE ESTA OBRA MORREO NELLA – Pter Nter Ae Ma (1) – 1712

Capela_sao_goncalo_traseiras.jpg

É curioso este memorial. Penso não ser comum homenagear-se assim a memória de alguém, em princípio alguém do povo. O que terá justificado tal opção? Diria que, ou a pessoa em causa era importante para a obra, ou o evento que terá levado à morte teve grande impacto na então vila de Aveiro.

Lembrei-me entretanto que talvez fosse possível saber um pouco mais sobre a pessoa que faleceu. Naquela época quase todos os enterramentos eram feitos no local da morte, pois não era possível transportar os cadáveres em pouco tempo para outras localidades.

Fiz então uma pesquisa nos livros paroquiais daquela época. E para minha surpresa, no livro de óbitos da paróquia da Senhora da Apresentação que cobre o referido ano de 1712, encontrei o que procurava. Curiosamente é um registo escrito numa caligrafia bonita e facilmente legível. A imagem seguinte mostra-o. O que nele consta, com ligeiras adaptações à nossa linguagem atual é o seguinte:

Obito_Manuel_Simoens.jpg

Aos treze dias do mês de Abril de mil setecentos e doze anos faleceu de um desastre nas obras de S. Gonçalo um homem a quem me disseram se chamava Manuel Simões viúvo, que era da Taipa ou junto a ela. Não recebeu mais que o sacramento debaixo de condição (1) por morrer muito apressadamente. Foi sepultado nesta igreja de Nossa Senhora da Apresentação e para constar se fez este termo que o Reverendo Vigário assinou era ut supra (2).

Percebe-se desta descrição que a pessoa falecida não teria um papel social especial nem na construção propriamente dita. Mas por outro lado o termo “desastre” indicia que terá ocorrido um problema muito relevante na obra, possivelmente um desmoronamento de boa parte da construção, o qual causou a referida morte.

A pesquisa estaria concluída, mas ao reler a transcrição, reparei que poderia saber um pouco mais desta pessoa. Na verdade, referia ser viúvo e que moraria na Taipa ou perto da Taipa, localidade da paróquia de Requeixo, perto de Aveiro. Será que se conseguiria encontrar o óbito da esposa? Com um pouco mais de pesquisa encontrei-o e mostro-o na imagem seguinte.

Obito_Maria_Joao.jpg

Refere então: Em os 21 dias do mês de Dezembro de 1703 faleceu da vida presente Maria João mulher de Manuel Simões da Taipa. Seu corpo foi sepultado no adro desta igreja de S. Paio de Requeixo e por ser verdade fiz este assento em que me assinei dia mês e ano ut supra.

Ou seja, o “nosso” Manuel Simões esteve viúvo mais de oito anos tendo o trágico fim que já conhecemos.

Depois deste passo na pesquisa outros se poderiam seguir, como seja saber em que ano teriam casado e se teriam tido filhos. Porém nada descobri nos registos de Requeixo. Nem casamento nem filhos. Poderei não ter visto bem, mas outra hipótese é terem casado noutra paróquia, passando depois a morar na Taipa.

Note-se que a frontaria da capela ostenta a data 1714, que corresponderá à data de conclusão da obra.

E foi tudo o que consegui averiguar… Retirando por instantes da poeira do tempo o nome de pessoas simples que ajudaram a construir este espaço em que vivemos…

1 - Pter Nter Ae Ma – Abreviaturas de Pater Noster Ave Maria, ou seja Pai Nosso Ave Maria

2 – Debaixo de condição – Frase que significava que não fora possível seguir os preceitos previstos: confissão, comunhão, sagrado viático, extrema-unção

3 - Era ut supra – Data acima assinalada

 

Este artigo foi publicado no Diário de Aveiro - edição de 22 de Dezembro de 2019, tendo esta versão do blog algumas ligeiras adaptações.

 

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